Lady

domingo, 1 de junho de 2008

Caminhos de ilusão: Capítulo VI


CAPÍTULO VI



Nunca, em cinquenta anos, o solar do senhor Valadares de Almodena vivera uma tão grande azáfama, como nos últimos quinze dias daquele hediondo mês de Maio de 1973.
Apesar dos restos mortais do Arménio terem ficado em França, e se calhar por isso, quem o conheceu sentiu-se na obrigação de ir testemunhar à órfã e à viúva todo o apreço que sentiam por ele, na hora da sesta ou à noitinha, depois do pôr do sol ou do toque das Trindades, sobretudo os vizinhos do Calvário com quem o infortunado convivera antes de emigrar. O Fortunato Galela do Fiolhoso, que, refractário como era, não podia voltar a Portugal, juntara as coisinhas do falecido e entregara-as ao Zé Pinto, o Calhordas e ao Chico Serra, quando estes, no terceiro fim de semana de Maio, lá apareceram a pedido do sogro, o Manuel Feliciano. O Raimundo Faia, talvez mais traumatizado com a explosão, que o fizera ir pelos ares, do que propriamente com a morte do homem que lhe roubara a namorada, voltara para Macôn, mas, deixando transparecer alguns indícios de loucura, fora internado primeiramente no hospital, onde curou os arranhões, e depois, com os sinais de transtorno mental, fora transferido para um centro psiquiátrico. O senhor Paraffini, que sempre simpatizara com o transmontano, como ele lhe chamava carinhosamente, num sotaque franco-italiano, deslocara-se a Paris e, graças a um amigo deputado, conseguira resolver os problemas burocráticos, que sempre causam os atentados terroristas, quando nem sempre se conseguem identificar cientificamente todas as vítimas, e, a pedido da Martine Galela, trouxe o que restava do Arménio na morgue do hospital de la Salpitrière para Valdahom e pediu ao padre que lhe desse uma sepultura cristã ao brioso operário; os colegas de trabalho ainda chegaram a fazer um peditório para o trazerem para a terra natal, mas o patrão acabou por dissuadi-los e o vila-realense lá ficou enterrado em campa rasa no cemitério da aldeia que o acolhera naquela primeira semana de Setembro de 1971.
Entretanto, os meses passaram sem que o passador desse sinais de vida. Na Almodena dizia-se que o estrondo e a visão do amigo despedaçado lhe haviam dado a volta à mioleira e que, agora, passava os dias a vaguear como um perdidinho à beira do rio Rhône, onde quisera afogar-se por mais de uma vez; também se falava que o casarão que andava a fazer para os lados de Mateus ficaria mesmo pelo esqueleto, se a Marta, que há muito sentira o namoro ir por água abaixo, lhe desse com os pés, em tão mau estado se afiançava estar o Faia. Maluquinha e inconformada, Norina, que, com o desgosto ainda chegara a pensar numa peregrinação a pé até Valdahom, mas só chegara à raia de Espanha, se vivia era por temer que a filhinha, vendo-se sem pai nem mãe, atentasse também aos seus dias e se matasse na primavera da vida. Valia-lhe, nesse mar de lágrimas, o reconforto espiritual do seu confessor e o apoio incansável da pobre Marta, para quem o Raimundo também já morrera. Na escola, Verónica, tão esperta, alegre e enfrenisada com a ideia de ser médica, passava os dias a olhar para o último retrato que o pai lhe mandara, beijando-o e falando com ele, quando não desatava a chorar por qualquer motivo. Entristecida, a professora chamara-lhe mesmo um colega psicólogo, mas melhorias, se as houve, não se notavam, porque a menina continuou abúlica e indiferente a tudo, como se tivesse perdido a razão e a vontade de viver...

Finalmente, com a avultada quantia de dinheiro que recebeu de indemnização do estado francês pela morte do marido, e de cujo montante quase um terço, destinado à Verónica, teve que ser depositado numa conta especial até maioridade desta, Norina pôde acabar de pagar e mobilar a vivenda, para onde decidiu mudar-se no fim do mês de Julho; além disso, a viúva passou a receber uma renda mensal vitalícia, que acabaria no dia em que contraísse segundas núpcias.
Entretanto, como o Joaquim, marido da Nair, tivesse ficado tuberculoso e mal ganhasse para comer, Norina, generosa como era e agora ainda mais podia ser, teve pena deles e deixou-os ir viver para a casa do Calvário, sem contar as pratadas de tudo que a Verónica lhes levava para os filhotes. Marta, essa, enquanto não decidisse a sua vida, cultivaria os campos a meias e ocupar-se-ia do solar Almodena e dos quinteiros onde pernoitavam os mendigos de passagem, cada vez mais raros.
Depois de se mudar para a Timpeira, Norina, que nunca mais largara o preto e passara a usar calças, decidiu aparar os cabelos à Verónica e, engraçando com o visual da filha, mandou chamar a cabeleireira para cortar também os seus. Quando se olhou ao espelho quase desmaiou, mas, mirando-se bem, esboçou um sorriso, o primeiro desde aquele dia em que sua vida caíra no inferno e donde nunca mais saíra. Reclusa na sua própria vivenda, Norina gastava horas e horas a cismar com a vida e a recordar os momentos que vivera com o marido. Quantas tardes e quantas noites passadas em monólogo com o defunto? Quantas preces pela alma dele e quantas declarações de amor numa patética devoção ao homem que tanto amara, mas também tanto odiara, oh! sem mal certamente!, desde aquele 27 de Dezembro em que, graças ao testamento do tio Rodrigo, ficaram mais ou menos governados, com terras, dinheiro e casa, quantas? No seu espírito confuso, ora piosamente patético, ora furiosamente demoníaco, coexistiam, agora, duas personalidades bem distintas segundo as neurastenias: uma, beata e totalmente submissa a Deus, de quem se dizia abandonada, mas que não renegava e outra, mais rebelde, com laivos de ateísmo e simpatia pela magia negra, quando só, nos momentos de desânimo, perdia as rédeas da fé na vida e na felicidade perdida. E, para quebrar a monotonia dos dias, começou a comprar revistas e romances de amor e erotismo, que lia, escondida da filha, deitada de bruços na cama do seu quarto cor-de-rosa, ou nos geios do fundo da vinha, nas tardes estivais, com os pés mergulhados no rio Corgo para resfriar os renascentes ardores libidinosos...
Inadvertidamente, o fluxo sensual foi-lhe irrigando de novo as veias e rejeitando o estado de luto; os olhos, espevitados pelos fantasmas perversos, recuperaram aquele irresistível brilho malicioso que faz perder a cabeça a tanto filho de Deus. As mãos e os dedos, sequiosas e famintas de sedução, revoltaram-se e repeliram de vez a mórbida e insânia submissão, ousando afrontar a sagrada tirania em que jazia a sua alma e a semente do pecado, alimentando-se no lago da perversidade mental, desabrochou também no seu coração, arrastando-o, inevitavelmente, para caminhos de ilusão e, desmascarado intrinsecamente, a aura de luto que a protegia das más línguas sumiu-se das suas piosas retinas. Sem o véu da piedade, a viúva, apesar de guardar o preto, tornou-se uma mulher como outra qualquer, talvez mais cobiçada, pelo estatuto que a riqueza lhe conferia.
Verónica, que, entretanto, também se mentalizara de que a vida continuava e a melhor forma de honrar o pai seria estudar e ser alguém, médica, quem sabe?, não só recuperara a sua natural exuberância, mas sobretudo parecia animada por um sonho de tal maneira transcendental que nunca mais ninguém lhe viu nos olhos uma lágrima, nem uma penumbra de tristeza ou dor: quem a visse diria que estava enamorada!
Na primeira terça de Setembro, quando quase já não se viam emigrantes por Vila Real, Norina cruzou-se com Marta e os pais no mercado e convidou-os a irem almoçar com ela e a Verónica à Timpeira, mas os velhotes, que só pensavam em acomodar as crias, dois porcos e uma vaca, preferiram regressar à Almodena na camioneta de um feirante conhecido, para que a filha e a viúva ficassem sozinhas e desabafassem em paz, que bem precisavam, tão raras tinham sido as conversas entre ambas nos últimos meses.
Como tivesse bastantes compras e a vivenda distasse dois bons quilómetros da praça, Norina quis evitar à moça, que se oferecera para carregar à cabeça um pesado caixote de papelão, e alugou um táxi. Cinco minutos depois, o tecto verde do Opel Record preto descia a rampa da barrenta terra batida que dava acesso à luxuosa moradia. Sentada a olhar os livros no patamar das escadarias, Verónica viu a nuvem de poeira aproximar-se dela e fugiu para o canto da varanda.
— Então já chegaste, filha?!
— A mãe mande mas é cimentar a rampa porque senão... Oh!!! Mas que saudades, Marta! — adiantou radiante, dando com os olhos na confidente e amiga das más horas.
— Ah!..., mas tu cortaste o cabelo!!! — exclamou surpreendida, correndo a beijá-la.
— Hum! Então? Gostas do meu cabelo, Marta?
— Muito, muitíssimo, Verónica! Pareces mais velha, mais... É, tu quantos anos tens?
— Marta?!... - retorquiu a pequenita desconsolada.
— Nove, não é? Ah! desculpa, mas sabes estes meses pareceram-me anos!...
— Vá, deixem-se de conservas e venham ajudar-nos a tirar as compras da mala — ordenou a mãe, evitando o olhar cativo do taxista e deitando as mãos ao caixote.
— Nem pense nisso, senhora Norina! — disse ele, adiantando-se e agarrando-lhe os pulsos. - Por favor, deixe que é muito pesado.
— Obrigado, senhor...
— Júlio, Júlio Varandas para o servir, senhora Norina — acrescentou envergonhado.
— O senhor Júlio ponha então os embrulhos de lado que eu e a Marta lá os levamos para casa. Vá, quanto é? — perguntou a viúva cabisbaixa, abrindo o porta-moedas.
— Vinte escudos, senhora Norina — disse o taxista, pegando no caixote ao ombro.
— Cuidado que se suja, senhor Júlio! — avisou Marta, avistando uma casca de laranja agarrada ao fundo do papelão.
— Não faz mal, menina! Vá, onde quer que lho ponha? — perguntou desenvolto.
— Toma, abre a porta ao senhor Júlio — disse a Norina, sorrindo e lançando a chave à filha que, estendendo-se toda, a apanhou no ar e abriu a vivenda sem demoras.
— Ah, a tua casa é muito linda! — exclamou o taxista deslumbrado, seguindo-a cautelosamente até à luxuosa cozinha.
— Pois..., ponha aqui - murmurou amuada, arrastando a cadeira para o lado.
— O teu pai...
— O meu pai partiu para longe, mas há-de voltar! — interferiu radiante, afogando impiedosamente a compaixão que nascia nos olhos do estranho.
— Claro, claro que há-de voltar — anuiu o taxista, evitando o olhar da inocente e retirando-se apressadamente confuso.
— Aqui tem o dinheiro da viagem e muito obrigado, senhor Júlio — disse a viúva, esperando que ele saísse e entregando-lhe uma nota de vinte e uma peça de cinco.
— Mas?!... — balbuciou acanhado, conferindo o valor e corando profundamente.
— Os cinco escudos são para beber uma bica e mandar limpar a camisa.
— Oh, não faz mal, a minha mãe lava-a, senhora Norina! Adeus e obrigado! — exclamou o taxista de costas, cruzando Marta, que subia as escadas, no patamar de embrulhos debaixo do braço.
— Adeus, senhor Júlio! — bradou a moça, sorrindo descarada.
— Adeus, menina! — respondeu pensativo, pegando nas chaves do carro.
Na cozinha, a viúva, que apreciara a gentileza do moço, não conseguiu deixar de o espiar pela vidraça; Verónica, curiosa, remexia no caixote; Marta, que também simpatizara com o rapaz, essa, ficara pasmada a ver o táxi dar volta no terreiro e desaparecer calmamente sem levantar a mais pequena nuvem de pó; no Opel, Júlio bem espiava-as pelo retrovisor, mas o sentimento estranho, em que boiava o seu coração, não o deixou ver coisa com coisa e lá partiu inquieto.
— Eu tenho fome, mãe! — disse Verónica, não encontrando nenhuma guloseima.
— Calma, Verónica. Olha, vai ajudar a arrumar as compras nas prateleiras e mostra a mobília à Marta que eu cozo rápido uma massa com bife e toucinho.
— Massa, mãe?!
— Então que queres, filha? — perguntou mimalheira, vestindo o avental.
— Um bitoque!
— Lá por isso eu faço-to, mas vai demorar mais tempo. Ainda nem aparei as batatas!
— Pronto, coza a massa e estrele-me um ovo...
— Ai essa mania dos ovinhos estrelados! — ironizou Marta, pousando os embrulhos.
Pegando numa panela, que colocou debaixo da torneira e quase encheu, Norina piscou à amiga e ligou o gás pensativa, começando a preparar o almoço, enquanto elas, sorrindo uma à outra, distribuíam rapidamente pelas prateleiras; só o toque das facas e das colheres inoxidáveis no tacho e no fogão e o rangido das sacas de plásticos e de papel quebravam a monotonia daquele abafado silêncio; incomodadas pela cebola cortada, que as fez chorar, as raparigas despacharam-se para admirar a decoração da vivenda.
Passando pela sala de jantar como os pés pelas brasas, entraram no quarto de casal e as almofada, bordadas em coração rosado, fizeram-nas suspirar; os seus olhos, fitando-se apenas, fecharam-se para estancar as lágrimas que o retrato do Arménio, num quadro sobre a mesinha-de-cabeceira, lhes suscitou.
— Bom, mostra-me lá o teu quarto, Verónica.
— O de baixo ou o de cima?
— Como?! Tu tens dois quartos?
— Sim, um para dormir, aqui ao lado, e outro, no sótão, para estudar, ler, fazer os deveres e tirar um cochilo ou chorar sem que ninguém me veja — confessou emocionada, dirigindo-se para a peça do lado.
— Ah, é muito lindo! Sim senhor..., tiveste muito bom gosto, Verónica! O branco e o dourado combinam muito bem! Assim tudo branquinho...
— Marta, tu ainda namoras com o Raimundo? — volveu a criança, virando-lhe as costas e encaminhando-se para o sótão.
— Porque me perguntas isso, Verónica?
— Desde que o meu pai morreu, nunca mais te escreveu, nunca mais apareceu..., nunca mais... Enfim!... Estranho! Não achas?!
— Coitado, dizem que está maluquinho...
— Será melhor assim, porque ele não presta, Marta, esse homem não presta! Aliás, nunca percebi porque te deixaste iludir por um homem assim!...
— Marta! Verónica! Venham comer que a massa já está a ferver! — gritou a viúva.
— Oh! o genro do Feliciano diz que ele recebeu um choque muito grande e...
— Oxalá que seja mesmo verdade e esse homem não tenha nada a ver com a morte..., morte?!, — interrogou-se a órfã duvidosa — com o desaparecimento do meu pai!
— Credo, mas que coisa, Verónica, o Raimundo não é nenhum assassino! - retorquiu a namorada do passador assustada com os olhos da criança.
— Se não é parece! — arrematou convicta. — A mim ninguém me convence que não foi ele quem desencaminhou o meu pai, se não o tramou...
— Não julgues para...
— Não seres julgada — completou decidida. Eu sei essa ladainha toda, Marta, e já estou como a minha mãe: Deus foi muito cobarde em deixar o meu pai cair na ratoeira desse Faia. Deus..., Deus é vingativo e castiga. Será que castigou o meu pai? Porquê?
— Tchut! Pára que ninguém sabe o que aconteceu, mas deixa lá, se o que pensas é verdade sabê-lo-ei, nem que tenha que ir com ele para a cama e se o desgraçado tiver a coragem de me querer enganar outra vez! - afiançou raivosa, chispando todo o ódio fermentado no seu coração ao longo daqueles penosos meses..
— Então jura!
— Juro!!! — disse peremptória, apertando a mão da inconsolável inocente.
— Se me ajudares a descobrir a verdade, quando for grande e puder mexer no meu dinheiro, pago-te...
— Tchut! Está calada e não prometas mais nada que muito já vós me tendes dado.
E, irmanada num longo e sentido abraço, Verónica beijou Marta no rosto, descendo imediatamente a lambiscar o bitoque com batatas alouradas que, finalmente, a mamã lhe fizera à pressa.
Depois do almoço, enquanto a mãe e Marta arrumaram a cozinha e acertaram a data das vindimas, a mocinha fez os deveres da escola, escutando o Simplesmente Maria, o folhetim radiofónico de maior audiência em Portugal e que trazia meio país maluco, tal era a idolatria das mulheres, sobretudo, pela personagem principal, uma criada de servir que, rejeitada pela família do rapaz com quem viveu uma história de amor, não só assumiu corajosamente a sua condição de mãe-solteira, como singrou na vida, tornando-se uma empresária de grande sucesso e prestígio internacional. Distraída com a novela, Verónica nem as viu descer os geios da vinha até à beira-rio, onde se sentaram e passaram a sesta a ler as revistas que Norina comprara no quiosque da praça, mesmo em frente ao Cabanelas.
— E se o Faia te aparecesse agora aqui, Marta? — perguntou subitamente a viúva, pousando a Corin Tellado, talvez a mais popular revista feminina.
— Ah?! Desculpa, dizias, Norina? — indagou a rapariga desatenta, interrompendo momentaneamente a leitura e olhando-a inquisidora.
— E se ele aparecesse agora aqui? — repetiu cabisbaixa, mexendo nos foto-romances.
— Quem? O Raimundo, Norina?
— Sim, o Faia.
— Devolvia-lhe o anel e mandava-o ir gozar a co..., a coisa da mãe, que não tem culpa nenhuma de ter um filho assim! — respondeu grosseira, não se atrevendo a pronunciar completamente a palavra indecorosa, mas disparando toda a ira que trazia abafada dentro dela pelas órbitas furiosas.
— Tens toda a razão. Há tanto rapazinho como deve ser por esse país fora, que se vê logo que são umas jóias de homens, como o taxista que nos trouxe, e nós, malucas e cegas, vamos entregar o nosso ouro ao primeiro bandido que nos arreganha os dentes.
— Pois é Norina! Às vezes até parece que é o demónio tentador que nos endromina e quanto mais um gajo não presta, mais nos metemos debaixo dele como umas malucas.
— É, nós só nos fazemos esquisitas para com quem nos respeita, aos outros...
— Pois é, aos outros...
— Bom, eu não queria chegar a esse ponto, mas..., e se esse bazófia pintasse por aí?
— Sei lá! Se calhar dizia que fazia e acontecia, mas depois... — insinuou a pobre rapariga, desviando os olhos da Norina.
— Sinceramente, tu tens-lhe amor ou não, Marta?
— Não, acho que não, Norina. Agora tenho a certeza que não, mas deixei-me iludir.
— Então devolve-lhe o anel de noivado e tem paciência que a vida de casada não é aquele mar de rosas que nós imaginamos quando começamos a sentir-nos mulheres... Olha, Marta, eu até tive a sorte de ter um marido que sempre me respeitou e amou de verdade, e nós vivemos momentos muito felizes, antes de ele ir para Angola e sobretudo depois, quanto até apertávamos o cinto, mas que a vida de casada é muito era dura...
— Não me digas que se fosse agora não te tinhas casado?!
— Tão nova, de certeza que não... Uma mulher sofre muito, rapariga!
— Pois, mas também goza.
— E tu achas que uma mulher precisa mesmo de um homem para gozar a vida e ser feliz, Marta? — retorquiu a viúva, fitando-a serenamente.
__ Pelo menos para termos filhos, precisamos, agora quanto ao resto..., não sei se será a mesma coisa... Eu sei o que o povo falou de mim e muita gente até pode pensar que é verdade por eu ser uma desbocada, reconheço, mas olha que nunca abri as pernas nem ao Faia, nem a nenhum pingaréu. Uns beijos, uns encostos, uns apertos ainda lhe consenti para que ele não me julgasse sem sentimentos, sem amor como as outras...
— Mas tu és diferente, Marta! Como eu sou diferente e a Verónica será diferente, porque no mundo não há duas pessoas iguais, nem por fora, nem por dentro e ainda bem que assim é!...
— Pois, mas como estava forte, ele podia muito bem pensar que eu era uma Maria-rapaz , enfim!, diferente, percebes?
— Se percebo, Marta! Deve ser muito duro viver com uma reputação dessas, ou passar, aos olhos e nas bocas do mundo, por o que não se é realmente!
— Se é, Norina, se é! Mas..., enfim!, às vezes Deus dá-nos forças...
— Não, nós é que não imaginamos as forças que temos, nem damos valor ao que é nosso e reconhecemos e adulamos mais facilmente os outros que os nossos. Os outros é que sabem, os outros é que são bons, os outros é que valem, os outros é que prestam para isto ou para aquilo, sempre os outros a cegar-nos e a iludir-nos, sempre a rebaixar o que é nosso, sempre a menosprezarmo-nos... Assim, sempre a autoflagelarmo-nos ou denegrimo-nos, como é que podemos exigir que o nosso coração e a nossa consciência nos dêem a paz de alma que a felicidade tanto exige? — questionou filosofal.
— Norina, tu!...
— Eu quê, Marta?!
— Tu não estudaste, mas sabes dizer tão bem as coisas!
— Ai, se soubesses como a vida nos ensina coisas bonitas, quando a escutamos!
— Escutar a vida?! Como? És a primeira pessoa que me diz isso. Eu nunca ouvi a vida falar-me, Norina!
— Ouviste, só que estavas distraída ou lhe deste importância que ela te merece. A vida, a tua vida vive dentro de ti, a tua vida és tu, e como tu e eu, nós todos passamos o tempo a procurar longe e nos outros o que só nós possuímos e podemos usufruir: a nossa vida!
— Ah, agora percebi! — exclamou resignada, suspirando de alívio e fechando os olhos para melhor ouvir, entre os murmúrios da cachoeira do Corgo, a voz da sua vida.
— Então, estás sossegada, Marta? — perguntou a viúva, ajeitando os cabelos e levantando-se para desentorpecer as pernas.
— Muito! Muito mais, Norina! — confessou a moça, erguendo-se também.
— Olha, se achas que a nossa companhia te pode ser benéfica, enquanto não resolves a tua vida, depois das vindimas, quando já houver pouco que fazer, podes vir passar o fim-de-semana connosco e ler e ver a televisão. Às vezes, eu e a Verónica vemos cada filme mais triste que até temos medo...
— Medo?! Medo de quê?!
— Sei lá, da história, de ficarmos aqui sozinhas...
— Estás a ver, afinal os homens ainda servem para alguma coisa! — ironizou Marta.
— Ah, mais deixa estar que eu vou arranjar um desses canzarrões da Serra da Estrela e comprar uma pistola! - garantiu a franzina viúva, sacudindo os ciscos que se lhe haviam apegado às calcas.
— Deixa que eu te limpo as costas, Norina. Hum, parece-me que estás e engordar!
— Achas?
— Se não fosse o corte de cabelo e as cintas esticadas... Tu usas cinta, pois usas?
— Quando comecei a usar calças não gostei, mas depois, um dia que fui à rua Direita, vi uma estudante que saía com o namorado do Chinês e vi que, afinal, muito mais gorda do que eu, até ficava bem de calças e reparei que ela usava cinta...
— E compraste logo uma.
— Logo não. Por acaso, como não tinha nada que fazer, fui olhando as montras e parei no Márius a ver as fotografias de um casamento e notei que as raparigas de calças usavam todas cinta.
— E já não voltaste para casa sem uma!
— Sem uma?! Sem duas!
— E são caras?
— Ah, ainda custam uns mil réis!...
— Podes deixar-me experimentar uma das tuas, podes?
— As minhas não te servem, mas, se quiseres, mostro-te a diferença que faz.
— Ó raio, já me estás a arranjar em que gastar os tostões do meu pai!
— Hum, não será das pragas da ti Soledade que tu tens medo, Marta?!
— Tu já viste se eu lhe apareço lá em casa de calças?! Então é que o povo vai dizer que eu sou uma rapazola.
— E de mim, o que é que ele diz?
— De ti?! Nada!
— Vá, não me mintas, porque eu sei que ele tem sempre que falar.
— Oh, diz que agora tu já pareces uma doutora e...
— E?! — frisou a viúva maliciosa.
— E tens dinheiro para tudo — respondeu prontamente a moça, corando.
— Infelizmente tenho, não para tudo, mas para viver com o conforto que é necessário e oxalá que todas as pessoas o possam ter como eu, sem que para isso tenham que pagar o que eu paguei e sofrer o que eu sofri e continuo a sofrer, Marta!
— Pronto, Norina, vamos lá ver se a cinta me faz encolher o unto, porque com a dieta já não mingo mais. Anda, a cinta pôs-me em pulgas! — adiantou galhofeira, oscilando os peitos e apalpando ostensivamente as banhas da barriga para provocar na amiga um sorriso que lhe enxotasse dos olhos a tristeza que ela sentiu naquela hora.
E a viúva, disfarçando a mágoa interior, balbuciou comovida, mas risonha:
— Ninguém se manda fazer. Aliás, se queres que te diga, — adiantou de voz trémula e um tanto confusa - agora até estás muito bonita assim!
A moça estancou o riso e, corando com o galanteio, adiantou-se-lhe. Enquanto subiam os geios pelo carreiro mais trepado, andando e parando para ganhar fôlego, eram espiadas lá do alto pela Verónica que, adormecendo a escutar o folhetim no sótão, acordara assarapantada e se espreguiçava na varanda virada para o vale do Corgo.
— Suas malandras, fostes-vos para o rio sem mim! — bradou queixosa a dorminhoca.
— Como estavas a ouvir o Simplesmente Maria...
— A mamã bem sabe como eu gosto de...
— Nadar no rio! Eu sei, filha, mas não foi por mal! — desculpou-se a mãe, limpando-lhe o suor do pescoço com uma toalha que pegara no banzo da varanda.
— Tu também já nadaste no rio, Marta?
— Quando andava na escola nadava encoira nas poças com as outras raparigas, mas agora... Verónica, as pessoas grandes... — balbuciou embasbacada, olhando Norina.
— Ora essa, as pessoas grandes vestem biquinis! — acrescentou desenvolta.
— Ui, isso é para quem pode e vai para a praia!
— Na praia há muita gente pelada...
— E se fôssemos fazer um refresco, filha? - sugeriu a mãe, dando de olhos à Marta.
— Hum, vós andais muito segredeiras! — exclamou desconfiada, surpreendendo-lhes a cúmplice piscadela.
— Segredeiras nós?! És bem tolinha, Verónica! Eu e a tua mãe não temos segredos, pois não, Norina?
— Deixa-a lá, ultimamente, depois que cortou o cabelo, a Verónica é que não pára de se olhar ao espelho. Ela está muito vaidosa a minha filha, sabes?
— Ah, tu é que tens segredos, espertalhona! Não me digas que foi o teu namorado quem te mandou cortar... — insinuou Marta irónica, sobrepondo os dedos na madeixa loura para imitar a tesoura.
— Não foi nada! — refutou zangadíssima, batendo o pé e gesticulando irritada.
— Oh, desculpa, Verónica! — murmurou arrependida, mimando-a.
— Ai os mimos!... Vá, vinde tomar o refresco — disse a mãe orgulhosa, enchendo os copos floridos.
Agachada, Marta sorriu apenas e cochichou ao ouvido da filhinha do Arménio sala:
— Cuidado com o nosso segredo!
— Pst, a minha mãe pode ouvir!... — sussurrou Verónica desconfiada.
Depois de se saciarem, as mulheres foram trancaram-se no quarto a experimentar a cintura, enquanto que, acalorada com aquele tórrido sol do fim do Verão, que lhe deixara a pele pegajosa, a mocinha se entretinha a batuchar na banheira; abrindo a última gaveta da cómoda do quarto, Norina tirou a cintura elástica e começou a esticá-la para que Marta visse como apertava; depois, correndo pudicamente o fecho, pegou-lhe na mão e, agarrando a cinta, puxou-a, mostrando-lhe apertava; intimidada pelo reflexo da nudez da amiga de infância no espelho, a namorada do Faia balbuciou:
— Afinal tu és mais morena, mas estás mais branca do que eu, Norina!
— Não me digas?!
— Olha! — murmurou a trabalhadeira, levantando a blusa e mostrando a barriga.
— Realmente tens-me cá uns peitos, Marta! — notou a viúva, mirando-lhe o busto.
— Oh, preferia tê-los menores e com uns bicos saídos e escuros como os teus!
— Porquê, os teus não são saídos?
— Os meus..., olha, estão metidos para dentro — disse desconsolada, deitando os seios lácteos de fora.
— Quando te casares, primeiro com os chupões do marido e depois com os dos filhotes, vais ver que os bicos te saltam cá para fora como os meus — acrescentou convencida, mostrando-lhe também a teta por onde a Verónica tinha mamado até aos dezoito meses.
— Achas? — perguntou a rapariga envergonhada, ajeitando o sutiã.
— Claro! — rematou Norina, despindo rapidamente as calças e a cinta elástica.
Pundonorosa, Marta baixou os olhos , fingindo abotoar a blusa, mas o espelho devolveu-lhe a beleza plácida da amiga, perturbando-a terrivelmente.
— Chega-me essa saia por favor — implorou a viúva, quebrando o silêncio e apontando para o cabide.
— O Arménio era muito bom, pois era, Norina?
— Se era, Marta! Nos últimos meses cheguei a desconfiar que ele também tivesse arranjado por lá alguma amante, mas não, o Arménio nunca seria capaz de uma coisa dessas. O Arménio era muito especial: bom rapaz, bom pai, bom marido...
— Sem dúvida, e até se compreenderia se, de vez em quando visse...
— Porque tu eras capaz de perdoar uma traição do teu homem?
— Era. E tu não, Norina?
— Eu, Marta?! Eu nunca!
— Oh! tu dizes isso agora, mas se calhar até perdoarias como toda a gente.
— Eu não sei perdoar, Marta. Preferia vê-lo morto que sabê-lo de outra!
— Oh! uma vez, para...
— Com essas ideias, não te cases, rapariga, porque, mais cedo ou mais tarde farás sofrer o homem que te amar de verdade, como eu amei o Arménio, que nunca traí e se algum dia, confesso, tive maus pensamentos, foi porque julguei que o Faia o conseguisse endrominar e o arrastasse para o putedo.
— Porque o Raimundo?!... — indagou a namorada do passador surpreendida.
— Desculpa, foi sem querer! — balbuciou a viúva confusa, apercebendo-se da tristeza que provocara na alma da amiga soluçante. — É o que se diz, Marta, é o que se diz!
— Ai é?! Então deixa que ele paga-mas! — retorquiu mais irada que ofendida.
— O melhor é esquecê-lo, rapariga, que ele não presta!
— Não, primeiro tenho que ajustar umas contas com ele, depois...
— Tu vê lá o que fazes, que o Faia é muito perigoso, Marta!
— Também eu, Norina, também eu! — repetiu pensativa, mordendo o lábio.
— Então nunca te esqueças que é com mel que se apanham as moscas.
— Diz, tu eras capaz de o matar?
— Mas que pergunta, Marta?! — volveu estranhamente perplexa.
Vendo-a corar profundamente, a mocetona submeteu-se e baixou os olhos. E não disseram mais nada: as labaredas da vingança daquela alma sobejamente mortificada flamejavam nas íris amorfas daquele olhar tão faminto de verdade, porque, por mais que tentasse, o coração apaixonado da pobre Norina não conseguia deixar de pensar que o marido caíra na esparrela do Faia, que ela tanto odiava, desde aquele dia de Verão em que, adolescente ainda, ele a violentara e quase violara, mantendo-a refém da sua léria até que o Arménio a libertou dessa hedionda chantagem. Ai o Arménio, como o amava o Arménio!
Depois do lanche, broa, azeitonas e presunto, que comeram na cozinha, a Marta pôs-se a caminho de Almodena, onde queria chegar antes do pôr do Sol. Perto da praça dos táxis, ainda lançou uma olhadela para ver se avistava o Opel do Júlio, mas lá prosseguiu a sua taciturna caminhada.

Nos dias que antecederam a vindima, Marta foi quase todos os dias à Timpeira, onde dormiu por várias vezes, a ponto de irritar o senhor João e a senhora Soledade que, embora sabendo da carta de ruptura que a filha enviara ao Raimundo com o anel de noivado, não gostavam nada da leviandade com que se portava ultimamente, censurando-lhe as sobrancelhas depiladas, os lábios pintados e os perfumes asfixiantes, a ponto de acharem nefasta a influência que a Norina, de quem se sentiam devedores, exercia sobre ela: é que as más línguas as diziam que a viúva andava muito arrebitada e que, a peneirar-se assim, não demoraria muito a perder o respeito ao Arménio, se é que não tinha feito, o que muito os entristecia, pelo bem que lhe queriam.
Com aquele sórdido falatório, na vindima, Norina só aceitou a ajuda do Joaquim, que apesar da doença, lá apareceu na Timpeira com a Nair, e de dois primos da Marta, preferindo pagar a jorna a três rapazes de Lordelo que o senhor Morgado lhe mandara, depois de fazer a dele. Depois, para evitar mais bisbilhotices, deixou a lagarada ao cuidado do senhor João que, com os homens e os sobrinhos, lá pisou as uvas duas noites a fio. Marta, que tanto adorava amassar os cangaços do vinho mosto, furiosa com as mexeriquices, nem sequer apareceu no lagar e entregou à mãe o mata-bicho dos homens, ficando sozinha em casa.

Entretanto, com a chegada do Outono e o fim das colheitas, Marta ficou com mais horas de lazer, que aproveitava para ler as revistas e os romances que trazia da Timpeira; de França, nunca mais recebeu nenhuma carta do Raimundo, de quem muitos se apiedavam, por se dizer que dificilmente recuperaria o juízo; Manuel Feliciano, que comprara uma loja num dos muitos prédios novos da zona da feira, raramente aparecia na tasca, tão atarefado que andava com os acabamentos do restaurante, onde queria realizar o casamento da sua caçula, Zélia, com Francisco Serra, razão porque o ex-seminarista não viera de férias em Agosto; com o tempo, as más línguas acabaram por se calar, o que muito serenou a Norina, que nunca se deixara abater pelos boatos; Verónica matriculara-se na 3ª classe, na escola primária da Timpeira nos primeiros dias de Outubro, e andava muito animada porque a professora lhe dissera que, se continuasse sempre assim boa aluna, em Dezembro perguntaria ao inspector se a podia passar para a quarta.
Enquanto isso, a vida em Portugal estava cada vez mais dura e o número de emigrantes não cessava de aumentar, porque a tanto os obrigava a miséria; Marcelo Caetano, que até era benquisto do povo, lá se conformara a abrir as fronteiras e a deixar partir os filhos da nação com a tropa cumprida, para aumentar o fluxo de divisas que tanta falta faziam ao país, arruinado pela guerra em África e pelo isolamento internacional a estava condenado com a prossecução da política colonialista; a polícia secreta, a pide de má memória, passara a chamar-se DGSE — Direcção Geral da Segurança do Estado — , porém, infelizmente, os métodos tirânicos e delatórios persistiam mais ferozes e implacáveis do que nunca; Portugal precisa de um golpe de estado que pusesse fim a quase meio século de ditadura fascista, mas depois do assassinato vil e cobarde de Humberto Delgado, o general sem medo, em Badajoz, no longínquo 1958, a maldição abatera-se sobre a pobre terra lusitana...



Continua em Capítulo VII


LMP -Luxembourg1984 - Lud MacMartinson

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