domingo, 18 de maio de 2008

Caminhos de Ilusão: Capítulo I



Portugal - Vila Real, sexta-feira, 13 de Agosto de 1971







PRIMEIRO CAPÍTULO





Nesta sexta-feira de mercado, a cálida brisa matinal incitara o povo a erguer-se pela noite fenecente e a meter-se a caminho da praça. Orgulhoso, o zé-povinho ficaria todo peralta, de retorno a casa, se conseguisse humilhar o vizinho mais dorminhoco e pachorrento, arvorando um minguo, mas primoroso cabaz de compras, sem as crónicas mazelas das cobiçosas apalpadelas das peralvilhas governantas da cidade.
Nos tempos árduos que corriam, a vanglória era o mais barato manjar das almas sem eira nem beira que povoavam estoicamente a aridez transmontana. Pelas ruelas contíguas à praça, a multidão citadina e o povinho das aldeias da vizinhança empurrava-se, despicava-se e zangava-se para obter a tão famigerada primazia das imorais regateiras do mercado, habituadas à ralé. E como eram estúpidas e animalescas aquelas gentes de ira atiçada!

No meio daquela balbúrdia vergonhosa, havia, porém, uns cavalheiros de patilhas bem cuidadas, todos cá sou eu, e algumas senhoras de poupo luzidio, com as distintas e vaidosas gotas de perfume espanhol encharcado nas blusas de cetim, que não paravam de zombar dos parvónios de chapéu de palha empoeirada, calças de cotim roçado e, muitos deles, de barbas semanais a patentear a gordura do toucinho que haviam mastigado na camioneta do feirante, espetados entre os ruminantes; outros, ainda de rugas alagadas pelo suor da caminhada, pareciam mais resignados, descansando as pernas nos muros graníticos e ignorando as miradelas soberbas dos endinheirados. As saloias desguedelhadas, essas, sentindo-se picadas, não tinham papas na língua e retorquiam aos trejeitos bazófias com piadas e palavrões impudicos, fisgando o tímido civismo da fidalguia de tuta-e-meia, que teimava em acirrar a paciência da patuleia.
Corridas as grades da discórdia, ante a pacata vigilância da zelosa GNR — Guarda Nacional Republicana — , e o olhar arrebatador das peixeiras, a populaça bridou a demência cobiçosa, rompendo de roldão e aos empurrões. Esgueirando-se lesto pelos tendais, o povo dispersou-se, mirando aqui, regateando acolá, correndo à frente, recuando atrás, tal bailarina louca, estonteado pela sabichona lengalenga dos pregoeiros e os gritos esganiçados das peixeiras.

E as horas volatilizavam-se raquiticamente sem que as cestas, ainda tísicas, enchessem as guelras da gula à plebe gananciosa. A loucura, enrolada no cismático e doentio sofisma da miséria daqueles tempos, preferia deitar o coração ao largo para não se perder nas quezílias que o Salazar e a fé lhes proibiam. Mais tarde, alagados pelo implacável e ardente calor da tarde, os campónios carregavam as trouxas para debaixo da benigna e refrescante sombra das frondosas tílias dos arredores da sede da Autoviação Cabanelas, quando um automóvel de matrícula francesa, rolando à pacata velocidade de um turista, subiu repentinamente o lancil do passeio de basalto e calcário, estancando-se rente ao arbusto do jardim, lá onde o Sol já não castigava.

Escancarando as portas do carro, os quatro malteses desordeiros, vestidos à índio, saltaram para a relva pisada e, puxando por uns vistosos pentes-navalhas, aprumaram as suas bem prezadas repas, cobiçando descaradamente as pernaças das mocetonas que passavam de trouxa na cabeça. Abusadores e deliberadamente pachorrentos, os franceses atravessaram a calçada na maior das calmas, gesticulando temerariamente e obrigando os automobilistas a estancar os seus tão sobrecarregados veículos. Impressionados pela manifesta valentia dos mocetões, os transeuntes apalermados miravam-nos indignados e prosseguiam o seu caminho, murmurando com os seus botões: " Que pouca vergonha! Macacórios sim, mas nem tanto!"
Do outro lado da calçada, postado na soleira da taverna do Feliciano, um homem dos seus vinte e oito anos, moreno, de estatura mediana, mas bem encorpado, fitava-os de um olhar perplexo, deplorando-lhes mentalmente aquelas atitudes malcriadonas.
De bolsa negra dependurada no antebraço, o barbudo dos malteses, adiantando-se aos comparsas, estendeu-lhe a manápula, sorriu e exclamou todo fanfarrão:
— Connosco não há fedúncias, Arménio!
— O chofer da furgoneta já estava a ficar amarelo! — respondeu envergonhado, apertando-lhe molemente a mão.
— E a Norina como está?
— Que nunca pior, Raimundo, que nunca pior! Por aqui, nos tempos que correm, a vida é negra e madrasta, mas nós cá nos viraremos. A sorte não nasce para todos...
— Lá isso é verdade, Arménio, lá isso é verdade! Ah! Deixa que te apresente estes três aldeagantes que trouxe comigo — retorquiu altivo, zombando dos comparsas.
— O meu nome é Arménio Sala. Prazer em conhecê-los! — bradou acanhado o vila-realense, olhando-os humildemente.
— Macacórios, amantes da farra, das boas coxas e de um bom verdinho da nossa terra realmente são, mas rapazes de confiança, fiéis e sempre prontos a saírem-se pelos amigos também — afiançou gabarola.

Os mocetões encolheram os ombros, miraram-se envergonhados e, dando-se nas costas fraternais pauladas de descontracção, desataram às gargalhadas. Depois, como o Raimundo não lhes achasse graça, estancaram a galhofa e fitaram-se de soslaio, calando-se para que o chefe concluísse as apresentações.
O passador, disfarçando uma colérica dor de fígado por entre um sorriso cínico e arrogante, puxou por um cigarro da tabaqueira dourada, que uma madame viúva lhe oferecera para o gratificar dos biscatos, e, batendo-lhe o filtro, acendeu-o nervosamente. Depois de duas ou três chupadelas nervosas, soltando os aros de fumo que armazenara nos pulmões viciados, fitou o colega do ultramar e acrescentou:
— Estes gajos até são porreiros, mas às vezes passam as marcas e moem o juízo a uma pessoa. Diz, Arménio, — prosseguiu mais calmo — já conheces algum destes malandrins?
— As suas caras não me são estranhas e se calhar até já os terei cruzado por aí, mas de repente..., não, não os conheço — assegurou pensativo, depois de os mirar um a um.
— Este sujeito, aqui à minha direita, é o Luís Pirata. Um bom patife! Casado, largou a mulher de barriga cheia e arranjou uma francesa lá num vilarejo perto da cidade de Macon ― disse malicioso.
— O Chefe...
— Cala a boca! — retorquiu-lhe peremptório. — Putanheiro igual nunca os meus olhos viram! — acrescentou imperial, fitando o colega por cima do imponente metro e oitenta.
Travando o fumo do cigarro, Raimundo Faia engoliu em seco e, arrotando mais uma argola de nicotina, continuou a retórica bazófia:
— Ao lado do Pirata, aqui no meio, temos o Zé Calhordas.
O Vila-realense, apesar do esforço, não evitou uma gargalhada e, envergonhado, desculpou-se prontamente:
— Não leve a mal, senhor José! O seu nome é que...
— Nome não, alcunha! — cortou o passador, rindo também.
— Sabe, senhor José, ao ouvir o seu nome, lembrei-me de um tipo meio atoleimado que assentou praça aqui, no RI-13. O pobre coitado, nunca passou de básico!
— O Zé Calhordas, até nem era mau rapaz, mas desde que se meteu com a súcia do karaté anda sempre a molhar a sopa nos franceses, os avec, como a gente diz lá em França, e não se passa um sábado de bailarico sem que a comandita não arme uma zaragata por causa das mademoiselles. Um deles até já pegou pelo cu das calças a um polícia e, não fosse a malta acudir-lhe, tê-lo-ia mandado da ponte abaixo para o Rhône.
— Ó pá!, — cortou o Calhordas risonho — o tipo que fez isso é um chanfrado. Sabes, foi logo no início, quando a malta formou o grupo. Esse gajo vinha meio apanhado do clima da Guiné e não acatava conselhos de ninguém. Julgava-se o rei da África, mas rápido se apercebeu que os franceses não são como se pintam! Os gajos malham!
— Pudera! — interferiu o Pirata sabichão. — Desde que se meteu com as drogadas... Sabes, daquelas que sabem mais do que a Lúcia, o animal ficou mesmo paranóico.
— Bom, vocês deixam-me terminar?! — cortou Raimundo, atirando a prisca pela porta.
Fitando o Faia com olhos subalternos, calaram-se como ratos.
— Olha, Arménio, para último ficou o Chico Serra. Este é o mais sabido de todos, porque ainda passou ali pelos padres, mas parece-me que, quando era catraio, mijava na cama e mentia demais para ter cabidela entre gente tão selecta.
Francisco riu envergonhado e colando o indicador direito nos lábios ressequidos piscou a uma rapariga que entrava airosamente na taverna, juntando-se ao grupo de mulheres que comiam alapadas num tosco banco de pinho.
Entretanto, interpelados por outros negócios, os emigrantes, temendo talvez que os muros tivessem ouvidos, mudaram de assunto, cochichando-se atabalhoadamente um francês de emergência, que deixou o Vila-realense embasbacado. Obedecendo a um aceno do Faia, refugiaram-se nos fundos da tasca e misturaram-se discretamente na algazarra ensurdecedora.

Naquela hora, a família do taberneiro não tinha mãos a medir para matar a fome àquela gente desalmada. As filhas do patrão, raparigas desenrascadas, viam-se mesmo em palpos de aranha para lhes matar o larote. Com o estômago a bater a quinta-feira, e apressados pela pubileia impaciente de retornar a casa, os feirantes encostavam-se ao balcão, comendo pataniscas de bacalhau e bebendo o morangueiro por pichorros de Bisalhães, enquanto os aldeões esbotenavam as broas, que haviam comprado no mercado, e mordiscavam os nacos de queijo de cabra que guardavam nos lenços. As senhoras, essas, mastigavam tremoços enquanto os filhotes, ora lhes chupavam as tetas, ora lambuzavam as côdeas que os pais, por entre dois quartilhos, lhes iam metendo nos dentes. As mocetonas, escarranchadas nos mochos surrentos, essas, não se perturbavam com as cobiçosas espreitadelas que os homens lhes lançavam para as coxas.
Fugindo para um canto mais pacato, os emigrantes encomendaram uma sardinhada de cebola, uma broa de trigo de Vilar de Maçada, que cortaram em quatro nacos, dado que o Vila-realense iria almoçar a casa com a família, dois quartilhos de Mateus Rosé, alguns guardanapos, que o Feliciano lhes passou por detrás do balcão, e meteram mãos à obra, mastigando e cochichando atabalhoadamente.

Apesar da natural parcimónia, o Arménio sentia-se arrebatado pelas façanhas e, sobretudo, pelas patacas que os emigrantes diziam ganhar lá no país do Astérix. Delirando, via-se assentado no terraço da vivenda dos seus sonhos, lá na Timpeira, numa das mais espectaculares curvas do circuito de Vila Real. Antes, porém, teria que deixar, pela segunda vez, a sua esposa esbelta e a filhinha que, então a cumprir o serviço militar em Angola, não vira nascer, nem tampouco andar de gatas. Depois, se Deus o ajudasse, ao fim de dois ou três anos, retornaria definitivamente à sua bila, arranjaria um bom emprego com a ajuda dos amigos e procuraria assegurar o futuro da sua Verónica, mandando-a estudar, se a cabecinha dela a puxasse e desse para tanto.

Quase no fim da petiscada, quando a pubileia barulhenta se retirava, piscou ao Feliciano e, gesticulando nas costas dos emigrantes, pediu-lhe a conta. Todavia, apercebendo-se dos trejeitos, o passador levantou-se lesto da sua cadeira e foi sorrateiramente pregar-lhe a carteira no bolso.
— Por amor de Deus, Arménio, isso não! No próximo Verão, quando tiveres a tua vida mais desafogada, então poderás pagar-nos um copo ou até umas batatas a murro, que a tua mulher sabe fazer tão bem. Vá, vai lá convencer a Norina e vem dar-me a resposta logo à noite ao Pompeia. Hoje, amigo Feliciano, o estrago é comigo! — adiantou generoso.
— Bom, então até logo! — disse Arménio Sala, despedindo-se dos emigrantes com um aceno furtivo na soleira da tasca.
— Até logo! — replicaram eles de pé, limpando o molho das sardinhas ao guardanapo.
— O Feliciano não tem um pouco de água para tirar este cheiro, não?
— Maria, indica o quartinho da retrete ao senhor Pirata — ordenou prontamente o taberneiro, dando de olhos à mais casadoira das suas filhas.
— Está bem, pai. Por aqui, senhor — indicou a moça, recusando o olhar atrevido do Pirata, que não parava de lhe mirar obstinadamente o magnífico par de seios.
— Até parece que estamos nos filmes de cow-boys! — exclamou o galhofeiro Zé Calhordas, empiscando ao chefe, de indicador direito dobrado e colado na jaqueta do Chico Serra.
— Eh, pá, tem lá cuidado com o pistolão! — zombou Luís Pirata, fisgando-o de soslaio.
— Menina, por favor...
— Diga, senhor Raimundo!
— Faça de conta que os tipos são mudos e não têm os cinco alqueires bem medidos.
— Ah bom! — bradou a moça, espantando o olhar, dividido entre o pai e o célebre passador de Almodena.
— É que — cochichou todo intelectual — da boca deles só saem asneiras.
— Ai é?! Nós aqui ouvimo-las muito piores todos os dias, senhor Raimundo — volveu a donzela, limpando apressadamente as mesas abandonadas pelos clientes.
— Deixe lá — acrescentou o taberneiro, mirando-o com discretos, mas ardentes olhos de sogro — que a Maria não é mulher de mostrar os dentes a um pingarelho qualquer. A Maria...
— Ela quantos anos tem, a sua Maria, Feliciano? — indagou curioso.
— A minha Maria só ainda vai fazer dezoito anos, senhor Raimundo! — murmurou orgulhoso, evitando o riso altivo do passador.
— Então... ― insinuou o Faia num ar sério, lustrando discretamente um anel do dedo, ante o olhar cúmplice do taberneiro — qualquer dia o Santo António manda-lhe por aí...
— Genros, senhor Raimundo?
— Sim, mas com os sacos cheios de..., alvíssaras, Feliciano — frisou malicioso.
— Oh, já me bateram aqui tantos malandrins!... Sabe, daqueles tipos bem falantes, emproados, todavia, não sei porquê, e para lhe ser franco, nunca nenhuma das minhas filhas, tanto a Maria como a Zélia, lhes mostrou os dentes.
— Talvez que elas vissem que eram só fedúncias de pretensiosos desarados, Feliciano!
— Se calhar...
— Pst! — cochichou Raimundo cauteloso ― vossemecê reparou como os meus rapazes olham para a sua Maria?
— Não. Você acha que os seus colegas gostam mesmo dela?
— E quem não gostaria?! A sua filha é uma senhora mulher, Feliciano!
— Qual? O da frente? Diga, diga, carago!
― O da frente não, Feliciano! Esse também até nem é mau rapaz, mas só se corresse o divórcio com a mulher e deixasse a amante que tem lá em França. Não, a sua Maria merece coisa melhor! Não, Feliciano, eu, como seu amigo, nunca lhe aconselharia o Pirata para pai dos seus netinhos!
― Credo, cruz! Deus e Santo António me livrem de um genro putanheiro ou mendicante, senhor Raimundo! — exclamou o taberneiro, benzendo-se aflito e enxugando a careca com um lenço amarrotado que tirara debaixo do balcão.
― Os outros dois sim. Eles até parecem reinadios e gostam de mandar uns piropos e dizer umas charadas, mas são muito mais trabalhadores, honestos e, sobretudo, Feliciano, esses estão habituados a apalpar aquelas notonas francesas.
— Mas qual é o melhor? O do meio?
— Oh! Esse, o Francisco Serra, é um tipo selecto, fala pouco e sabe pôr muito bem os pontos nos ís. Sabia que ele andou ali no seminário com o Tuna e o Bernardo?
— Não me diga?!
— O moço é muito sabido! Quando chegou a França, ninguém acreditava que ele fosse estudante e que tivesse emigrado para trabalhar no duro como toda a gente.
— Oh! — bradou desconfiado — então esse deve querer uma professora! Hum! até se me parece que ele não se deixará amarrar à filha de um lavrador ou de um pobre taberneiro como eu! Mas..., e o outro?!
— O Calhordas?
— Porra, o nome é que não é nada bonito, pois não, senhor Raimundo?
— Ai não? Muda-se! — adiantou prosápia.
— Mesmo? Então a gente pode mudar assim de nome?
— As vezes que quiser, Feliciano, mas o mais importante é que ele gosta tanto do Plim como o diabo de almas. O gajo até parece que tem faro para descobrir os biscatos que dão guita. O tipo, forreta, lá isso é, mas à barriga e ao cabelo...
— Ó carago, então o homem é mesmo dos meus! Assim está bem! Sabe, senhor Raimundo, eu queria para a Maria era um homem honesto, bom pai de família e trabalhador. O resto...
— Pst! Pst! que vêm aí os moinantes!
— Ah! O que vossemecês quiseram foi pentear essas guedelhas! — disse o taberneiro, sorrindo familiarmente para os fregueses.
Como eles não gostassem nada do comentário, Manuel Feliciano limpou a careca, abanou o lenço em forma de leque e mudou de assunto, indagando cansado:
— Ufa!, que estonada! Os senhores também apanham destes fretes lá por França?
— Que remédio, senhor Manuel! Ele não cai do céu, como o povo pensa — respondeu Zé Calhordas, gesticulando timidamente, incomodado pela risada do Pirata, que mirava descaradamente as pernas da Maria.
— Bom, — conciliou o chefe — talvez não seja bem assim, mas nós somos uns paus-mandados, enquanto que o Feliciano é patrão e tem quem lho venha aqui trazer todos os dias, não é?
— Sim, mas olhem que, por aqui, o comércio está muito fraco: o povo não tem dinheiro e o trabalho é pouco, excepto para os mendicantes que passam por aí os dias de costa a pino. Então do Porto nem se fala! Vossemecês já lá foram dar uma girata?
— Só chegámos ontem à noite, senhor Feliciano — declarou timidamente o padre.
— Ah, descanse que não voltarei para Macôn sem lá ir dar umas boas pinadas! — interferiu Raimundo todo sabichão, esboçando um ar de Play-Boy.
— Então vá e mire bem aquele ambiente: putas por todo o lado, chulos e moinantes é o que irão encontrar até de sobra. Essa vagabundagem, se calhar, tem a mulher e os filhotes a morrer de fome numa barraca, mas para jogar à lerpa e para montar essas desavergonhadas, essas... vacas, — frisou colérico ― arranja sempre cinquenta ou cem mil réis. Por lá também é assim?
— Oh, eu direi um pouco mais ou menos! — respondeu duvidosamente o Calhordas, consultando timidamente o chefe.
— Por favor, Raimundo, que horas são? — perguntou Francisco Serra.
— No meu Ómega... Três... O quê?! — vociferou alarmado. Ei!, vamos, malta, que as alvíssaras..., são muito bonitas quando nos pesam na carteira! Bom, até qualquer dia, Feliciano, — escusou-se inquieto, guardando o troco que o taberneiro lhe estendia distraidamente, enquanto refrescava a pronunciada calvície.
— Ouça lá, senhor Raimundo...
— Diga, Feliciano.
— Desculpe meter-me no assunto, mas, se vossemecês tencionam ir logo à noite à Pompeia, tenham cuidado! — avisou medroso, espiando o passeio de olhos arregalados.
— Então porquê? — indagou o passador.
— A Pide ronda muito por lá e ...
— Bom, não é que nós tenhamos medo, mas nesse caso talvez seja melhor... Ora deixem-me cá pensar... — acedeu ele sisudo, amparando o queixo e tentando dar as voltas ao miolão. — Você não tem por aí uma salita onde ninguém nos oiça?
— Lá no primeiro... — respondeu prontamente, apontando o indicador para o tecto.
— Então, logo à noite, vós vindes aqui ter, está bem?
— Pronto, chefe — concordaram tremulamente Chico e Zé.
— Vocês também me saíram cá uns medricas! — bradou colérico, ostentando bem todo o seu perfil fanfarrão e molestando-os, ante o olhar perplexo do Barrigana.
— Ei, Raimundo, tu também!
— Eu cá sou assim, Chico! Comigo não há fedúncias! Ou somos homens, ou então mais vale cortá-los redondos! — arguiu zangado, apalpando violentamente os testículos.
— Então qual será o sinal? — perguntou resignadamente o selecto, segurando as chaves que o passador lhe estendia amuadamente.
— Chico, enquanto eu e o Feliciano acertamos as coisas para esta noite, vai dar uma volta ao Mercado municipal com o Simca para arejar.
— Zé, Luís, vós vindes comigo? — perguntou Francisco Serra envergonhado.
— Carago, aquilo deve estar uma fornalha! — arguiu o Pirata, abanando a mão como se fosse um leque.
— Eu vou, Chico, eu vou — respondeu submisso o Zé, seguindo o colega, perante o olhar contemplativo do taberneiro e o silêncio cúmplice do Faia e do Pirata.
Na soleira da porta, o Calhordas ainda se voltou para ver se a Maria espreitava pelo postigo do balcão, mas sentindo-se espiado pelos chefes e pelo pai da donzela, virou- se rapidamente e atravessou a calçada sem controlar o trânsito.
Entretanto, Francisco pusera o bólide em marcha e abrira as janelas para soltar o braseiro infernal. Enquanto isso, o passador de Almodena e o adjunto chamaram o Feliciano para as traseiras da tasca e trocaram uns murmúrios tão confidenciais que nem os cães, se rondassem por ali, conseguiriam decifrar. Temendo a visita de algum bufo, alcunha dos indicadores da secreta portuguesa, decidiram não colocar em perigo as suas vidas, sujeitando-se ir parar ao Tarrafal, prisão de alta segurança, no arquipélago de Cabo Verde, donde, dizia-se, ninguém voltava.

Apenas saíra da tasca, Arménio, mais radiante que se tivesse acertado no totobola e embriagado pela miragem com que a ilusão lhe enchera a alma, caminhara ruela abaixo e fora comprar um pedaço de fermento, como a esposa lhe pedira, para fazer uma empadinha que comeriam no fim-de-semana de Nossa Senhora da Assunção, 15 de Agosto, assentados nalguma fraga da floresta, lá para os lados da carreira do tiro, onde os soldados iam aprender a matar turras, como a propaganda fascista apelidava os africanos que se haviam revoltado contra o poder colonial, uma década atrás.


Quando virou a esquina da rua do Calvário, onde morava desde que voltara da guerra, foi acarinhado pela filha que, avistando-o lá no fundo da calçada, desatara a correr ao seu encontro como uma desajeitada. Usando o bonito vestido florido, que a mãe lhe costurara de um monte de farrapos antigos e indiferente à brisa que lhe desnudava as pernitas, ela corria, corria pela calçada, voando feliz para os braços do pai que tanto adorava.

— Demoraste tanto, papá! - bradou desconsolada, esticando-se toda para o beijar.
— Então a mamã já aprontou o almoço, Verónica?
— A mamã ficou a temperar a salada de alface vermelha e azeitonas que o tio Rodrigo nos deu, mas botava lágrimas e soluçava. É verdade que o pai nos vai deixar outra vez aqui sozinhas, é?
— Ó filha...
— O papá não minta, porque o Nosso Senhor ralha e o seu nariz cresce como o do Pinóquio! — alertou a inocentinha.
— Mas que pergunta, Verónica! Quem te disse tamanha tolice, filha?!
— A mãe diz que, se calhar, o senhor já não gosta mais de nós...
— Mas que coisa, Verónica! Claro que eu gosto muito de vós! — exclamou comovido, enxugando os olhos mareados subitamente de lágrimas.
— Pois, mas a mãe falou que o pai queria ir embora para o estrangeiro. É longe, pai? É mau? E o pai, porque é que quer mais dinheiro? A mãe diz que o senhor se deixou iludir pela cantiga daquele Faia. O que é iludir? É pecado? - desbobinou a menina, ininterruptamente e sem pestanejar.
— O quê, filha, o quê? — perguntou distraído a olhar o horizonte.
— O que a mãe falou.
— Oh, não acredito!... A mãe disse-te mesmo isso? — inquiriu duvidoso, passando-lhe carinhosamente a mão pelos cabelos encaracolados.
— Juro-lhe que sim, papá! Eu não minto! Ora veja, se eu tenho os dentes ralos! Oh!... — exclamou séria, abrindo a boca para que o pai lhe examinasse a dentição cerrada e se certificasse que falava verdade.
— Verónica, tu bem sabes que a mãe não diz coisas que desagradem a Deus. Ela sempre te ensinou a seres boa menina, a respeitares toda a gente e a não fazer coisas que a lei da Santa Madre Igreja proíbe.
— Eu sei, papá, mas porque é que a mamã acendeu uma vela ao Nosso Senhor dos Aflitos e se ajoelhou de mãos postas, assim, vê? — e mostrou-lhe como vira fazer, — e rezou e chorou e disse a ladainha do Rosário da Nossa Senhora de Fátima? Porquê? Porquê, papá?! Eu pensava que as velas só se acendiam aos mortos, aos Santos da igreja e nos dias de trovoada para rezar à santa Bárbara.
— Talvez a mãe estivesse a rezar pela alma do avô e da avó.
— Não, não, papá! Eu ouvi muito bem, Oh com estes dois!, ela dizer: " Ó meu Deus, guiai os passos do meu Arménio e protegei-o sempre das más companhias, das perfídias do demónio e nunca o deixeis sem a Vossa divina benção. Amém! " — declamou a inocentinha, apontando os ouvidos e repetindo calmamente as palavras piosas e imitando os gestos maternais.
— Tens mesmo a certeza, Verónica?
— Pai!!! — gritou arreliada, indagando mais calma: — Então quem vai embora, morre?
— Verónica, o Pai do Céu não quer que as meninas da tua idade façam perguntas dessas. Quando fores grande, minha filha, uma mulher como a tua mãe, falaremos de tudo isso, está bem?
— Sim, papá. Vá, corra atrás de mim. Vamos ver quem bate primeiro na porta, vamos? — desafiou airosa, adiantando-se um pouco e aprontando-se para lhe fugir.
— Oh, não vale a pena tentar, Verónica, tu ganhas-me sempre! E depois, olha bem: não vês como eu sou muito mais gordo e mais pesado que tu? Coitado, se eu desatasse agora a correr atrás de ti, não teria fôlego para comer, filha. Não, agora não!
— Vem, pai, vem! Um..., dois...,três! — contou ela lentamente, desatando a correr sem olhar para trás e rindo como uma perdidinha.
Satisfazendo-lhe o capricho, Arménio fingiu ter as maiores dificuldades para a acompanhar, gemendo e tossindo, porém, para que ela não o desafiasse mais, daquela vez não a deixou ganhar.
— Ah, nem perdi nem ganhei! — exclamou orgulhosamente o pai ofegante.
— Para a próxima, — afiançou a filha arreliada — nem me vai pôr os olhos em cima! Vai ver que nunca mais me engana, papá, o senhor vai ver!...
O pai sorriu apenas e lançou para a sua casa um olhar feliz.

Na janela granítica, a Norina fitava-os de retinas plangentes. As lágrimas irreverentes teimavam em deixar-lhe no rosto fino o rasto da aflitiva superstição que tanto a afligia. O seu coração atribulado ameaçava catapultá-la para os abismos da desolação; a perspectiva da solidão, as crendices e os medos atormentavam e dilaceravam-lhe as veias por onde circulava toda a sua Fé e todo o seu Amor, mas por onde ecoavam também as agoirentas palpitações.



II 


No turbilhão daquela paixão imensa, havia uma voz que lhe dilacerava a alma e lhe repetia sem cessar que, no dia em que o Arménio atraiçoasse o seu amor ou a largasse, abrir-se-ia diante dela um abismo de infelicidade e tristeza, onde ela mergulharia irremediavelmente. Sentindo-a tão mortificada, o marido implorou-lhe condoído:
— Deixa para lá essas babosices, Norina!
— Oh!... — resmungou decepcionada, sacudindo a mão piedosa que o marido lhe passava no rosto avermelhado.não usava, mas que, tão prezadas, ninguém diria que haviam sido estreadas...





continua no 2º capítulo !


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