domingo, 18 de maio de 2008

Caminhos de Ilusão: Capítulo II


CAPÍTULO II



No turbilhão daquela paixão imensa, havia uma voz que lhe dilacerava a alma e lhe repetia sem cessar que, no dia em que o Arménio atraiçoasse o seu amor ou a largasse, abrir-se-ia diante dela um abismo de infelicidade e tristeza, onde ela mergulharia irremediavelmente. Sentindo-a tão mortificada, o marido implorou-lhe condoído:
— Deixa para lá essas babosices, Norina!
— Oh!... — resmungou decepcionada, sacudindo a mão piedosa que o marido lhe passava no rosto avermelhado.
— Mas porque é que teimas em acreditar nessa desgraçada ladainha? Porquê, Norina, porquê? Tu não sabes que as bruxarias são contra a lei de Deus? Olha que o demónio não precisa que a gente se lembre dele! Vá, atira lá essas ideias para trás do Marão e tem fé em Deus. Olha..., eu falei com o Raimundo. Estive também com três emigrantes que trabalham com ele em França. Eles dizem que agora, que já conhecem o caminho, não há perigo e que, em três anos, se aproveitar bem os biscatos que fazem a negro, poderei ganhar para as dívidas e para fazermos uma vivenda no nosso prédio da Timpeira. Tu sabes quanto é que eles arrecadam por mês? Vá, imagina lá! ― sugeriu animado, fazendo vibrar a voz de emoção, depois do longo monólogo.
A esposa permaneceu muda, soluçando e enxugando as lágrimas ardentes que jorravam das suas órbitas alucinadas. Vendo que a mãe já tinha a ponta do avental encharcada, Verónica foi buscar-lhe a toalha do rosto e estendeu-lha nas mãos. Chateado pelo silêncio absurdo da mulher, o Arménio repetiu-lhe:
— Imagina lá quanto é que eles poupam por mês?
— Que me importam as ganâncias, as riquezas e os palácios dos outros? Se eu quisesse ser rica, nunca teria casado contigo — replicou-lhe energicamente a esposa. — Porventura, tu também já alguma vez imaginaste quantos filhos de lavradores abastados, quantos homens afortunados me foram pedir em casamento? Ai, homem, parece que a léria do faroleiro conta mais para ti do que o amor...
— Cala-te, Norina, cala-te que me enervas! — gritou zangado, abafando a voz.
— Ai, Arménio, se soubesses como a ganância é a perdição das almas! Estou mesmo a adivinhar que vou passar o resto da minha vida sozinha. A cigana bem mo disse...
— Mas que te disse a cigana, Norina? Que te disse a maldita da cigana?! Vá!, basta, basta de choraminguices! — berrou o marido exaltadíssimo, tomando as rédeas à cólera.
— Eu sei, Arménio, eu sei...
— Oh!... Mas tu sabes o quê?
— Vai, — prosseguiu a esposa corajosa, num tom zombador — vai bem depressa com o Faia e a súcia dele e arranja também por lá as amantes que quiseres, porque, pelo que vejo, o amor da mulher e da filha já ardeu...
— Cala a boca! Acabou-se, Norina! Nem mais uma palavra! Ouviste? — ditou furioso.
— Eu sei que tu andas aborrecido por a vida não te correr muito bem, mas, por amor de Deus, não decidas nada hoje que é Sexta-feira-13!
— E lá voltas tu outra vez com o bruxedo, Norina!... Olha que o diabo não dorme! Porque é que te lembras tanto dele?
—Pronto, seja o que o destino quiser! — balbuciou resignada, soluçando lacrimosa.
E aquela violenta altercação acabou por lhes recocar o almoço e lhes tirar a fome. Sentado à mesa, Arménio abafou aquela tempestade demoníaca num silêncio sagrado. As garfadas, que levava maquinalmente à boca, mais pareciam o rito funesto, de quem está farto de viver, do que a necessidade vital, de quem parecia decidido a virar céu e terra para realizar o maior sonho da vida.
Verónica, furtando-se mentalmente àquele patético diferendo, imitava religiosamente a postura paternal, não se esquecendo de lançar amiúde os seus olhitos compassivos à mãe. Resfriada a demência, Norina postou-se debaixo da padieira da janela, encheu-se de coragem e, mirando o horizonte nublado, murmurou a medo:
— Tu bem podias dar a resposta ao Faia amanhã, não?
— Sinceramente, mulher, não sei como vós, tão beatas, podeis acreditar e dar tanta importância à lengalenga dessas lambisgóias ciganas!
— Arménio, tu bem sabes que eu nunca fui à bruxa, mas desde aquele dia em que, por gozo, quando namorávamos, deixaste ler a sina à cigana...
— Que raio de trapaça nos disse a cigana, que já nem me lembro?!
— Vê lá se te recordas...
— Ah, Norina, depois desse dia, se tu soubesses pelo que assei em Angola! Aliás, só Deus deve saber como e porque escapei de tal inferno! Por isso..., pior do que isso, não acredito que me poderá voltar a acontecer, mulher...
— Eu sei que tu, a adivinhar pelas frequentes insónias dos primeiros meses, deves ter passado uns maus bocados na guerra, mas vê lá se não é verdade que a cigana nos afiançou que nos casaríamos, que teríamos apenas uma menina, mas que tu só a verias e ouvirias pela primeira vez, quando ela andasse pelo seu próprio pé?! E tu que lhe fizeste? Riste-te dela, não foi?
— Realmente...
— Mais, em Lisboa, quando te fomos esperar à descida do avião, no aeroporto, quem é que não parava de te gritar papá-papá e te acenava ao longe, sem que tu te mexesses, porque nem desconfiavas que pudesses ser tu o pai dessa menina, quem?
— Sim, mas isso não quer dizer nada - desculpou-se prontamente o incrédulo.
— Está bem, homem, eu sei que tu ligas pouco ou nada ao que te digo, mas...
— Mas quê?! Vá, e que mais nos disse a cigana? Caramba, Norina, tu que vais todos os domingos à missa, não sabes que é pecado acreditar nas bruxas?
— Então quer dizer que se te acontecer alguma...
— Não, Norina, não quero que te sintas culpada de nada. Mas olha, por essa ordem de ideias, estou quite com as bruxas e com as ciganas, porque eu tomei a decisão de me ir embora num domingo de novena, na igreja de Nossa Senhora de Almodena. Por isso, está descansada que quando eu me for, um coro de anjos me acompanhará, mulher.
— Não, enganas-te, Arménio! Os anjos não podem acompanhar os gananciosos que põem a alma no dinheiro!
— Olha..., então que me acompanhe ou me leve o diabo!
— Ai, meu Deus, que blasfémia! — gritou atónita, benzendo-se aterrorizada pelo olhar tresloucado do marido.
— Norina..., que vida será a nossa, Norina?! Tu pensas que é com este salário de miséria que algum dia conseguiremos ter uma casa? Eu não sou muito de andar a bater todos os dias no peito e a papar hóstias, mas sei muito bem que o destino somos nós que o fazemos. Mais, ele depende só de nós... O que as bruxas querem é ganhar guita...
— Não é nada o destino, homem, é o desígnio de Deus e Ele nunca abandona quem O adora e anda na Sua graça, ouviste?
— Como estás enganada, mulher! Tu pensas que é a deitar água benta na cabeça ou a bater no peito é que se ganha a vida, é? Já te esqueceste da miséria que viste em Lisboa, quando foste à Brandoa? Diz, queres vir comigo para lá e viver numa daquelas barracas e passar a vida a cheirar aquela pestilência, queres? Ah, Norina, Norina!!!
— Mas que vai ser de nós, Arménio? — inquiriu aflita, olhando para o quarto, onde a filha se refugiara e tirava serenamente o cochilo da sesta.
— Quererás, porventura, ir a monte comigo e os outros desgraçados e ficar pelo caminho, sob as manápulas ou a alçada de algum desses filhos-da-puta da pide? Calma, mulher, calma, que o teu dia também há-de chegar! No Natal, venho cá buscar-te de táxi, se for preciso. Lá sozinho é que eu não o passarei — assegurou Arménio, convicto.
— Se calhar! — murmurou a esposa, duvidosa, limpando os olhos e assoando-se.
E, comovido pelos seus soluços, o marido não lhe disse mais nada. Soltando as rédeas aos sonhos impertinentes, ele pôs um ponto final àquela maldita conversa, dizendo-se que já tivera mais arrelias naquele dia do que em sete anos e meio de casado.
Depois de arrumar a cozinha, Norina foi deitar-se junto da filha para descansar um pouco e aliviar a tremenda dor de cabeça que sentia. Aproveitando a tarde, Arménio pegou na bicicleta foi à aldeia natal da esposa, Almodena, para falar com o tio Rodrigo Valadares, irmão do falecido sogro, herói da Primeira Guerra Mundial.
De retorno a casa, pelo pôr do Sol, deu com os olhos no carro do Faia parado à frente da porta. A esposa e a filha guardavam os arrufos das panelas, onde cozinhavam a ceia.
— Ofereceste de beber ao Raimundo, Norina? — perguntou animado, sorrindo meigo.
— Ele disse que deixava aqui o carro à sombra e que se, entretanto, não voltasse, te fosses encontrar com ele e os sócios à tasca do Feliciano e não à Pompeia como estava combinado. Também me falou que era mais seguro. Porquê, Arménio? Tu vê lá no que te metes, homem, que eu não estou a gostar nada desses mistérios!
— Porquê?! Sei lá! Talvez porque são amigos do taberneiro, porque...
— Tu sabes...
— Juro-te que não. E a que horas?
— Agora, depois do pôr do Sol. Ah!… — acrescentou algo inquieta — também me disse que ficasses ali por perto e esperasses que a Maria do Feliciano viesse à porta ou se acendesse a luz no primeiro andar. Coisas estranhas, Arménio! Tu toma cuidado, homem, vê lá no que te metes! Olha que eu ouvi dizer que a polícia tem matado muitos na raia de Espanha e por esse Portugal abaixo. Tu vê lá, olha que o Faia não é como se pinta! O Faia...
— O Faia é um homem que sabe muito da vida, Norina. Bom, são horas. Ceamos agora ou depois? — perguntou indeciso, mirando o vermelhão escuro do Sol poente.
— A ceia está pronta, mas seria melhor ires falar primeiro com ele, antes que se faça tarde de mais. Enquanto isso, eu e a Verónica aproveitamos para rezar o terço.
— Então rezem uma dezena por mim — rogou pioso, empiscando à herdeira séria.


Temendo qualquer cilada da polícia secreta, o vila-realense desceu a calçada do Calvário, contornou o S. Pedro pela rua Direita, dobrou a esquina da Pompeia e, subindo a avenida Carvalho Araújo, fumou um cigarro para disfarçar o medo, atordoada pela algazarra infernal dos seminaristas que, estando na hora do recreio, brincavam debaixo das ancestrais tílias. O sol ia-se escondendo por detrás do Marão.

De longe, avistou a Maria na soleira da tasca, mirando para baixo e para cima. Pouco depois, viu a luz que se acendeu lá no primeiro andar da taverna do Barrigana. Enquanto apagava a prisca no muro da praça do mercado, ele viu o Raimundo entrar e, olhando à sua volta, lá lhe seguiu descontraidamente as pegadas.
Os empregados municipais limpavam os arredores; nos cafés havia quem tomasse a sua bica diante do ecrã preto e branco da televisão; as camionetas do Cabanelas recolhiam à garagem e uns transeuntes descontraídos saboreavam as delícias do fim-de-semana antecipado, ao passo que outros procuravam desesperadamente a última boleia que os levasse para a terra, enquanto, nos bastidores da liberdade perdida, os cães-de-guarda do regime colonial armavam pacientemente as suas ignominiosas patranhas, ignorando os gritos e as súplicas, de quem sofreria a cobarde tortura.

A contestação à guerra no Ultramar ganhara outra dimensão, desde que os primeiros cadáveres dos filhos do povo haviam sido repatriados entre quatro tábuas, deixando as aldeias transmontanas, sobre quem se abatera tal desgraça, em estado de choque. A ditadura, cochichava-se, tinha os dias contados, mas o povo havia perdido a esperança e já não acreditava mais na restauração da Liberdade que nunca chegara a gozar verdadeiramente, porque, depois do Ultimato inglês, do regicídio e das campanhas do Corpo Expedicionário Português pelos campos de La Lys em França, duas gerações viviam sob a lei da rolha e do “ não sei, não vi e não fiz nada ”, que o orgulhoso e solitário Salazar tanto adorava. Os conselheiros do regime fascista, sabendo o povinho resignado, até se deram ao luxo de aconselhar ao Presidente do Conselho de Ministros, que as Conversas em Família na televisão muito popularizaram, uma apoteótica digressão por Trás-os-Montes, a Província adormecida. Isolado internacionalmente, Portugal caminhava fatalmente para o colapso.

No sábado, Arménio, que as vicissitudes da existência tinham transformado em pedreiro, carpinteiro, cobrador do Cabanelas e em electricista, desde que regressara de Angola, decidiu recuperar as poucas economias, que benevolamente emprestara a uns conhecidos, a quem pior sorte batera à porta, mas esses créditos, caídos em saco roto, não lhe puderam valer naquela aflitosa ocasião. O seu coração angustiado lembrou-se então do senhor Morgado, que possuía uma quinta para os lados de Lordelo, e, enchendo-se de coragem, lá decidiu ir bater-lhe à porta, porque o orgulho o impedia de aceitar a ajuda do tio Rodrigo de Almodena.
Homem idoso, de sobrancelhas espessas e malhadas de ruças, o senhor Elísio Morgado não tinha herdeiros e vivia desafogadamente das suas terras com a esposa, a dona Alzira Macedo; homem abastado e algo generoso, muito dedicado à confraria de S. Vicente de Paula, não havia na cidade quem não o conhecesse e lhe tirasse o chapéu; a natural bonomia do seu rosto sorridente fazia dele um homem influente e respeitado.
A entrada da quinta ficava no atalho para Lordelo. Falando com os seus botões, Arménio lá ia estudando a maneira de lhe pedir ajuda. Apenas bateu à porta, foi saudado pelo latir furioso do cão e, amedrontado, aguardou atrás da cancela a chegada do patrão, apesar do bicho estar preso: é que, desde que fora mordido por um, ficara com muito medo dos cães.
Depois de uma palestra à sombra dos morangueiros, cuja ramada cobria e refrescava a área do tanque, o velhote prometeu ajudá-lo, mas, antes que partisse, pediu-lhe que acabasse de esvaziar o pulverizador de sulfato nos bardos dos geios do fundo da quinta, lá onde os pedregulhos mais lhe dificultavam a marcha. Enquanto que o moço lhe vaporizou as videiras, o senhor Morgado, assentou-se no cadeirão de vime a falar com a mulher. Ainda conversavam à sombra, quando o Arménio regressou de pulverizador vazio. Lavado o bombo, bebeu um copo de morangueiro bem fresquinho e regressou ao Calvário mais aliviado: o velhote emprestava-lhe os cinco contos para dar o pulo.

Domingo, depois da missa no S. Pedro, deixando a esposa a aprontar o almoço, lá voltou ele de bicicleta à quinta de Lordelo acabar de sulfatar os geios que faltavam. Animado pela ilusão, o electricista não se cansava de ver os sonhos espelhados nos cachos. Palmilhando videiras, pedras e terrões, tropeçando aqui e ali nos calhaus que as trovoadas haviam desnudado, esqueceu-se do relógio, das horas e do suor que lhe corria entre a pele morena e a camisa desbotada, arrebatado pela eufórica e vagabunda imaginação. Caindo das nuvens, soltou um uf! abafado, passando as costas das mãos pela testa franzida, .
“ Mas que forno, Santo Deus! ” — bufou para dentro no meio da parra.
Lá no seu mirante, Elísio Morgado espiava e matutava, protegido pelas abas de um chapéu mexicano, enquanto a mulher lhe aprontava um frugal cozido à portuguesa, o prato da sua predilecção. Pelos tempos árduos que corriam, não havia favores que não se pagassem a dobrar e Arménio sabia-o muito bem. Afinal, a tarefa, inicialmente prevista para findar à uma da tarde, só acabou depois das três, em plena hora da sesta. O patrão, talvez empanturrado pelo chouriço, ressonava ruidosamente, quando o electricista lhe tocou no braço para se despedir. Mirando-o sonolento pelos olhos corcundas e soltando um arroto, o velhote opinou cambaleante:
— E se te deixasses da França, Arménio? Olha que a saudade é muito dura, rapaz!
— Senhor Morgado, eu...
— Como sabes, nós não temos filhos e, além disso, eu poderia ainda pagar-te uma renda no fim das colheitas — explicou filosofal.
— Eu agradeço-lhe muito, senhor Elísio, mas já tenho tudo acertado para me ir embora. Se, porventura, não me der com aqueles ares, então poderemos voltar a falar.
— Pronto, Arménio, vai em paz que eu cá estarei para o prometido. Sabes, eu tenho uns cobres no banco a juros, mas há um azeiteiro de Murça que deve vir, ainda esta tarde, pagar-me uma letra e, essa, será para ti.
— Obrigado, senhor Morgado — agradeceu o moço, acenando jovial.
— Espera aí. A minha Alzira tem ali um queijo para te dar — avisou Morgado, atirando o chapéu de palha para cima da esteira.
Depois de meter o embrulho entre a coiro e a camisa, despediu-se do benfeitor, encaminhando-se para a porta. Passando junto da casota do cão adormecido, leu cave canem num pedaço de madeira e desatou a correr até ao portão, temendo que o animal rebentasse o cadeado enferrujado e lhe cravasse os dentes no tendão de Aquiles.
No Calvário, a Verónica dava largas à sua fantasia, animando as bonecas e a mãe, debruçada na janela, fitava impacientemente os paralelos da calçada, procurando descortinar a bicicleta no meio da rua, enquanto o borralho da lareira ia requentando o almoço. Mal ouviu o marido tilintar, Norina ordenou à filha que se sentasse à mesa. Obedecendo lesta, a menina colocou-se no seu lugar e começou logo a esbotenar uma côdea de pão de centeio. O rangido da porta atraiu-lhe o olhar.
— O papá que traz aí embrulhado no lenço? — perguntou curiosa, arregalando as órbitas e estendendo as mãozitas.
— Um presente da D. Alzira do senhor Elísio Morgado, filha! — respondeu-lhe feliz.
— É bom? É de comer?
— Sim, mas, para agora, temos este delicioso almoço que a mamã cozinhou com tanto esmero. Trago cá um larote, Norina! — exclamou ofegante, bufando ruidosamente.
Insensível ao sorriso cansado do marido, Norina pousou a panela sobre a mesa de pinho, serviu a filha e foi logo limpar o queijo a um pedaço de papel de embrulho, para o pôr a secar na mosquiteira que pendia do tecto. Bonito como era, aquele iria certamente conhecer terras de França, no saco da merenda do Arménio, se algum guarda não lho larapinasse na fronteira.

E os dias sucederam-se melancólica e tristemente. À medida que a hora do adeus se abeirava inelutavelmente do segundo fatídico, a alma de Norina, apesar das preces fervorosas que diariamente elevava ao Todo-Poderoso, tornava-se nervosa e abúlica. Desde aquela maldita sexta-feira 13, em que o marido lhe dissera que iria para o estrangeiro com o Faia, esse falsarrão que tanto lhe moera a cabeça para que namorasse com ele e a quem ela sempre dera com os pés, chegando mesmo a mostrar-lhe os cinco mandamentos num quinchoso de Almodena, o rosto escoava-se de sangue e o coração paralisava-se, ameaçando estancar de vez a tão atarefada rotina vital. Sempre que recordava as funestas horas de pavor, de quando o Arménio andava na guerra, e a maldita sina da cigana, que tanto lhe assisava e infernizava a cabeça, benzia-se, mas o demónio não lhe dava tréguas. Ora resignada, ora revoltada no meio das suas rezas, até chegou a duvidar da eficácia de tais preces, perguntando-se se, porventura, não seria a sua uma daquelas almas que Deus lança, de vez em quando, ao mundo para sofrer. Inocente, Verónica só se lembrava do estrangeiro quando a via chorar. No seu coração puro e na sua cabeça sonhadora, a dor e a saudade não haviam ainda assentado arraiais. Ah, como a mãe gostaria de ser criança, naquelas horas!

Caso não surgissem contratempos, o passador tencionava pôr o vila-realense em França nos primeiros dias de Setembro, talvez numa segunda ou terça-feira, aproveitando a quebra de vigilância dos guardas fronteiriços, para quem o início da semana, depois dos arraiais das romarias daquela época do ano, servia para recobrar o sono perdido com os bailaricos e as comezainas.
Entretanto, o burburinho popular fazia circular notícias horríveis: falava-se de mortes e tiroteios perto da raia de Espanha; de prisões arbitrárias e torturas da Pide, além de inúmeras deserções de jovens comunistas que recusavam peremptoriamente ser carne para canhão em África e ir defender os latifúndios dos abutres do regime fascista. Todos estes rumores só vieram, infelizmente, reconfortar os mórbidos pressentimentos de uma mulher cansada de viver com o coração nas mãos e o credo na boca. É que, primeiro, adolescente ainda, Norina perdera os seus pais, ficando sozinha no mundo com o tio Rodrigo, que a criou e a amparou até que se casou com o Arménio; depois, já grávida de sete meses, tivera que se conformar com a partida do marido para Angola, quando ninguém já pensava que ele fosse incorporado, e agora, que a felicidade começava a dar outra cor à sua vida sacrificada, surgia essa tenebrosa ideia do estrangeiro a separá-los novamente e a lançá-la nas garras da solidão.
As predições da cigana falavam de falsidade, de traição e de morte. De quem? Quando? Onde? Como? Porquê? Ah, se ela tivesse o condão de ver e impedir essas desgraças! Por vezes, nas suas conversas com Deus, indignava-se e até fazia chantagem, dizendo-Lhe que se Ele não lhe protegesse a família, até poderia perder a fé e tornar-se a mais pecadora das mulheres da cidade. Depois, surgia o temor e o remorso de ter engendrado tais pensamentos, e corria a confessar os pecados e as iras demoníacas ao padre, pedindo mil vezes perdão ao Senhor e penitenciando-se humildemente como uma cristã que era.
Desencantados os cinco contos de réis para Raimundo o pôr em França e para as primeiras despesas, Arménio fora inúmeras vezes ao terreno da Timpeira, onde se demorava e perdia em ilusórias contemplações. Eufórico, alimentava em segredo o sonho de uma vida cor-de-rosa, numa vivenda com as comodidades que ele vira na de muitos senhores, a quem fizera a instalação eléctrica. Altruísta, só pensava em livrar Norina, a sua princesa, das tarefas agrestes, que ela executava resignadamente, como se tal fosse o destino dela. Não, ele, Arménio Sala, ainda faria inveja aos brasileiros da família e aos manda-chuva da cidade, construindo ali, no prédio da Timpeira a vivenda mais bonita de Vila Real, se Santo António o ajudasse. Agora que a Verónica estava a entrar para a escola e a ficar mocinha, a esposa teria com quem conversar e passar as longas e frias noites de Inverno. Afinal, se tudo corresse como esperava, elas nunca iriam para o estrangeiro, porque, lá fora, ele aproveitaria bem todos os biscatos que lhe aparecessem e trabalharia dia e noite para que o coração das mulheres que mais amava não viessem a conhecer a saudade que, certamente, o seu iria sentir, quando, longe delas, tivesse que lavar, passar e cozinhar sozinho, coisas a que nunca fora habituado, mas a força do sonho que trazia consigo era tal que se julgava indestrutível. Assim hipnotizado, na sua cabeça não havia lugar para as doenças e os caprichos do destino. Nos longos e complacentes monólogos com a própria ilusão, o transmontano também se dizia que a guerra o vacinara para a vida e, a julgar pelos factos, teria toda a razão quem afrontara tantos dias de tiroteio em África e correra as sete artes sem nunca sofrer a mínima beliscadura: é que as seringas e as injecções que lhe haviam espetado nos braços e nas espáduas tinham sido tantas que não precisaria de mais nenhuma.

Naqueles últimos dias de espera, sempre que passava junto da estátua do Carvalho Araújo, o vigoroso conterrâneo que se imortalizara ao leme do seu navio durante a Primeira Guerra Mundial, olhava-o de olhos bem arregalados e dizia-lhe: " tu roubaste a glória ao Diogo, mas cuida-te, que o Arménio, se calhar, ainda te vai pagar com a mesma moeda. "
Diogo Cão, que escrevera o seu nome ilustre nas páginas da nossa Gesta Marítima, levando o nome e o padrão de Portugal até à foz do rio Zaire, ao desafiar e vencer heroicamente o fantasmagórico Adamastor e outros monstros marinhos, era filho de um nobre da cidade de Vila Real que permanecera fiel ao Mestre de Avis, o futuro rei D. João I, na crise de 1385. Uma lápide assinala, ainda hoje, na principal avenida da capital transmontana, os quatro muros graníticos onde o imortal navegador vira a luz do dia, no primeiro quartel do século XV, o das descobertas lusitanas, aquele que, graças à bravura dos nossos marinheiros, daria a conhecer à Humanidade as verdadeiras fronteiras da Terra.

Arménio chegou a desanimar e a perguntar-se se valia a pena dar o pulo, mas logo surgia a imagem da vivenda a marear-lhe a razão, projectando-o para o mundo fantástico onde se refugiava e resistia à realidade daqueles tempos miseráveis e às crendices da esposa. Agora, que a trouxa estava feita, queria passar as últimas horas a convencê-la de que, se tudo corresse como esperava, e correria, se Deus quisesse, já festejariam o próximo Natal um pouco melhor e, quem sabe?, até justariam as fundações da vivenda. Verónica, essa, só pensava nos baloiços, enquanto a mãe, esquecendo os maus presságios que ecoavam no seu coração, deixava escapar um sorriso tímido e rezava para que nada de mal acontecesse ao homem que tanto amava e a quem jurara fidelidade eterna. Se Deus era realmente Bom e Justo, como ela sempre ouvira dizer aos seus pais, a felicidade reinaria no seu lar até ao dia da sua morte, mesmo que para tal tivesse que conhecer a amargura e a tristeza do desditoso Vale de Lágrimas, que ela e a Verónica declamavam diariamente na Salve-Rainha, depois de rezarem o terço.
Enquanto Norina via surgir a última semana de Agosto como um ladrão na noite, Arménio tinha a sensação de ter parado no tempo. Antes, com a azáfama e a miséria quotidianas, os dias passavam-se que nem um relâmpago, porém agora, que estava à beirinha de realizar o seu sonho, os ponteiros do relógio estancavam-nos obstinadamente, para que a madrugada da partida não chegasse jamais e assim evitasse cumprir o destino que a cigana agoureira lhe lera nas linhas da mão.

No último domingo que passariam juntos, dia 29 de Agosto, eles teriam, decerto, mais um convidado à mesa: o tio Rodrigo de Almodena, o patriarca da família que, apesar de se saber com os dias contados por causa de um tumor maligno, queria sossegar e encorajar a sobrinha. Os primeiros dias de Setembro seriam muito duros para aquele coração martirizado, mas com a graça de Deus, o marido, que era forte e corajoso, também haveria de ir e de voltar são e salvo, como tantos outros transmontanos que tinham engrossado as fileiras da diáspora lusitana, provando que, de facto, como dizia o eloquente padre António Vieira, os portugueses só têm palmo de terra para nascer, mas precisam do mundo inteiro para viver.
Naquele santo dia, Verónica acenderia uma vela a S. Cristóvão, padroeiro dos viajantes e levaria o seu vestido mais bonito à missa. Toda catita nos bicos dos pés, ela mirou-se ao espelho da cozinha e, incomodada, gritou aborrecida:
— Mãe, as minhas tranças fazem-me cócegas nas costas.
— Queres que tas corte pelos ombros?
— Isso não, mãe, isso não! - recusou peremptória.
— Parece-me que bateram à porta. Vai ver, filha — disse Norina de pregador entre os dentes, enrolando o poupo negro.
Obedecendo sem hesitar, a menina correu ligeira e, forçando a mãozeira, abriu.
— Tio Rodrigo!
— Estás muito linda, Verónica! — exclamou o velhote, amparando-se na bengala.
— O tio madrugou — adiantou a sobrinha risonha, beijando-lhe ternamente o rosto moreno e consultando o relógio que estava fixado na parede da sala.
— Antes de alimentar o corpo é preciso dar de comer à alma, filha! — notou pioso.
— O Arménio foi buscar uma encomenda, mas deve estar a chegar, pois hoje vamos todos à missa ao S. Pedro e, como ele ainda tem que se confessar, antes de comungar... — disse a sobrinha, arrastando uma cadeira.
— Isso mesmo, filha, o que conta é andar com Deus — apoiou o velhote, queixando-se e sentando-se dificilmente na cadeira.
— O meu pai já lá vem, tio Rodrigo! — exultou a menina, espreitando para a calçada.
— Mas que bonita, Verónica! — exclamou o pai mimalheiro, descendo ofegante da bicicleta e baixando-se para que ela lhe beijasse o rosto. — Oh! O senhor aqui?!... Se o tio me tivesse dito que queria vir aqui à missa, eu teria pedido...
— Como apanhei uma boleia, decidi vir mais cedo e assistir convosco à santa missa no S. Pedro, Arménio — esclareceu o patriarca.
— E, vós, já estais prontas, Norina?
— Arménio, vai andando com a Verónica que eu lá descerei com o tio Rodrigo — respondeu a esposa, ajeitando os bordados que cobriam os móveis da sala de jantar.
Acenando ao velhote, o pai deu a mão à filha e foi-se embora, saudando os vizinhos e conhecidos que cruzaram na rua. No S. Pedro, os sinos da torre repicavam as badaladas da entrada, quando mergulhavam o dedo na pia da água benta. Depois de se benzer, Arménio largou a filha no banco e foi ajoelhar-se no estrado para diante confessor.
Os acólitos tilintavam as campainhas, quando a esposa, segurando o tio pelo braço, se sentou no banco ao lado da Verónica, que, de mãos erguidas, espiava o confessionário. O cónego, de paramentos verdes-amarelos, pronunciava orate frates, quando, aliviado pela sagrada confissão, Arménio ocupou o seu lugar junto da família com um sorriso nos olhos. Purificada, a consciência revestira-se de uma armadura invisível para o comum dos mortais, mas que, inexplicavelmente, ele apalpava e sentia profundamente.
No fim da missa, como paroquiano fiel, despediu-se do pároco, que o abençoou e lhe desejou muita sorte por terras de França, perante o semblante pálido da esposa. A filha, toda catita, agarrara-se ao pai e beijava-lhe a mão esquerda, apesar dos minuetes que a mãe lhe fazia nas costas do marido, envergonhada pelas traquinices que ela fazia diante do eclesiástico.
No Calvário, a sensatez do tio Rodrigo dissipou os nublosos pressentimentos que a sobrinha continuava a guardar religiosamente no coração e lhe roubavam ao olhos aquele brilho encantador que seduzia quem nele se demorasse. Esbelta e reservada, mas enérgica quando era preciso, Norina exercia um fascínio natural sobre quantos, pelas contingências da vida e da devoção a cruzavam. Com o simples diploma da 4ª classe, a sobrinha do senhor Rodrigo Valadares de Almodena herdara da mãe a singeleza e a nobreza da simplicidade que desarma os corações mais arrogantes e conquistava os que acreditam na perfeita igualdade dos filhos de Deus. Não admira, pois que , o marido lhe confiasse cegamente o governo da casa e se preocupasse , pensando apenas em fazer horas para lhe trazer um salário digno, com que ela fazia autênticos milagres. Sóbria e poupada, Norina sentia-se uma privilegiada, no meio da miséria popular.
Conhecendo-a como ninguém, Arménio partiria tranquilo e confiante...



continua em Capítulo III


LMP - Luxembourg 1984 - Lud Macmartinson

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