Lady

domingo, 18 de maio de 2008

Caminhos de Ilusão: Capítulo III


CAPÍTULO III




Depois dos festejos em honra de Santa Bárbara em Fiolhoso, uma das maiores freguesias do concelho de Murça, que anualmente se realizavam no terceiro domingo de Agosto, o passador, conversando com os últimos emigrantes a chegar para férias, soube que ultimamente a polícia andava mais atarefada a colmatar a fuga dos refractários que a dos zés do pulo, e decidiu ir pôr o Arménio em França na primeira carrada, logo no início do mês de Setembro. Os três candidatos à viagem há muito que dormiam de atalaia.
Na madrugada de 1 de Setembro, quarta-feira, o vila-realense estava elevado no sono, quando foi estremecido pelos sussurros sorrateiros que, postados no buraco da fechadura, ecoaram pela cozinha adormecida.
Tocando nas costas da mulher, murmurou baixinho:
— Norina! Já dormes, Norina? Ei! parece que é o Raimundo. Levanta-te!
— O Raimundo?! Não, Arménio, é o diabo que nos bate à porta! — sussurrou a esposa
— Psch, fala baixo que ele pode ouvir! — implorou o marido amedrontado.
— Perdão e que Deus te guie, meu amor! — choramingou ela, beijando-o e abraçando-o desesperadamente.
Saltando lesto da cama, o vila-realense enfiou apressadamente as calças de ganga e, abeirando-se da porta, perguntou roufenho:
— És tu, Raimundo?
— Sim, apronta-te, que vamos esta noite, Arménio! — segredou o passador.
— Como vês, a mochila já ali está — respondeu orgulhoso, abrindo-lhe a porta e apontando para a trouxa que jazia no canto da cozinha.
— Desculpa acordar-te a estas horas, mas temos que ir.
— Matamos o bicho, Raimundo?
— Não, mas se a Norina nos fizesse rapidamente um cafezinho...
— Ora essa, Raimundo, claro que faz! Norina! — chamou eufórico, voltando-se para a mulher que saía do quarto a esconder como podia a aflição que fazia pular o seu coração contrito.
— Boa-noite, Raimundo! — saudou resignada, evitando o olhar do antigo pretendente.
Enquanto os homens miravam a trouxa e o saco da merenda, ela, cerrando os dentes, estancou a tristeza que trazia na alma e, erguendo os olhos ao tecto, pediu a Deus que lhe secasse todas as lágrimas, que porventura ainda lhe restassem, para não desfalecer e se humilhar diante do pretensioso e arrogante Faia. E, pegando na cafeteira de alumínio, espevitou maquinalmente o borralho, acendendo o lume para aprontar o café, enquanto que, deitada no colchão de palha da sua caminha de ferro esmaltado, a Verónica dormia profundamente.
Depois de beberem a malga do café e mastigarem umas torradas de manteiga, o passador mirou presunçosamente a mulher dos seus sonhos de soslaio, carregou a mochila do colega, desceu a guardá-la no cofre do Simca e, lançando àquela casa pesarosa um olhar cínico, foi alapar-se ao volante.
Na lareira, livre do antipático e constrangedor Raimundo Faia, de lenço amarrotado nas mãos, Norina esperou que o marido beijasse a filhinha adormecida e agarrou-se-lhe desesperadamente ao pescoço, implorando lacrimosa:
— Por amor de Deus, perdoa-me todo o mal que te fiz, Arménio! Por favor, perdoa!
— Eu sei que tu tens andado muito aflita, Norina, mas, aconteça o que acontecer, peço-te que cuides da nossa menina e nunca te esqueça que tu foste e serás o único amor da minha vida - balbuciou comovido, cerrando-a bem contra o peito arquejante e amassando-lhe inadvertidamente os seios amorfos.
— Vai, Arménio, vai e lembra-te que fui, sou e serei só tua para sempre! Que os anjos do Céu te guardem de todos os perigos e das tentações do demónio, meu amor!
— Ó meu Deus, se tu soubesses como te amo, Norina! — exclamou o marido, beijando-a profundamente na boca.
— Eu também, Arménio, eu também te amo muito! Mas vê lá onde e com quem te metes. Toma cuidado, homem, que o perigo é traiçoeiro e surge quando menos se espera. Vá!, que Deus te pague o sacrifício que vais fazer por mim e pela Verónica.
— Oh!, isto não é nada, Norina, isto não é nada, comparado à felicidade que tu me tens dado, meu amor! — retorquiu animado, beijando repetida e desesperadamente o rosto, a boca e as mãos da soluçante.
— Por amor de Deus, nunca desfaças deste escrito, Arménio, que ele te livrará das perfídias do demónio e do mal da inveja! — implorou carinhosa, metendo-lhe na mão um papel cheio de cruzes.
— Norina, se tiveres medo de dormir aqui sozinha, vai ficar a casa do tio Rodrigo.
— Eu sei que tens que partir, meu amor, por isso só te peço mais uma coisa: nunca confies em ninguém, nem mesmo na pessoa que julgues mais tua amiga! Nunca, mas nunca, Arménio! — implorou-lhe ela de joelhos, fitando apavoradamente a porta, como se pressentisse o diabo atrás dela.
— Não te aflijas, Norina! Vá, adeus e até ao Natal, se Deus quiser!
— Adeus, meu amor, adeus! Escreve rápido!! Escreve rápido!! — gritou desesperada, largando o marido que, debaixo da padieira, ainda lhe lançou um último beijo e desapareceu na noite enluarada, abençoado por um Céu todo estrelado.
Segurando o volante, Raimundo gesticulou, apressando o colega a sentar-se no banco da frente, e, espreitando pelo retrovisor, arrancou lentamente, esperançado em se regozijar com o vulto lacrimejante da mulher que quase possuíra, mas Deus, retendo a infeliz entre aquelas quatro paredes de granito, não lhe consentiu tal gozo.
Acordando da hipnose passageira, que a reteve arrebatada a pensar em nada, Norina ainda correu desesperadamente até ao passeio, mas os seus olhos mareados só viram um vulto fugitivo dobrar a esquina do Calvário. Abafando os soluços e os gemidos com o lenço molhado, trancou a porta e correu a afogar o pranto no travesseiro, agarrada religiosamente à almofada do marido, mas os gritos lancinantes, que lhe rasgavam o peito, romperam as amarras do silêncio, vociferando lancinantemente pela casa, e acordaram a Verónica.
— Mamã! Mamã! — bradou a pequenita, esfregando os olhos sobressaltados.
— Vem, vem deitar-te a meu lado, filhinha!
— O pai não dorme? — questionou inocentemente a sonolenta.
— O pai..., o pai... - balbuciou a mãe confusa.
— Já se foi com o Faia! — bradou Verónica zangada, juntando-se à mãe na cama.
— Sim, filha, o papá já se foi com esse depravado!.
— E se rezássemos por ele Pai do Céu? — sugeriu esperta, aconchegando-se à mãe.
Lacrimosa, Norina meneou a cabeça e começou a sussurrar baixinho. E, assim, unidas pela dor, lá ficaram em oração, até que o cansaço lhes colou novamente o fio do sono, catapultando-as para o mundo paradoxal, onde tudo se consumia indolorosa e tenuemente, mas que a realidade lhes devolveria impiedosamente, logo que as suas olheiras se descobrissem a luz daquele dia tão cruel.
O destino lançara-a irremediavelmente nos braços da solidão. Porém, nas horas mais difíceis, Norina sabia que podia contar a ajuda do Deus dos seus pais, que ela herdara com o leite materno e, mais tarde, adolescente, aprendera a conhecer tão intimamente que, a sós, nunca mais deixara de O tratar por Tu. Se era verdade que esta vida, como acreditava, seria apenas uma passagem purificadora dos pecadores que ascenderiam às delícias da indescritível e indecifrável perenidade da sua outra metade que, prisioneira da matéria, ela sentia, mas que os sensores mortais jamais conseguiriam sintonizar e desvendar perfeitamente; então, se lhe caíam em cima todas estas mortificações, era porque o Omnisciente a incluíra na lista dos cento e quarenta e quatro mil do apocalipse de S. João. E todos estes teoremas sagrados lhe davam uma força e uma convicção indomáveis e a revestiam de uma aura capaz de afrontar os mais hediondos sortilégios desta vida aleatória. A vida! Ai a vida!

A melancolia corria-lhe morosamente nas veias. A fim de não sucumbir às tentações, que a ociosidade engendrava, a Norina decidiu antecipar-se à professora e ir ensinando o abecedário à filha e, para sugar os devaneios do espírito, sempre ávido de fantasias perigosas, começou a fazer renda e a ler os melhores romances da literatura portuguesa, que requisitava na biblioteca itinerante que passava na sua aldeia natal.
Quando andava na escola primária, a professora aconselhara-a a tirar o segundo ou o quinto ano do liceu, mas o pai, de saúde frágil, gastaria rios de dinheiro com a doença incurável que o levaria à sepultura. Coitada, a mãe sofrera tanto para levar a gravidez dela até ao fim que se não fosse a dedicação do médico da família, o doutor Campos, naquele 13 de Maio de 1947, terça-feira, não teria saído do útero materno com vida. A cesariana deixara a senhora Maria Rita, sua mãezinha, muito fraca e abatida, sobretudo depois da ablação da matriz que a impediu de ter aquela família numerosa, com que tanto sonhara. Filha única, Norina sempre fora, apesar das adversidades familiares, muito mimada. Não admira pois que, agora, sabendo que só teria uma filha, desse tanto carinho à Verónica.
Mas como lhe pareciam eternos, aqueles desesperantes dias, sem notícias do marido! E nem mesmo as palavras encorajadoras do tio Rodrigo, que a visitava amiúde, nem as das vizinhas, lhe conseguiam atenuar aquela dor imensa que sentia. Trancando-se teimosamente entre as quatro paredes do Calvário, passava os dias agarrada à filha a chorar. Era pois, na escuridão do quarto, sobretudo quando estava só, que ela fazia desfilar nas suas retinas as salutares reminiscências que o coração lhe ia devolvendo a conta-gotas. E as lágrimas apaixonadas, que então chorava na solidão, apareciam-lhe como a única maneira de purificar a sua alma dilacerada pelos maus presságios que, agora, milhentas vezes arrependida, tentava afugentar em vão, como se aquela fraqueza a tivesse condenado irremediavelmente.

No dia 6 de Setembro, segunda-feira, andava com a Verónica no prédio da Timpeira, no geio do fundo, mesmo à beira do rio Corgo, quando ouviu uma voz esganiçada gritar-lhe:
— Norina! Ó Norina!!! Tens aqui um telegrama, Norina!
Petrificada por um súbito calafrio, que lhe congelou o cérebro e lhe escoou o coração, parou de mondar a horta e ergueu-se, dando com um vulto a gesticular exuberantemente lá no alto do arco da ponte. Esboçando um aceno tímido, Norina escutou silenciosamente o eco esganiçado, que a encosta lhe devolvia com uns segundos de atraso, e, pedindo à filha que largasse tudo, desatou a galgar os socalcos que a separavam da curva, onde o marido, dias antes, deixara enterradas as estacas que delimitavam as fundações da vivenda que fizera dele um emigrante.
A cada passada vertiginosa, o ofegante ritmo cardíaco ameaçava estoirar-lhe o peito, mas, hipnotizada pela enigmática mensageira do lenço negro que, debruçada no muro, lhe fisgava o semblante pálido, corria, corria como uma desalmada sem respirar. Insensível a esse olhar impudico, espezinhou impiedosamente o carreiro, largando atrás de si uma nuvem de pó. Perdida no seu mundo feérico, Verónica lá foi seguindo como pôde a mãe.
— Tu aqui, Nair?! — bradou confusa, reconhecendo a vizinha. — O que aconteceu?
— Acalma-te, mulher, acalma-te! — rogou-lhe a mensageira.
Vendo-a empalidecer e tremer aflita, Nair entregou-lhe o telegrama, que ela rasgou sem cerimónias e leu num golpe de lince, antes de pregar os olhos negros no azul do infinito e sorrir angelicamente.
— É do Arménio! Ele, chegou bem, pois chegou? — deduziu a mensageira.
— Graças a Deus, Nair! — suspirou aliviada, acenando jovialmente à filha.
— Ele chegou bem, pois chegou? — insistiu a curiosa.
— Sim, Nair, graças a Deus, o Arménio teve boa viagem — respondeu apaziguada, enxugando as lágrimas de alegria que em boa hora lhe regavam a alma ressequida.
— Estás a ver como Deus não dorme, Norina! — disse a vizinha confiante, vendo-a sorrir assim para a filha.
— É do pai! — suspirou a mãe, mostrando-lhe orgulhosamente o telegrama.
— Ah, o papá está vivo! — exclamou a criança radiante, largando as sandálias e aninhando-se nos aconchegantes braços maternais.
— Qualquer dia, o teu pai está de volta com uma boneca como as que estão nas vitrinas da rua Direita, Verónica! — comentou a vizinha radiante.
__ Como as remelosas da rua Direita, não! O meu papá vai trazer uma maior e muito mais bonita de França, Nair! — exclamou a menina felicíssima, consultando a mãe com aqueles seus olhos vivos.
— Ai é?! - retorquiu-lhe a mensageira reinadia, empiscando à Norina.
— É, pois é, mãezinha? — adiantou Verónica carinhosa, passando-lhe a mãozita suja, mas carinhosa no rosto para lhe enxugar as lágrimas.
— Sim, filha, se Deus quiser!... O papá nunca faltou às suas promessas, pois não?
— Nunca, mamã, e ele prometeu trazer-me uma boneca assim grande! — recordou a mocinha , abrindo os braços o mais que pôde.
— Sim, Verónica, uma boneca assim grande como tu! — confirmou a mãe, medindo-lhe a altura e deixando o indicador espetado abaixo dos seios.
A esperteza da pequena deixou a vizinha embasbacada. Depois de prodigar palavras de encorajamento àquelas almas saudosas, Nair voltou para o Calvário, deixando-as a desfolhar as videiras para a vindima.

Apaziguada e animada com as novidades que recebeu na semana seguinte em plena lagarada, Norina começou a esquecer os maus presságios e a embarcar também no sonho do marido, imaginando-se, ali na Timpeira, numa vivenda com uma varanda virada para a estrada, para ver as corridas de Vila Real, cujo célebre circuito urbano fazia lembrar o famosíssimo Mónaco, e outra para o rio Corgo, onde o Arménio, ainda rapazote, nadara tantas vezes em coiro e, velhote, tencionava passar os dias a pescar.
Ah, como era bom sonhar assim!

Nos dois meses e meio, que a separavam da quadra natalícia, em que os laços familiares se revigoravam ou se reatavam, ela mostrou-se muito corajosa, levando a filha à escola, cuidando do lar e do tio Rodrigo. Coitado do herói de La Lys, se não fossem os malditos gases alemães, que respirara nas trincheiras da linha Marginaux e pelos campos de Verdun, talvez não estivesse tão acabado e não sofresse tanto como parecia sofrer. Contudo, com o agravamento da doença do tio, na segunda semana de Outubro, Norina teve que se mudar para Almodena com a Verónica, para o assistir nos últimos dias.
Foi nesse ambiente mórbido e doentio, de longas e dolorosas horas a vigiar a morte, que Verónica aprendeu também os pequenos gestos da solidariedade humana. E, de vez em quando, sentindo o tio Rodrigo elevado no sono, abeirava-se da mãe e cochichava-lhe baixinho ao ouvido: quando for grande, quero ser freira! A mãe passava-lhe a mão pela madeixa e olhava-a com ternura, sorrindo apenas. Por vezes, o moribundo, fingindo-se dormente, espiava-lhes o movimento dos lábios e, falando endofasicamente com o Altíssimo, rogava-Lhe que guiasse os passos da netinha, como ele afectuosamente lhe chamava, e a ajudasse a realizar tal desejo, se tal fosse esse o desígnio dela.
Aquela atroz agonia, há muito que o bom Rodrigo Valadares a aceitara e a oferecera em desagravo pelos sofrimentos do Homem, que aos trinta e três anos, quase dois mil anos antes, fora crucificado na Palestina e revolucionara o Mundo com a Sua mensagem de Amor.

No fim de Outubro, o tio, sentindo chegar a sua hora, mandou vir o notário a casa e ditou-lhe as últimas vontades. Porém, caso falecesse antes, o testamento só deveria ser aberto depois do Natal.
Apesar de um inelutável pressentimento, a sobrinha encorajava-o, dizendo-lhe que ainda veria o Arménio e festejariam juntos o nascimento do Menino Jesus; a Verónica, essa, pegava-lhe na mão e bafejava-lha para não a sentir tão gélida, sussurrando-lhe ao ouvido: o avozinho ainda me há-de ver vestida de branco como as madres enfermeiras.
O velhote, sempre lúcido, mexia dificilmente os ossinhos da cabeça e sorria-lhe meigo, soltando murmúrios que já não chegavam a ecoar, mas que tanto comoviam a resignada Norina. Pobrezinho, como deveria sofrer!
Finalmente, quis o Criador que o tio Rodrigo desse o seu derradeiro suspiro na manhã do dia de Todos-os-Santos, 1 de Novembro de 1971, segunda-feira, aos setenta e sete anos, depois de, na véspera, ter recebido a extrema unção e comungado pela última vez, como mandavam as leis da Santa Madre Igreja.
Quando o viu fechar os olhos e enclinar bruscamente a cabeça na travesseira de linho, Norina deixou escapar uma lágrima e pediu aos vizinhos consternados que avisassem o senhor abade, o reverendo padre Ferreira, da morte do homem, com quem o sacerdote simpatizara logo no fim da primeira missa naquela paróquia, vinte anos antes. Um dos membros da comissão fabriqueira da igreja ofereceu-se logo para tratar do funeral, enquanto outro se prontificou para lavar e vestir o defunto, o que a Norina, pudica como era, aceitou e agradeceu prontamente.
Apenas saiu do solar, a triste novidade do trespasse do herói de La Lys voou célere pelas vielas das aldeias do concelho e do distrito. Nas horas que se seguiram, a sala, onde se velava religiosamente o féretro, foi pequena demais para conter toda a mágoa e a sentida vénia de quantos se inclinaram diante do ataúde do homem que, em 1917, desafiara as metralhadoras alemãs e, num acto de coragem, se propusera para ir, rastejando sob o fogo inimigo, buscar os géneros alimentícios que salvaram da morte certa a guarnição sitiada, o que lhe valeu o reconhecimento do governo português, que lhe atribuiu a medalha da Cruz de Guerra de 2ª Classe e uma pensão vitalícia.
Na missa de corpo presente, o pároco, que reunira uma dúzia de colegas para o ofício, fez um elogio fúnebre que arrasou completamente aquela assembleia triste. Vestidas de preto, as sobrinhas assistiram dignamente à cerimónia e encabeçaram o numeroso séquito que acompanhou o tio até à última morada.
Na quinta-feira, 4 de Novembro, Norina, que regressara à sua casa do Calvário na véspera, pouco depois do enterro, escreveu uma carta ao marido, dando-lhe a conhecer a dolorosa novidade e prodigando-lhe os habituais conselhos de prudência. No envelope, a Verónica meteu um pedacinho de papel, onde desenhara a boneca que gostaria de receber no dia de Natal, antes de irem à missa beijar o Menino Jesus. Contudo, como andava a trabalhar longe de casa, Arménio só leria a triste notícia uns quinze dias depois, no terceiro Domingo de Novembro.

Em França, o vila-realense assentara arraias numa aldeia do município de Besançon, no vigésimo quinto departamento do território gaulês, Valdahom, onde havia uma guarnição militar, fornecedora de muitas obras para os construtores civis da região, o que justificava o contínuo engajamento de mão-de-obra estrangeira. A Entreprise Parafini, a quem fora indicado, adjudicara uma caserna do exército e devia entregá-la dentro de quinze dias. Atarefado como andava, o patrão, um francês de ascendência italiana, contratou-o na hora, mas, perspicaz e ambicioso, condicionou o engajamento definitivo do português ao seu desempenho naquela azafamada empreitada. E o consciencioso Sala não o decepcionou.
Feliz da vida, com o contrato na mão e legalizado, Arménio escreveu imediatamente à esposa, contando-lhe pormenorizadamente as suas tarefas diárias, depois de chegar do trabalho, com mais três outros colegas de quarto, que lhe iam ensinando algumas palavras de francês para se desenrascar, enquanto lavavam a roupa, faziam de comer ou lavavam a louça. Apesar das nevadas e das geadas, que tantas frieiras lhe fizeram estoirar nas mãos, o transmontano lá ia aguentando euforicamente aqueles sacrifícios. Drogado por um quimérico frenesi, nem doze horas de trabalho árduo conseguiam esmorecer a sua endiabrada genica, espantando quem com ele lidava de sol-a-sol. É que, assim hipnotizado pelo sonho, Arménio nunca desanimava e via tudo cor-de-rosa, a maior parte dos conterrâneos, minados pela saudade, só pensavam no infortúnio e nas coisas más da vida, aceitando resignadamente as contingências e as fatalidades do destino. Não, eles nem se atreviam a sonhar, porque não sabiam que é o sonho quem comanda a vida...

Na última semana de Novembro, porém, o transmontano teve um ligeiro acidente: uma placa de cimento partiu-lhe o dedo grande do pé direito, forçando-o a um mês de baixa, notícia que ocultou à mulher, para que ela não se alarmasse e, cismática como era, não passasse a vida a cismar com a agoirenta cigana.
À medida que a quadra natalícia se aproximava, o seu coração batia desesperadamente, temendo não curar a tempo de poder sair de França para passar o Natal com a mulher e a filha, sobretudo depois do abalo que elas sofreram com o desaparecimento do tio Rodrigo.
Perante tal infortúnio, a Caisse Primaire d'Assurance Madie de Besançon — a caixa de previdência francesa — ficou espantada com a coragem e a alegria de viver do Sala, sempre que passava à visita médica. No vigésimo segundo dia de baixa, e apesar de ainda ter mais uma semana, Arménio tomou a iniciativa e apresentou-se, ao inspector de Besançon, pedindo-lhe que o deixasse ir trabalhar mais cedo.

Naquelas três longas semanas de repouso, Arménio conseguiu, depois de muito gatafunhar e sarrabiscar, desenhar a vivenda dos seus sonhos numa folha de papel quadriculado. Agora, que a tinha a planta diante dos olhos, até parecia que o esboço ganhava uma nova dimensão e a realidade emergia magicamente do papel amarrotado. Mas como era encantador o pôr do Sol na Timpeira!
Num ápice, vencera o espaço, o tempo e a distância e vi-a nítida e rósea nas suas retinas maravilhadas. Pelo seu pensamento vagabundo ecoavam os murmúrios da cachoeira do rio Corgo, a beijar-lhe o extremo do prédio, enquanto os suspiros e os beijos da sua Norina lhe arrepiavam o corpo, lá na varanda da traseira, longe das miradelas indiscretas dos automobilistas. Agora, que o patrão lhe dera um quarto só para ele, na solidão da cela encantada, Arménio deleitava-se a sonhar com aquele tão desejado futuro cor-de-rosa e o delírio, caindo sorrateiramente do mundo etéreo, colava-se-lhe à epiderme rugosa. No cérebro empolado, desfilavam as imagens doces e amargas dos últimos anos de vida na sua bila natal e, sobretudo, o pesadelo rubro e negro do sangue que vira correr em África, lá pelo capim dos musseques do Nambuangongo, quando empunhava as patrióticas G-3: a síndroma da guerra era o maior fantasma que a sua consciência atribulada lhe devolvia nas longas noites de insónia, catapultando-o para as profundezas de um inferno indolor.
E, no meio daquele turbilhão voraz, sempre que invocava o auxílio de Deus, ouvia uma voz que lhe sussurrava incessantemente: a Norina há-de ser minha! A Norina há-de ser minha! Assarapantado e furioso, saltava da cama e, de olhos a chispar fogo, cerrava os dentes e os punhos, pronto para afrontar o espírito cobarde que lhe transtornava os doces devaneios. Céptico, nunca acreditara em bruxas, mas aquelas aparições nocturnas começaram a abalar profundamente as suas convicções, suscitando-lhe ao mesmo tempo um ror de ciúmes quezilentos. E até a sua incredulidade vacilava terrivelmente com o eco insano da noctívaga milonga, quando esta lhe repicava absurda na cabeça e lhe estoirava os tímpanos, enfurecendo-o. Um dia, pensava, haveria de tirar todas essas dúvidas, ajustar as contas do seu rosário e expiar os pecados, mesmo que a penitência o obrigasse a ir pé, em peregrinação, a Fátima.

Entretanto, Arménio, que nunca mais pusera os olhos no Raimundo Faia, conhecera, um rapaz do Fiolhoso, o Fortunato Galela, que emigrara para França nos meados de 1960. Refractário e sabendo que nunca mais poderia voltar a Portugal, este casara-se com uma francesa, de quem tinha um casalinho. Homenzarrão rude, mas de coração generoso, o Galela foi, nas horas vagas, o seu professor de francês; fora a Martine, a esposa dele, uma francesa de ascendência polaca, que lhe lavava a roupa, quem o aconselhara o Parafini, o primeiro namorado a quem oferecera a virgindade, antes de conhecer o Fortunato num baile, a testá-lo como chefe de equipa.
Por duas vezes, nos dois primeiros domingos depois do acidente, Arménio passara o dia com eles, contando-lhes as saudades que sentia da Norina e da Verónica. Galela era em tudo diferente do Faia: muito mais humilde e sincero. Da Martine, generosa e simpática, então nem se falava: era uma jóia de pessoa, a madame.

No dia 18 de Dezembro, sábado, pelo cantar do galo, Fortunato foi levá-lo ao comboio. Ao despedir-se dele, meteu-lhe no saco de mão umas bonecas que a filha já não usava, mas que, tão prezadas, ninguém diria que haviam sido estreadas.
— Boa viagem, Arménio e vê lá se não te esqueces de nos trazer a Norina contigo!
— Oh, ela não se iria habituar a este clima, Fortunato!
— Vá!, não arranjes desculpas, que assim sozinho, não é vida de homem, rapaz!
— Adeus, Fortunato, adeus! — disse o transmontano, pisando o degrau da carruagem.
— A Martine quer conhecer a Norina. Trá-no-la contigo, nem que seja por uma semana, ouviste? Se for preciso dormireis no nosso quarto!
— Eu vou pensar, eu vou pensar...
— Ei, não tenhas medo que eu não ta roubo, Arménio!
— Ah! nunca se sabe, Fortunato, nunca se sabe! — gritou o vilarealense, acenando e empiscando ao conterrâneo.
E comboio desapareceu lentamente, deixando o Galela a sorrir.
A viagem, agora que estava legal, que tinha uma autorização de trabalho e uma carta de séjour, Arménio fizera-a, na maior parte do tempo, a cochilar. Contudo, ao longo da linha férrea, balanceado pela trepidação da carruagem, pudera admirar as imensas paisagens da França e da vizinha Espanha, onde o general Franco continuava a ditar a sua lei. No país de Gustave Eiffel, o presidente Pompidou, que sucedera ao celebérrimo general Charles De Gaulle em 1969, depois de um referendo desfavorável, ia afrontando as sevícias de uma doença terrível, cochichava-se. Depois da 2ª Guerra Mundial, que dividira e arruinara a França, só a contratação massiva de emigrantes, mão-de-obra valorosa e barata, permitira a reconstrução e o desenvolvimento industrial do país. Não admira pois, que o bem-estar, assegurado pelo estado-providência, tanto fascinassem quem, não o tendo, a ele aspirava.

Quando, no último comboio de domingo, a Maria Fumaça deu entrada na estação de Vila Real, o emigrante, surpreendido pelos acenos exuberantes da esposa e da filha, não conseguiu evitar que, mesmo diante dos outros passageiros que ali se apeavam, as lágrimas lhe escorressem sinuosas pelo rosto. Mal pousou o saco da merenda e a mala de cartão roçado, e ainda curvado, foi babado pelos lábios da Verónica.
— Uf! demoraste tanto, malandro! — barafustou a filha, puxando-lhe carinhosamente as orelhas quentes.
— Está tudo bem, Norina? - perguntou comovido, abraçando-a e beijando-a.
— Oh!, como de costume, Arménio! — respondeu a esposa resignada, enxugando os olhos humedecidos e acarinhando a inocentinha com quem passara aqueles meses de amargura e solidão.
— Então?!... Onde está a minha boneca, que eu não vejo, papá?
— Calma, que não me esqueci! A boneca está aqui no saco, filha.
— Ah!, então estás perdoado por teres ido embora sem me dizeres adeus! — exclamou a espertinha, fitando-o benevolamente.
Norina, segurando a mala do marido, deixou escapar um sorriso e, olhando a boneca que saía do saco do farnel, murmurou arrepiada:
— Vá, deixem-se de meiguices e vamos, que se faz noite!
Silencioso, Arménio lançou-lhe um olhar complacente e, pegando na mala de cartão, meteram-se a caminho do Calvário, recordando sucintamente os acontecimentos dos últimos quatro meses. Enquanto que a mãe levava o saco da merenda a tiracolo, Verónica corria à frente dos pais, saltitando e embalando a boneca como um filhote.
Durante os quase dois mil metros de atalho, fizeram pequenas pausas para descansar, ignorando os conhecidos que passavam e acenavam. Uma brisa fria vinha congelar-lhes o bafo, realçado pela luz que, de onde a onde, pendia das campânulas dos candelabros públicos. A escuridão surpreendera-os a meio do trajecto, envolvendo-lhes os cochichos num manto pudico. Intimidado pelo regozijo de quem, reconhecendo-os, os saudava espalhafatosamente, o casal quase se escondia para não ter que sorrir também e quebrar o luto que velava os seus corações pundonorosos.
Naquela noite, Norina serviu ao marido um prato de batatas cozidas com couves tronchudas e uma posta do rabo do bacalhau, que demolhara para os bolinhos da noite de Consoada. Gulosa, Verónica preferiu mordiscar um pedaço de chocolate francês e ir mais cedo para a cama com a boneca, concedendo aos pais aquela intimidade que faz renascer da alma os desejos mais voluptuosos de dois seres apaixonados, tão famintos daquele amor ressonante que só a escuridão, o calor das mantas e o silêncio sabem ressuscitar e encandear nos seus olhos.
As palavras foram consumidas pelo fogo devorador que aquela longa e penosa ausência armazenara nas suas veias solitárias e, agora, em ardente simbiose, lhes jorrava pelos poros. E aquele saudoso reencontro, começado timidamente à luz das brasas, prolongou-se pela noite fora, até que o sono os arrebatou àquela platónica e enamorada contemplação.
Quando se ergueu, a filhinha, vendo-os tão dormentes, sorriu safada, fechou cuidadosamente a porta e, comendo mais um bocadinho de chocolate, encerrou-se novamente no quarto, viajando solitária pelo seu mundo feérico.

A segunda-feira, 20 de Dezembro, nascera atrofiada. Sem o mata-bicho e a fogueira que, no Inverno, cortava o friura do granito, eles ficaram desnorteados. Não fosse o despertador, e aquelas almas sequiosas só largariam as mantas na hora da sesta.
Enquanto a esposa acendeu o lume, Arménio foi à padaria comprar uma sêmea. Pelo caminho, saudou alguns vizinhos, mas não se atardou, pois o arisco do Marão congelava-lhe as orelhas. Em casa, Verónica, que entretanto bebera uma tigela de leite, fora bulir na mala do pai e descobrira uns embrulhos que, apalpados, davam a sensação de ser bonecas, mas preferiu fazer-se despercebida, não fosse ele ralhar-lhe.
Naquele primeiro dia em Portugal, o mata-bicho do Arménio foi um cálice de aguardente e dois figos secos, enquanto a Norina comeu as castanhas cozidas no sábado e esquecidas na panela que aquecera nas brasas. A curiosidade da pequenita não cabia dentro dela e a língua não parava de lhe bater impacientemente nos dentes, mas estes não cediam à pressão da curiosidade.
Depois do almoço, desceram a pé até Almodena pelos atalhos, para arejarem os muros de perpianho que vira nascer, viver e morrer o tio Rodrigo, evitando a rua principal, não fossem os vizinhos pôr-lhes em carne viva a tão dorida memória.
Um silêncio confrangedor enchia a casa até ao telhado; cada objecto de ferro, de madeira ou de barro, mesmo frio, onde espelhavam os seus olhares nostálgicos, devolvia-lhes o sorriso caloroso do querido velhote, fazendo-os pensar na fragilidade da existência.
No quarto, ainda por desfazer, lá estava dependurada a caçadeira de um cano; na mesinha de cabeceira estendia-se o terço que viu o santo homem iniciar a longa viagem; no muro caiado da sala de jantar, onde fora recebido o compasso, um retrato de cinquenta anos devolvia aos visitantes a memória da tia Elvira, que um tombo estúpido, quando colhia cerejas no quintal, roubara ao marido, em 1930, aos vinte e cinco anos de idade, grávida, arrastando com ela para a sepultura o herdeiro que o herói de La Lys tanto desejara e mimara durante sete meses.
Esse trágico acontecimento quase levou o intrépido Rodrigo ao manicómio. Desgostoso, nunca mais pensou em contrair segundas núpcias e levou, durante mais de quatro décadas, uma vida de ermita, implorando a Deus que o chamasse num dia abençoado. E o Altíssimo não podia ter escolhido melhor hora que o dia de Todos-os-Santos.

Até à tarde do dia 24 de Dezembro, as suas tarefas resumiram-se às tradicionais compras de Natal. No cabaz não faltou o bacalhau e a couve troncha, o polvo e a raia, tal como a farinha e o fermento. Enquanto a esposa preparava a lareira e os condimentos para os fritos, Arménio e a filha partiam amêndoas e nozes, aguardando ansiosamente pelas primeiras lêvedas com molho de canela. Os gulosos só estorvavam a cozinheira, mas ela, corada, de lenço atado na cabeça e de avental enfarinhado a esconder-lhe a saia cinzenta, não dava descanso as mãos e às pernas. Para matar o tempo e a ansiedade, o emigrante pegou num pedaço de pinho e talhou então um rapa, ignorando a prosápia, com que Verónica mimava as bonecas. E, inadvertidamente, pegou no rádio coberto de choinas, mas nem o ligou, tão viva e repentina lhe ocorreu a imagem do tio Rodrigo e, com ela, a recordação do testamento. Pegando numa rodilha, ele limpou a cinza e, de costas para a esposa, indagou aéreo:
— Norina, o que será que o tio terá deixado no testamento?
— Sei lá, Arménio! Olha, foi coisa que nem me passou ainda pela cabeça — disse ela absorvida pelo estrugido na sertã.
— Se calhar, as terras e a casa da Almodena...
— Nem vale a pena pensar nisso, homem — cortou logo a esposa, remexendo os fritos.
— Tens razão, Norina — acatou o marido, baixando a antena do rádio e arrumando-o num canto da cómoda da sala de jantar.
Antes da ceia, ele embrulhou meia dúzia de bolos de bacalhau e três pedaços de polvo frito e foi oferecê-los à Nair, a vizinha do lado, a confidente das boas e das más horas, cujo marido, agora que Arménio fora e viera são e salvo, começava a arranjar coragem para tentar também o pulo.
Agradecendo a lembrança, ela confidenciou envergonhada:
— O meu Joaquim também queria ir para França...
— A sério, Nair?
— Sim, Arménio, mas só na Primavera ou no Verão. É que ele não se dá muito bem com o frio e, ao que parece, onde estás neva muito.
— Lá isso é verdade, Nair!
— Depois das festas, ele pode ir falar contigo, pode?
— Claro, Nair. Ele que não se acanhe, está bem?
— Obrigado, Arménio, e boas-festas! — exclamou grata, segurando o presente.
— Obrigado e igualmente um Feliz Natal e um Bom Ano Novo para vocês, Nair — disse sorridente, acenando à vizinha.



Continua em capítulo IV

LMP - Luxembourg 1984 - Lud MacMartinson

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