sexta-feira, 18 de julho de 2008

Caminhos de ilusão: Capítulo VII

Capítulo VII




No dia de Todos-os-Santos, 1 de Novembro, uma friorenta quinta-feira, Norina aproveitou o feriado, para descer com a filha à Almodena florir a campa do tio Rodrigo e rezar por ele e pela alma dos entes queridos ali sepultados, antecipando a tradicional visita de Finados, onde, por certo, muitos iriam recordar os mortos com mágoa, mas outros entrariam também mais por obrigação que devoção e a esses, hereges bisbilhoteiros, queria evitá-los.
De retorno, de mão dada à Verónica, cruzou alguns idosos que já não via há muito tempo e saudou-os, não notando neles qualquer hostilidade, o que muito a animou, que bem precisava, tão asfixiante e dolorosa era a solidão provocada pela nostalgia e pela saudade: a mórbida lembrança da felicidade vivida com o marido , para sempre perdida, começava a desencorajá-la terrivelmente.
No largo do fontanário da povoação, avistou Marta debruçada a falar com um taxista e, inevitavelmente, deduziu que fosse o Júlio Varandas, de quem lhe falava amiúde, e, à primeira vista, pensou ir ter com eles, mas, retendo a curiosidade aflitiva que sentia, desviou os olhos e os passos, indo para o solar por um quinchoso. Verónica, entretida a lançar o rapa na palma da mão, nem se apercebeu do repelão que a mãe lhe deu para que não visse os namorados, presumia.
Perto do solar, cruzaram a mãe da Marta com um molho de feno à cabeça.
— É bem tolinha, mande trabalhar a sua filha, que tem bom corpo! — disse risonha, abrindo-lhe o portão.
— Uf, que estafadela, Norina! — exclamou a velhota acalorada, fazendo-se despercebida e atirando o penso da vaca para cima da carroça.
— Então a Marta, senhora Soledade? — insistiu curiosa a proprietária do casario.
— Sei lá, a Marta deve andar à cria! — desabafou francamente a idosa, sorrindo à Verónica e ajeitando com o gancho o poupo desfeito.
— A senhora Soledade também tem cada uma! Então isso é coisa que se diga da sua filha?! — retorquiu Norina acusadora, disfarçando o riso interior.
— Vem comer um rebuçado, miga, que a tua mãe e a Marta nunca mais ganham juízo! Se a rapariga me aparece para aí prenha, vossemecê é que é culpada, Norina!
— Eu?! Porquê? A senhora Soledade veja lá o que diz! — contestou a viúva ofendida.
— Desculpe que foi sem maldade, Norina, mas, desde que vossemecê cortou o cabelo e começou a vestir-se como os homens, a minha Marta só pensa em imitá-la e o pior é que o maluco do pai lhe dá os améns.
— Então a senhora achava melhor que eu andasse por aí de saia a mostrar as pernas e com os cabelos compridos como uma rapariga nova? — retorquiu chateada.
— Ai a Norina não cortou o cabelo por vaidade, não?
— Então quer dizer que as freiras também cortam o cabelo por vaidade, que os padres usam o preto por vaidade, que..., sei lá!, realmente o mundo está bem podre, senhora Soledade!
— Pois, eu nem tinha pensado nisso, mas vossemecê sabe, a mim custa-me ver a falsidade de certas pessoas, que na sua frente lhe mostram os dentes e por trás...
— Não se incomode, ti Soledade, que eu sei muito bem que a senhora tem bom coração e sempre gostou muito de nós - disse risonha, vendo a aflição da velhota.
— Pois gosto, minha filha! A ti, Norina, eu vi-te nascer, dei-te muitas vezes de mamar, depois que a tua mãezinha, que Deus tenha, morreu, mudei-te os cueiros...
— E lavou-os e deu-me muitas bolas de pão para comer com mel. A senhora pensa que eu me esqueci do bem que a senhora me fez, senhora Soledade? Eu sei que há muita gente me julga diferente, mas eu não mudei nada. Certo, depois da morte do Arménio, com a pensão que recebo, posso viver um pouco melhor, mas , por amor de Deus, agora também não tenho culpa que o estado francês me pagasse o que pagou.
— Olha, filha, segue a tua vida e deixa roncar quem ronca, porque ninguém te levará o pão a casa ou te pagará os estudos da tua filhinha, se chegares a precisar. Ai a inveja rói a alma a tanto bom cristão!... — desabafou a rendeira, entregando um rebuçado à Verónica e acenando à mãe para se sentar no escano, que limpou previamente com a ponta do avental.
— Norina!!! — chamou Marta radiante, batendo o portão atrás dela.
— Oh! de certeza que aquela maluca vem donde ò marmanjo! — atalhou a velhota.
— Marmanjo, senhora Soledade?!
— Sim, o taxista de Abambres.
— Marmanjo não, um rapaz de muito respeito e muitos bons modos, como se vêem agora poucos — disse lisonjeira.
— Ah, a Norina conhece-o! — exclamou a senhora Soledade cabisbaixa.
— Se é o que eu penso, parece-me...
— Vê lá o que dizes, Norina! — advertiu a moça, surgindo sorrateira na cozinha.
— Marta, tu diz logo a verdade, porque senão a tua mãe ainda me vai tomar por uma dessas casamenteiras...
— Ah! e tu chateias-te?! A senhora D. Soledade parece que já está a precisar de fósforo para os pirolitos — ironizou a filha, rindo e pondo o indicador na testa.
— Está a ver, Norina, está a ver o respeito que ela me tem? Sua refilona!
— A Marta está a reinar consigo, senhora Soledade.
— A reinar, a reinar..., o respeitinho cabe em todo o lugar! Ela que ganhe juízo que já tem idade! — barafustou a velhota, tirando do armário a lata do café de cevada.
— Eu bem te digo, Marta, eu bem te digo, mas tu parece que foste feita no entrudo!
— E não o diga a brincar, que se calhar até foi — retorquiu a senhora Soledade, contando os meses pelos dedos da mão. — Fevereiro, Março..., Outubro, Novembro... Ah! pois deve ter sido!
— Olhe, a culpada é sua, fizesse-me na Semana Santa! — arguiu Marta atrevida.
— Ai rapariga, rapariga, se ponho as mãos nas guedelhas!...
— Ai é?! Pois espere pela surpresa — afirmou a filha.
— Tu vê lá o que fazes!... As pestanas ainda tas deixei cortar, mas se me aparecesses aqui sem as repas, que são como os cabelinhos da minha querida mãezinha não te dou o consentimento para o casamento - ameaçou a velhota arreliada.
— A senhora não faça o café que nós vamos para casa, pois vamos, Verónica? — adiantou a viúva, consultando a filha, que, entretanto, se agarrara ao braço da amiga.
— Não, Norina, depois, se tiverdes medo, até vos deixo ir a rapariga convosco, mas que ides tomar um cafezinho connosco, lá isso ides!
— Pronto, mas só se a senhora deixa ir a Marta dormir à Timpeira.
— Oh, andar na moina é o que essa mandriona quer!
— A D. Soledade até é boazinha! — confessou a filha, acariciando-lhe o poupo.
— Foge para lá, sua pantomineira! — berrou a senhora Soledade, fugindo dela.
— A Marta até não é má rapariga, pois não? — retorquiu a viúva, empiscando à sócia.
— Vocemessê não ma gabe que acaba de ma desafinar, Norina!
— Ora essa, se ainda não desafinou até hoje, também não seria agora que a sua filha iria desafinar.
— Credo, Norina, que o diabo seja surdo!!! — exclamou piosa, benzendo-se e batendo com os nós dos dedos na madeira. — Vá, baixem lá o escano para bebermos o cafezinho.
— Deixe-me pôr as chávenas, senhora Soledade — rogou a criança, adiantando-se.
— Ah! que linda menina! Põe, filhinha! — respondeu a velhota mimalheira, acariciando-lhe os cabelos cortados pelo pescoço.
E, empiscando-se mutuamente, as mulheres deram à mocinha aquele prazer imenso de se sentir útil como as pessoas grandes que todos as crianças querem ser antes de crescer. Reflectindo-se no café, o sorriso da Verónica dava gosto ver. Ah! como elas gostariam de poder passar pelo mundo como aquela inocente!
Depois do cafezinho, a Marta meteu duas peças de roupa numa alcofa e, beijando a face rugosa da mãe, correu atrás das amigas que, adiantando-se, a aguardavam no quinchoso da igreja.
Quando chegaram à Timpeira, o Leão, amarrado ao cadeado da casota não parou de latir queixosamente. Ouvindo-lhe os gemido, a Verónica, desatou a correr pela rampa cimentada dias antes e consolou-o, passando-lhe carinhosamente a mão no pelo luzidio. O fiel amigo do homem, reconfortado pelo amor da pequenita, lambeu-a toda e aninhou-se-lhe aos pés, sentando-se nas patas traseiras.
— Que te fizeram, meu Leãozinho?! — perguntou comovida.
— Cuidado, ele pode morder-te, filha! — avisou a mãe, vendo a cena.
— O Leãozinho já me conhece, mamã! Não conhece, Marta?
— Pois..., mas nunca te esqueças um cão é sempre um cão e morde.
— Elas são malucas, pois são? — retorquiu a menina, mimando o cachorro.
— Vá!, deixa lá o cão, Verónica — insistiu a viúva, balançando as chaves de casa e subindo as escadas. - Vê lá se a convences, Marta, que eu vou arrumar-te o quarto.
— Não te preocupes, Norina, que eu durmo mesmo no sofá! — exclamou acanhada.
— A crescer assim, o Leãozinho será um Leãozão, Marta.
— Tu vê lá o que fazes, Verónica, que o bichinho pode morder-te sem querer!
— Será que ele vai botar grande, Marta? — insistiu a mocinha seduzida pelos sussurrantes latidos do canino.
— Ai, é capaz! Mas porque é que...
— Tchut!, não digas nada, mas a minha mãe mija-se toda para adormecer.
— Oh, a tua mãe é tola! Aqui perto da estrada não acontece nada! Achas que, com este movimento — e apontou para os carros que passavam — alguém se atreve a importunar-vos? Não, dorme descansada que com a estrada iluminada e o cão...
— Verónica! Marta! Vinde daí — reclamou a viúva chateada, debruçando na varanda.
E as raparigas, empiscando, obedeceram, largando o pastor da Serra da Estrela.
Naquela noite friorenta, as mulheres enrolaram-se num cobertor de lã grosseira e ficaram a ver o Santo, uma série inglesa de renome internacional, mas como a Verónica adormecesse a meio do filme, Marta pegou nela ao colo e foi deitá-la na cama. Quando voltou, vendo a amiga abrir a boca e bocejar demoradamente, murmurou:
— Estás com sono, Norina.
— A caminhada estafou-me, Marta.
— Oh!, então vamos dormir que é melhor! Amanhã...
— Ai, eu amanhã, se gear, fico na cama até às dez horas!
— Fazes bem, Norina, fazes bem! — apoiou a moça, contagiada pelo bocejo.
— E tu? Sempre voltas de manhã para ires ao cemitério ou almoças aqui connosco?
— Faltar ao cemitério amanhã?! Nem pensar! Tinha ladainha para todo o ano, se no dia 2 de Novembro lá não fosse rezar pelos meus!
— Como queiras... Diz, dormes no quarto de hóspedes ou...?
— Se não te importas, durmo contigo. Não vale a pena sujar mais dois lençóis!
— Ah, não me importo não! Então vai indo que eu vou ferver uma botija de água.
— Para quê, Norina? Deixa lá, comigo, acalorada como sou, não precisas!
— Mas..., e os pés?!
— Os pés, a cabeça... _ insinuou maliciosa, espreguiçando-se demoradamente.
A viúva sorriu e, meneando a cabeça, desligou a televisão, antes de se dirigir para o quarto, seguida como sua sombra pela fiel e dedicada amiga de infância, com quem dormira milhentas vezes. Naquela noite, porém, porque andava bastante deprimida com a mórbida recordação do falecido, quase teve medo de sugerir à moça que dormisse com ela, tão carente se sentia.
Mal entrou no quarto, a descomplexada Marta despiu a blusa e, aproximando-se do espelho, mirou narcisicamente os seios sobre os quais descaía a madeixa russa. Incomodada com aquela naturalidade, Norina sentou-se ao lado da mesinha-de-cabeceira e, enfiando-se debaixo dos lençóis, foi tirando as peças de roupa uma a uma e atirando-as para o fundo da cama. Depois, pegando na combinação que estava debaixo da almofada, vestiu-a e aninhou-se toda, enrolando-se como um caracol.
— Ai que gelada! — disse arrepiada, tremelicando de frio e cobrindo-se toda.
— Se calhar será mesmo melhor ir ferver um pouco de água. Onde tens a botija?
— Olha, abre a mesinha... Ui que frio! — balbuciou nervosa, cobrindo a cabeça.
Pegando na botija de borracha vermelha, Marta passou as mãos pelos contornos da friorenta e friccionou-lhe energicamente os flancos.
— Ah!, assim... Ah!..., isso! Vê lá não te esqueças de fechar o gás!
— Quando é que me deixas de ver como uma menina, Norina?
— Como tu és uma cabeça no ar... — retorquiu distraída, bafejando aceleradamente para quebrar o gelo.
Deixando-a bufar, Marta correu a ferver a água. Quando voltou, cinco minutos depois, Norina estava muito quietinha com a cabeça de fora. Enfiando cuidadosamente a botija no fundo dos pés, apagou a luz e, tacteando às cegas, deitou-se ao lado da dorminhoca que tanto admirava.
— Já dormes? — perguntou de voz trémula, tocando-lhe timidamente na espádua.
— Não! Vá!, não faças corrente de ar!
Aninhando-se também, Marta virou-lhe as costas e murmurou baixinho:
— Boa noite, Norina!
— Boa noite e muitos sonhos cor-de-rosa, Marta!
— Para ti também...
— Oh!, os meus há muito que são mais negros que o piche!...
— Coitada! — balbuciou comovida, tacteando-lhe inadvertidamente a nádega.
Soltando um suspiro, Norina, mastigou em seco e disse:
— Até amanhã, se Deus quiser!
— Até amanhã! — repetiu tenuemente a moça, dominando os instintos maternais.
Apesar de opostas, nunca aquelas almas se sentiram tão mutuamente magnetizadas. Entre elas começava a nascer uma doce cumplicidade e uma resistível atracção sensual.
Finalmente, no dia dos fiéis defuntos, acordando terrivelmente baralhada, Marta ergueu-se nos bicos dos pés e, asfixiada pelo silêncio daquela manhã sagrada, vestiu-se à pressa e, escrevendo um bilhetinho que deixou na mesinha-de-cabeceira, foi-se embora para chegar a Almodena a horas de cumprir a sua obrigação. Perto das onze horas, quando abriu os olhos, Norina sorriu angelicamente e, arrancando das entranhas a felicidade aí degredada, sorriu como perdera o hábito. Depois, lendo o bilhete da amiga, deitou-se novamente e tentou recordar o adorável sonho daquela noite, mas, por mais que puxasse pela memória, não se lembrou de nada: apenas que estava muito feliz e sentia a libido irrigar-lhe timidamente as margens da fenda genital. A princípio ainda recusou mentalmente ceder aos impulsos perversos, mas a tumescência matinal foi mais forte, obrigando-a a masturbar-se violentamente para estripar de vez toda a frustração acumulada e recalcada no seu corpo e na sua alma por aqueles seis meses de luto e de abstinência.
Até ao Natal, apesar de namoriscar com Júlio Varandas, o serviçal taxista que lhe poupava às pernaças léguas de caminhos, Marta dormiu regularmente na Timpeira, ora com a mãe, ora com a filha, para regozijo de ambas; mesmo o namorado, com quem falava quase todos os dias, preferia sabê-la a dormir com a viúva que com os pais na Almodena, por temer que o Faia aparecesse de surpresa, lhe pedisse explicações e a maltratasse; apesar da paixão que começava a sentir pela russa do passador, o taxista evitava mostrar-se com ela, nem mesmo quando lhe oferecia boleia até à vivenda; da varanda, Norina bem o chamava para beber um copo, mas o envergonhado Júlio limitava a sorrir, a acenar e a seguir o seu caminho.

No dia 21 de Dezembro, sexta-feira, o último de mercado antes da Consoada, a noite mais nostálgica do ano para os portugueses, por ter a magia de reunir as famílias e de reconciliar mesma as mais desavindas, Norina ergueu-se cedinho para ir com a filha comprar algumas miudezas. Antes de sair, Verónica quis servir o pequeno-almoço ao Leão, que com seis meses era o belo latagão de que muito se orgulhava e com quem percorria os geios do prédio até às cachoeiras do Corgo, onde se regalava passar o soalheiro daquelas tardes de Outono a desenhar e a ler, às escondidas, as revistas que surripiava à mãe e camuflava entre os cadernos.
No Calvário, cruzaram a inquilina que voltava da praça com duas couves tronchudas.
— Olá, Norina! Olá, Verónica! — exclamou feliz, oferecendo-lhes o rosto crestado.
— Madrugaste, Nair! Não me digas que tiveste medo que as couves acabassem?
— Pareces bruxa, rapariga, aquilo andava para ali uma pubileia que uma pessoa nem se pode mexer com tanta gente — disse ofegante, posando a alcofa.
— E o teu Quim? Está melhor?
— Graças a Deus? Norina! Chegou ontem do sanatório do Caramulo... Oh!, nem te digo! Parece que ganhou dez anos de vida!
— Que Deus to guarde por muitos e muitos anos que bem mereces, Nair.
— Ai há-de guardar, há-de guardar! — repetiu confiante com um riso nos olhos.
— Vamos! Vamos! — disse Verónica apressada, puxando a mãe pelo braço.
— Vá!, ide lá se não quereis almoçar na hora da sesta.
— Adeus e bom Natal, Nair!
— Obrigado, igualmente, Norina! Oh!... — agradeceu radiante, antes de empalidecer e franzir a testa, recordando que era o primeiro Natal que elas passariam sem o pobre Arménio Sala que Deus chamara naquela maldita sexta-feira, 11 de Maio, quando faltavam poucos dias para retornar à Vila Real que ele amava tanto.
Na praça, para evitar os apertões da multidão impaciente e os encontros sempre tão comoventes e evocadores da fatalidade, compraram apenas as miudezas nas lojas do Mercado Municipal e acenaram ao simpático Júlio, que conversava com os clientes do terceiro frete do dia.
— Essas senhoras para onde vão, senhor Varandas? — perguntou a viúva acanhada.
— Para Sanguinhedo. Porquê? A D. Norina quer ir já para casa?
— Se houvesse lugar para nós duas...
— Há, minha senhora, venha! — respondeu uma velhota de lenço negro.
— Venham. Cuidado ao atravessar a rua, Verónica! — avisou o taxista, sorrindo e controlando o tráfego.
— Eu sei atravessar, senhor Júlio! — barafustou a pequenita.
— Só têm estas compras, D. Norina?
— Só. Este ano nós não... — balbuciou comovida, baixando os olhos.
— Pois... Desculpe! Vá, entrem — murmurou o taxista, pegando nos embrulhos.
— Vem para aqui miga! — disse uma rapariga dos seus vinte anos, abrindo-lhe as pernas para que ela se sentasse.
— Vai, filha — ordenou a mãe, esperando que lhe arranjassem um lugar.
— A senhora vai à frente, D. Norina — adiantou a velhota, mirando-a de alto a baixo.
— Não, a senhora é muito gentil, mas o lugar da frente é para a senhora. Vá!, não teime se quer que vamos convosco — recusou peremptória, abrindo-lhe a porta.
A Norina sentou ao lado da rapariga que segurava carinhosamente a Verónica e, batidas as portas, arrancaram. Em dois minutos de paragens e arranques bastaram para que as mulheres se apresentassem e simpatizassem. As de Sanguinhedo, mãe, filha e nora, ainda não sabiam se passariam a Consoada sozinhas com os filhos; os maridos, emigrantes em França, trabalhavam como mouros nas minas de carvão da Lorena, na região de Longwy, perto do Grão- Ducado do Luxemburgo, o país mais pequeno e mais rico da CEE — Comunidade Económica Europeia — , que, depois de ter sido o eldorado dos italianos e dos espanhóis, começava a atrair os portugueses; a desgraça da viúva, cujo marido fora estilhaçado em mil pedaços por uma bomba, essa, todas a sabiam de cor e salteado, tanta emoção causara em Trás-os-Montes. Antes de descer, a Norina pegou numa nota de vinte escudos e deu ao taxista para ajudar a pagar o frete. Impressionadas, as condoídas mulheres olharam as infortunadas e, acariciando os cabelinhos da Verónica, desejaram-lhes muita coragem, dizendo que eram coisas do destino a que ninguém escapa.
Em casa, Norina, mais do que nela, começou a pensar nas dezenas ou centenas de mulheres, que por esse país fora, além de chorarem a morte de um pai, um irmão, ou um marido, se viam sozinhas no mundo com três, quatro ou cinco filhos nos braços, a quem não sabiam como matar a fome, porque, apesar de tudo, Deus a deixara governada para o fim da vida, se mais nenhum homem a iludisse e lhe fizesse perder a cabeça, a ponto de se casar novamente e perder todas as regalias. Ah, os homens! Valeria porventura, a pena uma mulher livre voltar a cair debaixo da alçada de um homem, quantas vezes um rude e mau carácter, que sob a pele de tal cordeirinho manso, se escondia? E se Marta estivesse a cometer uma loucura? E se Júlio fosse um desses botelhos sempre com os dentes arreganhados para os estranhos e carrancudo para a mulher e os filhos? E se, com a vida que levava e as mulheres que, pela força da profissão, ele metesse um dia no carro alguma dessas desavergonhadas que, para virar a cabeça a um homem fazem tudo e mais alguma coisa? E os ses não cessaram de formigar na sua cabeça enciumada com o medo de que aquele estonteante corpo de mulher que a Marta... Mas..., cruzes, Santo Deus!, até parecia que estava apaixonada!
Foi naquele estado de espírito que a viúva viveu os últimos dias daquele maldito ano de 1973, que tudo lhe dera, tudo lhe roubara e muito lhe devolvera também; se consoada não quis, Natal não teve, porque sem a santa missa do galo ou a do beija-mão do Menino Jesus a que, desde que se lembra ser gente, nunca faltara, Natal não havia para ela, que ficara a manhã na cama a cismar com um não sei quê de maluquices, com Verónica toda catita a moer-lhe a paciência para ir ver aquele senhor padre novinho que parecia tão amigo dela nas horas de catequese no S. Pedro; de tarde, para a contentar, decidiram aproveitar o solzinho para sair a passear pela bila para esticar as pernas e espraiar um pouco; na rua Direita, como o larote apertasse, decidiram entrar na pastelaria diante do Excelsior e tomar um galão e..., os seus olhos quase lhes caíram ao chão...
“ O Raimundo!!! ” — bradaram as suas almas assustadas.
— Mãe, a senhô...
— Tchut! Cala-te, vamos embora! — cochichou Norina atemorizada pelo fantasma das suas insónias, dando um tamanho repelão à filha que quase a estendeu ao comprido.
Sem olhar para trás, viraram pela ruela da Pensão Excelsior e, apressando o passo, puseram-se a caminho de casa, onde chegaram ofegantes e se trancaram depois de largar a coleira ao Leão.
Depois, corridas as persianas, foram postar-se no postigo do mirante a perscrutar o horizonte para ver se o traste as tinha perseguido; expectantes atrás das cortinas, os seus corações quase explodiam: os seus olhos nem pestanejavam; as suas mãos, suadas e nervosas, amarfanhavam tudo a que se agarravam e as suas cabeças, abrasadas e abafadas sob os caibros do telhado, começavam a perder as estribeiras; embaladas pelas pulsações cardíacas e aterrorizadas pelos fantasmas do medo, entraram em pânico, perdendo a noção de tudo, do tempo, da vida e mesmo da razão porque agiam assim. Afinal, ao que sabiam, o Faia nunca lhes fizera mal nenhum.
Cansadas e sossegadas por mais de uma hora de vigília, desceram para a cozinha. Enquanto a mãe fervia a água para o café, Verónica pôs-se a ver o Daktari, um filme de aventuras na selva africana da macaca Chita e de uma família de defensores dos animais, em que, como não podia deixar de ser, apareciam sempre uns bandidos, na maior parte das vezes a soldo de uns traficantes de marfim, que acabavam sempre na prisão.
— Mãe!!! Ó Mãe, venha cá! — chamou Verónica, deitada no sofá.
— Foge, filha, foge! — gritou a mãe assustada, queimando-se na asa do bule.
— Vem aí o Faia, mãezinha?
— Não, aqui não! Mas..., tu que me querias, filha, que me meteste medo?
— Aquele bandido tem mesmo a cara do Faia, é mau, mas vai-se lixar que o Marshall vai prendê-lo! - adiantou a pequena radiante, imaginando o fim da história com o sósia do passador na gaiola de ferro, se o preto não lhe desse um tiro antes, que era o que aquele safado merecia.
Norina ainda se recompunha do susto, quando o Leão começou a ladrar. Largando tudo, correu ao quarto e, metendo bem a mão até ao fundo da arca do bragal, arrancou de lá a pistola. E, sempre a tremelicar de medo, espreitou pela frincha da persiana.
“ Uf!, afinal não é ele! ” — desabafou reconfortada, antes de ir abrir.
— Mas?!... Eh, vira para lá esse pistolão, Norina!!! Credo, parece que viste o diabo!!!
— Ai vi, Marta!
— Aonde?! — indagou perplexa, virando-lhe o cano da arma para o lado.
— Na pastelaria diante do Excelsior!
— Quem?!
__ Então tu ainda não o viste?!
— Mas quem?! Puxa, desembucha que me estás a meter cá um... — barafustou assustada a ex-namorada do passador, arregalando terrivelmente os olhos.
— Eu vi lá o Faia, Marta!
— O Raimundo?! Estás a sonhar, Norina! Ainda agora venho da Almodena! — ironizou a moça, bufando todo o medo que armazenara nos peitos.
— Ai tu riste?! Ri que...
— Oh!, deixa-te de fantasmas e vamos tomar o café que cheira bem — galhofou de gozo, pegando na pistola e entrando na cozinha.
— Tu tem cuidado, Marta! — avisou a viúva mais aliviada, fitando o horizonte circundante e afagando o Leão, que subira com a visita.
— Ó Marta!, ainda bem que vieste! Nós tivemos cá um susto!... Eu nunca pensei que a minha mãe corresse assim e tivesse tanta força como o meu pai: eu até voava!
— Então porquê? Tu também viste o diabo?
— O diabo?! O diabo não, o Faia!
— Oh!, está calada! O Faia está no manicómio em frança, ainda ontem mo disse um rapaz que veio de lá. Ah! pois é!... Vós não fostes ver o casamento da Zélia?!
— O casamento?? Tu vê lá onde tenho andado com a cabeça, rapariga, nem me lembrei mais do casamento da Zélia! Coitado, o Manuel Feliciano deve estar muito zangado connosco...
— Zangado?! Não! O Manuel Feliciano compreende a tua situação.
— Como o sabes?
— Eu vi a Maria de braço dado com o Zé. Por falar na Maria, ela sempre alcançou o bebé e por acaso ia muito bonita...
— Mas..., o que te disse a Maria?
— Oh!, que te queria visitar, mas até se acanha porque sabe que ainda deves andar...
— Então tu...
— Eu disse- lhe que desejasse muitas felicidades por vós à Zélia e ao Chico e que desculpasse por nem sequer ir ver o cortejo, mas que tu e a Verónica tendes passado estes dias festivos trancadas em casa...
— Oh!... Que Deus te pague! Obrigado, minha boa amiga! Mas que faria eu sem ti? — balbuciou comovida, abraçando-se soluçante à rapariga.
— Vá!, não me faças chorar agora, que eu vim para tomar o café! — disse risonha.
— Só?! E a menina não tem vergonha de vir larpar a casa de uma pobre viúva? — retorquiu séria, baixando os olhos e empiscando à Verónica, que, entretanto, largara o filme e se abraçara a elas.
— O Daktari já acabou, miga?
— Ainda não, Marta, mas..., oh!, o bandido vai sempre para a prisão e aquele, que tem a cara do Faia, — frisou, alongando o nariz — , bem merecia ir para o cemitério!
— Que me dizes, Verónica?!
— Ora anda ver se não tem mesmo um focinho como o teu pretendente.
— Vamos lá então ver se o meu ex-namorado tem cara de bandido — disse Marta curiosa, dando, de passagem, uma palmada com a mão esquerda na anca da Norina e entregando a direita à Verónica.
— Vá!, não demoreis que o café arrefece — avisou a viúva, esboçando um sorriso.
E elas não se demoraram mesmo. Apenas deu com os olhos no actor que incarnava o mau da fita, que acabava morrer todo ensanguentado nas garras do leão a quem instalara uma armadilha, para posteriormente o vender ao traficante de animais.
— Oh!, o filme...
— Está calada! O traste do Faia foi despedaçado por um tigre!
— Oh! tu não viste bem! Foi por um leão, Marta, foi por um leão!! — corrigiu a Verónica, olhando a amiga, que, impressionadíssima com as parecenças do artista com o Raimundo, passava a mão pela testa pensativa.
— Ainda bem que não me deu para ver esse episódio do Daktari.
— Pois, se não se borrasse, nem se mijasse toda, não dormiria esta noite. Eu sei como a mãe: uma cagarolas que só consegue ver o Roger Moore!
— Ro - ger... Ró!... Como disseste?
— Roger Moore! Então tu não conheces o Santo, Marta?
— Ah sim!... O Santo!! Ai a tua mãe gosta do Santo? Olha, desta não sabia eu, Norina! — exclamou a moça, corando ligeiramente ao encarar os olhos sérios da amiga.
— Oh, não gosta nada! O Santo não é verdade, pois não, mãezinha?
— Tu bem sabes que não. Vá!, sentai-vos e deixa-vos de lérias que eu hoje já me assustei de mais - disse aborrecida, servindo-lhes o cheiroso café de cevada.
Obedientes, as moças não abriram mais a boca, comendo e bebendo silenciosamente;
taciturnas, Norina e Marta espiavam-se discretamente; quando se olhavam, elas viam tudo nublado, como se a dúvida se tivesse instalado nas suas retinas circunspectas e lhes percorresse vertiginosamente o corpo de lés a lés à procura da resposta à questão que ambas pensavam: teria o Faia voltado ou não? E oura meia dúzia de perguntas se colaram a esta insuportável e angustiante curiosidade: porquê? Porquê?!
Ainda lavavam a louça do lanche, quando ouviram buzinar: era o Júlio. A Marta bem lhe acenou que viesse, mas o taxista, tímido como era, recusou o convite e esperou por ela na berma da estrada. Sorrindo enamorada, largou as chávenas no louceiro e correu lesta. Espreitando pela janela, Norina, que secava a os pratinhos, limitou-se a olhá-los nostalgicamente. Em que pensaria ela? Nos seus tempos de namoro com o Arménio ou nos estranhos sentimentos androgínicos que tanta confusão espelhava, mais do que no coração, no seu cérebro perverso? Estaria a perder a fé em Deus? Ou a ficar louca?
Como os namorados, depois de uns minutos em sério face a face, se tivessem sentado e se abraçassem, com o Leão e a Verónica a brincar na rampa, ela preferiu ir ver a televisão para esquecer o conflito interior em que vivia, mas a televisão não a sossegou; pegando na Bíblia, decidiu descer os geios e ir escutar os murmúrios das cachoeiras do Corgo, onde o fracassar da água nas rochas, apenas ferido pelo chilreio dos pardais, a catapultou para os labirintos ou as masmorras do infinito vazio, nem sabia, talvez o limbo?, não, esse parecia o purgatório das almas depenadas... Ou..., ou, quem sabia?, o inferno dos condenados, condenados a viver contrariados, condenados a vegetar simplesmente, porque os tabus sociais lhe impunham uma felicidade de fachada, e essa era tudo, menos felicidade... A bíblia bem a tinha aberta nas palmas da mão, como um sacerdote budista, mas não leu sequer uma linha; os olhos tinha-os abertos, mas não via nada; as narinas não respiravam e o coração, mas teria ainda coração?, não batia, como se os pulmões fossem inúteis, como o seu corpo não precisasse mais de ar para respirar, nem o sangue de oxigénio para circular. Ah, como seria bom poder viver como os anjos!... Anjos?! Ah, os anjos!... Estaria ela com os anjos? Eram brancos... Brancos?! Oh, que importava, eram de luz! Uma luz que não feria os olhos; uma luz... Oh! Uma luz que lhe devolvia a imagem de um anjo..., ou... e se fosse esse o Menino Jesus?!
“ Oh!!... Estou louca, meu Deus!!! ” - bradou inconscientemente.
“ Louca não! Estás livre, Norina? ” - respondeu-lhe o eco da sua alma gémea.
“ Mas quem és tu?! ” - retorquiu impaciente, respirando ofegante.
“ Eu?!... Eu sou tu depois! ”
“ Depois?! Depois quando? ”
“ Amanhã ou... depois, porque a vida são dois dias! ”
“ Não! Não me leves agora que... Ai!!! ”
E, gritando aflita, abriu os olhos, mas, evidentemente, não viu nada. Apenas o céu azul e os reflexos vermelhos do pôr do Sol que se espelhavam nas suas retinas vidradas e os passarinhos que esvoaçavam à sua volta; ao longe ouviu-se o latido do Leão e as ordens peremptórias da Verónica que gritava: vai buscar! trás cá!
Frustrada, ergueu-se e, respirando profundamente, encaminhou-se para o carreiro que serpenteava ao longo do rio. De repente, fixando as águas límpidas do rio, sentiu uma atracção fulminante pelo abismo e teve medo, muito medo de não resistir à tentação do demónio, mas, fechando os olhos e cerrando os punhos, gritou endofasicamente: Vade retro satanás! Vade retro satanás!
E, desatando a correr, galgou os sulcos dos geios a passo de homem.
— Que tens, mamã?! — perguntou-lhe Verónica estupefacta.
— Nada! Não me sinto bem! — desabafou ofegante, escondendo o rosto crespado.
— Quer um chá, mãezinha?
— Não, obrigado, meu amor! — balbuciou comovida, retirando-se para o quarto.
— Eu amo-te muito, mamã! — murmurou a menina, correndo a beijar-lhe o rosto frio.
— Um dia, se Deus quiser, ainda seremos muito felizes, filha!
— Se Deus quiser, mamã...
— Vá!, vai ver se a Marta...
— A Marta foi com o Júlio no táxi.
— Há muito tempo?
— Eles disseram-me que iam ver o casamento da Zélia e não demoravam, mas...
— Norina!!! — gritou a passeadeira, entrando espavorida na vivenda.
— Tchut!, diz-lhe que fui dormir! — murmurou baixinho, correndo a trancar-se.
— Eh!... Silêncio, Marta, que ela dorme! — disse zelosa, parando a leviana na sala.
Colhida a frio, a sua expansiva eufórica congelou-se e nem mais uma palavra. Taciturna, foi sentar-se no cadeirão a ver televisão; Verónica deitou-se ao comprido de barriga no sofá e nem pestanejou; no seu olhar cândido colado no ecrã pairava o inefável sorriso de alguém que nunca deixara de esperar contra toda a esperança, “ não, o pai que ela tanto amava não podia morrer, nunca, mas nunca! ” — acreditava irracionalmente.
— Diz, Marta, e o nosso segredo?
— O nosso segredo, Verónica? Se o desgraçado me deixar em paz, pronto, acabou, mas se me chateia... — disse hesitante e pensativa, agarrando nervosamente o couro.
— Se te chateia... — insistiu a mocinha, fitando-a obstinadamente.
— Acabo-lhe com a raça! — garantiu peremptoriamente sem pestanejar.
A palavras ficaram-lhes engasgadas na garganta, emudecendo-as. Depois, olhando-se sérias, levantaram-se e foram comer uma bucha de broa com polvo frito e bolos de bacalhau que a senhora Soledade teimara em lhe mandar pela filha.
E a noite de Natal lá se passou a ver o programa de variedades do Henrique Mendes, até que o sono se encarregou de as enxotar para o vale de mantas...



Continua em Capítulo VIII

LMP - Luxemburgo 1984 - Lud MacMartinson

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