sexta-feira, 18 de julho de 2008

Caminhos de ilusão: Capítulo VIII


Capítulo VIII




E o ano de 1974 nasceu na indiferença geral. O povo sacrificado habituara-se a resignar-se com a miséria e a contentar-se com que a caprichosa natureza lhe dava: pão, batatas e vinho e um pouco de toucinho, quando o porquinho medrava. Enquanto os dias da semana se passavam a labutar de sol a sol, os domingos, de sagrado repouso, só eram realmente Domingo com a obrigação cristã cumprida: é que na Santa Missa os homens, ricos ou pobres, pareciam mais iguais, sobretudo os que tinham o privilégio de irem comungar o Senhor.

No mês de Março, em plenas sementeiras, correu o boato de que uns básicos das Caldas da Rainha se lembraram de ir para Lisboa fazer guerra: doidos varridos aqueles soldados! Vejam lá a que ponto tinha chegado o recrutamento para a guerra do ultramar que até ao manicómio iam buscar rapazes, porque esses malucos, para confundirem Portugal com África, não podiam ter nascido com os parafusos todos, ou eram muito patriotas, não..., patriotas não seriam...; a..., a não ser que fossem filhos desses comunistas que apoiaram o Humberto Delgado, outro doido que, dizem os velhos, queria ser Presidente da República à força para dar as nossas colónias aos turras, como se os pretos se soubessem governar e seria por causa disso que depois os negros se revoltaram contra nós, enfim!, diziam...
Nesse mesmo mês começou-se a falar de um certo Spínola, um general que comandava as nossas tropas naquele lamaçal da Guiné que nem bananas dava; falava-se que esse militar, de quem os soldados gostavam muito por infligir pesadas derrotas aos terroristas do PAIGC de Amílcar Cabral, um cabo-verdiano que queria ser régulo da Guiné e do arquipélago de Cabo Verde, pois dizia-se que o Spínola era cunhado do Marcelo Caetano e que, se o deixassem, bombardear como ele queria há muito que tinha acabado com a raça aos indígenas, mas que aquilo da guerra era um negócio e, como outro negócio qualquer, só seria bom enquanto durasse e esse Spínola, Governador e Chefe Militar da Guiné, deveria ter muita dor de cotovelo, porque na sua província não havia ouro, diamantes, nem petróleo como mais abaixo em Angola.
Enfim, aquela Primavera, além das flores e das andorinhas, também chegava cheia de boatos e de mexeriquices da política, coisa em que o pacato povo transmontano não se metia, por não serem esses ossos do seu ofício.

Naquele ano Norina, que ia de mal a pior com as pegajosas enxaquecas, decidiu cultivar apenas o prédio da Timpeira à volta da casa, mas em Abril, e porque ficava muitas horas a ler e a meditar à beira do rio, decidiu ocupar o geio que servia de margem ao Corgo para fazer uma horta e mandou arrancar um valado de morangueiro que lá tinha, até porque aquelas cepas davam mais água-pé que vinho; depois, para aproveitar a água do rio, mandou espetar uns postes de pinheiro de quinze em quinze metros pelo prédio abaixo e levou a electricidade até ao penúltimo geio, onde instalou um motor de rega eléctrico; uma beleza!, assim não precisava de chamar ninguém para a ajudar a regar a horta, só a filha, se não estivesse na escola, para carregar no botão.

Na quinta-feira, 25 de Abril, a Verónica mal ouviu o trrim estridente e teimoso do despertador a chateá-la para ir para a escola; estranhando a brevidade da sonoridade, saltou assarapantada da cama e, abrindo as pálpebras, deu com os olhos na mãe, que lhe parara o relógio, toda suada a desatar o lenço.
— Donde vem a estas horas a transpirar já dessa maneira, mamã?
— Fui regar a horta, filha.
— E não me podia chamar para lhe ligar e desligar o motor?
— Oh!, o rio leva muita água e as couvinhas bem precisam!
— Elas já pegaram?
— Talvez, mas veste-te, filha, que hoje eu vou contigo até à escola. Olha, põe esse vestido às riscas que o dia vai aquecer — disse serena, esboçando um sorriso.
— Faça-me uma sopa de farinha com açúcar escuro, que eu gosto muito, mamã.
__ Vá!, então despacha-te!
Sorrindo com uns olhos de anjo, Verónica correu a lavá-los e vestiu-se à pressa, deixando o laço por apertar para que a mãe lho fizesse melhor; na cozinha, Norina fez a sopa de farinha, pô-la a arrefecer num prato fundo com o a colher e o açucareiro ao lado e foi mudar-se, cruzando a filha no corredor a pentear-se.
— Põe o açúcar que quiseres, mas tem cuidado não te sujes, filha.
— Faça-me o laço, mamã! — disse catita, virando as costas.
— Vê lá não te queimes! — murmurou a mãe, pegando nas fitas e dando o nó.
Na cozinha, como a sopa ainda queimasse, Verónica ligou o rádio e estranhou aquele tipo de música pesada “ Grândola Vila Morena, terra da fraternidade, terra da fraternidade — repetia o cantor de voz grave — o povo é quem mais ordena, dentro de ti ò cidade, dentro de ti ò cidade...” e, irresistivelmente, deu-lhe para aumentar o volume e prestar atenção à justeza das palavras, mais que à melodia, que associou instantaneamente às lamúrias dos galerianos dos navios romanos, sempre a remar e a ronronar de boca fechada.
— Que rádio é essa, Verónica? Ah!, tiraste-o da Rádio Renascença! — barafustou a mãe de passador nos dentes, ajeitando a saia preta.
— Não, mudar não mudei! — garantiu a pequenita sem pestanejar.
— Não pode ser, essa música não é da Rádio Renascença! Ora deixa-me ver..., mas realmente a linha está no mesmo sítio! — disse admirada, sintonizando à esquerda e à direita para ver se encontra o Rádio Clube Português, mas a música era a mesma.
— Ah!, eu não sabia que os rádios também pifavam da mioleira! — comentou irónica.
— Nem eu! — respondeu a mãe, não menos admirada. — Bom, despacha-te que...
— Aqui Lisboa, 8 e 45 deste histórico dia 25 de Abril de 1974. É com alegria que comunicamos ao país a reconquista da Liberdade. Com efeito, o MFA — Movimento das Forças Armadas — acaba de libertar Portugal de meio século de jugo fascista. De todos os pontos do país, de Trás-os-Montes ao Algarve, os quartéis juram, uns após outros, fidelidade à Junta de Salvação Nacional que irá acabar imediatamente com a guerra no ultramar e devolver ao povo a democracia para que os nossos recursos sejam aplicados na construção de um futuro melhor. Uns após outros, os quartéis aguardam apenas a ordem de marchar sobre Lisboa, se os pides e os fascistas refugiados no quartel do Carmo não se renderem. O MFA não quer derramamento de sangue, porque sangue português já correu demais nestes treze anos guerra em África, mas, se preciso for...
— Credo! A guerra chegou a Portugal, filha! — balbuciou Norina aterrorizada.
— Não, mãe, foi a Liberdade!
— A Liberdade?! Mas o que é a Liberdade?
— Sei lá!, a Liberdade..., a Liberdade é... a Liberdade!!!
— A Liberdade!!! A Liberdade!!! — exclamou a mãe alucinada, arrancando do peito um suspiro de alívio que ecoou pela vivenda.
— Oh! a Liberdade deve ser a alma de uma pessoa, mãe!...
— Será!... Será!..., mas come, filha!
— Ó mãezinha, eu já não tenho fome! A Liberdade o coração e os olhos. Se calhar é a alma que quer sair do corpo... Olhe, eu ainda não sei ao certo o que é, mas que a Liberdade mata a fome e faz bem à alma lá isso faz!
E, naquela hora, só lhes apetecia ficar diante do rádio a escutar aquela música estranha que tão bem fazia ao coração; adeus fome, adeus escola, adeus sol que entrava pela janela, adeus céu azul, adeus..., adeus tristeza, adeus luto e adeus escravidão era o que o canto da Liberdade lhes inspirava...
A caminho da escola, uma e outra só pensavam na palavra indefinível que aquele radioso 25 de Abril de 1974 lhes permitira descobrir que todo o ser possui ao nascer, mas que outros homens se encarregaram de lhes pedir emprestada ou roubar no tempo dos seus avós, como se alguém tivesse o direito de apropriar ou algo inerente à vida sem a pôr em perigo: a Liberdade! Olhando o claro azul- celeste daquele magnífico dia de Primavera, elas, exuberantemente mudas, caminhavam de mãos dadas, indiferentes aos bólides que se dirigiam para junto do quartel da cidade e buzinavam ruidosamente, festejando certamente a Liberdade. A Liberdade como era linda a Liberdade! Que tolos tinham sido os homens para terem demorado tanto tempo a saber que a verdadeira Felicidade só pode rimar com Liberdade e Dignidade!
A uns quinhentos metros da escola, um adjunto de homens comentava o golpe de estado. Golpe de estado?! Era a primeira vez que a Norina ouvia aquela expressão portanto da sua língua e achou-se muito ignorante. Ah! como gostaria de ter estudado para agora saber tirar as dúvidas e as questões a que o seu espírito ingénuo não sabia responder; e nunca a vontade de estudar a entusiasmou tanto. Depois, caindo das nuvens, sorrindo para a Verónica lá prosseguiu a caminhada, pensando que se calhar ainda não era tarde de mais para estudar, não para ser professora ou ter um bom emprego, mas para saber ler entre as linhas.
No recreio da escola, poucas eram as pessoas que conheciam a notícia. Inquieta, dirigiu-se à professora que a recebeu muito gentilmente.
— Bom dia! Seja bem-vinda, D. Norina! Olá!, vens muito bonita, Verónica!
— Bom dia! A senhora professora ouviu falar do golpe de estado?
— Por acaso não, mas fui telefonar ao senhor inspector que me aconselhou a dar normalmente as aulas porque aquilo se passava em Lisboa. Muito longe, D. Norina!
— E os soldados do RI-l3?
— Báaah!... Os soldados farão o que o senhor comandante mandar. Fique tranquila que não é contra as crianças que a revolução se faz!
— Se fosse a favor... — murmurou a mãe dubitativa, olhando misteriosamente a filha.
— Vá!, não se inquiete que, se for preciso... A D. Norina tem alguma coisa que fazer? — perguntou a docente, franzindo a testa pensativa.
— Não, nada de especial, mas porquê, D. Carminda?
— Não fazendo de si criada, ficava aqui à porta e tranquilizava-me alguma mãe que, entretanto, possa ouvir a notícia e corra para aqui aflita. A senhora faz-me esse favor?
— Com certeza, D. Carminda! Vá leve as crianças que eu fico aqui para o que a senhora professora precisar.
— Obrigado, D. Norina! Meninos! Meninas! Ei! Vamos para dentro! — gritou sisuda, batendo estrondosamente as palmas e incentivando as crianças que passavam.
A mestra ainda lhe sorria e lhe acenava pela janela, quando o seu olhar foi perturbado pela correria dos jeeps do exército de metralhadora em riste; numa algazarra infernal, soltando os espavoridos gritos de cow-boy, os soldados ora debruçavam-se inconscientemente para todos, ora agitavam entusiasticamente os braços, fazendo o V de vitória com dois dedos; olhando à esquerda e à direita, Norina teve a impressão de estar no meio de um furacão e amedrontou-se, tantos eram os carros a buzinar e a acelerar na direcção do centro da cidade.
Entretanto, perto da hora do recreio, começaram a surgir as primeiras mães inquietas.
— Sabes o que se passa para os lados do Carvalho Araújo, Zulmira?
— Não, ao certo não sei, mas parece-me que mataram o Salazar!
— Salazar?! Mas o Salazar já morreu há três ou quatro anos!
— Mesmo?! Olha, hoje a Rádio Renascença só fala nele, no MFA, na Liberdade e..., deixa-me cá ver como era o verso que eles gritavam... o povo unido jamais será vencido!
— O povo unido jamais será vencido?! Tens a certeza, Zulmira?
— Olha, rapariga, eu nunca os ouvi dizer tantas verdades como hoje.
— Que verdades?
— Sei lá! Que a guerra do ultramar era injusta; que o regime fascista torturou e matou muitos prisioneiros políticos; que o povo merece melhor vida; que o MFA vai instalar a democracia em Portugal; que os trabalhadores vão ter direito à greve, que se vai festejar Maio outra vez e que a reacção não passará, porque o povo unido jamais será vencido e sei lá que mais!, mas...
— Uáaah!! Uáaaah!!! — exultaram os alunos, anunciando a hora do recreio.
— Uéeeh!! Uéeeh!!! — berraram outros, empurrando os primeiros e correndo atrás da bola que um calmeirão lançara para o terreiro.
— Ai! Ai! — gritou a menina da touca, queixando-se de uma cotovelada no sobrolho.
— Ei! se tornas a empurrar a minha irmã parto-te os cornos! — ameaçou um garoto.
— Ó Tônho, foi sem querer, mas se queres jogar à bulha, salta para ali — desafiou prontamente o outro, valentão, cerrando os punhos e entesando-se todo.
— Vamos lá ver se os meninos têm juízo! — exclamou a professora, correndo a meter-se entre ambos para evitar que o sangue espichasse pelo nariz do franzino Tó.
— Ai credo, senhora professora, isto é um inferno! — constatou a mãe da Verónica, adiantando-se para ajudar a separar os belicosos catraios.
— Oh! eles são assim: tanto se batem como dividem a merenda!
— O POVO, UNIDO, JAMAIS SERÁ VENCIDO!!! O POVO, UNIDO, JAMAIS SERÁ VENCIDO!!! O POVO... — ecoava pelo transístor de um transeunte radiante.
— Aquilo é voz de gente — disse Zulmira, olhando o popular.
— Essa sim, é a voz que o povo sempre devia ter tido! — opinou Norina, procurando a filha entre os mais atrasados.
— Ah! De tarde a senhora professora devia fechar e escola! — sugeriu um homem que chegava quase sem fôlego, limpando o suor da testa a um lenço de popelina.
— Porquê, senhor...
— Manuel, Manuel da... Eira!... Ah!... — disse ofegante. — O Spínola já apareceu na televisão a dizer que MFA formou uma Junta de Salvação Nacional para governar o país até à realização de eleições livres, a que podem concorrer todos os partidos políticos ilegalizados pelo regime fascista e pelos que se venham a formar até lá. Ao lado dele estavam muitas outras patentes militares, entre os quais um transmontano de raça.
— Quem?! Quem?! — perguntou um curioso, do outro lado do muro.
— Um tal Costa Gomes, general do exército!
— Ó carago!, se é general e transmontano, temos homem! — entusiasmou-se outro.
— Então esse, sim, vai ser o que o Humberto Delgado não foi!... — exclamou um velhote de mata-ratos no beiço!
— O quê, ti Chico? — retorquiu o da novidade, mais calmo.
— Presidente da Republica, carago!
— Era bem bom! Assim deixávamos de estar para aqui abandonados no Cu de judas! — opinou um campónio sem papas na língua.
— Vá!, deixem falar o senhor Manuel da Eira, que já me estão a pôr nervosa — pediu a mestra, corando e fitando timidamente os homens.
— É como digo, a senhora professora devia deixar ir os meninos para casa e dispensá-los das aulas da tarde, porque as coisas podem piorar lá por Lisboa e, sei lá!, algum desses pides...
— Pois, também tem razão — anuiu imediatamente, franzindo a testa a pensar no que havia de dizer. — Ei, meninos! Ei! Ouçam todos!: de tarde não há aulas e quem quiser pode ir já para casa!
— Uáaaah!!! — exultaram os mais atentos, pulando e gesticulando de contentes.
E o adjunto que ali se formou não parou de partilhar e comentar a enxurrada de novidades que a rádio ia difundindo a conta-gotas, intercaladas de música revolucionária; satisfeitas com aquele feriado, as crianças foram-se dispersando, enquanto os adultos se discutiam uns com os outros a respeito da liberdade.
Nervosamente influenciadas pelas opiniões divergentes das dos chicos-espertos, a Norina e a filha deram as mãos e, esticando o passo, regressaram a casa; apenas chegaram, foram saudadas pelo Leão, mas nem pararam para lhe darem os mimos que ele lhes reclamava, e correram a ligar imediatamente a Rádio Renascença e a televisão para confirmar se era mesmo verdade o muito que se dizia, desconfiando que quem ouve um conto sempre aumenta um ponto.
De respiração suspensa e ouvidos colados no rádio, mãe e filha cravaram, sem pestanejar, os olhos da mira da televisão, onde aparecia, a preto e branco, o letreiro aguarda-se a todo o instante uma comunicação do Conselho da Revolução ao País...
E, assim hipnotizadas, não viram o tempo passar, nem tampouco sentiram o estômago bater as horas do almoço, tal era a fome de certeza que os seus corações palpitantes lhes fazia ecoar pelo peito.
Finalmente, pelas três da tarde, lá se resignaram a meter uma bucha à boca: a Verónica quis comer a massa com grão-de-bico da véspera, enquanto a mãe se satisfez com um pedaço de broa com queijo e azeitonas. Depois, soltando a coleira ao Leão, foram para a rua ver como o povo reagia àquele primeiro dia de Liberdade.
Aos poucos, parando aqui e ali, adiantando-se mais uns passos e chegando-se mais além para ouvir o que as pessoas diziam, nem se aperceberam que a curiosidade as arrastara até ao coração da cidade, onde um adjunto, oh uma multidão!, brandindo cartazes e letreiros e mostrando os punhos e os dedos da vitória, rodeavam os soldados e lhes metiam nos canos das espingardas os cravos que encontraram nas lojas do Mercado Municipal, dando bridas à incomensurável alegria que sentiam; os soldados, festejados como heróis, nem sabiam como agradecer o amor que o povo lhes testemunhava; as raparigas mais ousadas beijavam-nos e todo o mundo queria tirar fotos com eles ao lado de um chaimite ou dos jeeps com metralhadora; no meio daquela multidão estupefacta e curiosa, os estudantes eram os mais revolucionários e os que mais gritavam, ensurdecendo e arrepiando mesmo os mais sensíveis e apáticos com o mágico e inebriante slogan, milhentas vezes repetido, O POVO UNIDO...
E, inevitavelmente, todos foram contagiados por aquele desconhecido vírus da Liberdade! A liberdade!!! Mas como era bela e fazia bem a indescritível e inefável sensação de liberdade que se via nas retinas e nos lábios de todos quantos, sorrindo sem saber porquê, se olhavam sem corar e se orgulhavam de estar ali em verdadeira comunhão a partilhar exuberantemente aquele momento de indómita felicidade.
De retorno à Timpeira, Norina e Verónica, fielmente escoltadas pelo Leão, mal se falaram. Enquanto a pequenita saltitava alegremente de muro em muro e punha à prova a destreza do cão, a mãe arrastava penosamente a tristeza que a imagem do marido, subitamente nas suas retinas, lhe causava e, sentindo uma dor aguda, pouco depois das boxes do circuito, parou; respirando profundamente, apalpou os peitos para descomprimir o coração, porém a picada persistiu, mais aguda; pálida, sentiu os olhos marearem-se e, em vez de enxugar as lágrimas e abafar os suspiros para que ninguém a visse e se apiedasse dela, não, não escondeu nada e só lhe apeteceu chorar e gritar bem alto para que todo o mundo soubesse que, apesar da liberdade, jamais poderia ser feliz, mas a sua garganta ressequida não permitiu que aquele grito ecoasse pela cidade naquele dia da Liberdade.
— Ó Mãe, venha, mãe! — berrou-lhe Verónica de longe, virando-se para trás.
E nada. Cabisbaixa, Norina soluçava convulsamente, tentando dominar como podia os calafrios, e limpava vagarosamente as lágrimas; pressentindo a aflição da ama, o Leão correu instintivamente para junto dela e começou a ganir e a lamber-lhe as mãos salgadas, cobrindo-a de mimos e latindo para a Verónica que acorreu lesta.
— Ó mãezinha!! Vá!, não chore mais!!! — implorou condoída.
— Oh!... Deu-me para chorar! — desabafou cabisbaixa.
— A senhora que tem, mãezinha? — volveu a enternecedora Verónica, tentando descortinar-lhe os olhos por ente os cabelos descaídos.
— Oh!, lembrei-me do teu pai e deu-me para gritar, mas...
— Gritar aqui?! Hoje?! É só isso, mamã?
— É, filha, vamos que se faz tarde — respondeu a mãe, acariciando-lhe os cabelos e sorrindo ao Leão que não parava de ganir e de lhe oferecer as patas.
E lá se foram de mãos dadas a recordar os inesquecíveis momentos de felicidade passados com o pobre Arménio Sala, começando por aquele memorável dia em que o foram esperar à descida do navio que o trazia do ultramar até à última vez que se despediram dele para sempre...
Naquela noite de 25 de Abril, Verónica quis ver a televisão até tarde, adormecendo, porém, pouco depois do discurso do general António de Spínola, chefe da Junta de Salvação Nacional; Norina bem olhou para a estrada a desejar que a Marta lhe viesse fazer companhia, contudo as trevas acabaram por descer sobre a rampa sem que a rapariga desse sinais de vida. Ah! que falta lhe fez o telefone!
No dia seguinte, depois de deixar a filha na escola, meteu-se a caminho de Almodena, mas perto do Cabanelas foi apanhada pelo cortejo de apoio à revolução; no quiosque da esquina do Mercado Municipal já não havia jornais e até os poucos que os conseguiram, receando rasgar aquelas históricas relíquias, receavam abri-los diante de toda a gente, porque não havia respeito: todos temiam os empurrões e as espreitadas dos curiosos.
Misturando-se no meio da vozearia da multidão, ouviu tantos slogans que no fim só o do povo unido permaneceu no seu ouvido, enquanto as suas retinas lhe devolviam a imagem da simbiótica união que reinava entre patrões e trabalhadores, como se as desigualdades tivessem desaparecido como que por encanto ou obra da sacrossanta Liberdade.
Na Almodena, o povo lá continuava a sua labuta, esperançado que o Spínola cumprisse o que escrevera no seu livro Portugal e o Futuro para que os rapazes, em vez de irem contrariados para a guerra, pudessem sair livremente para a França ou para a Alemanha, ganhassem muitos contos e os investissem na terra para dar trabalho aos que cá ficassem, porque de Lisboa não era de esperar coisa boa, com aquela gente toda a querer tudo de uma vez. Oxalá a Revolução dos Cravos, como alguém lhe chamara na rádio, não se tornasse a dos diabos, numa alusão aos comunistas, como o padre lhes dissera na véspera, à volta do cruzeiro, antes de se irem deitar.
No solar não estava ninguém: o senhor João e a filha tinham ido ajudar um vizinho a semear mais uma leira e a senhora Soledade, a ver pela corte vazia, deveria ter levado a vaca para o lameiro. Antes de voltar para casa, Norina ainda espreitou para as hortas mais próximas, mas lá se resolveu a voltar para a Timpeira, não sem deixar primeiro um bilhetinho à Marta debaixo da porta.
Ao meio-dia, quando ouviu a algazarra dos alunos que saíam da escola, ainda estava a uns bons duzentos metros dos portões. Apressou então o passo, chegando mesmo a correr, para não se desencontrar com a filha que, felizmente, ficara a ajudar a sala de aula à professora.
— Ah! a D. Carminda hoje teve uma criadinha! — exclamou orgulhosa, surpreendendo-as a arrumar os cadernos e os tinteiros no armário.
— Olá, senhora Norina! — exultou a professora, vendo-a espreitar sorridente.
— A mãe donde vem assim cansada? — perguntou Verónica, sentindo-a ofegante.
— Da Almodena, filha! — respondeu a mãe, depois de recuperar o fôlego.
— A pé, senhora Norina? — retorquiu a professora com estranheza.
— Ó D. Carminda, eu não sou nenhuma fidalga para não poder fazer uma légua a pé e por boa estrada! Quando era catraia fui com o meu papá até à Balsa!
— Credo! e não se cansou?!
— Oh!, quem corre por gosto não cansa e eu gostava muito do meu paizinho. Coitado, ele andava tão entusiasmado com uma senhora!...
— Com uma senhora?! — volver a professorinha surpreendida.
— Sim, então, o pobrezinho já estava viúvo quando eu tinha há dez anos e queria arranjar-me uma madrasta, mais que uma companheira para ele, que só foi homem de uma mulher, a Maria Rita, a minha mãezinha que quase morreu para me dar à luz. Coitada, sem a ablação da matriz, não se sentia a mesma mulher!
— Porquê, D. Norina, porquê?
— Porque ela sempre sonhara com uma família numerosa. No dia 13 de Maio de 1947, se não fosse o doutor Campos, que se acabava de formar e abrir um consultório na bila, teríamos morrido ambas e se calhar melhor teria sido melhor! — recordou a melancólica viúva, fixando os olhos meigos da filha.
— Ah! não diga isso, D. Norina! Então a senhora ainda queria melhor razão de dar graças a Deus que esta menina tão linda? — arguiu sorridente, acariciando Verónica.
— A senhora professora nunca amou ninguém pois não?
— Infelizmente...
— Infelizmente?! Não me diga que... Enfim... — murmurou penada, vendo que os olhos da professorinha se comoviam também.
— A vida prega-nos destas partidas...
— Vá!, acabem com a conversa senão ainda fazem o mar chegar aqui — troçou a menina, sentindo que a mãe e a professora iam chorar de verdade.
— Não me digas que a tua mãe chora assim tanto, Verónica?!
— Oh! se ao menos ela chorasse! — desabafou pensativa, analisando o olhar maternal.
— Deixe lá, D. Norina, o coração das mulheres são todos iguais...
— Acha, senhora D. Carminda?
— Ah! esqueça a senhora dona e chame-me simplesmente Carminda! — rogou a professora, corando pouco e desviando os olhos daquele rosto submisso.
— Desculpe, mas não consigo, pelo menos por agora — disse acanhada.
— Bom, vão com Deus que a Verónica...
— A senhora professora não quer ir almoçar connosco? — sugeriu jovialmente a aluna.
— Oh! não...
— Óptima ideia, filha! Mas venha, Carminda! — insistiu a mãe, orgulhosa.
— O vosso convite honra-me imenso, mas..., desculpem, hoje tenho...
— Pronto, então se tem um encontro marcado... , não insisto mais. Porém quando quiser... apareça. Será com muito gosto que a receberemos, Carminda.
— Oh! e pronto que se lixe o almoço com o director!... Se não se importam, venham-me lá mostrar a vivenda dos meus sonhos — disse a professora, sorrindo para disfarçar a vergonha que sentiu ao escorregar e desvendar a identidade do homem com quem devia almoçar.
— A senhora professora não veste o casaco?
— Não, Verónica, só se fosse para ofender o Sol!
— Pois, também acho! — anuiu Norina, sorrindo e dando a mão à filha.
E lá se foram arranjar o almoço. Pelo caminho, a órfã tagarela não se cansava de gabar o pai e repetir que um dia o haveria de encontrar; no céu, pensavam a mãe e a professora, empiscando-se comovidas; contudo, adivinhando-lhes os pensamentos, Verónica sorria e, recordando a história do “ Desejado ” , — o nosso rei D. Sebastião que morrera em África, na batalha de Alcácer-Quibir em 1580, e o povo, sob o domínio dos Filipes de Espanha, sempre alimentara a esperança de o ver retornar num dia de nevoeiro — , dizia que o paizinho dela voltaria, mas num dia de Sol, porque Deus não levar-lhe um pai assim tão novo...
Perto de casa, largou a mão da mãe e desatou a correr para soltar o Leão que, solto, nem esperou pelos mimos da amiguinha e fugiu na direcção da ama, afligindo a mestra.
— Ai! ai!... Agarrem-no!!! — gritou aterrorizada pela língua ululante do cão, agarrando-se desesperadamente à Norina.
— Leão!!! Vem cá, Leão!!! — berrou a dona, dominando a fúria canina.
— Uf! tive cá um susto! — balbuciou a professora, balançando a mão diante da boca e fisgando ao mesmo tempo o cão preso.
— Fique tranquila, senhora professora, que o Leão não morde — garantiu a Verónica.
— Pois, o do meu tio também não mordia e olhe... — arguiu desconfiada, mostrando-lhes uma cicatriz que tinha na bucha da perna mesmo perto do tornozelo.
— À mesa conta-nos essa história, Carminda. Vá!, filha, amarra lá o Leão senão a senhora professora nunca mais cá aparece...
— Ah, sozinha não! Pelo menos enquanto não tiver a certeza que o cão...
— O Leão?! A senhora professora ainda aqui há-de vir só para o visitar! - disse Verónica sorridente mimalheira, acariciando o pêlo luzidio do canino que não parava de ganir e de lamber carinhosamente as mãozitas.
— Venha que o bichinho não lhe faz mal, Carminda — assegurou a viúva, empiscando à professora e descendo calmamente a rampa.
— Realmente!... Ela é muito bonita, Norina! — observou a professorinha, admirando a vivenda cor-de-rosa iluminada por um magnífico Sol primaveril.
— Pois, mas foi por ela que o meu marido se perdeu... — murmurou tristonha.
— Ah! a Norina ainda é muito jovem!
— Oxalá que não fosse, mas infelizmente nunca se é velho de mais para sofrer!
— Ora essa, agora a Norina não pode viver o resto da vida a chorar! Olhe que o Arménio não deve gostar nada de a ver assim.
— Olhe..., por aqui vai se para o rio. Ah! se a Carminda soubesse como a água me fascina, sobretudo nas horas de tristeza! — confessou ingenuamente, mudando de conversa e apontando para o Corgo.
Aprazendo-se ali, a professora admirou silenciosamente a vivenda por fora e, seguindo a confidente, subiu as escadas; debruçada no banzo da varanda, Verónica via-as de cima, espiando-lhes o menor gesto, e sorria: as mulheres com quem mais convivia travavam, finalmente, conhecimento. Quantas vezes, fazendo-se despercebida e entretida a escrever ou a desenhar no seu banco da escola, não viu nos olhos da sua professora a mesma tristeza que deixara nos da mãe antes de sair de casa ou nos da Marta, quando a sentiu enlouquecer por causa daquele traste do Raimundo. E, pela primeira vez na vida, a inocente descobriu que no sofrimento os corações das mulheres são todos iguais.
Enquanto a filha mostrou o interior à professora, Norina despachou um bitoque com batatas fritas que quis servir na sala de jantar, mas, curiosamente, Carminda preferiu almoçar mais intimamente e sem cerimónias na cozinha, para confirmar se a ideia que ela se fazia delas coincidia com a realidade.
E o silêncio só foi quebrado quase no fim da refeição, quando, depois de uma taciturna hesitação, a professora, olhando à sua volta, perguntou:
— Pelo que vejo, ainda nunca nenhum homem almoçou aqui, pois não?
— Por acaso não, mas como soube, Carminda?
— Sei lá!, foi um pressentimento!...
— Ou o nosso sexto sentido! — comentou a mocinha, interrompendo o gole.
— É, talvez!...
— A Carminda quer que lhe descasque uma laranja para a sobremesa, quer?
— Sobremesa?! Credo, nem pensar, já vamos chegar atrasadas! — observou aflita, arregalando os olhos e erguendo-se ligeira, mal deu com as horas no relógio mural.
— Levem a laranja para o recreio! — sugeriu prontamente a Norina, vendo-as limpar os lábios e sair apressadamente.
— Até logo mãe! — gritou a Verónica.
— Obrigado, Norina, estava muito bom! — agradeceu a professora, virando-se e acenando jovialmente do patamar.
— Ora essa, o prazer foi todo meu, Carminda! Volte quando quiser!
E o convite da Norina ficou no ar, porque a professora e a filha, compenetradas a descer as escadas às duas e às três, não ouviram certamente nada. Em cima do arco da ponte, a Verónica ainda olhou para trás, mas a mãe já não estava na varanda.
Mais adiante foi a ofegante Carminda quem se virou também, sem, contudo, ver outra coisa que não o vulto róseo da vivenda por quem um homem corajoso, talvez da raça dos intrépidos e gloriosos marinheiros quinhentistas, sacrificara a vida e muito sonhara.
Passada a esplendorosa festa do 1º de Maio, cuja a adesão popular fascinara os mais reticentes e incrédulos, em Vila Real, como por todo o país, a Revolução dos Cravos, - como fora apelidada internacionalmente, por os lisboetas enfiarem no cano das espingardas cravos vermelhos e o golpe de estado se ter feito sem derramamento de sangue, devido em parte ao enorme sentido de estado do professor Marcelo Caetano, Presidente do Conselho de Ministros, que entregou ao general António de Spínola, a figura mais emblemática da insurreição, - suscitava uma esperança ilimitada num futuro melhor e à compreensível caça aos bufos da pide, seguia-se uma delação ignominiosa de todos quantos exerciam, até ali, posições de destaque na sociedade, considerados fascistas e reaccionários; os empregados e salariados, encorajados pela bem organizada falange comunista, começavam a urdir a destituição e o saneamento puro e simples dos patrões com quem haviam confraternizado em 26 de Abril e a inevitável, pondo em marcha acelerada e irracional a expropriação dos meios de produção industrial, fabril e terciária do país, sobretudo nos dois terços de Portugal que se situavam abaixo de Leiria, tantos eram as exacções aí cometidas e o poder revolucionário começou a derrapar mesmo antes de serem cavados os alicerces da tão apregoada sociedade igualitária.
No dia 11 de Maio, sábado, primeiro aniversário da morte do seu querido Arménio, Norina foi com a filha visitar o solar e, nostálgica, começou a tocar morbidamente aquelas pedras de perpianho que haviam assistido, mudas e frias, ao seu horrível calvário; na varanda, o senhor João, que tirava o cochilo da sesta, ressonava. Marta, essa, falava com o Júlio no terreiro, enquanto a senhora Soledade, que acabara de arrumar a cozinha, condoída com aquela cena, agarrara o balde da lavagem dos porcos e se retirara com a Verónica para os quinteiros.
Voltando de acomodar as crias, a velhota tudo fez para a reter até a Marta chegar, mas a estouvada, como dizia, quando estava com o taxista esquecia de tudo e, apesar das insistências, Norina lá voltou para a Timpeira sozinha, fazendo a vontade à filha, que quis ficar coma senhora Soledade para ir ver os requinhos que a porca parira na véspera.
Pelo caminho, Norina não parou de falar com os seus botões e de ponderar a hipótese de, passado este ano de luto, retirar o preto, como era uso, mas os seus olhos começavam a sentir-se bem e a gostar de a verem assim: o negro conferia-lhe mais nobreza e classe, fazendo-a imaginar-se a estudante que tanto queria ser e teria sido, se o destino não lhe levasse o pai no último ano da escola primária.
Depois de um domingo de retiro e muita reflexão, à noitinha Norina, que via a televisão deitada no sofá, foi alertada pelas apitadas insistentes de um automóvel. Ergueu-se imediatamente e correu à janela, sendo surpreendida pela aparição da Verónica no táxi do Júlio, que, derreando-se até à altura do busto da Marta, lhe sorriu e acenou jovialmente.
— Obrigado!! Obrigado!!! — bradou esganiçada, respondendo aos acenos.
O táxi deu meia volta na estrada e desapareceu, enquanto o Leão, latindo, dava as boas-vindas à Verónica.
— Então não os convidaste para virem beber um copo, filha?
— Eles não quiseram, mãe. A Marta tem que entrar em casa antes da pôr do Sol.
— A Marta..., ai a Marta!... — suspirou maliciosa, fitando o horizonte.
A menina, apercebendo-se da nuance do olhar maternal, sorriu e correu para a casota do seu mais fiel amigo para ver se não lhe faltava nada.


Continua em Capítulo IX

LMP - Luxemburgo 1984 - Lud MacMartinson

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