Lady

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Caminhos de ilusão: Capítulo XI


Capítulo XI




Na noite de Natal, depois de deixar os sogros em Almodena, Júlio ainda foi cear a casa dos pais e, dada a sonolência da hora tardia em que se deitaram, não revelou à esposa a sua desconfiança a respeito do passador, apesar de nunca o ter encarado nenhuma vez , nem tampouco saber de quer raça o sujeito era feito. Porém, sozinho ao volante do taxi ou mesmo quando estava de frete, o taxista não parava de matutar sobre ele, chegando mesmo a desconfiar daquelas manchas vermelhas deixadas nos lençóis pela virgindade da Marta na noite de núpcias e uns nervos começaram a roê-lo por dentro. Apesar de saber o sogro de atalaia, começou a inquietar-se e, depois de, numa transcendental noite de amor, ter subido e levado a gestante ao sétimo céu, contou-lhe tudo, prevenindo-a e aconselhando a ter muito cuidado e a ser discreta, até porque o Faia devia estar com a pulga atrás da orelha. Tranquilizando o marido e jurando-lhe que, como ele pudera constatar, o passador nunca lograra os seus intentos e até seria por isso que rapidamente a esqueceu. Acariciando-lhe e beijando-lhe a barraguinha, Júlio sossegava-a e reiterava-lhe a sua inteira confiança, mas no fundo da alma as dúvidas persistiam, acumulando-lhe no estômago uma pilha de nervos. Entretanto, o senhor João cruzara o conterrâneo no largo da aldeia e cumprimentara-o jovialmente como sempre e desejara-lhe as melhoras, pois soubera-o muito doente. Quanto à Marta e ao Arménio nem uma palavra, até porque lhe parecia que o Raimundo ficara realmente maluco. Contudo, mais abaixo, no quelho da horta, ouviu duas tias do passador cochichar que o estrangeiro acabara para o pobre sobrinho e apressou-se a contá-lo ao Júlio que, a pretexto de uns salpicões que a sogra lhe mandava, correu à Timpeira falar com a Norina para saber novidades do Leão, que o acolheu aos saltos, atiçado pelos gritos da Verónica e da Carminda, que não paravam de lhe gesticular da varanda.
— Eh!, as meninas apupam-no, mas depois se eles vos morder queixem-se!
— Ele não faz mal a ninguém, Júlio! — acrescentou a viúva, debruçada no patamar.
— Nunca se sabe, Norina, nunca se sabe!
— Leão, vem cá, Leão! - bradou a professora emproada, batendo no joelho.
— Isso, aturai-o vós que tendes tempo de sobra — adiantou o taxista risonho, entregando o embrulho com o fumeiro à Norina.
— Suba para beber um copo, Júlio — insistiu graciosa, pegando na encomenda.
— Obrigado, Norina, mas estou com pressa: esta manhã ainda tenho que ir levar dois emigrantes a Lamego.
— A Lamego?! O que é que eles vão fazer a Lamego?
— Ao certo não sei, mas acho que vão ver se adiam a tropa ou arranjam uma via para poderem atravessar a fronteira.
— Então boa-viagem e amanhã não se esqueça de vir beber um copo de champanha e brindar connosco ao Ano Novo. Ah! não se esqueça de trazer os seus sogros!
— Normalmente eu e a Marta vamos festejar a passagem de ano com os meus pais, mas se vocês não se deitarem muito cedo...
— Venham à hora que quiserem que nós prendemos o Leão.
— Não, Norina, deixem-no à solta que ele já nos conhece e além disso o bichinho também deve querer ver os foguetes e correr atrás das canas — arguiu o taxista, empiscando e acenando à Verónica e à professora que não paravam de excitar e de se rir com as lambedelas que o mimalheiro e ululante Leão, atirando-se a elas, lhes dava nas mãos e na cara.

No dia 31 de Dezembro de 1974, terça-feira, Norina saiu com a filha e a Carminda para a praça, mas não se demorou muito, tanta era a pubileia naquele dia de mercado. Na rua Direita foi ao quiosque pegar a sua encomenda semanal e, passando diante do Márius deu com os olhos no Jorge que lhe sorriu timidamente; mais atrasada a esfolhar uma revista, Carminda viu-lhes os trejeitos e, maliciosa, fez-se despercebida, prosseguindo a caminhada, Verónica, essa, a ler a Maria, não se apercebeu da excitação e do nervosismo da mãe, que, julgando-se espiada por toda a gente que passava, acelerou o passou, largando o pobre rapaz, que fizera menção de lhe falar, boquiaberto na esquina da loja. Voltando à praça pela subida do S. Pedro, cruzou a inquilina que descia do Calvário.
— Olá, Nair! Então, o teu Joaquim como está? E os meninos?
— Olá, Norina! Olá meninas! Sempre com os livros na mão, não é? — bradou jovial, beijando-as calorosamente. — Os meus rapazes, esses, saem ao pai: não querem nada com os livros, só pensam em geringonças, carros, pistolas e esparrelas.
— Esparrelas?! — admirou-se Carminda, enrolando a revista.
— Sim, para caçarem pintassilgos e o que calha.
— Ai os malandrecos! Olhe, que leiam livros de cow-boys!
— Pois, a senhora professora bem fala, mas falta o melhor. Se soubesse como me vejo grega para lhes dar de comer e os vestir e calçar! Agora, o meu Joaquim, graças a Deus e ao nosso Santo Antoninho, já está curado e arranjou um trabalhinho na Câmara, mas os varredores ganham uma mixaria de nada.
— Só os varredores?! Até os professores ganham pouco mais que o salário mínimo! — retorquiu a professora de costas, correndo a descansar as pernas no banco de granito, onde a Verónica se fora sentar.
— Tu já viste o Raimundo Faia, Norina? — cochichou baixinho Nair, olhando à sua volta.
— Ainda não, porquê? — retorquiu a viúva incomodada com a referência ao passador.
— Na manhã de Natal, e Deus me perdoe por não ter ido à santa missa beijar o menino Jesus, pus-me a pé para mijar e, espreitando para a rua para ver se o sol ia muito alto, vi-o rondar diante da porta como um maluquinho. Ele está bem acabado o Faia!
— E nunca mais o viste por aqui, não?
— Por aqui não, mas já o cruzei na rua Direita e..., espera, onde ele para muito é no restaurante do Manuel Feliciano. Aliás, como sabes, ele e os genros dele são muito amigos.
— Pudera, foi ele quem os arrastou para o estrangeiro!
— Aqui entre nós, é verdade que ele nunca mais te falou desde a morte do Arménio?
— Por acaso é, mas ele também nunca mais cá voltou!
— Nunca mais cá voltou?! Essa é boa! Ainda no dia de Páscoa o vi por detrás do Excelsior!
— Ah!... Não me digas?! — exclamou perplexa, tapando a boca.
— Ouvi dizer que veio vender o terreno e o esqueleto da obra que tinha começado para os lado de Mateus. Foi um rapaz de Lamas de Olo que o contou ao meu Joaquim, mas o Faia não quis que ninguém soubesse porque estava de baixa em França. Vê lá tu que até veio de avião! — segredou Nair.
— Ai sim?! E chegou a fechar o negócio?
— Lá isso não te posso responder, mas fica descansada que logo já pergunto ao Joaquim!
— Então procura ver tudo o que ele sabe e vai à Timpeira...
— Fica descansada. Mas..., que se passa? Estás a ficar amarela, rapariga!
— Oh, é impressão tua! Foi de me deitar tarde — desculpou-se risonha, mastigando em seco.
— E as aulas? Ouvi dizer que queres ser professora.
— Professora eu?! Essa é boa! Quem te disse tamanha tolice?
— E se calhar não era bom, se conseguisses? Olha que eu sei de professores de universidade que se formaram de noite como tu e já de uma certa idade. Tu ainda és muito nova, Norina!
— Pois..., mas não é verdade, Nair! Eu só quero fazer o ciclo para não me sentir tão envergonhada diante de certas pessoas e porque apostei com a Verónica que havia de conseguir — esclareceu a estudante apressada pelos acenos da filha.
— Pronto vai lá com Deus!
— Não te esqueças de perguntar ao Quim! — insistiu Norina, recordando o combinado.
— Vai com Deus! — gritou a Nair, acenando-lhe orgulhosa e voltando a correr para casa.
Até à praça, a professora e a aluna bem tentaram cernir o teor da conversa havida entre as segredeiras, mas a Norina, fechando-se em copas, não abriu o bico: nos seus olhos pairava uma incerteza, um medo, um nervosismo, um mistério que obrigou as curiosas a calarem-se e a falarem do tempo lindo que fazia.
Como o Júlio estivesse ocupado com outro frete, Norina pediu a outro taxista que a conduzisse à Timpeira, ignorando o apelo da filha que, entretida com a Maria, lhe pediu que esperasse pelo marido da Marta, mas era por de mais evidente a instabilidade emocional da mãe para a Verónica insistir.
Chegando a casa, a viúva correu a trancar-se no quarto, donde só saiu dez minutos depois:
— Demorou-se tanto, mamã!
— Estive a experimentar a roupa que comprei, filha! — escusou-se nervosa, evitando olhá-la.
— Mas a mãe só comprou roupa interior!
— Pois, mas tu bem sabes como eu sou quando tenho alguma coisa na cabeça. O raio do conjunto de seda agradou-me tanto que estava mortinha por ver se me fica tão bem como no manequim! — argumentou risonha, tentando iludir a desconfiança da curiosa.
— E ficou?
— Ah! nem imaginas! O manequim devia ser eu: cai-me como uma luva! — exclamou maliciosa, passando voluptuosamente a língua pelos lábios e os dedos esguios pelos flancos.
— Mãe!!! — repreendeu a filha escandalizada pelos provocantes trejeitos maternais.
— Oh!..., mas ela pirou-se! — deduziu Carminda boquiaberta, descobrindo-lhe as coxas.
— Vá!, virem-se para lá suas maldosas! — ordenou Norina envergonhada, desprendendo à pressa o fiapo da saia preso no relógio e baixando-se para não mostrar as calcinhas.
Fingindo-se escandalizadas, professora e aluna obedeceram e foram espraiar um pouco para a varanda, alertadas pelos alaridos do Leão que corria pelos geios atrás de uma cadela; esticando de mais o fiapo que tentava desenlear, Norina acabou por a rasgar e apressou-se a mudar de roupa, surgindo na sala de calças jeans e blusa até ao pescoço.
— Ah, assim está bem! — apoiou Verónica orgulhosa, vendo-a vestida decentemente.
— Pois..., mas antes estava muito mais sexy! — constatou Carminda decepcionada.
— Sexy, senhora professora?! Ela que ganhe muito juizinho senão..., senão vai para o olho da rua - adiantou peremptória, brandindo o dedinho ameaçador.
— Está a ver?! A Verónica não é como a pinta! — acrescentou a mãe confusa, empiscando à professora e sorrindo timidamente à filha.
— Realmente! Mas não, não posso acreditar! Oh! ela diz isso agora, mas depois, se a Norina arranjasse um homem carinhoso...
— Um padrasto, senhora professora?! Nem pensar! Senão ela que se atreva: vai para o olho da rua! — garantiu peremptória, fitando a mãe sem pestanejar e concluindo impassível: — Pai tive só um: o Arménio e mais nenhum!
— Eu não lhe disse que por detrás destes olhos de cordeirinho manso se escondem os de um lobo mauzão?! — recordou a mãe corada.
— A bichinha tem génio! — ironizou Carminda, sorrindo orgulhosamente à aluna.
E a celeuma acabou por ali. Depois do almoço, enquanto a mãe e a professora faziam uma torta e um pão-de-ló para a passagem de ano, a Verónica assistia toda regalada no sofá a mais um episódio da Flecha Negra, um folhetim de aventuras cavalheirescas baseado no romance do escritor Robert Lews Stevenson.
Ao fim da tarde, como a Nair não tivesse dado sinais de vida, a viúva encarregou a filha e a hóspede de aprontarem a mesa e, chamando o Leão, pôs-se a caminho do Calvário ao encontro da inquilina; pela berma da estrada, indiferente às buzinadas dos motoristas seduzidos pela sua silhueta estudantil, não parava de cismar com os propósitos do diabo, figura com que identificava o abjecto Raimundo Faia; atalhando pelo jardim que ladeava o campo do Sport Clube de Vila Real, apesar do medo que sentia, surpreendeu a vizinha a cochichar com o marido e, vendo-o afastar-se, gritou:
— Joaquim! Ó Joaquim!!!
— Olá! Como estás, Norina?
— Vou indo e tu?
— Como vês, graças a Deus, estou vivo! O ar da serra fez-me muito bem, mas parece-me que o trabalho na Câmara ainda foi melhor.
— Pois, eu não sabia de nada, só ontem é que a tua Nair me contou...
— Estava mesmo para sair, Norina! — interferiu a inquilina, apertando o poupo.
— E então, Joaquim? — insistiu a viúva preocupada, segurando o cão que não parava de fazer festas aos estranhos.
__ Olha, sentai-vos à lareira e a Nair que conte melhor porque aqui passa muita gente. Eu, quanto a mim, vou dar uma girada e pode ser que te consiga mais alguma novidade.
— Então pega lá estes vinte escudos para tomares umas bicas e muito cuidadinho, não vá o diabo tecê-las! — avisou a viúva, tirando do bolso das calças a nota amarrotada.
— Vê lá se fazes um cafezinho como deve ser à Norina, mulher! — precaveu o Joaquim.
— Este homem nunca fica contente com o café que lhe faço, rapariga! — desculpou-se ela, fazendo uma careta ao marido que se afastava.
Dentro de casa, a Nair segredou à senhoria tudo o que o Joaquim lhe contara ao almoço e, depois de lhe oferecer um cafezinho bem caprichado, acompanhou-a até à curva do quartel, onde se despediu dela com um aceno e os votos de um óptimo 1975; só então é que a Norina soltou a rédea ao Leão, que desatou a galgar pela berma da estrada, obrigando a dona a acelerar o passo.
A noite envolvia docemente a Timpeira com seu manto negro, quando chegou a casa ofegante, entrando directamente para a cozinha a beber um pouco de água. Colada diante do ecrã, a filha não dera conta de nada; a Carminda, essa, deitara-se pouco depois de ela partir e ainda não saíra do quarto.
— Põe-te a pé, sua dorminhoca! — berrou Norina, batendo-lhe na porta antes de entrar.
— Que mistérios são esses, para não merecer a tua confiança, Norina? — questionou queixosa, enrolando-se no cobertor.
— Cala-te! Fala mais baixo que a Verónica pode ouvir-nos! — pediu cautelosa.
— Então feche a porta e conta lá, sua caprichosa — murmurou baixinho, empiscando-lhe.
Obedecendo, Norina deu uma volta à chave e, voltando em bicos de pés, sentou-se junto da dorminhoca, confiando-lhe as suas apreensões; depois, deitando-se ao lado dela agarrou-lhe a mão e preveniu-a do baixos instintos do passador, pedindo-lhe que o denunciasse à polícia se por acaso lhe acontecesse algo de mal, porque ele era capaz de tudo para se vingar daquele bofetão de há onze anos.
E foi entre as três que brindaram ao novo ano de 1975: Norina abriu uma garrafa de champanhe, mas, como a Carminda só bebeu um golo, voltou a arrolhá-la, esperando que o Júlio e a Marta viessem ajudar a despejá-la e não faltaram: cinco minutos depois, o Leão ia recebê-los à berma da estrada e descer com eles a rampa; Verónica ainda aguentou a conversa por mais quarenta minutos, porém à uma menos dez acenou-lhes e foi deitar-se, deixando-os em paz; certificando-se que a filha dormia mesmo a valer, Norina contou aos amigos as últimas novidades a respeito do passador; foi então que o Júlio lhes disse também tudo o que descobrira durante a semana, só regressando à Almodena de madrugada.

No primeiro de Janeiro, Norina, que não tirava o diabo da cabeça, passou o dia todo a encher-se de coragem para deixar ir a filha passar a última semana de férias com a Carminda a Valpaços; ao despedir-se delas, viu que a passeadeira da Marta, cuja barriga crescia a olhos vistos, também acompanhava o marido.
— És bem de mendicante, rapariga! — desabafou tristonha, enxugando as lágrimas.
— E tu bem chorona, Norina! — retorquiu-lhe a gestante zombadora.
— Porque não vem connosco, mãe? — sugeriu Verónica sorridente, mostrando-lhe o espaço vazio no banco traseiro.
— Venha, Norina! — insistiu a professora, apoiando prontamente a sugestão da aluna.
— É, não pagam mais por isso, venha Norina — ironizou o taxista.
— Não, obrigada! Júlio! Eu enjoo com facilidade e da última vez que passei nas curvas de Murça senti-me muito mal e vomitei tudo.
— Vem, Norina! — insistiu a gestante, segurando a barrigona com ambas as mãos.
— Obrigada! Espera, eu queria pedir-te uma coisa... Ó valha-me Deus, já me esqueci!...
— Então descansa que não era importante — deduziu logo a Carminda.
— Não me digas que estás com caguço, Norina?! — galhofou Marta, sentindo-a encrespar-se toda e tremer com uma vara verde.
— Marta!!! — repreendeu o marido, cruzando o olhar amedrontado da viúva.
— Não tenha medo que o Leão é muito forte, mãe — acrescentou a Verónica compassiva.
— Tranca a porta e, se o traste se atrever a bater-te à porta de noite, despeja-lhe as azeitonas do revólver nos cornos, que o teu mal são batatas! — aconselhou a Marta sem papas na língua, dando-lhe uma sapatada na mão.
— Agora vê lá como te portas, filha!
— Irra!, mas quando é que a mãe se convence de que eu já não sou nenhum bebezinho? Olhe, vá para casa e faça o que a Marta lhe disse — aconselhou Verónica, acenando risonha.
— Adeus e até para a semana, Norina!
— Se Deus quiser, Carminda!
— Fica sossegada que se for preciso a Marta vem cá dormir contigo - assegurou o taxista, sorrindo-lhe gentilmente e arrancado devagar.
— Quando tiver saudades, telefone! — gritou-lhe a filha, espreitando pela janela.
— Adeus! — murmurou a mãe tristonha, acenando timidamente até que os perder de vista.
Depois, passando pela casota do cão, soltou-o e, olhando à sua volta para se certificar que ninguém a via, trancou-se em casa, fechando as portas à chave e deixando nas persianas apenas uma friesta para espreitar para a rua, antes de se deitar, armou a pistola e meteu-se entre os lençóis a rezar para que não tivesse que a usar, adormecendo cheia de medo, depois de muito vigiar, com o Leão deitado na varanda.
Alta madrugada, foi assarapantada por um estrondo, que lhe pareceu uma pedrada, na porta da garagem e os latidos estridentes do cão, porém o animal calou-se, aninhou-se e nunca mais voltou a latir, sossegando-a um pouco, mas ela já não conseguiu recolar o sono até que o sol, passando pelas friestas, lhe iluminou o quarto e a alma atribulada; erguendo-se cansada e com umas olheiras de Carnaval, lavou-se e, puxando as persianas, bateu na vidraça, sorrindo ao seu guarda-costas que, lambendo os lábios e agitando a cauda, lhe sorria esperto; abriu então a porta e, deixando-o entrar, acariciou-o e pôs-lhe a caçarola no canto da cozinha, tomando o café em seguida.
De tarde, sentindo-se aborrecida sozinha, chamou-o e meteu-se a caminho da Almodena. No S. Pedro, porém, desviou-se da rota e foi bater à porta da Nair, mas, como ela não estava, decidiu contornar o mercado, retomando o seu destino, com o Leão sempre pela mão; seguindo pela berma da estrada e virando-se a cada acelerada mais estridente dos carros que passavam, Norina, que temia ser atropelada, sentiu as pulsações embalarem-lhe o coração...
Perto da igreja, o cão agitou-se e, latindo e forçando a coleira, quis romper pela calçada, mas ela reteve-o como pôde, atalhando pelo quinchoso que dava para o solar; a meio da ruela deu com os olhos nas barbas do diabo e, assustando-se, largou o Leão que se engalfinhou imediatamente no malvado.
— Ai! Ai! Socorro!!! Ai! Ai! Socorro!!! — gritou desesperadamente o passador, tentando desembaraçar-se do cão raivoso.
— Leão!!! Vem cá, Leão! — berrou-lhe a patroa, correndo a puxá-lo pelo cadeado.
— Ui! Ui! O desgraçado mordeu-me mas vai mas pagar! — bradou o queixoso assustado, levantando-se lesto e apalpando as pernas e as nádegas mordidas.
Estupefacta e petrificada de medo, Norina ainda pensou socorrê-lo, mas as mãos ensanguentadas do Raimundo amedrontaram-na e pregaram-na à calçada; envergonhado e intimidado pelos estirões furiosos do Leão, o passador ficou estático e carrancudo, recusando a compaixão da mulher com quem sempre sonhara.
— O que foi, Norina? Ah!... — acudiu o senhor João ameaçador, empunhando um sacho.
— O Leão... — balbuciou espavorida, olhando o miserável.
— Tu por aqui, Raimundo?! Então, rapaz?! — indagou o velhote, largando o sacho e certificando-se da gravidade das mordeduras caninas.
— O filha da puta do cão mordeu-me, mas eu mato-o, ti João! Eu estoiro-lhe os miolos! — gritou furibundo, encarando o animal.
E, pegando no sacho, correu desesperado contra ele, tentando levar por diante a sua baixeza, mas o indómito e vigilante Leão, libertando-se da ama com um esticão sobre-humano, esquivou-se à pancada e cravou os dentes no rosto do desgraçado, de nada valendo o auxílio pronto do velhote que só pôde constatar a desfiguração do passador, que, deitando as mãos à cara, se escoava de sangue.
Estendida ao comprido pelo arrastão do cão, Norina, percebendo num ápice a gravidade do passador, deitou as mãos à cabeça e gritou desesperada:
— Acudam! Ai meu Deus, que desgraça! Acudam!!!
— Júlio!!! Traz o táxi, Júlio!!! — berrou o senhor João alarmado, ajudando o conterrâneo.
— Eu morro, ti João, eu morro! — lamuriava-se o passador, escoando-se de sangue.
— Calma, Raimundo, calma, que ainda não é desta que vais para melhor — disse o velhote, tentando estancar-lhe o fluxo sanguíneo com o lenço.
Pouco depois, alertados pela Norina, que desatara aos gritos, dois rapazes acudiram ao Faia, ajudando o velhote a trazê-lo para o táxi do Júlio, que, avisado, se fora postar na boca do quinchoso, pronto a levá-lo para o hospital.
Ainda a poeira levantada pelo carro no largo da aldeia pairava no ar e já haviam quem dissesse que Deus escreve direito por linhas tortas e que se o cão, que nunca fizera mal a ninguém, o mordera, não fora por coisa boa certamente e que o animal lá tinha as suas razões; outros diziam se devia ir buscar uma caçadeira e acabar com a raça ao bicho; e a polémica estoirou entre os aldeões, para quem a maluquice do Faia começava a dar que falar, não só às más línguas da primeira hora, mas sobretudo os que sempre o julgaram inocente e alheio à morte do pobre Arménio, e a suscitar a mais séria desconfiança, visto, desde esse trágico dia, nunca mais ter voltado à terra nem dirigido a palavra, nem falado direito com ninguém; e, no adjunto houve quem depois de muitos cochichos, mais ou menos surdina, aventasse temerariamente:
— Aqui há gato: o Arménio foi tristemente pelos ares, morreu, não apareceu mais e o Raimundo, que estava com ele e que se fazia muito amigo dele, não mexeu uma palha pela pobre viúva e pela filha. Agora, passados quase dois anos, aparece e o cão da Norina, que não faz mal a ninguém, ataca-o sem mais nem menos?! Não, aqui há gato! Se o animal se atirou a ele é porque...
— Tens razão, Zé, aqui há gato: se não foi o Faia quem matou o Arménio, no mínimo tem contas no cartório, porque não há homem que se preze, e por muito que lhe custe, que não dê sepultura a um cristão, quanto mais a um amigo do peito, e a um conterrâneo...
— Pois, mas não sei se vós sabeis da melhor? — questionou Sérgio espertalhão.
— O quê?! Desembucha, homem!
— Nos Santos o cão da Norina apareceu com uma facada no lombo.
— Ah! então é por isso e está tudo dito: o cão farejou o ladrão que o esfaqueou!
— Ei malta, aí pára! Que eu saiba o meu primo nunca mais aqui voltou depois do sucedido ao Arménio! — replicou o Francisco fanhoso, defendendo a honra do seu sangue.
— E dizes muito bem “ que eu saiba ” — repetiu Sérgio — porque tu e quase ninguém sabe nada, mas o Faia esteve aqui nos Santos para vender a obra que andava a fazer na Curva de Mateus! Mais, veio num dia e foi noutro! Disso garanto-vos eu! — adiantou peremptório.
— Oh! está calado que isso é impossível e para mais ele não vinha aqui sem visitar pelo menos os amigos! Cala a boca Sérgio que só dizes asneiras: o meu primo tem andado de baixa! Como é que ele podia vir num dia e ir noutro?
— Não podia, pode, Chico, ou tu esqueceste que de avião pões-te em três ou quatro em qualquer ponto da Europa?...
— Ah! de avião?! - murmuram uns quantos estupefactos.
— Oi, oi! Cheira-me a esturro! — bradou um velho de mata-ratos colado no beiço.
— Aliás, vós até parece que comeis muito queijo e tendes a memória curta: o Raimundo nunca engoliu aquela do Arménio lhe roubar a Norina! Ele, dizem, era maluco por ela! — frisou o Tónio da Manta com um brilho nos olhos.
— Seja como for, o Manuel e o Zé tem mil vezes razão: o Faia sempre foi maniento e fanfarrão de mais! — apoiou Sérgio, calando os que começavam a resmungar.
— Firmino, tu que andas no estudo, será que ele irá com a Norina para a justiça? — perguntou Zé, encarando o mais franzino e o mais esperto dos colega da escola.
— Bom, eu não vi nada, mas se for não terá muitas hipóteses de ganhar, porque, ao que parece, o animal agiu em legítima defesa.
— Em legítima defesa?! Como assim, Firmino? — insistiu o Manuel, curioso.
— Pelo que a Norina estava a contar à Marta, o cão vinha preso pelo cadeado e foi o Raimundo quem lhes saiu ao caminho. Ora, claro, o Leão não esteve com meias medidas, atirou-se logo a ele...
— Lá isso é normal: não há cão que não defenda o patrão! — reconheceu o primo do Faia.
— Tchut! Cala-te, Chico, deixa o Firmino contar! — ralhou Sérgio, impondo silêncio.
— Pois... A Norina estava a dizer à Marta que o Leão pressentiu o Raimundo mesmo antes de ele lhe saltar ao quinchoso, porque até ali o animal vinha muito pacato, mas depois foi como se tivesse visto o diabo e, dando um esticão, atirou-se-lhe logo a ele, mordendo-o nas mãos, nas pernas, no cu e...
— Se o mordesse na piroca e lhe arrancasse os tomates... — concluiu cruamente o velhote do kentuck, tremelicando agarrado ao cajado.
— Isso mesmo, ti Porfírio! — apoiou o José de Bisalhães, arreganhado os dentes.
— Caluda! Tu és fodido, Zé!
— Desculpa, Sérgio, mas um cobardolas que vai esperar a viúva do melhor amigo a um quinchoso, merecia que o capassem... — desabafou o negociante enfurecido.
— Fala, fala que se ele sabe ainda te corta as belfas!
— Ó carago, Chico, ele tem a mania que bate em toda a gente, mas não me mete medo!
— A mim também não! Se me matar, não me come e se me comer tem que me cagar! — filosofou Manuel excitadíssimo.
— Calma, malta, calma, não fervam no copo de água, senão não chegamos a nada. Bom, como dizia, a Norina deixou escapar o cão, mas correu logo a puxá-lo pelo cadeado, o que livrou o Raimundo de ficar logo ali. Entretanto, o pai da Marta, que estava a falar com o genro, ouviu gritos e acorreu a socorrê-lo, largando o sacho no chão. Foi então que o cobarde empurrou o velhote para o lado, pegou no cabo do sacho e quis matar o Leão, que, esquivando-se lesto à patroa, se lhe atirou aos gargalos, cravando-lhe os dentes na cara. por isso não vejo muito bem o que ele poderá ganhar em levar o caso para tribunal, se não morrer...
— Ó carago, lá isso não, porque, apesar de tudo é meu primo e a Norina fica desgraçada! — volveu prontamente Chico fanhoso, empalidecendo e tremelicando como uma vara verde.
— Palavra de honra, o que eu vou dizer sei que não é de um cristão, mas, se realmente ele está por detrás da morte do Arménio, gramava vê-lo... Oh! é melhor nem dizer! — acrescentou Sérgio, arrependido dos sentimentos cruéis que acaba de ter.
— Credo! Que Deus tenha pena dele e lhe perdoe, porque para o Arménio, infelizmente, já não há remédio! — concluiu o estudante comovido, benzendo-se por várias vezes.
Depois da revolta e da indignação dos primeiros instantes, os ânimos vingativos dos populares acalmaram e, temendo o pior, a compaixão substituiu lentamente a fúria desenfreada. Serenados os espíritos, a multidão começou a dirigir-se para o quinchoso, descobrindo as poças de sangue coagulado. Entre dois calhaus, houve quem descobrisse um pedacinho de carne e cochichasse que era da barba do Raimundo, mas, horrorizados, os outros fizeram que não ouviram.
Entretanto, no solar, Norina, temendo afrontar os tribunais, mais que as represálias ou as sevícias corporais do passador, desfazia-se em lágrimas, de nada valendo o reconforto da Marta, da mãe e das vizinhas. Aninhado aos pés da ama, o Leão fingia dormir; e a noite caiu sobre Almodena sem que o táxi voltasse. Pouco depois, não havendo mais nada para contar, a senhora Soledade deu de olhos à filha e, olhando o céu, voltou para casa, arrastando consigo as chatas que não paravam de coscuvilhar e mexer com quem já lá estava. Amuada no escano, Norina não parava de consultar o relógio de pulso, mas o tempo que passava ia-lhe metamorfoseando a alma e o medo foi-se evaporando como que por encanto ou obra de Deus. De Deus?! Com certeza!
Ai como andei esquecida de Ti, meu Deus! — reconhecia humildemente, confessando endofásica e mentalmente tudo o que julgava roubar-lhe a graça do Altíssimo.
Finalmente, Marta, que não saíra da varanda, avistou o letreiro luminoso do táxi e gritou:
— Eles já estão aí, Norina!
Esquecendo a confissão íntima, a viúva ergueu-se, limpou os olhos com a ponta do lenço e correu ao encontro deles, indagando aflita:
— Então?!
— Salvou-se! — respondeu o Júlio, acrescentando esbaforido: — Trás uma bacia com água morna, que o carro está cheio de sangue, Marta.
— Não, Marta, serve de comer ao Júlio que eu limpo — ordenou Norina, fitando a barrigona da amiga e o desalento do taxista.
— E o pai, Júlio? — perguntou a gestante, deitando as mãos aos quadris.
— Foi falar com os pais do passador.
— E ele?! — insistiu a Marta inquieta.
— Salva-se, mas ficará desfigurado para o resto da vida: o cão por pouco não o matou. Se não fosse o cadeado ficar engastalhado na Norina e retê-lo, ao Raimundo ninguém lhe valia e nem alma se lhe aproveitava. O Leão vingou-se bem!
— Credo! Mas..., vingou-se bem?!
— Pois, a caminho do hospital o sangue era tanto que, pensando que ia morrer, o Faia confessou tudo. Mas..., tchut, que a Norina pode ouvir! — segredou o taxista surpreendido.
— Então não ferveste a água, Norina?
— Não, Marta, como os assentos estão revestidos de plástico, fria é melhor. Vá!, ide comer!
— Tira só o maior, Norina, que amanhã passo na garagem para o limpar como deve ser ! — aconselhou o taxista, vendo-a armada de balde, escova e pano.
— E os teus fretes? Não, come descansado que ficará tudo limpo. Ah! esqueci-me da pilha!
— No porta-luvas está uma! — avisou Júlio acanhado.
Enquanto se lavava e aguardava e esposa lhe aquecesse a sopa de cascas do almoço, Júlio contou-lhe o que ouvira da boca do desgraçado, que reconheceu ter dado, em legítima defesa, uma navalhada no animal, mas negou estar envolvido na morte do Arménio, a quem acusou de ter uma amante francesa e, com a ganância do dinheiro, ter aceitado dinheiro de uns revolucionários para pôr uma bomba num supermercado.
— O Arménio terrorista?! Credo, que blasfémia! — bradou Marta perplexa.
— Bom, Marta, eu não conheci o marido da Norina, mas sabes que o dinheiro é a tentação do homem e pode muito bem o pobre do Raimundo falar verdade...
— Verdade?! O desavergonhado mente com todos os dentes e era bem feito que o Leão o tivesse calado de vez. Ele é de fracas raça! Por amor de Deus, não digas nada à Norina que ela é bem capaz de lhe estoirar os miolos, se não se matar de vergonha e desgosto. Credo, se o desgraçado se atreve a contar isso a alguém...
— Ei, tu não penses que eu e o teu pai caímos no engodo, por isso, bico caladinho até ver!
— E ele? — perguntou curiosa, mexendo a sopa.
— Esta noite dorme no hospital de prevenção. Depois, amanhã, logo se verá se precisa de ser internado. Como perdeu muito sangue, não me admiraria se levasse dois frascos de soro.
— Se lhe dessem mas é estricnina!
— Falavas de estricnina. Para quem, Marta? Não me digas que me querem envenenar o Leão? — inquiriu a viúva inquieta de balde na mão e pano torcido, franzido a testa.
— Afinal o bicho perdeu menos sangue do que eu pensava — interferiu Júlio sorridente.
— Ai ainda perdeu, mas a maior parte coagulou-se nos tapetes. Amanhã compro-te outros.
— Era o que faltava, Norina! Graças a Deus não te aconteceu nada e o traste ficou a saber que os animais também conhecem o ditado: cá se fazem, cá se pagam!
— Ou estoutro não menos verdadeiro: quem mente uma vez, mente sempre, mesmo que diga a verdade, dizem sempre que mente! — explodiu a gestante entusiasmada, corando imediatamente.
— Escusas de corar, Marta, que lá isso é verdade e todos o sabem: o Faia é um mentiroso!
— Ai e?! Não sabia! — admirou-se o Júlio, respirando de alívio.
— Vá!, senta-te e come um caldo de cascas connosco, Norina!
— Não tenho fome, mas, porque é de cascas e cheira bem, aceito de boa vontade. Ah!...
— Não te preocupes com o Leão que depois eu dou-lhe de comer que bem merece.
— Sei lá se merece, Marta! — exclamou apiedada, baixando os olhos.
— Vá!, não te amofines mais que muito amofinada já andas tu, Norina. Pronto, aconteceu, não há mais nada a fazer — adiantou o Júlio aparentemente resignado.
— Será que ele me leva para a justiça?
— E se levar? — volveu a Marta, servindo-lhes a sopa.
— Já viste que vergonha, rapariga, nunca ninguém da minha família entrou num tribunal...
— E então?! Ainda bem que existem tribunais. Ele saiu-te ao caminho e tu defendeste-te, nada mais. Depois logo se verá se o juiz não quererá investigar as coisas a fundo e...
— E?! - repetiu pensativa, mudando de cor.
— Fica tranquila que se ele te atacar e te quiser arruinar ou humilhar, alguém lhe contará o que sabe sobre muitas das trapacearias que... Bem, cala-te boca que é melhor! - autocensurou-se a gestante, fitando enigmaticamente o marido.
— Bom, isso é contigo, eu não sei de nada! Eu por mim nunca o vi mais gordo nem mais magro e quando ele precisou de mim socorri-o. Por isso... — defendeu-se prontamente Júlio.
E, lendo-lhe no rosto a ordem de silêncio, Marta teve relego na língua e começou a beber a água do caldo. Sisuda, Norina tomou parcimoniosamente a sopa, prestando atenção menor pormenor, evitando o tilintar da colher na borda da malga ou qualquer outro som repreensível. Júlio, esse, não esteve com cerimónias e engoliu a refeição enquanto diabo esfrega um olho e, curioso por ver o interior do táxi, pegou no tacho do Leão, depois, atraído pelo alarido que vinha do largo, trancou o carro e foi espreitar: no adjunto havia quem, falando, mas mais parecendo que ralhava, profetizasse a morte violenta do desfigurado; e, para evitar ditos e corrilhos, voltou para o solar.
— Então, Norina, já te decidiste? Ficas aqui ou levo-te à Timpeira?
— Se deixasses a Marta...
— Claro! Aprontai-vos que eu chego-vos lá depressa.
— E o Leão?
— Mete-se com jeito na mala.
— Pronto, Júlio, vamos! - disse a grávida radiante, segurando orgulhosamente a sua progenitura.
— Mas..., não levas nada para dormir?! — questionou o marido embasbacado.
— A Marta tem lá muitas combinações, Júlio! — adiantou Norina, sorrindo à gestante.
E, verificando a botija do gás, o taxista mandou-as ir andando e fechou as portas. Dez minutos depois, deixando-as na Timpeira sob a custódia do Leão, passou pela praça e foi tomar uma bica à Pompeia para sondar o ambiente, constatando que a notícia alastrara pela cidade como a peste; fingindo-se concentrado a ler o Comércio do Porto, bebeu lentamente o seu cafezinho, espiando discretamente as gargantas loquazes, só voltando a casa pela meia-noite.

No hospital, o passador roía-se todo e não parava de injuriar e ameaçar os enfermeiros que o retinham pregado ao leito; barbeado à força por causa da intervenção cirúrgica, o Faia não ousava sequer olhar-se ao espelho, temendo não se reconhecer a ele mesmo; perdido nos meandros do contrabando humano, passador e proxeneta quando calhava, a barba era o que mais adorava nele, por lhe conferir - pensava - a autoridade sobre quem se aventurava com e a perfeita pose filosofal que justificava o quociente intelectual de que ele se gabava tanto entre os ingénuos com quem lidava. E a confusão começou a instalar-se no seu espírito maligno, provocando-lhe uma pilha de nervos que lhe mortificavam a mioleira, porque alma já não teria certamente quem descera tão baixo na degradação moral, que o diga o Luís Pirata, que com ele se viciara e tantas raparigas iludira com falsas promessas, gozara a seu bel-prazer e depois abandonara, quando não obrigara a prostituírem-se pelas ruas de Paris, de Marselha e até do Luxemburgo. Ah! como lhe fazia falta o seu braço direito naquela hora para acabar com a raça daquele cão desgraçado e mostrar à sonsa da Norina e à safada da Marta, que lhe devolvera aquele valioso anel de noivado, como um homem da sua estirpe trata as mulheres que ousaram dar-lhe com os pés.

Tetanizado pela ideia de ficar desfigurado e marcado para o resto da vida, foi com tudo isto e muito mais que ele passou as horas de repousa, ora simulando um sono profundo para iludir a vigilância dos enfermeiros, e logo haviam de lhe ter calhado dois latagões naquela enfermaria!, ora rangendo os dentes e gemendo para os apiedar, mas aqueles olhos odiosos, raivosos e vingativos não enganavam ninguém e os vigilantes, fitando-os uma vez, viram muito bem que o sujeito tinha cara de poucos amigos, passando a espiá-lo discretamente, sem contudo lhe permitir a menor veleidade evasiva. Temendo que o injurioso paciente se violentasse durante a noite, o médico prevenira-se, atando-o de pés e mãos aos ferros do leito; finalmente, resignando-se a receber o frasco de soro que lhe restabeleceria o equilíbrio linfático, só se acalmou quando lhe anunciaram a chegada lamuriante dos seus velhotes, o pai e a mãe, mas não se atreveu a encará-los e a responder às dúvidas que eles, envergonhados com o que se cochichava no povo, traziam dentro do peito e queriam ver desmentidas o mais rápido possível para, se fosse verdade, terem tempo de pedir perdão a Deus pelos pecados do filho...


Continua em Capítulo XII

LMP - Luxemburgo 1984 - Lud MacMartinson

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