sexta-feira, 18 de julho de 2008

Caminhos de ilusão: Capítulo X


Capítulo X





Finalmente, a Carminda ficara na Timpeira, até às vésperas da imponente romaria de Nossa Senhora da Assunção, que fazia cair no nordeste Trás-os-Montes em peso; entre ela e a Norina começava a cimentar-se uma verdadeira cumplicidade, talvez por reunir duas mulheres diametralmente opostas, embora viessem ambas de famílias catolicíssimas praticantes e até ao fim da escola primária tivessem recebido uma educação muito semelhante; contudo, por volta dos quinzes, vítimas do fascínio que exerciam sobre os homens, enquanto a estudante, aceitando o repto de um grupinho de inseparáveis, seduziu o professor de que todas idolatravam, entregando-se-lhe de corpo e alma no banco traseiro do Austin Morris dele, e nunca mais resistiu ao sulfuroso apelo vaginal, a camponesa, essa, repeliu energicamente uma tentativa de estupro por parte do Raimundo, o rapagão que, por ela ser órfã, se gabava perante os lingrinhas da aldeia de fazer com ela o lhe dava na moina, e subiu virgem ao altar, dizendo sim ao Arménio, que, pesar de mais baixo, sempre desafiara a autoridade do fanfarrão; e uma admiração mútua nasceu entre elas, corajosas, cada uma à sua maneira, porque, enquanto a professora se vingava dos homens, gozando-os e deixando-os, a viúva seduzia-os, mas fazia-os sofrer, recusando-lhes a menor veleidade amorosa; e, assim, unidas pelo mesmo ódio machista, elas eram, no fundo, a antítese uma da outra: a infiel procurava redimir-se do pecado e livrar-se das libidinosas tentações para conseguir um bom casamento e a fiel libertar-se do véu da santidade para melhor se vingar de um Deus ingrato e encontrar novamente o caminho da felicidade.

No dia 25 de Agosto, segunda-feira, Norina recebeu a almoçar o Chico e a Zélia, que faziam oito meses de casados. Enquanto a mãe aprontava a refeição, Verónica, servindo de cicerone, mostrou-lhes a vivenda que o seu paizinho sonhara. Sensibilizado com a esperteza da mocinha, Chico, que ainda frequentara o seminário, lembrando-se da última conversa que tivera com o Arménio, começou a testá-la e rapidamente se apercebeu que a órfã era realmente aquela criança dócil e perspicaz, de quem o pai muito se orgulhava. Depois do almoço, vendo a mãe e a Zélia entretidas a arrumar a cozinha, a menina deu de olhos ao ex-seminarista, e disse:
— Eu vou mostrar a horta ao senhor Francisco Serra, mamã.
— Vai, filha, vai! — respondeu a mãe distraída.
Zélia, concentrada a arrumar os pratos no armário, sorriu apenas. Depois de apresentar o Leão ao Chico, para que este o acarinhasse, Verónica soltou-o e deixou ir dar a sua girada pelo prédio. As cepas, vergadas pelos cachos maduros, ostentavam já a maturidade da vindima que se avizinhava. Conduzindo o hóspede pelo carreiro, a órfã questionou subitamente:
— O que é feito do Faia, que nunca mais ninguém o viu, senhor Francisco?
— O Faia..., desde que aconteceu aquilo em Paris, não regula muito bem e passa a maior parte do tempo nos hospitais. O Raimundo Faia perdeu o juízo...
— Acha?! — insistiu duvidosa.
— O que é que tu pensas, Verónica? Não me digas que...
— Não sei porque é que toda a gente engole essa peta e se conforma com a maluquice do Faia, senhor Chico — interferiu enérgica. — Se o Faia, como dizem, fosse mesmo amigo do meu pai, teria vindo visitar-nos e apresentar-nos os pêsames, contar-nos o que se passou, mas não, limitou-se a mandar-nos o telegrama e a sumir para nunca mais. Bonita amizade a dele!
— Coitado, ele ficou muito transtornado com a explosão e deve sentir-se culpado por ter ficado vivo.
— E se fosse por ter morto o meu pai?
— Credo!, mas que ideia, Verónica?! — volveu o emigrante espantado.
— Talvez lhe pareça maluquice minha, mas o Faia não lhe disse toda a verdade, porque o meu pai, oh! será ilusão minha!, se morreu...
— Claro que morreu, Verónica! — assegurou convicto.
— O senhor viu-o?
— Infelizmente, a bomba deixou-o irreconhecível e como nós não éramos da família, foi Monsieur Parafini, o patrão, quem identificou o teu papá e o trouxe para Valdahom.
— Um dia, se calhar no ano que vem, ainda o irei visitar.
— Depois telefona-nos e nós iremos convosco, Verónica.
— Muito obrigado, senhor Chico, mas não era isso o que eu lhe queria pedir.
— Então o que era?
— Aqui há dias, ouvi falar de uma senhora que tem poderes...
— Uma bruxa!
— Sim, uma bruxa que por uma fotografia ou uma peça de vestuário nos diz se uma pessoa está viva ou morta, se desapareceu...
— Desculpa, mas eu não acredito nessas coisas, Verónica. Mas..., o que é que te leva a recorrer a tais pessoas?
— As dúvidas. Oxalá o senhor Francisco nunca viva o que nós vivemos: eu, por mim, sei que um dia o meu pai me falará e então serei feliz, mas a minha mãe não, pelo menos enquanto não tivermos a certeza...
— Olha, Verónica, eu não sei se terei a coragem de ir ver a bruxa, mas juro-te que, quando chegar a França, vou investigar o caso e saber quem eram as outras pessoas que morreram com o teu pai.
— Outras pessoas?!
— Sim, Verónica, a bomba dos terroristas matou mais sete pessoas: um horror!
— Tchut! Elas vêm aí! Por favor, não diga nada a ninguém, nem à Zélia! — suplicou-lhe a menina, espiando o horizonte.
— O teu pai gostava muito de ti e acredita, onde estiver, ele sabe que tu também o amas e continuas a pensar nele. Vá!, não fiques triste e continua a estudar e a animar a tua mãe, sim?
— Nunca se esqueça do que lhe pedi, senhor Francisco! — implorou trémula.
E, virando-se para trás, acenou à mãe e à Zélia, que se agarrou ao marido. Depois de admirar e escutar os gargarejos das cachoeiras do Corgo, os hóspedes regressaram a casa, agradecendo a amabilidade que a Norina e Verónica lhes haviam dispensado. Despedindo-se da órfã com um beijinho, o emigrante cochichou-lhe ao ouvido: descansa, que irei!
— Quando tiver qualquer coisa, diga-nos, Zélia!
— Com certeza, Norina. Adeus!
— Quando chegar a Macôn, escrevo-te uma carta, Verónica! — prometeu o emigrante.
— Obrigado, senhor Serra! E que Deus o ajude...
— Há-de ajudar, Verónica, há-de ajudar! Adeus!
— Adeus! — exclamaram elas em uníssono, despedindo-se jovialmente do casalinho.
Depois, sorrindo à filha, Norina perguntou:
— O que querias ao Chico?
— Nada, mãe, nada!
— Falaste-lhe do pai, não falaste?
— Um pouco.
— E que te disse o senhor Chico?
— O que a senhora está farta de saber: que o pai gostava muito de mim e de si e nunca amou outra mulher.
— Ai o teu pai, filha! Se soubesses como tenho saudades dele!
— Eu sei, mãe, eu sei! Mas..., vamos que eu quero ver a Flecha Negra — disse perspicaz, esquivando-se às questões maternais e instalando-se diante da televisão.

Na última semana de Setembro, e porque os emigrantes há mais de quinze dias que haviam retornado a França, Verónica começou a levantar-se mais cedo e a ir esperar o carteiro na esquina, porém os dias foram-se passando sem que o mensageiro postal lhe trouxesse aquilo que ela mais desejava e a melancolia reapareceu na sua vida, como depois da morte do pai. Carminda, apesar da insistência da Norina para vir viver com elas, continuou numa pensão familiar da rua da Misericórdia, onde ninguém a espiava ou recriminava pelo quer que fosse, ali era livre..., livre de continuar a gozar a vida... Marta, que depois da lua-de-mel ficara sozinha no solar de Almodena, mais por vontade dos pais que do Júlio ou dela própria, ficara logo grávida e não cabia em si contente, tal como a senhora Soledade, para quem a filha seria a melhor mãe do mundo se lhe desse uma netinha bem russinha, ia dizendo à boca cheia, todavia, nos seus pensamentos e nas suas rezas com Deus, era um casalinho como os gémeos de uma parenta que ela mais ansiava, porque, assim sendo, o trabalho ficava feito de uma vez. Como era gulosa a Marta Maria! Por causa da feliz gravidez e apesar de o feto só ainda estar nas primeiras semanas, o taxista impediu a mulher de fazer as vindimas e proibiu-a ainda de continuar a carregar com os enormes baldes de lavagem ou de farelo para as crias, obrigando-a a repartir o peso por duas ou três vezes. Entretanto, Norina inscrevera-se nos cursos nocturnos e Carminda, quando não tinha com quem sair ou se sentia mais deprimida, vinha, a pretexto das explicações, desabafar com ela na hora da sesta e, quase sempre, acabava por passar lá a noite...

Em Outubro, quando as aulas e o serviço cívico começaram, toda a gente sentia que os sinuosos caminhos da revolução estavam a minar a coesão nacional: Portugal não só se dividira, mas, e sobretudo por causa das veleidades ditatoriais da minoria comunista, estava à beira de uma guerra norte-sul, tantas tinham sido as manipulações e as arbitrariedades dos correligionários marxistas-lenilistas. No seio do Conselho da Revolução as dissensões eram por de mais evidentes e os enfeudados à luta de classes e à ditadura do proletariado começam a deixar cair a máscara democrática com que haviam manipulado o general Spínola, sem o qual o golpe de estado não teria sido tão pacífico e nem, tampouco, o reconhecimento internacional do novo regime tão unânime: é que o general, com o seu livro Portugal e o Futuro, distribuídos pelas chancelarias e representações diplomáticas estrangeiras, ganhara um estatuto de homem de estado, sendo rapidamente plebiscitado por todos os membros da ONU — Organização das Nações Unidas — , onde Portugal, devido à guerra colonial e não obstante a sua filiação à NATO — Organização do Tratado do Atlântico Norte — , se via frequentemente condenado e marginalizado, sobretudo pelo lobby comunista internacional, que, sob o jugo da Rússia e a batuta do KGB, se propunha estender a ditadura do proletariado aos mais recônditos e aprazíveis países do planeta.
Não admira pois, que do Minho à Estremadura, passando pelas Beiras, litoral e interior, e por Trás-os-Montes os ideais reformistas do PPD — partido popular democrático — , liderado pelo carismático Francisco Sá Carneiro, um dos mais acérrimos e destemidos opositores do regime fascistas, começassem a ter a adesão popular, por se opor firmemente à luta de classes e ao colectivismo que ameaçava quem, mais não podendo, sempre tivera nas suas terras o ganha-pão vital, sem o qual toda e qualquer liberdade, viesse cedo, tarde ou nunca, seria vã. E, como este sucesso relâmpago deixava entrever outros maiores ainda, o PPD passou a ser o alvo preferido dos ataques dos que arvoravam o estandarte da foice e do martelo, que consideravam os populares fascistas e reaccionários. Era pois, no olho de um ciclone ou na cratera de um vulcão que Portugal se encontrava e muitos eram, no norte como no sul, os que se preparavam para o conflito final.
E, enquanto que nos bastidores do poder, uma corja de políticos e de oportunistas da mais fraca estirpe urdiam ciladas e saneamentos abusivos, devido a uma retirada inglória e precipitada das nossas ex-colónia, onde reinava a lei da selva, milhares de retornados das nossas ex-colónias, escapando à vingança negra, iam vegetando como podiam, uns com o apoio dos familiares, outros à custa dos subsídios do IARN — Instituto de Apoio aos Refugiados Nacionais — , quando não viviam de esmolas; o governo provisório, demasiado heteróclito, incapaz de criar consensos e tomar decisões coerentes, caíra rapidamente no impasse, dando aos radicais do MFA o pretexto que eles tanto desejavam para passar ao ataque...

Entretanto, na Timpeira, se a Verónica ia de dia para a escola, a mãe frequentava os cursos nocturnos, onde encontrara o Jorge que, visivelmente seduzido, não parava de a olhar e de lhe sorrir durante as aulas, dando aos outros a impressão que entre ambos existia um caso e, inevitavelmente, os outros pretendentes à graça da viúva começaram a hostilizar o rapaz que começou a faltar às aulas e acabou por desistir, ainda antes do Natal. Ela, porém, decidida a fazer o ciclo num ano, através do exame ad hoc previsto para Julho de 1975, não se deixou influenciar pelos piropos e os mexericos invejosos, nem tampouco chegou atrasada a nenhuma aula, assistindo atenta e assiduamente às lições ministradas benevolamente pelos professores que aderiram ao serviço cívico nacional; e, aos poucos, a sua simpatia e a sua verticalidade, que uns consideravam carunchosa santidade e outros presunçosa vaidade, transformaram em idolatria a inveja dos mais cépticos, homens ou mulheres, que, para a verem corar, a passaram a tratar carinhosamente por menina. O padre Max, o ex- sacerdote Maximino de que a Carminda lhe falara uma vez, professor de francês, era o seu preferido, por ser o mais calado e mais respeitoso de todos.
De cabelos lisos, negros, e sempre bem aparados, o padre Max exercia, mesmo desde os tempos do altar, um inexplicável fascínios natural sobre todos os que o conheciam mais de perto; generoso e idealista, mas conotado comunista, começou, no entanto a sofrer ameaças, que escondeu, no princípio, mas que, com o decorrer dos dias, foi ignorando, até porque, pessoalmente, ninguém o ousara interpelar e cada um era livre de defender as cores políticas que desejasse; numa das inúmeras conversas com a Carminda, que chegara a ir com ele e outros colegas tomar um galão e comer um pastel de nata à Pompeia, Norina, maliciosa, achara-o interessante para uma viúva...

Durante as férias do Natal, Verónica, que, graças à carta que Chico Serra lhe escrevera pelos Santos a anunciar a gravidez da Zélia, vivia em permanente euforia, recebeu dele um bilhetinho no envelope do cartão de boas-festas; como estava dobrado e colado e com o nome da destinatária, a filha, Norina não o leu; ao recebê-lo, a mocinha correu a lê-lo às escondidas, trancada no quarto do sótão; ansiosa como estava, abriu-o furiosamente, rasgando-o num canto, felizmente sem letras: afinal tratava-se de uma cartinha e o Chico caprichara em escrevê-la em letra de monge copista, toda cheia de floreados e alinhadinha, sim senhor!
Sentando-se no colchão onde dormia a sesta, susteve a respiração e leu serenamente: Querida Verónica, espero que estas minhas palavras não tenham chegado tarde de mais e continues a sonhar e a acreditar na vida para além da morte, como manda o Nosso Senhor. Devido à gravidez da Zélia, ainda não pude ir à procura da Nossa Senhora, mas tenho fé que a encontrarei antes do menino Jesus nascer. Nunca te esqueças que foi uma Verónica que limpou o rosto do Filho de Deus. Continua a dar ânimo à tua mãezinha que bem merece e sobretudo a sonhar, porque, como diz o poeta, o sonho comanda a vida. Queira Deus que passes um Santo e Feliz Natal. Recebe mil beijinhos dos sempre amigos Zélia e Francisco Serra
Post Scriptum: Verónica, se passares de ano, terei uma surpresa para ti, por isso estuda muito.
Fitando o céu azul daquela manhã de Consoada, terça-feira, 24 de Dezembro, a órfã esboçou um sorriso pleno de esperança e, dobrando cuidadosamente o bilhetinho, desceu para o ler apressadamente à mãe, porque Nossa Senhora vinha escrito numa letra mais carregada.
— Ah!, afinal o Chico ainda não perdeu todo o latim, sim senhor! — notou ela distraída a apalpar a brilhantina do cartão, mal ouviu a filha pronunciar post scriptum.
— Olha ela! Agora, porque anda no liceu... Êh!..., peneireira! — bradou desdenhosa, esticando-lhe a língua e correndo a esconder a carta no meio dos livros.
— Ai a menina começa a ter inveja!...
— Inveja, eu?! Não foi por acaso a senhora, que ainda há bem pouco tempo, me disse que burra velha não toma andadura?! — retorquiu irreverente, rindo como uma tolinha.
— Tu vê lá o que dizes, Verónica?! - gritou a zangada ameaçadora.
— Ai a menina diz asneiras e agora, porque tem a cabeça chocha, arrelia-se? Ora essa, esta é boa, D. Norina dos Anjos Valadares Sala! — volveu impertinentemente irónica, soltando um alarido trocista que fez sorrir a estudante nocturna.
— Bom, se fui eu quem disse isso, estás perdoada. Vá!, veste-te lá que o Júlio deve estar a aqui a bater para nos levar para a Almodena. A ti Soledade quer que passemos a Consoada todos juntos no solar do tio Rodrigo. É verdade, há muito que não mandamos rezar uma missa pela alma ao tio Rodrigo, filha! — recordou tristonha.
— Então vamos mais cedo e, enquanto a Marta e a ti Soledade fazem os fritos, nós vamos à igreja rezar-lhe um Pai- Nosso e uma Ave- Maria — sugeriu a mocinha.
— Também tens razão, filha - anuiu a mãe pensativa, correndo a vestir umas calças de ganga roçadas e uma blusa escura.
Ainda se acabavam de aparatar ao espelho, quando escutaram o buzinão apressado do taxista que as chamava; agarrando em dois casacos para vestirem à noitinha, a mãe esperou que a filha pegasse na tigela que tinha preparado para a jornada do Leão e saísse para fechar a porta; na berma da estrada, impaciente, o Júlio não parava de acenar e de lhes pedir que se despachassem.
Pousando os restos de comida na casota, Verónica acariciou o seu guarda-costas e soltou-lhe a coleira para que também ele pudesse ir consoar aonde lhe desse na gana. Apenas atravessou o portão do solar e deu com os olhos nas pernas e na barrigona da gestante lá na varanda, a Verónica, que a via debaixo para cima, bradou irónica:
— Credo, Marta, pareces o Gungunhana!
— O Gungunhana?! — volveu a futura mãe ignorante, abaixando a saia para que a curiosa não lhe visse as partes mais íntimas.
— Sim, então tu não te recordas daquele chefe negro muito gordo e barrigudo que quis desafiar os portugueses e foi aprisionado por Mouzinho da Silveira?
— Ah pois! Mas... Credo, Verónica, não me digas que eu estou assim tão monstruosa! — exclamou envergonhada, olhando-se de alto a baixo.
— Tu até que ainda tens uma cara muito bonita, mas, santo Deus, a barriga... - reconheceu a Verónica, beijando o rosto da gestante e comparando-se a ela.
— O que é que tu queres, miga, o doutor bem me diz para comer menos, mas eu não consigo! — desculpou-se risonha, acrescentando baixinho para que ninguém ouvisse: — os meninos saíram à mãe.
— Sua comilona! — bradou trocista a espalhafatosa, sentindo o Júlio transpor o portão.
— Isso mesmo, Verónica, berra-lhe a ver se ela tem vergonha na cara!
— Vergonha na cara não, relego nos dentes, Júlio! — corrigiu logo com ar de gozo.
— Marta!!! - exclamou risonha a dona do solar.
— Também tu, Norina?!... — retorquiu a gestante queixosa.
— Mas... Eu nunca vi um barrigão assim, rapariga!
— Vá!, por favor, agora não batam todas na gordinha! — implorou Júlio, beijando afectuosamente a mulher na testa e passando-lhe a mão pelo promontório.
— Isso faz-se na cama, Júlio! — ralhou senhora Soledade toda enfarinhada, brandindo a massa para os fritos.
— A senhora está muito bonita! — observou Verónica, correndo a beijá-la.
— Não te encostes a mim, que te sujo, filhinha! — pediu a velhota, recuando logo.
— E então para que serve a água, senhora Soledade?
— Cuidado não te lambuzes! — avisou a cozinheira, estendendo-lhe cautelosamente o rosto empoeirado.
Enquanto que as beijoqueiras se saudavam, Júlio entrou na cozinha e, dando com os olhos nos bolinhos de bacalhau, pegou logo em dois, metendo um à boca e segurando outro entre o dedo polegar e o indicador da mão esquerda. Pouco depois apareceram as mulheres, surpreendido o guloso a beber um golo de verdasco de Abambres.
— Pois é, os meninos têm a quem sair! — disse impensadamente Verónica, traindo o segredo da Marta que a corrigiu prontamente:
— O menino, Verónica!
— Ah! pois é, desculpa, Marta! Não sei porquê, mas esse barrigão...
— Eu também lhe dizia o mesmo, mas o médico garantiu-me que ela só traz um! — apoiou Júlio, limpando os dedos gordurosos a um pano que estava sobre o escano.
— Come também um, filhinha — disse a cozinheira, estendendo-lhe o prato.
— Muito obrigada, senhora Soledade, mas eu estou-me a guardar para as rabanadas.
— Tira, Norina! — insistiu a velhota.
— Ah! deixe estar que eu só vou pousar estes casacos na sala... Marta, vem comigo!
Obedecendo, a gestante acompanhou a amiga até à sala, onde lhe confirmou o que a Verónica já sabia, pedindo-lhe, contudo, muito segredo, pois fora a pedido dela que o ginecologista mentira ao marido, que, envergonhado, não tinha a coragem de assistir a nenhum exame, mas que ela ainda esperava convencer até à hora do parto para que ele pudesse sentir a indescritível alegria de ver nascer os seus gémeos.
E foi com a mais secreta cumplicidade que elas se olharam durante toda a ceia; desconfiado, Júlio bem quis desvendar o segredo, porém, temendo ferir a sensibilidade da Marta, que se mostrava sempre tão chateada com aquela barrigona, não ousou imiscuir-se na intimidade das mulheres; como sempre, naquela noite ninguém esqueceu os entes queridos que Deus havia chamado, recordando-os a todos com aquela pudica nostalgia que é capaz de navegar entre a dor e saudade sem roubar a serenidade a quem os amou de verdade; nos seus corações lágrimas havia seguramente, mas, inexplicavelmente, nenhum olhar se transformou em nascente.
Perto da meia-noite, antes do Júlio as levar à Timpeira, a senhora Soledade ainda pensou insistir com a Norina para que viessem à missa à Almodena e almoçassem com eles, mas lembrando-se do Faia, que chegara na véspera, não quis tentar o diabo e preparou à senhoria uma panela com rabanadas, bolos de bacalhau e lêvedas para o dia de Natal. Aceitou-os na condição de o genro os levar a tomar uma jeropiga com elas e a Carminda, que antes de férias prometera fazer-lhes uma visita.

Apesar da hora tardia em que adormeceram e da geada matinal, no dia 25 de Dezembro, mãe e filha ergueram-se cedinho e, para penitências dos seus pecados, foram a pé até ao S. Pedro, onde assistiram à santa missa e beijaram o menino Jesus; no regresso, passando diante da sede do PPD, mesmo a dois passos da igreja, a Verónica quis saber a opinião política da mãe, mas ela desculpou-se com o almoço para não lhe revelar a sua sigla preferida; à altura das boxes do circuito, a tagarela não se privou de recordar à taciturna aquele episódio em que a julgara vítima de um ataque cardíaco, quando, adiantando-se com o Leão, ela ficara encostada ao muro a apalpar o coração; sorrindo-lhe meiga, a mãe quebrou o silêncio, confessando baixinho:
— Oh!, o tempo passou, mas essa dor não! Está apenas dormente no meu coração...
— E no meu também, mamã! — sussurrou a inocente, apertando-lhe os dedos macios.
E não disseram mais nada: o Sol vinha espelhar-se nas suas retinas enternecidas, fazendo-lhes resplandecer a insubmissa saudade que, percorrendo vertiginosamente os seus labirintos cerebrais, se espraiava na distância sem uis nem ais.
Ainda se encontravam a mais de quinhentos metros de casa, quando viram o Leão correr à frente delas; chegando ofegante, de língua esticada e ululante, o bichinho parecia estafado e aninhou-se queixoso entre as mãos da amiguinha.
— Leão, meu Leãozinho! — exultou Verónica, mais meiga do que nunca.
— Hum! Hum! — gania o cão, lambendo-lhe os dedos carinhosos.
— Coitadinho do Leão, como tem saudades nossas, filha!
— Ele é muito bonzinho o... Oh! ele está ferido! — bradou perplexa, descobrindo o sangue na ponta dos dedos da mão que lhe acariciava lombo.
— Pois, ele anda sempre atrás das cadelas e se calhar apanhou alguma pedrada — explicou a mãe, derreando-se para ver o golpe.
— Ai tu vais à cria e agora queixas-te? — reprimiu Verónica, bufando à ferida.
— Hum! Hum! — continuava a lamentar-se o animal, como que a refutar a acusação.
— Pronto, Leão, corre lá à minha frente e vai para a casota que eu já te deito mercúrio — ordenou a menina, apontando-lhe a vivenda e esquivando-se para que o cão não lhe manchasse o vestido.
Enquanto a mãe aprontou o tabuleiro com as batatas e o peru do almoço, Verónica mudou de roupa, pegou no frasco de mercúrio e no pó anti-séptico e foi fazer o curativo ao Leão, voltando com os dedos ensanguentados, que lavou e ensaboou demoradamente no lavabo do quarto de banho, antes de vir espreitar para o vidro translúcido do forno e arregalar os olhos com o manjar que ali estava a assar.
Depois da saborosa refeição, lavaram a louça e, arrumando rapidamente a cozinha, foram pôr a mesa na sala, acrescentando aos fritos trazidos na véspera uns pratinhos de amêndoas, doces e bolachas de baunilha para as visitas acompanharem com a jeropiga, o whisky e o vinho do Porto. Ligando a televisão para matar o tempo, a Verónica foi entretida pelos desenhos animados e deixou o resto do trabalho para a mãe, que, tirados os talheres do faqueiro e postos os guardanapos floridos num canto, ocupou o espaço disponível com uma jarra de flores secas.
E os bonecos acabaram sem que ninguém chegasse; impacientes, passaram a tarde a ir à janela e a sentar-se no sofá, mas por volta das quatro da tarde, vendo o táxi descer a rampa, os seus olhos foram recompensados com o sorriso dos velhotes que, descobrindo-a à janela, lhe acenaram todos janotas, mal saíram do Opel do genro; Júlio, cavalheiro, abrira a porta à Marta e, segurando-lhe o manto, ajudou-a a vestir-se.
Ao passar junto do cão gemebundo, o senhor João reparou no curativo e perguntou:
— O Leão apanhou uma pedrada ou uma sacholada, Norina?
— Sei lá, senhor João, o bichinho foi esperar-nos ao cruzamento do quartel e eu mal lhe vi a ferida, mas aquilo pareceu-me mais golpe que outra coisa.
— Credo, não sei como pode haver almas tão malvadas neste mundo! Aleijaram-vos o bichinho, miga? — disse a velhota condoída, beijando-as.
— O que é que se passou, Norina?
— Tentaram esfaquear-me o Leão, Marta!
— Então larga-o, Norina, para que se possa defender, pois quem veio aqui para lhe fazer mal, se o julga preso, volta — aconselhou o taxista, cumprimentando a amiga.
— Ouviste, Leão? — gritou Verónica, acariciando-o e desprendendo-lhe a coleira.
— Subi que este vento arisco constipa. Eu e o Júlio vamos ver como estão as videiras - disse o senhor João, acenando às mulheres e dirigindo-se para trás da vivenda, logo seguido pelo genro.
Afastando-se cabisbaixos e murmurando entre os dentes para que as mulheres, que tinham ido para o soalheiro da varanda, não os ouvissem, os homens, intrigados com o sucedido, começaram a opinar e, olhando-se seriamente, acharam estranho que só agora, muito mais forte portanto, o animal se tivesse deixado apanhar na ratoeira; apalpando as vides e matutando cada um para si, lá se foram até ao rio, virando-se e acenando de vez em quando à Verónica e à Marta, já que a senhora Soledade e a Norina haviam preferido sentar-se diante da televisão; depois de avançar as hipóteses mais plausíveis, que incriminavam o incauto, Júlio segurou o queixo e suspeitou:
— E se tivesse sido o passador?
— Eu não lhe queria dizer nada, mas capaz disso é ele — aventou o sogro.
— Ele que não se atreva a meter-se com a Marta, porque eu estoiro-lhe os miolos, senhor João — retorquiu o taxista nervoso, cerrando os punhos.
— Oh! o Raimundo é um finório!...
—_ Que se julga mais do que o que é.
— Fique tranquilo, Júlio, que ele não se mete com a Marta!
— Sei lá! A partir de amanhã ponha-se de pé atrás, que eu vou avisá-la.
— Escute, Júlio, mesmo que se gabe do que não fez à Marta, e você sabe-o bem, não caia na esparrela, sobretudo agora — avisou o velhote cauteloso.
— O melhor é fazermos de conta... — disse o taxista apreensivo, convidando o sogro a guardar para si a suspeita e a voltar para junto das mulheres.
E foi entre sorrisos e copos de jeropiga e que passaram entre eles aquela tarde de Natal, porque, afinal, a professora faltara ao prometido. Deitada entre as mantas, Norina esfolhou o livro da reminiscência e, recordando brevemente o tempo da inocência com a mãe, do qual não lhe restavam imagens cerebrais, lembrou o triste calvário do pai, viúvo e minado por um cancro na próstata. Depois, deslizando a memória pelos bancos da escola, apavorou-se com aqueles desvairados do diabo de tumescência atiçada e mão no membro viril a querer abrir-lhe as pernas num palheiro do quinchoso que dava para o solar. E logo surgiram os fantasmas das noites de insónia a traumatizá-la. Sentindo uma forte dor de cabeça, quis dormir, mas o coração obrigou-a a prosseguir viagem e descobrir aquelas retinas flamejantes do Arménio e fitá-la e a dizer-lhe que nunca pensara que os olhos de uma mulher pudessem brilhar mais que um diamante. Como sorria o Arménio...
“ Oh! está calado que os homens são todos uns mentirosos! ”
“ Nunca pensei que uma donzela assim tão bonita pudesse ser tão... ”
“ Tão?!... Vá, diz! Ou tens medo? ”
“ Medo eu?! Só se for de te perder e isso não queria, Norina! ”
“ Desculpa, foi sem querer, Arménio! ”
“ Ora essa, não tem nada que pedir desculpa quem diz o que tem no coração! Mais vale isso que viver na mentira. Não, não me peças desculpa! ”
E, baixando simultaneamente os olhos, não se disseram mais nada daquela vez — recordava a sonhadora, tentando adivinhar em que o rapaz pensara no minuto de silêncio que se seguira. Depois, depois, uma carícia tímida e um aceno breve, nada mais, antes de se reverem e beijarem pela primeira vez, dois dias mais tarde.
Suspirando levemente, Norina sentiu-se acalorada e desviou as mantas. Depois, como a temperatura não parasse de subir à sua volta, ergueu-se e, encostando-se à travesseira, ajeitou-se para dar seguimento à viagem quimérica, mas, infelizmente, o fio do sonho tinha-se cortado. Alertada pelo clarão que jorrava do quarto da filha, saltou da cama e, caminhando em pezinhos de lã, foi desligar-lhe o candeeiro e tirar-lhe o livro com que adormecera das mãos, beijando-a carinhosamente, antes de voltar para o reino da mórbida nostalgia.
Mas as horas passaram e, por mais que teimasse e voltas que desse na cama, a magia voltou. Os seus olhos tetanizaram-se e o coração, adormecendo talvez, não se sentiu com coragem para continuar a palpitar e alimentar pensamentos tristes, como Norina tanto queria para mortificar a alma pecadora. Finalmente, às duas madrugada, compadecendo-se dela, o sono arrebatou-a, livrando-a daquele mórbido suplício...



Continua em Capítulo XI
LMP - Luxemburgo 1984 - Lud MacMartinson

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