Lady

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Caminhos de ilusão: Capítulo XIII


Capítulo XIII




Com a aprovação no exame do primeiro ciclo, Norina deixou de ser tão acanhada como era, recuperando aquele amor-próprio que a fazia tão tímida e introvertida. Os derradeiros dias de Julho passou-os a correr as lojas com a Marta e as madrinhas dos gémeos. Vila Real sendo uma aldeia, finalmente, e a sua viuvez sobejamente conhecida, tal como a sua perseverança durante aquele ano de aulas nocturnas, em cada boutique que entrou foi acolhida com aquele olhar orgulhoso, a que só os heróis do povo têm direito, e um coro de encorajamento a continuar e a tirar o magistério, que estava cada vez mais nova e a todos esses galanteios ela respondia com um sorriso meigo e grato.
No dia 1 de Agosto, sexta-feira, regularam o despertador para as sete horas para irem ao mercado, mas temendo a azáfama da pubileia madrugadora, preferiram ficar mais um pouco na cama e partir pelas onze horas, quando a maior parte estivesse de volta, até porque não era na praça que elas fariam a maioria das suas compras; ainda tomavam tranquilamente o café, quando o Leão começou a ladrar; curiosa, Verónica acorreu à janela e deu com os olhos no carteiro em continência diante do cão.
— Estranho, mamã, o Leão normalmente não ladra ao senhor Afonso! É, venha ver, aquele não me parece ele — convidou intrigada com a postura do carteiro.
— Mas..., aquele é o Mesquita, filha! Já não o conheces? — perguntou a mãe radiante.
— Ah! é o carteiro que lhe trouxe o maldito telegrama que o Faia lhe escreveu a anunciar a morte do pai! — exclamou intrigada, recordando a fisionomia do mensageiro da fatalidade.
— Leão!!! Vem cá Leão!!! — gritou energicamente para o animal.
— Mas que canzarrão, D. Norina! Ele morde? -— berrou o carteiro assustado.
— Não, senhor Mesquita, o Leão só morde quem o ataca! — respondeu a viúva, descendo as escadas ao encontro do carteiro, que avançava timidamente.
— Pois, a senhora ainda se recorda de mim...
— Não recordo, infelizmente, outra coisa, Mesquita, mas que bons ventos o trazem por aqui hoje? Então o senhor Afonso...
— O Afonso pediu a conta no mês passado. Em Setembro, ou se calhar, ainda este mês, também vai para o estrangeiro.
— Ah bom! E para onde?
— Para o Luxemburgo. Uns rapazes de Lordelo arranjaram-lhe lá trabalho nas obras e como ele só ainda tem trinta e cinco anos e quer ganhar rapidamente para uma casita...
— Pois, como o meu Arménio... Uma ilusão, Mesquita, uma ilusão! Agora é só para uma casita, depois é para um pé-de-meia, depois é para um carro, depois é para educar os filhos... A emigração é um círculo vicioso e viciado! É como o caruncho: entra-lhes na cabeça e roe-lhes os ossos até à raiz! Pobres dos emigrantes, ainda não descobriram que no dia em que largaram a terra se divorciaram da verdadeira felicidade, lançando-se num mar de ilusão, porque a ambição lhes faz perder alma primeiro, trocando a dignidade pelo dinheiro, a quem tudo sacrificam, depois o coração, a quem a saudade fará sofrer até ao fim da vida... Mas diga, Mesquita, que se calhar estarei a falar de cor...
— Oh! se não é como diz, não deve estar muito enganada, D. Norina!
— Pelo menos era o que eu sentia nos olhos do meu Arménio e o que vejo nos de quem, tendo partido há bem mais tempo, aqui vem de férias para esconder a miséria que lá passam, como me disse o Chico, o genro do Manuel Feliciano.
— Ah! então foi este o cão que desfigurou o maniento do passador de Almodena! — bradou o carteiro sarcástico, esticando também a língua ao Leão.
— Só teve o que merece o cobarde que quis esfaquear um animal preso. Olhe, Mesquita, foi ali... — explicou nervosa, apontando a casota.
— E sabe-se lá o que ele faria depois de matar o cão...
— Coisa boa não era e quando nos saiu ao caminho também não, mas..., enfim, quem com ferros mata com ferros morre e Deus não dorme, Mesquita - adiantou mais calma.
— Então?! Há carta ou não? — gritou Verónica impaciente, debruçada a espiá-los.
— Ora é mesmo contigo que eu quero falar, pequenita! Vem cá escrever o teu nome neste recibo — atalhou o carteiro risonho, tirando uma carta registada do saco de cabedal.
— Ai é para mim?!
— É para a menina Verónica dos Anjos Valadares Sala. Vá assina aqui e abre lá que desta vez deve ser coisa boa — disse Mesquita espalhafatoso, chupando o cigarro que trazia nos beiços e apresentando-lhe a esferográfica e o recibo para ela assinar.
— Mais alguma coisa?
— É do Mossiú F. Serra! Toma e lê!
— O senhor é bem curioso, sabe? — resmungou a irreverente, pegando na carta e rasgando-a num canto para melhor a abrir com o dedo trémulo.
— Então, filha? — volveu a criança.
— Calma, mãe, calma, que eu não sou nenhuma automotora!
— Bom, adeus e oxalá as notícias sejam boas, menina!
— Obrigado e vá com Deus, o senhor Mesquita — agradeceu Norina pela filha, que, obcecada com a carta nem se mexera.
E, fazendo uma festinha ao Leão, o carteiro lá partiu a cantarolar, como era seu hábito, quando fazia a volta das aldeias, na sua motoreta para o resto da ronda pelas ruas do bairro.
— Então, filha, o que é que o Chico diz? — perguntou a mãe, depois de um breve silêncio.
— Olhe, vá lavar a louça do café...
— É verdade o café!...
— Se o meu estiver frio, faça o favor de mo aquecer que eu não demoro.
— Bom, então não demores que ainda temos que... Mas que raio de carta mais comprida, Verónica! — desabafou a mãe intrigada com a atenção com que a filha a lia.
— Tchut, deixe-me ver se eu entendo bem o que... Caramba, desta vez também lhe deu para escrever letra de médico! — barafustou embaraçada, tentando disfarçar a perturbação que começava a entrar-lhe pelos olhos e a invadir-lhe.
Apercebendo-se do nervosismo da filha, Norina subiu para a cozinha, donde lhe espiava o menor trejeito, por detrás das cortinas, enquanto aquecia taciturnamente o café.
— E se fossemos visitar a campa do pai, mamã? — sugeriu carinhosamente Verónica, segurando a carta dobrada na mão.
— Por acaso pensei centenas de vezes nisso, mas já viste a viagem? Nós não conhecemos ninguém, não sabemos o caminho...
— Oh, a senhora também se afoga num copo de água! Íamos ter com o Chico a Macôn e depois, se ele estivesse de férias, pedíamos-lhe que nos levasse a Valdahom e assim aproveitávamos para conhecer o senhor Fortunato Galela do Fiolhoso, de quem o papá nos falava tão bem, e agradecíamos-lhe por tudo o que fez por nós, sem esquecer as bonecas e os brinquedos que os filhos dele me mandaram no ano em que o pai veio ao Natal.
— Pois, mas irmo-nos para lá sozinhas, deixarmos tudo isto aqui e...
— E quê?!
— Com o baptizado do Júlio e do Arménio quase à porta!
— Quase à porta?! Ainda agora estamos no princípio do mês! A senhora quer ir que eu convenço o senhor Feliciano a deixar ir a D. Rita connosco?
— A D. Rita?! Mas que ideia, filha! O que é que a...
— Então a Zélia não está para ter o bebé? — recordou prontamente a espertalhona.
— É verdade, nem me lembrava da Zélia! — exclamou a amnésica, recuperando a memória.
— Vá!, ande lá, beba o café e despache-se que esta hora o senhor Feliciano ainda não tem assim muitos clientes no restaurante.
— Bom, então fazemos melhor: vestimo-nos, fazemos calmamente as compras e depois vamos lá almoçar para festejarmos sozinhas...
— Boa ideia! Comemos umas batatas a murro com bacalhau assado, que a D. Rita faz muito bem, e depois falamos- lhe. Boa ideia, sim senhora! — apoiou a Verónica radiante, levando apressadamente a chávena à boca.
— Cuidado, que te queimas, filha!
— Oh!, queimar-me eu?! — ironizou a eufórica, bebendo o café de uma golada.
— E a carta? — relembrou a mãe curiosa.
— Vá!, despache-se e vista-se que depois eu conto-lhe pelo caminho — respondeu a menina, correndo lesta para o quarto dela.
Dez minutos depois, já atravessavam alegremente a ponte da Timpeira escoltadas pelo Leão. Enquanto caminhava e resumia muito sucintamente a carta à mãe, Verónica não parava de sorrir. Nos seus olhos brilhavam intensamente a luzes da fé e do sonho que ela não parava de alimentar contra a racionabilidade, espelhando bem o ditado que diz que enquanto há vida há esperança, e a dela ainda estava no início da Primavera.
Na rua Direita, passando junto do Márius, deu com os olhos naquela foto que o Jorge lhe tinha tirado à beira do Corgo no dia do casamento da Marta e, não hesitando um segundo, foi pedir-lhe explicações, mas o seu admirador não estava. Zangadíssima, pediu à patroa que lhe retirassem imediatamente a foto da vitrina, mas esta pediu que lha pagasse se a quisesse ver dali para fora. Mostrando-lhe cinco contos, Norina exigiu-lhe imediatamente a chapa, o quadro e todas as fotos que tivesse dela, se não quisesse que fosse chamar a polícia; atemorizada com a ameaça da viúva e com o olhar colérico da filha expectante, a patroa desculpou-se pela negligência do empregado e, embrulhando tudo muito bem, remeteu-lho num saco plástico.
— Parece que é a primeira vez que te vejo assim tão zangada, mamã! — cochichou Verónica mais adiante, olhando orgulhosamente o rosto corado da mãe.
— E com razão.
— Oh! o Jorge não deve ter feito aquilo por mal! Bem se vê que ele te achou muito bonita. Eh! até que o Jorge não parecia mau rapaz!...
— Não te estou a conhecer, Verónica! Mas não foste tu que, ainda há poucos dias, me ameaçaste pôr no olho da rua, se te arranjasse um padrasto? Francamente, não te estou a perceber, menina!
— Realmente devo estar maluca para lhe dizer isto nesta altura.
— Nesta altura?! O que pretendes dizer com isso?
— Oh nada, esquece, mamã, foi uma expressão que me saiu por acaso!
— Hum, até me parece que me queres esconder alguma!
— Alguma quê?
— Sei lá! Se calhar quando me deixares ler a carta que o Chico te escreveu talvez saiba um pouco mais a esse respeito, sua segredeira.
— Segredeira eu?! Olha quem o diz! — cochichou baixinho para que os transeuntes não as percebessem, espiando o trânsito que subia a avenida Carvalho Araújo.
— Deixa lá, à tardinha, quando voltarmos, nós falaremos! Segura o Leão e presta atenção aos carros antes de atravessares! — avisou a mãe, segurando o quadro e calculando a velocidade e a distância do automóvel para atravessar a rua. — Agora! Vá, anda, corre que o táxi vai estacionar perto da estátua! — gritou confiante, puxando-a energicamente pela mão.
Subindo a avenida pelo lado dos correios, lá caminharam até ao frontispício do seminário e da Minerva Transmontana, onde eram impressos os cartazes, os jornais regionais e o Ave-Maria, um boletim diocesano distribuído aos domingos no fim da missa, por todo o distrito de Trás-os-Montes e Alto Douro; e, contornando o mercado pela entrada sul, dirigiram-se para o restaurante.
— Olha quem aqui vem! Até que enfim que as meninas se desviaram do caminho! Se estivéssemos na aldeia, daria corrida ao sino! Sejam bem-vindas! — exultou o patrão.
— Realmente já era tempo de eu me decidir a sair da toca e a vir provar as batatas a murro com bacalhau de que a Verónica me fala tanto. Mas..., o Feliciano está muito mais elegante!
— Pudera, com tanto trabalho!
— Ainda bem, assim a honra e o proveito ficam no mesmo saco!
— Pois, encolho a pança e encho a carteira, não é?
— E o que é que devia ser, Feliciano?
— Se queres que te seja franco, não tenho razão de queixa: desde que se deu o 25 de Abril, quanto mais se discute e fala de política, melhor vão os negócios.
— E a prova está aqui: vê lá onde nos podes arranjar um lugarzinho.
— Ah! vocês vêm para comer! Em honra de quem?
— Olha, para cumprir uma promessa que fiz à Verónica por não ter aqui vindo depois do casamento do Júlio e da Marta e por ter conseguido o exame do 1º ciclo.
— É verdade! Parabéns, Norina, parabéns! — exclamou o Barrigana, estendendo a mão.
— Obrigada! E a D. Rita?
— A Rita? Mas onde é que deve estar a minha Rita, quando não dorme ou não está doente? Na cozinha, claro! Às vezes até lhe digo que devia tirar umas férias e deixar a empregada fazer os temperos, mas ela cismou que só ela é que sabe cozinhar nesta terra!
— Por falar em férias, eu e a Verónica somos capazes de ir, finalmente, ver se aquelas terras de França são assim tão mais ricas que as nossas. Agora, que as coisas estão mais calmas e o tempo já cicatrizou um pouco mais as mágoas, queria visitar a campa do Arménio e conhecer pessoalmente as pessoas de quem ele tão bem me falava e agradecer-lhes tudo o que fizeram por nós, não é Verónica?
— Então, quem deve tem que pagar um dia! — justificou a órfã filosofal, admirando a decoração do restaurante.
— E quando é que tencionais partir? No fim do mês temos o baptizado dos gémeos do Júlio e a Verónica, pelo menos, como vai ser madrinha do Arménio, tem que estar de volta.
— Pois, mas ainda há pouco recebi uma carta do seu genro. A propósito, ele diz que a gravidez da Zélia está a correr muito bem e manda-lhes muitos cumprimentos, e...
— E que te diz o Chico?
— Diz que se quero conhecer a terra onde o meu pai trabalhou e, quem sabe? o lugar onde morreu, que aproveite o mês de Agosto, em que os emigrantes, e não só, estão de férias.
— Olha, se convenceres a Rita a ir convosco, dou-te um..., não, pago-vos o almoço!
— Depois, quando voltarmos, aceito, mas o de hoje não. O de hoje, como é o primeiro e vem tão atrasado, é a D. Norina quem o paga e não bufa! — retorquiu cínica, fisgando a mãe.
— Pronto, ide lá, sentai-vos onde quiserdes e fazei lá que me dais uma grande alegria se arrastardes a minha catatua da bila para fora — concordou Feliciano, sorrindo a dois casais que entravam para almoçar.
Enquanto aguardavam o almoço, Verónica largou a mãe a ler uma revista e a beber uma água das Pedras e foi postar-se no postigo da cozinha a cochichar com a cozinheira, que a escutava atentamente e aprontava, sem abrandar o ritmo, as encomendas dos clientes.
— Está-me a ouvir, D. Rita? — questionou a faladeira, julgando falar para as paredes.
— Fala, filhinha, fala, que depois eu dou-te a resposta — tranquilizou-a a senhora risonha.
— Então não se esqueça, pense bem no que eu lhe disse, D. Rita!
— Fica tranquila que o meu Feliciano não vos deixará sair sem vos dar a resposta. Agora vai comer que esta travessa é para vós.
— Credo! isso é bacalhau para um regimento, D. Rita! — ironizou a pequenita.
— Tchut! Vá, comei tudo que depois falaremos dessa viagem. Bom apetite!
— Obrigada, D. Rita!
E, arregalando os olhos, seguiu o servente até à mesa, surpreendendo a mãe a falar e a sorrir para um rapaz muito extrovertido, que não parava de lhe arreganhar os dentes.
— Verónica este senhor é o Manuel da Cumieira que andou comigo no curso.
— Eu sei, mamã! Cruzei-o tantas vezes nas escadarias do liceu! O senhor Manuel quer comer connosco? Olhe para ali! Bacalhau é o que não falta! Coma!
— Obrigado, Verónica, mas a minha senhora está à espera — desculpou-se o estudante.
— Ah! o senhor é casado! — bradou a pequena, despertando a curiosidade alheia.
Corado, o colega da Norina nem chegou a despedir-se dela. Confuso, retirou-se cabisbaixo como um réu, transmitindo aos clientes do restaurante a sensação de uma qualquer culpabilidade, enquanto a viúva os encarava obstinadamente, forçando os olhares incriminantes a terem vergonha por tão audaz descaramento. Orgulhosa, Verónica sorria inocentemente, servindo-se em primeiro lugar. Mudando de cadeira para ficar de costas viradas, a mãe, imitando a filha, serviu-se também, saboreando o apetitoso manjar.
Com o pudim caseiro da sobremesa, vinha um bilhetinho que a Norina leu num golpe de lince “ vou, se partirmos segunda de madrugada e voltarmos para a festa da Senhora da Assunção...” ; pegando numa esferográfica que tinha na bolsa, ela escreveu apenas “de acordo ”e dobrando o papel mandou-o de volta pela Verónica, que não resistiu à tentação de o ler pelo caminho.
E do restaurante, a viúva desceu imediatamente à Caixa Geral de Depósitos a comprar francos franceses e algumas pesetas, mesmo antes de falar com o Júlio, a quem só falou da viagem pelas quatro da tarde. Desculpando-se por não lhe responder na hora, o taxista comprometeu-se, contudo, e dada a urgência, a dar-lhe a resposta à tardinha, depois de falar com a Marta. E na verdade, ao pôr do Sol, lá surgiu o Opel na rampa com a novidade que a Verónica mais desejava: Júlio aceitou o honroso convite e sugeriu à Norina que deixasse ali ficar a mulher e a irmã aqueles dias com o Leão a guardar a vivenda. Extremamente grata, a viúva aceitou prontamente a sugestão e pediu ao taxista que fosse convencer a D. Rita a antecipar a viagem de um dia, pois a Verónica queria que a levasse também a Paris.
Domingo de madrugada, depois de carregar as malas das viajantes, Júlio deixou-as fazer as despedidas e beijando emocionadamente o rosto da Sara, a quem incumbiu de zelar pelos gémeos, pediu à Marta que chegasse um instante com ele ao quarto da viúva, onde dormiria as próximas doze noites, e cobrindo-a de beijos, rogou-lhe que não saísse da vivenda e, se preciso fosse, utilizasse a pistola que a Norina lhe mostrara na véspera. Depois, acariciando e beijando as mãozinhas dos inocentes adormecidos, acenou e partiu tristonho, apesar dos encorajamentos da D. Rita, sentada no banco da frente, e da Verónica, que não parava de acenar e lançar beijos à comadre.
Finalmente, ainda era noite cerrada, quando, contornando a curva do quartel, o táxi tomou a direcção de Vila Pouca de Aguiar, rumo a Chaves e a Vila Verde da Raia; aos primeiros clarões de domingo, com mãe e filha adormecidas no banco traseiro, só D. Rita, de olho vivo, animava o Júlio, que, vendo o ponteiro da temperatura subir vertiginosamente, temia que a serra de Puebla de Sanábria lhe incendiasse o Opel, mas na descida tudo voltou ao normal, tranquilizando-o. Pelas oito horas, com o Sol a bater-lhe nos olhos e a boca a abrir-se-lhe, o condutor virou para um parquezinho e, despertando as dorminhocas, saiu para respirar um e aliviar a bexiga atrás da moita, contagiando as mulheres, que aproveitaram para fazer o mesmo, enquanto ele controlava os pneus do carro. Depois de comerem uma sanduíche e beberem um copo de café com leite, retomaram a viagem rumo a Palência.
Sentando-se ao lado do Júlio para a D. Rita tirar um cochilo, Norina não parava de olhar o mapa e contar as localidades por onde ainda teriam que passar até chegar ao destino. Depois de Burgos, à medida que os nomes iam sendo riscados, Verónica, que viajava no meio dos bancos, ia anunciando euforicamente só já faltam quinze, só já faltam quatorze, como se cada cidade desaparecida lhe avivasse a fé e aumentasse a voltagem da luz dos seus olhos.
Quando, em Irun, atravessou a fronteira francesa, o seu coração embalou-se e, sentindo uma dor no peito, começou a chorar. Apercebendo-se pelo retrovisor, o taxista encostou o carro num ar de repouso e, sorrindo à amiga, murmurou baixinho:
— A menina está a chorar.
— Então, Verónica? Estás cansada, filha? — questionou compadecida, virando-se para trás.
— Oh!... - desabafou contrariada, enxugando as lágrimas.
— Se quiserem sair para respirar um pouco, aproveitem que ali há quartos de banho para senhoras! — avisou Júlio, desligando o motor.
Acordando com o estremecimento, D. Rita esfregou os olhos e, espreguiçando-se, começou a bocejar. Depois, ajeitando-se para sair e estender as pernas, viu que a criança havia chorado e, pegando-lhe na mão, perguntou comovida:
— Estás maldisposta, miga?
— Não senhora. Há três quilómetros atrás senti uma pontada no peito.
— E ainda te dói? Tu vê lá!
— Oh! isto não é nada! Esteja sossegada. A dor já passou — balbuciou a mocinha soluçante, enxugando um pouco melhor os olhos.
— A Verónica é muito forte, D. Rita! — adiantou a mãe, sorrindo orgulhosa.
— Sem dúvida nenhuma, Norina! Mas... Onde está o Júlio?
— Ali, olhe! — disse calma, apontando para Júlio que controlava o nível do óleo e da água.
Saindo para o terreiro, elas acenaram ao condutor e dirigiram-se para o espaço reservado às mulheres, donde voltaram lavadas e penteadas. Depois, abrindo a mala do Opel, pegaram no cabaz da merenda e levaram-no para a sombra de uns arbustos. Chamando o taxista, abriram os cabazes e almoçaram, espraiando um pouco, antes de iniciarem o resto da viagem.
Em França, atravessados os Landes, região de pinhais e areais por onde se infiltrava a maresia do Golfo da Gasconha, não se cansaram de admirar aquelas planícies imensas, que ladeavam as auto estradas, e as inúmeras zonas industriais. E a cada fábrica que cruzavam, não se aborreciam de recordar que ali deviam trabalhar muitos compatriotas. Impressionadas com o tamanho o desenvolvimento, tiveram indubitavelmente a percepção de estarem a descobrir um outro mundo, mais humano e mais justo, apesar da maior velocidade que a vida lhes parecia ter. E, depois de várias paragens para abastecerem o Opel e respirarem um pouco, chegaram a ao destino de madrugada.
Mergulhada na noite e embalada pelo plácido Rhône, Macôn pareceu-lhes uma cidade calma e aconchegante. Estacionando a viatura no largo do mercado, sob os holofotes da marginal, Júlio ligou a luz interior e, conferindo o endereço da Zélia, apercebeu-se que acabara de atravessar a route de Lyon e saiu para se certificar se a placa, que julgava ter visto segundos antes, era mesmo a que estava afixada na esquina. E, saindo do carro, andou uns vinte metros, conferindo que estava certo. Depois, voltando para junto das dorminhocas, ligou o contacto e tomou a direcção desejada. Entrando na avenida, segurou cautelosamente o volante e, rolando pacatamente, lá foi conduzindo e controlando o número indicado no cartão com o nome das localidades por onde haviam passado. Estacionando o Opel no terreiro que se estendia à frente da casa da Zélia, trancou as portas e, deitando o banco, cruzou os braços, esperando que o Sol nascesse para ir bater à porta da Zélia. Mas, cansado e feliz por ter chegado ao destino em vinte e oito horas, acabou por se relaxar e adormecer, embalado pelo ruído crescente dos camiões e das viaturas que se dirigiam para Lyon.


Continua em Capítulo XIV


LMP - Luxemburgo 1984 - Lud MacMartinson

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