sexta-feira, 11 de abril de 2008

FD * Capítulo I


CAPÍTULO I



Neste sombrio dia de Outono, a noite decidira antecipar o inamovível ritual do seu advento quotidiano e cobrir de negro manto a baía de Santo Amaro, burgo piscatório da Costa do Estoril, debruçado para o mar. Consternado a fitar morbidamente o horizonte nublado por detrás da vidraça e afagando carinhosamente as cortinas como fazia com a sua adorável esposa, ― a fascinante Dina, célebre jornalista, a quem a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, confiara a direcção do Diário, mas que Deus lhe levara há um ano num trágico acidente em Angola, ― o Dr. Rui de Aguiar, farto de tanto chorar e vociferar em vão, e porque a fonte lacrimal parecia seca, injuriava endofasicamente o destino cruel que o perseguia implacavelmente desde criança, quando lhe ceifara os pais na flor da infância.

Oh, como ia longe aquele tórrido Verão de 1973, em que, preso no turbilhão de uma indomável e avassaladora paixão, o órfão vira o amor explodir no seu coração e mudar radicalmente a sua existência melancólica. Santo Deus, como fora lindo aquele conto de fadas! Passada quase uma década e, sobretudo, apesar da trágica viuvez em que vivia enlutado, ainda se lembrava como se tivesse sido neste Verão que agora se despedia chuvoso e triste. Pesaroso, o inconformado neo-advogado tentava arrancar da pálida reminiscência da sua louca adolescência o remanescente grão de esperança para poder afrontar a fúria do destino, a quem jurara não dar tréguas até à morte, quando viu nas suas mãos ensanguentadas o corpo exangue da sua adorável esposa, a intrépida e fascinante Dina. Depois, que lhe importava viver assim? Não fora a sua fé em Deus e a certeza que todo o suicidado passa a eternidade a errar pelos confins do infinito, quiçá entre o inferno e o purgatório, sem jamais poder entrar e desfrutar do paraíso e já teria abreviado o sofrimento daqueles dias desoladores. Refugiado na lembrança da felicidade perdida, o seu coração contrito era molestado pelos gritos pipilantes das gaivotas fatalistas que, esvoaçando à sua frente em voos picados, carpiam toda a Saudade do mundo num réquiem desafinado. Na sua memória amorfa pairavam ainda as cinzas frias daquela paixão transcendental que, aos dezoito anos, lhe dinamitara a resignada orfandade.
Inexplicavelmente, o seu cérebro atribulado desceu inadvertidamente ao subsolo da sua alma e, dissipando as brumas que nublavam as memórias desse ano de 1973, esboçou um tímido sorriso que lhe mistificou o olhar fúnebre. Num ápice, regadas subitamente por uma enxurrada de imagens delirantes, as ressequidas raízes daquele cérebro apático sentiram uma inexplicável vontade de viver e largar de vez a letargia onde jazia a sua vida. E, maravilhosamente encantado, o seu espírito fê-lo relembrar o Verão em que tudo mudou e mergulhar langorosamente na fonte da incomensurável felicidade...

“ Naquele último dia de aulas, 17 de Julho, uma abrasadora terça-feira, o Dr. Félix Fontoura, seu padrinho de baptismo, fora, orgulhosamente, buscá-lo de Mercedes à Escola Salesiana do Estoril para vir passar as férias grandes a Santo Amaro com ele, com a senhora Noémia, a fiel e zelosa governanta da casa, que o servia desde que a primeira mulher engravidara, e, sobretudo, com a sedutora Dina que o arquitecto, depois de uma década de resignada e triste viuvez, apenas desposara civilmente, porque o seu coração pertencia religiosamente à Alice, o grande e único amor da sua vida, a quem jurara fidelidade eterna. Obcecado, o adolescente só pensava na Dina, algures em Londres num Congresso de Jornalismo. E nunca o tempo se passou tão lentamente como naqueles três dias de desespero. Uma eternidade para quem amava e desejava tão ardentemente a sua amada! Porém, chegada a hora do encontro, neste dia 20 de Julho, sexta-feira, o seu intrépido coração apaixonado desfaleceu ingloriamente. Temendo denunciar aquela paixão proibida, o estudante preferiu ficar em casa a preparar-se mentalmente para o tão ansiado face a face, deixando o padrinho ir acolhê-la sozinho ao aeroporto. O ruído ronronante do Mercedes colheu-o de surpresa. Escondido no mesmo sítio, atrás destes cortinados de veludo, ele pôde vê-la, olhá-la, desejá-la e amá-la sem constrangimentos. Como era bela, belíssima, a Dina dos seus sonhos! É que, desde a primeira vez que a vira, quatro anos antes, em que ousara afrontar o olhar cintilante daquela frágil donzela, ele iniciara uma quimérica viagem até ao coração das retinas azuis-turquesa e nunca mais fora o mesmo, tão intrínseca era a afinidade que ambos, infelizmente, partilhavam: a orfandade!. Aqueles olhos azuis enfeitiçaram-no de tal maneira que o desejo de ser homem, para a proteger e partilhar com ela tamanha dor, se enraizara energicamente no seu coração solitário e o obrigara a amadurecer à força. Assim, embebido naquele fantasmagórico néctar, o colegial nem vira os anos passar. E já lá iam quatro!... Quatro anos de vagabundagem por um mundo de sonho, de paixão e de uma união virtual que desembocara subitamente na manhã deste sublime 20 de Julho de 1973.

Oh como rejubilou, nessa mesma tarde, quando ela lhe pediu para a acompanhar até à sede do jornal na avenida 5 de Outubro, em Lisboa. Foi então que, invadido por uma força estranha, ele se encheu de coragem e ousou confessar-lhe que ela era a dona do seu coração. E, a partir daquela hora, as labaredas da paixão nunca mais cessaram de se atear e de os consumir até à raiz. Depois do Verão, viveram 8 anos da mais inefável felicidade. Porém, como tudo na vida tem um fim, também essa indomável paixão, que eles julgavam eterna, acabou, quando menos esperavam, no fatídico 4 de Outubro de 1981 em Angola, onde a guerra fratricida parecia nunca mais acabar. Na véspera, Rui quisera festejar o trigésimo terceiro aniversário da sua amada com um jantar à luz da vela num hotel do Bailundo, onde, a pretexto de gozarem a sempre adiada lua-de-mel, a seguira para a ajudar a fazer uma reportagem sobre a condição das mulheres dos guerreiros da UNITA ― União Nacional para a Independência Total de Angola ― movimento liderado pelo carismático e autoritário Jonas Savimbi que, depois de ter combatido os colonizadores lusos até 1974, movia desde 1975, ano da constituição da República Popular de Angola, uma guerra sem quartéis à Internacional Comunista, combatendo heroicamente os agentes russos e cubanos que para aí haviam sido convidados pelo primeiro presidente da república e líder do MPLA ― Movimento Popular para a Libertação de Angola ― o marxista Agostinho Neto. Apesar da rusticidade do hotel, que lhes fizera recordar a aridez transmontana das suas origens, Rui e Dina entregaram-se loucamente um ao outro e, embalados por um bolero de Ravel, adormeceram e enamorados como da primeira vez. O arco-íris de um futuro risonho espelhava-se serenamente nas suas retinas apaixonadas, como se a felicidade contagiosa, que sentiam e ouviam palpitar dentro dos seus corações ingénuos, tivesse, num ápice, adquirido a imortalidade. Porém, no dia seguinte, a caminho do Nambuangongo, onde repousavam os restos mortais dos pais do Rui, a mira assassina de uma kalachnicov soviética abreviou irremediavelmente as palpitações maternais da directora do Diário...”

“ Ah, se eu pudesse viajar na máquina do tempo e voltar ao 25 de Setembro para a impedir de pisar essa terra maldita! Mas porque é que eu me havia de esquecer dos óculos de sol para não ver primeiro a bala desse vil bandido? Ah, não te fazia assim tão cobarde, ó Destino? Se és homem, vem bater-te comigo, seu cobarde. Ah, tens medo de mim, não é? E Tu, meu Deus, porque me levaste aqueles que mais amei? Serei eu, porventura, maldito ou será minha sina sofrer até morrer?
Oh, que fado o meu! E dizer que durante mais de cinco anos andei iludido a lutar contra aqueles que diziam que Tu és o ópio do povo e queriam banir-te para sempre de Portugal, como o haviam feito noutros tempos e noutras latitudes com outras gentes. Nunca pensei que a ingratidão fosse o apanágio dos poderosos! Mas será que a Tua tão apregoada infinita bondade também mora num coração como o nosso? Não, Tu não tens coração. Mas que vai ser agora de mim, meu Deus? Como vou criar a minha filhinha? Se Tu não domares o Destino de uma vez por todas e ele ousar beliscar um dos meus, juro-te que passarei o resto da minha vida a combater- Te e a renegar- Te pelo mundo fora, diante de quer que seja. Ó meu Deus, perdoa-me esta blasfémia! Tu bem sabes que se eu não acreditasse em Ti e na Vida Eterna não estaria para aqui cheio de remorsos. Ai que Destino o meu! ” ― monologava angustiado o inconsolável viúvo, cerrando os dentes para suster a todo o custo a vociferante ira interior, quando sentiu um puxão enérgico arrancar-lhe o luto.
― Vem, anda, a vovó Noémia... Oh!, mas porque choras, papá?!
_ Eu não estou a chorar, filha! Já não tenho lágrimas, meu amor!
_ O quê? Não estás a chorar? Pensas que eu nasci ontem, papá?
_ O que dizes, Cély?! - replicou incrédulo, pondo-se de cócoras.
― Escusas de mentir porque eu vejo muito bem que tu estás a chorar por dentro ― arguiu a filha, emproada, arregalando as órbitas azuis-turquesa.
― Com que então a menina pensa que eu choro por dentro! ― bradou o advogado, esboçando um sorriso tímido.
― Todo o mundo chora assim quando está triste e quer enganar os outros. É, a senhora doutora M. C. Galvão fazia o mesmo, quando tu, o vovô Félix e a vovó Noémia não estáveis mais comigo no hospital e ela me ia visitar ao meu quarto e ficava lá horas a falar comigo. Sabes, papá, depois da mamã, nunca vi pessoa tão carinhosa e...
― Quem é essa doutora M. C. Galvão, que eu não a conheço?!
― Se não fosse médica, eu diria que é uma princesa...
― Oh, princesa?! Agora já não há princesas como antigamente, filha! Realmente a mamã...
― Princesa de sangue azul, até pode nem ser, mas que a senhora doutora M.C. Galvão, além de muito bela, tem um coração de oiro, lá isso tem!
― Oh, quem te operou às amígdalas foi o senhor doutor Carlos Cabral, filha! ― acrescentou nervoso e incrédulo
― É verdade, paizinho, mas quem mais tempo passou comigo foi a...
― A princesa M.C. que te visitava às escondidas... Bom, vejo que ainda tens qualquer coisa para me dizer, mas, por favor, guarda-a para quando te fores deitar. Depois contar-me-ás melhor essa história da Carochinha...
― Da Carochinha?! Se pensas que é uma história da Carochinha, não te conto mais nada, ouviste, papá? ― volveu arreliada, repelindo os braços paternais.
― O que é que o Ruizinho disse à minha netinha para ela ficar assim tão zangada? ― perguntou a avozinha, afagando a menina.
― Oh, Celina tem muita imaginação!
― Pois, filho de peixe..., mas conte! ― insistiu a governanta.
― Essa caprichosa queria impingir-me mais uma das suas histórias da Carochinha! ― desabafou sisudo, franzindo a testa.
― Deixe lá, vovó, o papá não sabe o que diz! ― adiantou compassiva.
― Pois não, filhinha, pois não! Pobrezinho, desde que Deus chamou a tua mamã, o papá parece um bebé que perdeu a chupeta. Oh, desculpe, Dr. Rui, saiu-me sem querer! ― rectificou apressada, corando como um pimento.
― Infelizmente não se enganou, Sra. Noémia! ― adiantou melancólico.
― O papá é bebé! ― gritou a brincalhona, esticando a língua e fazendo uma careta para o animar.
Comovido, o advogado retirou-se, deixando as segredeiras a cochichar.
― Se comeres a sopinha toda, amanhã...
― O que é que tu me dás, vovó? ― questionou curiosa.
― É um segredo que o papá não pode saber, pois não, filhinha?
― Psch! Os muros têm ouvidos! ― sussurrou cautelosa.
Na sala de jantar, fingindo-se aéreo, o viúvo empiscou de fugida à governanta e, pousando o guardanapo nos joelhos, comeu a sopa. Impávido e mudo, quis espraiar os olhos e, dando com uma cadeira vazia, lembrou-se do grande ausente, o seu padrinho de baptismo que, muito afectado com a morte da Dina, partira numa digressão pela Terra Santa.

À beira dos sessenta, o Dr. Félix Fontoura só já exercia a arquitectura pelo prazer de dar vida aos sonhos dos outros, porque as suas ilusões há muito que as perdera. De uma integridade imaculada, o patriarca da família tinha na Cély o abençoado fruto da extraordinária e assumida paixão da ex-mulher e do afilhado que, contra tudo e contra todos, num indómito repto à moral, viera salvá-lo do fogo do Inferno interior, em que vivia desde que, contraindo segundas núpcias, quebrara o juramento de fidelidade que fizera perante Deus no altar ao grande amor da sua vida. Descobrindo a indomável paixão que unia Rui e Dina, o arquitecto divorciara-se para redimir aquele amor adúltero e, sobretudo, para se reconciliar definitivamente com a saudosa e inolvidável Alice, a única mulher da sua vida que, pensava o santo homem, desposaria novamente no Paraíso, quando, chegada a sua hora, Deus lhe concedesse a bem-aventurada imortalidade.

Cély, que, neste ano, por causa da morte mãe, não festejara as suas oito primaveras, andava toda atarefada a decorar a pasta para que a menina Ester, a sua professora da 3ª classe, sentisse ainda mais orgulho nela. Extrovertida e afável, Celina era o retrato pintado da mamã, de quem herdara os olhos azuis-turquesa e os cabelos pretos. E o pai, desolado como andava, até pensara mudar-lhe o nome para Dina, mas acabou por desistir e se conformar, dizendo que não seria mais feliz se vivesse assim tão prisioneiro do passado. Bebé ainda, quando a mamã a queria repreender, a Celina sorria, tapava a boca e balbuciava apenas Cheli. Foi então que, jogando com ela ao gato e ao rato pelas esteiras do terraço, a Dina adoptou definitivamente o diminutivo e a Celina Maria, como as avós, passou a chamar-se Cély para regozijo do papá baboso, estudante universitário, o adorável Pigmalião da célebre directora do Diário, com quem aprendera a amar, a ser homem e, sobretudo, a navegar pelos meandros da felicidade. A fidelidade física, o humor irreverente e uma dose de perversidade sexual, regados pela seiva poética, haviam cimentado de tal modo aquela simbiótica união que os seus corações, mantendo acesa a chama da paixão, só conheceram, naqueles oito anos, uma única estação: o Verão!

Apadrinhada pelos revolucionários de Abril, quando Portugal, desembaraçando-se de meio século de ditadura, escrevera a letras de ouro e sangue nas páginas da sua História a Liberdade, a palavra sine qua non da Felicidade, a Love Story deles andara nas bocas do mundo e fora o émulo de revolucionários, filósofos e políticos que, atiçados por tão belo e heróico exemplo, quebraram os tabus e os escravizastes preconceitos seculares que os impediam de serem felizes. Quantos padres, não resistindo ao fascínio das sereias de Abril, se deixaram seduzir e renunciaram corajosamente ao sacerdócio estéril em que viviam. E, fascinados pelos amantes da revolução, lhes seguiram os passos, obedecendo também à voz da paixão.

Cumprindo a promessa que fizera à esposa, que sempre quisera escrever um romance autobiográfico com o marido, mas cujas responsabilidades foram adiando irremediavelmente, Rui ia passando as horas tristes da viuvez a coleccionar as crónicas, os artigos dos jornais e as poesias, para escrever a Revolução das Memórias, quando a inspiração lhe batesse à porta. Obcecado pelas melancólicas reflexões, o poeta instalara uma escrivaninha diante da janela que dava para o pinhal, perto da mesinha de cabeceira, onde tantas vezes, depois de uma apaixonada e delirante sinfonia de amor com a Dina, a musa ciumenta lhe inspirara as crónicas com que deleitara os fidelíssimos leitores do Diário que tão bela homenagem haviam prestado à célebre jornalista, a quem, pela força do luto, da tristeza e da mórbida e inconsolável apatia em que vivia, ele não tivera tempo nem coragem de agradecer. Porém, se Deus lhe concedesse vida e coragem para o escrever, o livro ser-lhes-ia inteiramente dedicado. Porém, os dias e a mórbida nostalgia não conseguiram sublimar a tristeza que trazia no coração e, condoída, até a musa o abandonara. Nunca se sentira tão só o pobre nefelibata. Não fora a irreverente Celina retê-lo e já teria, seguramente, iniciado a última viagem...

Durante a semana que precedeu a comemoração do primeiro aniversário da morte da Dina, o Diário publicou uma biografia detalhada da sua ex-directora e uma série de depoimentos das personalidades políticas que tiveram o privilégio de sentir o fascínio daquele olhar azul-turquesa. Depois, na edição especial do fim-de-semana, foi a vez dos colegas de profissão e dos colaboradores mais directos testemunharem, numa mensagem corajosa, o que sentiam por tão sedutora mulher.
O Dr. Rui de Aguiar, também era um Fontoura, mas ele evitava usar esse apelido materno para que a notabilidade do arquitecto não pervertesse o julgamento público. Além disso, ele sempre detestara os cancros que só passavam de ano e obtinham diplomas à custa do nome do papá.
Intrigado com a história da princesa M.C, o advogado reservou a tarde de sábado para que a Cély lha contasse calmamente e, sobretudo, lhe lesse a homenagem que o Diário rendia à sua rainha.

De manhã, enquanto a filha dormia no quarto que serviu de relicário às lembranças deixadas pela madrinha Alice, lacrado durante quinze, mas que o vovô Félix mandara decorar a preceito no dia em que o pai lhe fora dizer que a Dina estava grávida, o advogado foi à florista encomendar dois ramos, um de rosas vermelhas e outro de brancas, símbolos da paixão e da candura da mulher que o seu coração mais amara. Depois, amaciando a espessa barba quinzenal, onde se reflectiam melancolicamente as cores do Outono, partiu taciturno para a Escola Primária, aguardando que o porteiro fizesse ecoar o telim que marcava o fim das aulas.
― Bom dia, Sr. Doutor! ― saudou o velhote, fazendo-lhe uma vénia.
― Bom dia, Sr. Henrique! Mais um minuto e ninguém segura a criançada! ― acrescentou empalidecido, consultando o relógio dourado.
― O senhor doutor sente-se bem, sente?! ― balbuciou o porteiro, aflito, vendo a palidez inundar o rosto do advogado.
― Muito obrigado, senhor Henrique! Estou pálido? Oh, se calhar é porque ainda estou em jejum! Descanse que não me vai dar o fanico.
― Veja lá, Sr. Doutor! Se quiser vou buscar-lhe um comprimido.
― Muito obrigado, Sr. Henrique! Vá com Deus e toque lá a sineta que as crianças devem estar em pulgas ― disse risonho.
― Sem dúvida, a estas horas os bichos carpinteiros já lhes morderam o rabistel mais de cem vezes. Com licença!
― Faça favor!
― Telim! Telim! Telim!!! ― ecoou o badalo, repicando no cobre esverdeado pelo temporal.
― Papá! Papá!! ― exclamou Cély, airosa, surgindo na porta protegida pela professora que, apercebendo o advogado pela janela, fizera pacientar a turma para lhe entregar a filha pessoalmente.
― Muito obrigado pela sua protecção, menina Ester, mas a Celina deve aprender a defender-se sozinha e a levantar-se quando cair.
― A Cély é uma sobredotada, Dr. Aguiar! ― bradou a mestra, orgulhosa, apertando-lhe timidamente a mão.
― Mas não, menina Ester, mas não! ― retorquiu o advogado, corando e beijando a filha com ternura.
― Até segunda, Cély!
― Até segunda, Sra. Professora!
― Muito obrigado, menina Ester. Adeus!
― Ora essa! Até segunda, senhor doutor! Adeus! ― balbuciou sorridente, respondendo aos acenos da aluna.
E a turma, silenciosa até ali, irrompeu num alarido que lhe fez deitar as mãos finas à cabeça e tapar os tímpanos, enquanto a criançada, numa correria desbridada, se dispersava pelo largo da calçada. Quando saía de pasta na mão, que pousou para fechar a porta e entregar a chave ao porteiro, este disse-lhe:
― O destino é bem cruel, não é, menina Ester?
― Se é, senhor Henrique!
― Um casal tão bonito, apaixonado, famoso, adorado por toda gente e...
― Pois é, senhor Henrique, infelizmente o destino parece que só marca a hora de quem tem bom coração.
― A menina Ester já leu o Diário de hoje?
― Ainda não tive tempo. Mas porquê? Aconteceu alguma tragédia?!
― Então leia e veja como as pessoas adoravam a D. Dina. Foi muito triste o que aconteceu ao doutor Rui, não foi?
― Se foi, senhor Henrique! Às vezes, como nós agora, quando penso nele, até me dá vontade de chorar! ― confessou emocionada, vendo as lágrimas irrigar as retinas do velhote.
E, enxugando as suas a um lenço de papel, retirou-se A emoção não lhes deixou dizer mais nada e um aceno breve bastou para se despedirem.
Na hora da sesta, quando punha os óculos para ler com a filha a edição especial do jornal, o advogado ouviu o telefone e acorreu lesto.
― Eu atendo, Sra. Noémia! ― disse prontamente, vendo a velhota enxugar as mãos ao avental no fundo do corredor. ― Alô?! Que saudades, padrinho!! ― exultou radiante, ao reconhecer voz do arquitecto.
― Que saudades digo eu, Rui! Está tudo bem, filho?
― Sim, eu é que não me convenço que a Dina já morreu há um ano e...
― E a Celina?
― Ah, a Cély está cada vez mais insolente e...
― E cada vez mais linda, não é?
― Pois, tem a quem sair! Olhe aqui a tem, padrinho! É o avô Félix! ― cochichou baixinho, tapando o auscultador, mal a sentiu atrás de si.
― O vovô onde está?
― Agora, estou na Terra Santa, onde nasceu o Nosso Senhor...
― O Pai do Céu?
― Sim, filhinha!
― Então vem-te embora daí que esses homens são muito maus!
― Muito maus?! Porquê?
― A catequista disse que eles mataram o Filho do Pai do Céu e, se calhar, foi por disso que Ele se vingou e levou a vovô Alice e a mamã.
― Mas não, Celina, mas não! Deus não faz mal a ninguém!
― Ai faz, vovô, ai faz! Olha, tu vem-te embora, que eu preciso que vás comigo à escola. Quando tu não vais buscar-me, a menina Ester fica muito nervosa e atrapalha-se toda.
― Atrapalha-se toda?! ― estranhou o velhote, intrigado.
― É como te digo, vovô! Ela passa a última hora a espreitar pela janela, rói as unhas e até nem parece a mesma!
― Pronto, não te aflijas que depois de amanhã...
― Que bom, papá, ― gritou radiante, cortando a fala ao peregrino ― o vovô já vem depois de amanhã!
― Cély! Por favor, passa-me o papá, Celina!! ― gritou o romeiro, aflito, vendo o telefone do hotel de Jerusalém engolir-lhe as últimas moedas.
― Alô?! Sim, padrinho.
― Segunda-feira lá estarei na missa! Um abraço. Adeus!
― Outro! Adeus e boa viagem, padrinho! ― desejou aliviado, sentindo um sorriso estranho rasgar a negridão que enredava o seu coração enlutado.
― Oh, já se foi! ― bradou Celina, desapontada, ouvindo o pipio do auscultador.
― O vovô não tinha mais moedas, filha!
― Pronto, vamos ler o jornal!
― Com certeza, meu amor.
― Escuta, eu leio, mas se é para chorares por dentro, paro, ouviste? ― advertiu séria, deitando as mãos ao Diário.
― Sossega, filha, que se eu tiver lágrimas para chorar, chorarei ― disse mimoso, sentando-a no colo.
A Sra. Noémia, que escutara a conversa na soleira da porta, exultou de alegria por saber que o amo estaria de volta para a cerimónia e, deixando-os em paz a evocar a memória da falecida, foi rezar um terço para o escano da cozinha. E, embalado pelo silêncio, o tempo sumiu-se melancólico na doce amargura daqueles peitos contristados.

Ocupando toda a primeira página do Diário, Dina sorria serena, como que a encorajá-los e a proibir-lhes o luto. Ai como era penoso mirá-la sem que as lágrimas lhes alagassem as retinas avermelhadas! Porém, enquanto a inocente lia calmamente a homenagem unânime que era rendida à mamã, apesar de não entender ainda o significado dos muitos e premeditados adjectivos usados pelos adultos, o pai corria desvairado pelos confins do infinito. Que procurava? Quem lhe petrificava o olhar? Alguém, seguramente!
Quando a noite bateu chuvosa e fria na vidraça do seu quarto, Cély embalava a boneca preferida, imitando, no tom da voz e na subtileza dos gestos, a ternura da mãezinha, a confidente dos seus sonho, a fada que tudo lhe dera com um sorriso.
― Cély, mon amour! ― bradou o pai baboso, abrindo docemente a porta entreaberta e iluminada pela a luz difusa do candeeiro cor-de-rosa.
― Entra, papá! ― gritou meiga, impondo um psch! à boneca.
― Queres que te conte uma história, filha?
― Qual? A da Gata Borralheira ou a da Branca de Neve e os Sete Anões?
― Não é nenhuma que tu saibas, meu amor.
― Quem te disse, papá? Olha que eu sei mais de mil.
― Mais de mil é impossível! Mesmo a contar-te uma por dia, a mamã...
― Isso é o que tu pensas. Sabes, papá, quando saías para os comícios com aqueles homens engravatados, a mamã mandava-me pedir-te autorização. Ainda te recordas?
― Claro que recordo, filha! E tu nunca me disseste que não, pois não?
― É exactamente por isso, papá.
― Como?! Desculpa, conta, filha, que a minha cabeça não está nada escorreita.
― Pois é, eu só te deixava sair se a mamã me contasse cinco histórias por noite, uma para cada dedo da mão. Uma para o polegar, outra o indicador, outra o anelar...
― Ai as malandras! ― bradou estupefacto, puxando-lhe carinhosamente o nariz.
― Vá, conta lá a tua história, papá! ― insistiu curiosa, agarrando-lhe os dedos macios.
― Era uma vez..., ― iniciou espalhafatoso ― uma princesa muito linda, com uns olhos azuis-turquesa e uns cabelos negros como os teus, que ficou sozinha no mundo porque os pais haviam morrido...
― Num acidente de viação ― interrompeu Cély, arregalando os olhos.
― Ah, vejo que já conheces esta história!
― Depois, ― prosseguiu a inocente, engrossando a voz para o imitar ― a princesa, que foi muito maltratada pela vida, casou com um rei viúvo muito bom que lhe deu tudo. Porém, ela nunca conseguiu tornar feliz esse rei bondoso porque ele nunca conseguiu esquecer verdadeiramente a sua primeira rainha. E, não podendo ser mãe como tanto queria, esse adorável princesa começou a ficar muito triste. Até que num dia de Verão, o rei seu marido acolheu no seu castelo um príncipe órfão, a quem queria como filho. E o Príncipe Valente, enchendo-se de coragem, roubou-lhe a princesa, quebrando o malefício. Aliviado, o rei Xiléf, assim se chamava, soube que, afinal, a rainha Ecila, o seu grande amor, não tinha morrido e o esperava no reino do Méla. Então, muito contente, rei Xiléf deu o seu castelo e todas as suas terras ao venturoso príncipe Iur, mas disse-lhe que só o deixaria desposar a princesa Anid e tomá-la por rainha se não demorasse muito tempo a ter um herdeiro. E, passados nove meses, quando nasceu a princesinha Anilec, o orgulhoso rei Xiléf deu uma festa tão grande no seu castelo que ficará para sempre na memória de todos os Oramaotnas. Aaaah!...
― Tens soninho, filha? ― perguntou o pai, vendo-a soltar um bocejo.
― Muito, papá!
― Boa noite, mon amour! Até amanhã! ― balbuciou o anjo da guarda, afagando o rosto e as sobrancelhas da inocente que, abrindo a boca, fechou suavemente os olhitos azuis-turquesa.

Apagando o candeeiro cor-de-rosa, o advogado retirou-se em pés de lã e foi deitar-se do outro lado do muro. No silêncio da noite escura, ainda tentou escrever um discurso para dizer na missa, se a memória lhe falhasse ou a voz lhe ficasse embargada na garganta, mas deixou-se embalar pela canção da chuva que, batendo levemente na vidraça, o convidou a prosseguir a história apaixonante da princesa Anid e do rei Iur. De repente, numa impassível refrega com a solidão, um raio de luz cintilou no seu coração trespassado e, iluminando-lhe o espírito atribulado, recordou-lhe aquela profecia que a ingénua princesa Anitsric lhe fizera um dia no castelo rei Ragde, pai dela, quando, no calor da noite do quarto dia de Agosto, lhe jurara que, para ser sua, esperaria a eternidade e mais um dia, se preciso fosse. Não, o príncipe Iur jamais se esquecera dela, nem tampouco da profecia, mas por fidelidade ao juramento feito, mais tarde, à princesa Anid, nunca mais ousara afrontar a ira de tão bela criatura. Inocente, Sric oferecera-lhe mesmo o maior tesouro que uma donzela jamais pode dar a um homem, mas, inexplicavelmente, Iur, depois de tanto o procurar, talvez adivinhando a sua fraqueza por Anid, contentara-se apenas em o beijar e beliscar tenuemente. E agora, passados tantos anos, em que o Destino o destroçara impiedosamente, roubando-lhe a rainha da sua alma, não se achava com o direito e muito menos a coragem de mendigar algo a que renunciara tão levianamente. Não, aquela jura pueril seria incapaz de esmorecer a crueldade do seu inimigo jurado: o Destino!

Mas como era bela e pura a princesinha Sirc e como brilhavam os seus olhos esverdeados naquele longínquo 5 de Agosto de 1973, quando a viu pela última vez! Ah, como gostaria de possuir dons divinatórios para conhecer os sentimentos da formosa Anitsric, de quem andara fugido aquele tempo todo! Agora, passados todos nove anos, continuaria ela livre e à espera que a profecia se cumprisse, ou estaria escrava de um rei tirano, porventura infeliz, e com cinco ou seis filhos nos braços? Ou, quem sabe, estaria noiva de um príncipe mais corajoso, quiçá obcecado pelos seus tesouros? Ah! Como se sentia arrependido de ter desistido tão facilmente do seu amor! Se ela lhe mandasse um sinal, por um pombo correio que fosse, e lhe dissesse que o rei Ragde e a rainha Anasus já não vetavam a união deles, partiria como um tiro e beijar-lhe-ia os pés vezes em conta, até que o rancor do seu coração se diluísse no mais pesaroso pranto. E foi enredado nesta litania saudosista que o sono lhe arrebatou a razão. Caindo nas garras da quimera, a alma purificou-lhe a inocência que, empedernida, não o deixava ver a felicidade com aquele olhar atrevido e maliciosamente puro que era o dele.

No domingo, lá em casa, foi um corre-corre impaciente. O menor ruído de motor, que parecia estancar a marcha diante da vivenda, bastava para os fazer saltar da mesa e espreitar pela janela. Impacientes, não comeram nenhuma refeição em paz. A ânsia de ver o padrinho era tal que ninguém teve fome. Mas, no fim do dia, quando, depois de telefonar para um amigo que trabalhava no aeroporto, teve a certeza que até segunda-feira à noite, não aterraria na Portela de Sacavém mais nenhum avião da El-Al, a companhia israelita, a frustração substituiu a ansiedade, pois, a ser verdade, o Dr. Félix Fontoura não chegaria a tempo para assistir à missa do primeiro aniversário do falecimento da Dina. E, por momentos, sentiu a raiva perturbá-lo e descontrolá-lo, mas depois, mais apaziguado, quando se deitou, mudou de opinião, pensando que seria melhor esquecer esse detalhe do passado e aparecer diante de todos sozinho com a Celina. Assim, lá no Céu, a Dina ficaria certamente mais orgulhosa por ver o marido e a filha lado a lado.

Segunda-feira, de manhãzinha, Rui Patrício levantou-se conformado e levou a filha à escola, mas retornou a casa muito pensativo e apressado, refugiando-se no escritório para escrever o bilhetinho que leria às pessoas, mas as palavras, aconchegadas no seu coração ardente, não quiserem saltar definitivamente para o papel gelado. Entretanto, o céu turvara-se e ameaçava antecipar o advento da noite para que a tristeza não enlutasse o rosto de quem viesse a Santo Amaro.
Depois de almoço e por que a Celina recebera dispensa, o advogado deitou-se a descansar, pedindo à Sra. Noémia para que não o chamasse por motivo nenhum. É que, até ao fim da cerimónia, só queria pensar na família e rezar.

Uma hora antes da cerimónia, o padre Ximenes passou para o reconfortar e para lhe dizer o que tencionava fazer na igreja. Entretanto, a velhota descobriu com espanto o mar de gente que se apinhava dentro e fora da matriz de Santo Amaro, mas não lhe disse nada para não o enervar, apesar do público há muito fazer parte da vida dele.
― Posso ir vestir a Celina, Ruizinho? ― perguntou nervosa.
― Por favor, vista-lhe aquele vestido branco, Sra. Noémia.
― E o menino não corta essa barba, não? Assim fica tão triste...
― Se calhar... ― balbuciou confuso, sentindo as lágrimas espreitar no canto das retinas.
Vendo a velhota partir pesarosa vestir a filha, Rui enxugou os olhos, inspirou fundo e subiu apreensivo. Estático diante da penteadeira, viu-se ao espelho e, hesitando, pegou na gilete e aparou a barba por achar que, assim, o seu rosto espelhava melhor a tristeza que lhe ia na alma. Quando vestia uma camisola cinzenta, que lhe tapava o pescoço e lhe evitava a gravata negra, símbolo de um luto demasiado artificial, viu o céu abrir-se e o Sol entrar de roldão no quarto. Depois, escolhendo no armário umas calças da mesma cor, que vestiu apressadamente, o advogado calçou uns sapatos pretos para combinar com o cinto de couro. E, penteando os cabelos, que aparados há poucos dias só lhe roçavam pelos ombros, vestiu um paletó negro que lhe cobriu os joelhos. Ainda se enchia de coragem, quando a Cély lhe veio dar corajosamente a mão. E, cerrando os dentes e ajustando o casaquinho azul celeste da filha, o advogado disse:
― Agora tenho a certeza que a mamã está muito orgulhosa por ires assim tão linda! Ela não quer mais lágrimas, mas, se chorarmos, não faz mal, está bem?
― Está bem, papá. Sabes, tu também vais muito bonito. A doutora...
― A doutora?! Disseste doutora, filha?
― Não, papá, eu disse que agora estás muito lindo ― respondeu lesta, corrigindo o lapso.
― Achas? Oh, não vou nada! ― desabafou sonso, amaciando a barba.
― Claro que vais, papá. Só é pena que a gente vai chorar e...
― Não faz mal. Olha, filha, se alguém te der os pêsames, se te beijarem, tu deves agradecer a toda a gente com um sorriso ou um beijinho.
― Não te preocupes, que eu já sou uma mulher.
― Ah, durante a missa, ficas a meu lado na tua cadeirinha e com o teu ramo de rosas brancas que está lá em baixo no vaso ― aconselhou ainda.
― Eu sei papá, eu sei! Vamos, que a Sra. Noémia está à espera ― disse impaciente, oferecendo-lhe a mãozinha.
E lá foram a pé, decididos a dominar a emoção, a olhar afectuosamente a multidão e lançar-lhe um beijo de gratidão. Pelo caminho, o Sol das cinco da tarde não parava de brilhar intensamente e a espelhar no céu todas as cores do arco-íris, obrigando o povo a fechar os guarda-chuvas e a franzir a testa. Com a fita branca a apanhar-lhe o cabelo pelos ombros, Celina parecia um anjo. A multidão silenciosa, lançando-lhes um olhar compassivo, não se cansava de lhes dizer quanto os amava. Seguindo-os a uma dezena de passos, os cabelos brancos da Sra. Noémia confundiam-se com o rasto cândido que emanava das suas sombras. Segurando bem a filhinha, o advogado lançou-lhes um aceno discreto e agradeceu mentalmente a todos.

Na entrada da Igreja Matriz de Santo Amaro, o director do Diário, ladeando o padre Ximenes, veio cumprimentá-lo e beijar a Cély que afrontava impavidamente a ternura da multidão. Depois de lançar um aceno condoído e um beijinho às pessoas, a mocinha seguiu o pai até ao altar.
No banco da frente, esforçando-se para não chorar, Rui cerrou os dentes e, abaixando-se para apanhar discretamente o lenço branco que caíra ao chão, descortinou o padrinho escondido no meio do povo, ladeado pelo Dr. Edgar Sampaio e a esposa, a quem sorriu discretamente. Ocupada a segurar o ramo, Celina não se apercebeu do sorriso angelical que o pai lhes lançou.
Antes de iniciar a cerimónia, o padre Ximenes colocou o retrato da Dina perto do vaso de flores, bem diante do altar. Aquele olhar fascinante comoveu a multidão que, pressentindo que a emoção acabaria por ser mais forte, procurou um lenço para reter as lágrimas. Foi então que a menina se adiantou e, pegando no quadro, beijou carinhosamente o rosto da mãe e lhe ofereceu as rosas. Comovido, o pai adiantou-se também e, imitando-a, beijou apaixonada e respeitosamente a testa da esposa. E a emoção contagiou irremediavelmente a assistência.

Durante mais de dois minutos, resistindo àquele cenário desolador, o padre Ximenes esperou que o silêncio curasse os mais sensíveis e só iniciou a missa quando sentiu que as pessoas estavam prontas para seguirem a santa missa.
A primeira leitura foi feita pela maior amiga da falecida, a Vera que, embora casada, continuava a nutrir pelo Rui uma sincera amizade, mesmo depois da fatalidade, enquanto o segundo trecho bíblico coube a um anónimo que respondeu ao apelo do celebrante e se fora colocar em sentido perto do microfone, esperando pacientemente pela sua vez. E ambos foram gratificados com um sorriso de gratidão pelo advogado.

Finalmente, olhando por acaso para os bancos da assistência, a Celina deu com os olhos no vovô Félix e enviou-lhe um beijinho saudoso sem, contudo, deixar de lhe mostrar discretamente um dedinho ameaçador.
Durante a homilia, o padre Ximenes, ex-colega de seminário do viúvo, depois de recordar aquele sábado, 20 de Abril de 1973, em que uniu o Rui e a Dina na igreja de Santo António do Estoril, falou-lhes do Amor e da Fé que arrasa montanhas e tantas vezes, frisou, faz os humanos parecerem-se com Deus porque, e parafraseou Pessoa, na vida tudo vale a pena se a alma não é pequena. E, falando da Esperança na Vida Eterna, foi com um encorajamento pessoal à família enlutada que concluiu a homilia.
Sentindo-o pronunciar o ita missa est, o advogado pegou na mão da filha, adiantou-se e esperou que o timorense desse a cerimónia por concluída, mas o padre recuou, dando-lhe a palavra. As pessoas, que de vez em quando tossiam para quebrar o silêncio asfixiante, suspenderam a respiração e olharam-no, preparando-se para o escutar religiosamente. Largando a mão da filha, o pai olhou a multidão e disse serenamente:
― Caros amigos, apesar da tristeza que todos sentimos há um ano e da emoção que nesta hora nos faz chorar, eu e a Celina queremos agradecer-vos do fundo do coração toda a simpatia que, ao longo destes anos todos, sempre nos testemunharam. Podem crer que a Dina está muito orgulhosa de nós todos. Que a sua memória nunca se apague nos nossos corações e possa viver eternamente connosco. Bem hajam e que Deus nos ajude ― agradeceu comovido, lançando um aceno de gratidão e segurando a filha para que ela lhes lançasse um último beijo.
Esperando que eles retomassem o lugar perto da ente querida, padre Ximenes mandou toda a gente em paz e veio abraçar calorosamente o amigo, exprimindo-lhe publicamente o mais profundo pesar. Sensibilizados, Rui e Cély agradeceram-lhe toda a dedicação dispensada ao longo daqueles meses terríveis, antes de responderam às marcas de simpatia que os mais conhecidos lhes queriam testemunhar. Os colegas da esposa estavam todos lá para o abraçar e lhe pedir que continuasse a escrever pela Dina pois só ele a conhecia verdadeiramente e aquela multidão, sem as suas crónicas, ficaria eternamente órfã. Chorando e sorrindo, ele sentiu que não tinha o direito de os abandonar, sobretudo depois de tudo o que acabava de ver e prometeu voltar um dia, quando as chagas estivessem saradas. A filha, essa, já tinha ido abraçar o vovô Félix e mirar a professora Susana e o marido com um olhar persistente. Depois, correndo feliz, foi dar a mão à vovó Noémia que, muda lá no fundo da igreja, os mirava tristonha. A professora Ester, que ainda chegara a tempo de ouvir o pai dela, beijou-lhe carinhosamente o rosto fofo, murmurando comovida:
― O teu papá cuida muito bem de ti, Cély! Mas que vestido mais chique!
― Ai a senhora também gosta? ― perguntou radiante.
― Claro, deve ter custado uma fortuna!
― Este ainda foi a mamã quem mo comprou nos Armazéns do Chiado.
― Tu recordas-te de tudo. Realmente tens boa memória, Cély!
― Não, a professora Ester é que tem. Nossa, para saber tantos livros de cor, deve ser de elefante! ― arguiu inocentemente.
― A menina tome cuidado, porque a Celina quer roubar-lhe o lugar ― ironizou reinadia, empiscando à professora.
― Seria com grande orgulho que lhe cederia a Escola de Santo Amaro, mas a Cély, na minha idade, voará muito mais alto, Sra. Noémia!
― Pois voará, mas, infelizmente, eu já não estarei cá para ver, menina!
― Ora essa, a senhora está aqui para lavar e durar!
― Sei lá! Olhe, seja o que Deus quiser, mas estas sessenta e oito primaveras, feitas no dia 13 de Maio, começam a pesar, senhora professora.
― Antes de você, partirei eu, D. Noémia ― adiantou o arquitecto.
― Ah, que bom! Afinal o Sr. Doutor também veio! ― bradou feliz.
― Olá, menina Ester! A Celina tem-se portado bem? ― questionou o peregrino, curioso, saudando a professora com um aperto de mão.
― Muito bem, Sr. Doutor, muito bem!
― Então, amanhã de manhã, lá estarei para lha entregar.
― Com certeza, Dr. Félix. Até amanhã! ― disse distraída, retirando-se apressada, depois de lançar ao Dr. Aguiar um olhar.
E, esperando que os jornalistas se retirassem, o arquitecto lançou-se nos braços do afilhado e reconfortou com umas palmadinhas nas costas.
― Senhor padre! Senhor padre Ximenes! ― chamou emocionado, acenando ao sacerdote que abandonava discretamente a igreja.
― Olá, como vai Dr. Fontoura? E a sua estada na Terra Santa?
― Óptima! Foi muito reconfortante regressar às origens da nossa Fé!
― Os caminhos de Deus são impenetráveis, Dr. Félix!
― Por favor, venha tomar qualquer coisa connosco, Dom Ximenes!
― Padre, diga padre que me faz velho! Sinceramente, Dr. Félix, se o dito Dom nunca chegar, será bem melhor.
― Pois, mas, se calhar, o dom virá mais depressa do que o senhor pensa, padre Ximenes! ― adiantou filosofal, num tom profético que fez corar o Maubere.
― Seja o que Deus quiser. Bom, então, se o senhor não se importa, eu vou esperar pelo Rui e subir com ele a calçada ― disse o sacerdote, cumprimentando os fiéis que, apresentados os pêsames ao advogado, vinham despedir-se dele.

O Dr. Edgar e a esposa, comovidos com o carinho e a solidariedade populares, preferiram partir e adiar para mais tarde o reencontro com Rui, por quem se julgavam responsáveis. É que, naquele Verão de 1973, foram eles quem proibiram à filha de o amar, por considerarem demasiado perigoso o namoro dos adolescentes, sobretudo para a Cristina que, com dezasseis anos apenas, se apaixonara loucamente pelo afilhado do doutor Félix Fontoura, o melhor amigo da família. Agora, face à crueldade do destino, eles sentiam-se culpados pelo que acontecera, mas nunca mais tiveram a coragem de lhe falar, tanto sofriam com a caturrice confrangedora da filha que, permanecendo fiel ao juramento da adolescência, deixara de ter, pura e simplesmente, uma vida sentimental, permanecendo trancada a sete chaves no seu mundo confrangedor. No fim da missa, quando a Cély os encarou com aquele olhar enigmático, o coração quase lhes caiu aos pés. Que mensagem quereria a inocente transmitir-lhes? A compaixão bem lhes implorou que lhe falassem, mas a razão barrou-lhes o propósito e eles retiraram-se cabisbaixos sem desvendar o mistério que emanava daquelas retinas inocentes.

Na vivenda, dada a demora do jantar, o Rui aproveitou para se confessar ao irmão Ximenes no jardim e lhe pedir ajuda para um problema de consciência que muito o atribulava. No fim da conversa, aliviado do pesadelo, o viúvo sentiu ganas de tudo recomeçar e, sobretudo, desafiar obstinadamente o impiedoso destino, acreditando que a sua perseverança acabaria por triunfar e a felicidade iluminaria novamente a sua vida.
À mesa, o peregrino contou-lhes como, depois do atraso do voo da El-Al, apanhara in extremis um avião da Air France em Paris e chegara a tempo de assistir àquela comovente cerimónia. E, durante quase uma hora, ninguém ousou quebrar as confidências do místico, que lhes transmitira as sensações estranhas que tivera na Terra Santa.
Por volta da meia-noite, depois de acompanhar o colega timorense até ao portão, Rui Patrício saudou o padrinho, apagou a luz do quarto da filha, que dormia agarrada à boneca e estatelou-se na cama, deixando escapar das retinas avermelhadas uma lágrima triste. E, envolto no silêncio daquela escuridão absurda, passou em revista as emoções fortes do dia que acabava de viver, recordando morbidamente a última noite, em que tivera nos seus braços fascinante Dina, a princesa Anid dos contos predilectos da filha.

De manhãzinha, a Celina acordou, fez a sua toalete sozinha e, espreitando de fugida para os espelhos diante dos quais tanto gostava de se exibir com os vestidos da mãe, abeirou-se cautelosamente da cabeceira. Sentindo o paizinho adormecido, pôs-se em bicos de pés para lhe dar um beijo na testa, mas os pêlos da barba, picando-a, desequilibraram-na e fizeram-na cair em cima dele, assustando-o.
― Cély!! ― bradou assarapantado, descobrindo a filha em combinação.
― Só queria dar-te um beijinho antes de ir para a escola, mas a tua barba assustou-me! Oh, desculpa, foi sem querer, papá! ― escusou-se aflita.
― Pronto, não faz mal, filha! Vá, toma lá um à passarinho ― disse comovido, adiantando-se meigo e esticando os lábios para o beijo.
― Hum, é bom!
― Este era o beijo preferido da mamã.
― Ai era?! Então, enquanto não cortares a barba não te mais nenhum!
― Ai a malandra! ― exclamou orgulhoso, afagando-a ternamente.
― Pois, como agora eu sou o teu mon amour...
― E quem devia ser, filha? ― respondeu distraído, fitando a vidraça.
― Escusas de me mentir que eu sei muito bem que tu tens outro mon amour! ― disse convicta, mirando-o profundamente.
― Só se for um fantasma. Tu vês algum?
― Vejo! ― afirmou peremptória.
― Onde? ― insistiu perplexo, fazendo-se sonso.
― Aqui! ― respondeu sem rodeios, cravando-lhe o indicador no coração.
― Mas não, filha, os meus únicos mon amour sempre fostes vós, tu e a mamã! ― adiantou nervoso, fixando o retrato da Dina.
― Então tu não conheces muito bem a história do rei Iur e das duas princesas ― arguiu perspicaz, sorrindo maliciosamente.
― Que princesas, filha?
― Não sejas fingido, papá! A mamã, quando me contou a lenda do rei Iur disse-me que ele se casou com a princesa Anid, com quem viveu muito feliz e a quem se manteve sempre fiel, mas que no fundo da sua alma o príncipe guardava o retrato da princesinha Sirrrc e que ela vivia muito desgostosa à espera dele no seu castelo. Coitada da princesinha! ― suspirou condoída.
― E que mais te contou a mãe?
― Que um dia... Oh, é tão triste, papá! ― bradou soluçante, agarrando-se desesperadamente ao pescoço.
― Eu estou aqui, meu amor! ― disse carinhoso.
― A mamã que te conte, papá ― balbuciou soluçante.
― Pronto, eu vou pedir ao Pai do Céu... ― cochichou emocionado.
― Vá, não fiques assim tão triste que me fazes chorar!
― Tens razão, Cély, as lágrimas só podem fazer sofrer a mamã.
― Quando eu voltar da escola, vais contar-me tudo sobre a princesinha, cujo retrato trazes no teu coração...
― Se calhar, filha, se calhar ― balbuciou distraído.
― Se calhar?! Não, papá, esse teu segredo de hoje não passa! Ouviste?
E o pai, saindo da letargia abúlica, meneou a cabeça, fazendo-a sorrir e partir radiante para a escola. Depois, aninhando-se novamente entre os lençóis, lá ficou a cismar, revivendo morbidamente aquele outro capítulo secreto, e oh! quão doloroso, da sua vida, que ele bem quisera ocultar e cujo remorso arrastara sozinho para não fazer sofrer mais ninguém. Contudo, agora, que conseguira desabafar com o Ximenes, que tinha sido absolvido pelo poder da sagrada Confissão e, sobretudo, fora curado pelo tempo, sentia que o seu coração podia voltar a palpitar e a amar como dantes...


continua em: Capítulo II

LMP, LUXEMBOURG - Fevereiro de 1997 / Lud Martinson
Traduzido para La Force du destin
e publicado em França em 2001
















NB: pode ler a primeira parte deste romance " Caprichos do Amor "
consultando este blog.

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