sábado, 12 de abril de 2008

FD * Capítulo IX



CAPÍTULO IX




Depois de tão frenética correria pelos esburacados estradões angolanos, Rui Patrício começava a respirar de alívio. Agora, que sabia a sua amada do outro lado da estrada, até a morte lhe dava coragem para iniciar a última viagem! Escondido o jeep no mato, por detrás de duas palmeiras anãs, mas frondosas, Chipenda sugeriu que o deixassem ir com o Calu, disfarçados de viajantes afadigados, ver a prosápia doas camaradas. O advogado aceitou, mas pediu-lhes que não suscitassem a curiosidade dos militares. E, fitando a secretária, cruzou os dedos, sob o olhar complacente do Jojó e do Tião, que de uniforme suado, experimentavam a lâmina dos punhais numa cana de bambu.

No motel de dois pisos, as luzes dos quartos do último andar, com vista para um descampado térreo que chegava até à estrada, acenderam-se naquele instante. Da penumbra da ramagem, Rui tentou descortinar os cabelos doirados da Cris, mas não viu nada; mal iluminado, o corredor exterior, que dava para os quartos e por onde deveria passar com a Paula, quando estivesse na pele do mulherengo belga, parecia um túnel escuro. A curiosidade arrastou-o para a berma da estrada, mas muito atento, mudo e fitando-o com os olhos esbugalhados, Jojó reteve-o, impondo-lhe calma, enquanto o Tião espiava as redondezas. Assentada no banco do jeep, Paula pintava-se para melhor se meter na pele da prostituta. Depois, ignorando a concupiscência do Tião, encolheu os calções e reajustou melhor o sutiã para avolumar os seios e saltou para o chão, empiriquitando-se toda, como a experiente call-girl que era. Impaciente, o cliente apalpou os bolsos para ver se tinha a carteira no lugar e, imaginando a prosápia do belga, foi procurar o Sony no saco para gravar a cena do resgate, mas não o encontrou. Lembrou-se, então, que o emprestara ao Chipenda.

Às onze da noite, quando eles saíram a cambalear e às gargalhadas, sorriu e deu uma palmadinha nas nádegas da meretriz, suspirando de alívio. Contornando a estrada, que desceram agarrados, até os risos se diluírem na distância, os prospectores refugiaram-se sorrateiramente na floresta, juntando-se cuidadosamente ao grupo, que os acolheu com sussurros e cochichos extremamente cautelosos.
― Os gaja estão a ficar com os copos, Rui ― gracejou Chipenda.
― Fala direito, porra! Quem está a ficar com os copos? Eles ou elas?
― Psch! Os soldados! ― murmurou baixinho.
― Viste a minha mulher? Fala logo que me enervas!
― Calma, Rui, que os cubanos são macacos. O Major Ruiz mirava muito as médica e cochichava em espanhol e inglês com os camarada. Cuidado, que os filho das puta têm Kalachnikov. Eu gravei tudo com os máquina. Ela é fixe, meu! ― sussurrou divertido, imitando maravilhosamente os colegas, devolvendo o gravador.
― Toma, mete-o na bolsa, Paula, e não esqueças: eu só falo francês, sou belga e não percebo patavina de português, excepto pinaarr, e o universal zaque-zaque, entendeste?
― Oui, Michel! ― respondeu risonha.
― Eh, tu não muda os fita dos máquina?! ― avisou Calu.
― Tens razão, é melhor mudar de cassete! ― disse nervoso, retirando a fita e substituindo-a por uma nova, que retirou do saco.
― Ei, anda devagar, não olhes para a tua mulher, porque os gajos podem enervar-se e disparar logo. Deixa a Paula falar com o porteiro, dai-lhe uns Kuanzas e subi logo para o quarto, porque é lá que os cubanos querem foder as mulheres ― alertou Chipenda.
― Ei, vejam lá o que fazem! ― murmurou atemorizado.
― Vai tranquilo que os gaja não nos mete medo, Rui! Nós já matou muito branco, preto, leão, leopardo... ― disse Jojó, apalpando o punhal.
― Nós ficar atento e mirar tudo ― acrescentou Tião.
― Que Deus nos ajude! Se as coisas correrem mal, fazei o que eu vos disse: matar só em legítima defesa. Por amor de Deus, não derramem mais sangue que esta terra já está vermelha de mais. Vá, olho fino e pé ligeiro, se for preciso! ― disse nervoso, acenando e colando-se à secretária.
Sorrindo, Paula deu-lhe a mão e, saindo para a estrada de calções e sutiã brancos e sandália preta, desembuchou descaradamente:
― Já percebi, Michel, bô só querer pinar!
― Pinaarr ?! ― questionou o belga.
― Sim, faire l’amour, meu grande burro!
― Ah oui, oui, faire l’amour, si! ― bradou deleitado, apalpando as ancas à mulata.
― Calma, primeiro bô dar a mim bôs Kwanzas..., depois pinar, mas depressa que...
― Si, ma belle ― aceitou de bom grado, puxando pela carteira.
― Este gaja é belga e só querê... Percebes, camarada? Se tu me arranjar um quarto... ― adiantou sedutora, empinando voluptuosamente os seios.
― Nós ter motel cheio, mas... ― avisou o negrão, roçando os dedos esbranquiçados e olhando para a bolsa da camarada.
― Os belga paga! O gaja é casado e mora ali nos Matadi...
― Se os belga for rápido e arranjar duzentos Kuanza, mais os quinhenta pró quarto, mim arranjar tudo e bô subir por aqui ― interferiu o porteiro, apontando as escadas em caracol.
― Eh, Michel, dá setecentos Kuanzas...
― Et avec le champagne?
― Bô perceber, camarada? ― perguntou a mulata.
― Claro, uê! O gaja quer champanhe!
― Aqui tá mil para tudo, camarada. Se bô querer marcar quarto em nome de Paula Mendes ― concluiu generosa, entregando lhe as notas e acalmando o cliente: ― Doucement, Michel!
Apenas contou os mil Kuanzas o porteiro desapareceu como um tiro, deixando-os a beijarem-se. A uns vinte metros, Chipenda e os colegas observavam estupefactos os trejeitos do Rui e da Paula. Cinco minutos depois, o belga e a mulata entravam no quarto número onze do primeiro andar, enquanto no rés-do-chão, os soldados faziam horas, encharcando-se com a garrafa de caipirinha que o Major Ruiz lhes oferecera. As médicas, apercebendo-se dos intentos do oficial, ia fingindo que bebiam e sorrindo para não se darem por achadas.


Entretanto, no primeiro andar, o advogado e a secretária simulavam um acasalamento delirante, soltando gritos e gemidos sensuais que ecoavam pelo corredor, indiferentes aos pressentidos ruídos das arrogantes botas dos soldados. Mas, intimidados com alarido, estancaram o acto copulativo.
― Abrimos la puerta, conho? ― perguntou um cubano, arrotando.
― No! Queda-te tranquilo, ombre, que esta noche la rubi... Uah!
― Atencion, camarada Ruiz! La chica es mui...
― Guapa, claro que sí, ombre! Uah! ― exclamou embriagado.
― Hasta luego, commandante!
― Hasta manãna !
E não ouviram mais nada. Aproveitando a acalmia, Paula saiu do quarto e desceu à recepção para pedir um copo de água. No regresso, tentou descobrir o quarto das portuguesas, mas em vão. Pelos arrotos a tequilla e cachaça, apercebeu-se que os cubanos ocupavam o quarto número dez. Depois de auscultar cautelosamente o nove, pareceu-lhe ouvir vozes no oitavo e bateu timidamente.
― Quem é? ― perguntou um vozeirão, ébrio.
― Desculpa, camarada! ― respondeu assustada, refugiando-se no quarto.
― Então?! ― sussurrou o patrão, nervoso.
― Até ao oitavo estão os soldados! Só se estiverem no sétimo.
― E no corredor, vê-se bem, Paula?
― Sim, dá para ver. Psch! Acalme-se que os cubanos, bêbados como estão, não tardarão a dormir.
― E se fôssemos os dois bater ao sexto e ao sétimo?
― Cuidado, que os gajos podem andar a pé! ― murmurou baixinho, abeirando-se da porta em pés de lã.
E, espreitando, saíram cautelosamente. Colando o ouvido na porta do quarto, Rui escutou cochichos femininos e bateu levemente, mas ninguém lhe respondeu. Amedrontados, os murmúrios emudeceram. Paula, fitou-o perplexa e pediu-lhe que insistisse.
― Cris! ― balbuciou timidamente.
E nada. Sustendo a respiração, o silêncio tornou-se absurdo.
― Cris, sou eu, meu amor!! ― sussurrou carinhoso, aumentando o tom.
― Pat?! ― inquiriu vacilante.
― Ó Cris! ― suspirou aliviado, forçando a mãozeira.
Abraçando-se e beijando-se desesperadamente, os noivos acenaram às companheiras e, gesticulando, pediram-se que dominassem a perplexidade. Estupefactas, elas taparam o boca com os dedos e arregalaram as órbitas. Permanecendo de atalaia diante da porta, enquanto o patrão explicava a situação à esposa, Paula não tirava os olhos inquietos do fundo do corredor.
― Atenção, não façam barulho e preparem-se para fugir para o Zaire! ― sussurrou baixinho.
― Para o Zaire? É longe? ― perguntou uma enfermeira, amedrontada.
― Não, estamos a duas léguas da fronteira...
― Vamos, que os gajos querem fazer-nos a... folha!
― A Lurdes tem razão. Os cubanos... ― cochichou a Dra. Celeste.
― Eles estão mortos por nos violar. ― sussurrou outra, tetanizada.
― Prestem atenção: lá fora estão quatro negros nossos amigos, para nos ajudarem. Depois de saírem daqui, sigam até ao fundo do corredor e desçam as escadas sem fazerem barulho e nem olhar para trás ― explicou baixinho.
― E as mochilas, Pat?
― Levem só o que fizer falta e larguem o resto. Ah, eu sou belga e só falo francês, por isso, se os soldados acordarem, faço-me bêbedo e agarro-me amorosamente à que estiver mais perto.
― Eu vou com o seu marido, Dra. Cristina! ― adiantou Teresa, medrosa.
― Psch! Cuidado! Cris, Lurdes e você, menina, peguem nos sacos e sigam a Paula. Você, Teresa, dê-me a sua mão e corra ― ordenou impaciente, espreitando cautelosamente para o corredor.
Ajuntando-se perto da porta de mochilas às costas, as mulheres respiraram fundo e preparavam-se para fugir, quando, ouvindo passos, o Rui fechou rapidamente o quarto. Um dedo nos lábios bastou para as colar ao sobrado e lhes estancou-lhes a respiração, empedernindo-as. Foi então que Paula abriu a porta e, saindo para o corredor, acendeu calmamente um cigarro. Encarando o oficial, a mulata perguntou:
― Ué! Onde vás, colega camarada?
― Saber de mi guapa! ― bradou o cubano, contorcendo-se todo e agarrando-se a ela.
― Más guapa que io, conho? Mira-me bien, ombre. Quieres dormir comigo esta noche? El mi amigo Belga já se marchou! ― cochichou voluptuosa, segurando-o até à cama.
De respiração suspensa, Cris e as colegas, aguardavam que Rui lhes fizessem sinal. Entretanto, surgindo no topo das escadas, Chipenda acenou aos colegas, que se postaram no corredor e murmurou baixinho:
― Saiam.
Sem olhar para trás, o advogado pegou na mochila da esposa e, agarrando-a pela mão, deu de olhos à Lurdes e atravessou o corredor nos bicos dos pés, descendo as escadas em caracol. As enfermeiras seguiram-nos sem pestanejar, mas a Dra. Celeste tropeçou e na Céu e, descontrolando-se, trepou ruidosamente. Ouvindo o barulho, Major Ruiz, que se deleitava com o strip-tease da mulata, quis sair da cama, mas nem chegou a ver a mocada com a Paula o pôs K.O. Pegando na bolsa e na saia, que acabava de despir sensualmente, abriu a porta e fugiu para o terreiro com os seios ao léu. Tião e Jojó ainda quiseram fazer a folha ao cubano, mas Chipenda, recordando as palavras do Rui, reteve-os, impedindo-os de sujar as catanas.
Entretanto, postado na berma da estrada em posição de fuga com as mulheres e os sacos no jeep, impaciente, o advogado nem sentiu os beijos que a noiva lhe deu por onde calhou.
No terreiro, os matulões e a Paula, que, entretanto, vestira novamente a saia, aguardavam apenas que Calu conseguisse pôr o jeep dos soldados em marcha. Vendo a iminência do contacto, Chico baixou a catana e, acenando, ordenou ao Rui que seguisse em frente, o que ele fez sem hesitar, partindo a todo o gás.

Passados dez minutos, à uma da madrugada, deste dia 27 de Abril, quarta-feira, enquanto que, no motel, os militares dormiam o primeiro sono, os jeeps atingiam a fronteira do Zaire, que os guardas lhe abriram depois de uma ligeira inspecção e duas ou três perguntas de rotina, a que o belga respondeu serenamente.
Mal chegou a Matadi, o guia turístico procurou um hotel, telefonou à Vera, a quem pediu que alertasse as autoridades de Lisboa e a Embaixada de Portugal em Kinshasa. E o grito da estridente da jornalista, ecoando na recepção do hotel, arrepiou-os e comoveu-os a todos, portugueses e angolanos.
E, largando Luanda, discou o número do solar para pôr fim ao calvário.
― Alô! Mamã?! ― balbuciou a médica, quase rouca.
― Edgar! Edgar!!! Maria! Deus seja louvado, a Cristina está viva! A Cristina está viva!!! ― explodiu o seu coração maternal.
― Mamã! Mamã!! Por favor, não chore, que nós, as mulheres, o Rui e a Paula estamos bem. Vá, não chore, mamã! Diga ao papá e ao Júlio que estamos a caminho de Kinshasa. Adeus, mil beijinhos. Olhe o Rui.
― D. Susana, telefone ao director da Vera e peça-lhe que sossegue a família da Teresa, da Céu, da Lurdes e da doutora Celeste e o Júlio que vá falar directamente com o Presidente da República. Ah, só mais uma coisa: nós precisaremos de mais dólares para darmos aos nossos amigos angolanos que estão a arriscar as suas vidas por nós. Adeus e telefone à Celina e ao marido da Vera. Sossegue-o, porque e esposa está a salvo em Luanda ― disse apressado, sorrindo e empiscando às mulheres.
― Rui!!! Obrigado, Rui! ― agradeceu o sogro, tentando salvar a ligação.
Em vão. O genro, pousando o auscultador, perguntava:
― Dormimos aqui ou continuamos até Kinshasa?
― Dormir aqui?! Nem pensar! Vamos, que os podem acordar e vir atrás de nós ― respondeu Chipenda, autoritário.
― Tião, Jojó, Calu, vamos!
― Le téléphone, c’est combien, s’il vous plait? ― questionou Rui, mirando o recepcionista.
― Cinquante dolars, monsieur.
― Voilá! Merci et au revoir. Si quelqu’un vous demande..., vous n’avez rien vu, d’accord? ― disse impaciente, contando-lhe 60 dólares.
― Si vous voulez vous laver, alley-y, monsieur! ― adiantou o garçon, apontando os lavabos.
― C’est gentil à vous, merci ― agradeceu ele, seguindo o negro até aos lavabos, onde fizeram uma rápida toalete.
A caminho de Kinshasa, os angolanos não se cansavam de mirar a caça que, alertada pelos faróis de longo alcance dos jeeps, atravessava a estrada amiúde. Aconchegadas e sonolentas, as mulheres sorriam de alívio, enquanto a directora não se cansava de beijar e acariciar amorosamente o seu herói.


Quando o dia despontou, o advogado pediu ao Chipenda que encostasse perto de um bar para espreguiçarem, sossegarem o estômago e saberem onde estavam realmente. Com o Sol a iluminar-lhe a barba, Rui Patrício, que o calor tórrido daquelas duas jornadas de ensolarada perseguição havia bronzeado, virou-se para o taxista, que se divertia com os colegas, comentando como o doutor a falava francês e apalpava as ancas da mulata, e disse orgulhoso:
― Eh, Chico, agora já sou dos vossos!
― Ué! Preto como nós?! Só se for nos cabeça do cima...
― Porque a de baixo é branca ― adiantou a secretária, maliciosa, empiscando ao chéri que corou mal deu com os olhos na sua lourinha.
― Mas que história é essa, Paula? ― volveu a médica, enciumadíssima.
― Simples dedução, Dra. Cristina! Eu e o Michel não chegamos a...
― Michel?! Vocês estão a esconder-me... Bom, não se aproveite da minha magnanimidade! E tu, meu malandro, ganha juizinho e agora não penses que estou disposta a satisfazer todos os caprichos do meu herói ― disse ameaçadora, empiscando aos angolanos.
― Nos Portugal a tua mulher vai ajustar os conta! ― comentou Jojó.
― Ui! Ciumenta como é, ainda me... abaixo, perceberam? ― acrescentou divertido, colando dois dedos em jeito de tesoura na cintura.
― A Sra. Doutora não seria capaz de capar o seu homem, pois não? ― perguntou Chipenda, respeitosamente, mirando a madeixa alourada que ela, por causa do sol, apanhara e cobrira com um boné.
― Ainda duvida, Chico? O menino já vos contou que me largou com dezasseis anos e fez me esperar por ele até aos vinte e cinco?
― Não, o gajo, desculpa, o seu homem não conta nada, só sabe dizer: prego a fundo! Prego a fundo, Chico! Eu mato os gajos, eu mato esses filhos da puta! Esses cabrões! Prego a fundo, porra! ― repetiu o taxista, imitando o português.
― Mesmo? Eras mesmo capaz de matar alguém por mim, meu amor?
― Porventura, as meninas não acham que a Sra. Directora, além de ingrata, está a ofender a minha loucura?
― Realmente a Sra. Directora é bem forreta! Então nem um beijinho...
― Também tu, Teresa?! Ei, vocês, seus malandrins, virem-se para o lado! ― ordenou a médica, beijando furiosamente o marido na boca.
Os matulões, fingindo não ver, empiscavam à Paula com ar de gozo.
Depois de ingurgitar um galão morno e comerem uns bolos, os fugitivos montaram novamente nos jeeps, efectuando nas calmas os últimos quarenta quilómetros que os separavam de Kinshasa. Enquanto Rui e as mulheres conversavam sobre as peripécias e o angustiante silêncio contra relógio dos últimos três dias, pelas planícies e os planaltos do Nzeto, os negros, fascinados pela beleza da mulata, não se cansavam de lhe fazer perguntas sobre Portugal e de a traquinar com a sua verdadeira relação com o patrão.

Entretanto, alertada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, a Embaixada de Portugal abrira as suas portas de madrugada e o corpo diplomático aguardava ansiosamente diante das grades. Eram precisamente dez e dez, quando, escoltados por dois polícias motorizados, a quem pediram ajuda, os heróis foram acolhidos com uma estrondosa salva de palmas, que deixou de boca aberta a vizinhança da representação lusitana. Sensibilizadas com o cravo vermelho, símbolo do sangue não derramado, que lhes foi oferecido, as senhoras não conseguiram evitar as lágrimas. Os funcionários descarregaram as mochilas dos fugitivos e conduziram-nos ao segundo andar, normalmente reservado aos ministros e personalidades da república, aquando das suas visitas por aquelas paragens. Por falta de espaço, os angolanos, acompanhados pelo contabilista da embaixada, foram alojados no hotel mais próximo, recebendo cada um alguns Zaires para comprar roupa e beber uns copos.

Depois de um banho bem quente, os noivos deitaram-se e, saciada a libido ululante, adormeceram abraçados. Paula, que conquistara a simpatia das portuguesas com a sua irreverente e contagiosa bonomia, preferiu ficar no das novatas, a quem contou a sua aventura com o patrão.
Às seis da tarde, Sua Excelência o Sr. Dr. Crisóstomo de Almeida, o embaixador, convidou-os para um lanche no salão nobre da residência diplomática, pedindo à Dra. Cristina Galvão que lhe falasse dos incidentes da missão, mas a directora preferiu que fosse a Dra. Celeste, a pediatra, a contar-lhe tais anomalias. Por sua vez, o advogado, que o diplomata conhecia dos anos da revolução e, sobretudo, da tragédia do Bailundo, recordou esse funesto dia 4 de Outubro de 1981, em que vira a sua Dina morrer-lhe nos braços, confessou o medo que tivera, quando, domingo de manhã, ouvira aquele inconsciente S.O.S da noiva e como decidira partir na hora com a Paula e a Vera, que ficara em Luanda. Atentos ao comovente monólogo, ninguém se atreveu a tilintar um garfo ou mexer na comida, como se os olhos mórbidos do viúvo lhes impusessem um segundo luto. Foi então que o trrim providencial do telefone interrompeu a triste narração.
― Desculpem, é para si, Dr. Rui de Aguiar ― avisou a criada.
― Com licença!
― Esteja à vontade! ― respondeu o embaixador.
― Ei, vocês comam que eu não volto tão depressa.
― Deixem-se de cerimónias, meninos! ― insistiu a médica, empiscando aos angolanos e seguindo as pegadas do marido.
― Nós come tudo! ― gracejou Chipenda.
― Não come, não, Chico! ― disse a médica.
Enquanto os noivos falavam no salão, os mocetões, sobretudo, lá iam matando a fome. Dez minutos depois, a directora surgiu radiante.
― Sábado, se Deus quiser, já poderemos dar um chi-coração aos nossos filhotes! ― exclamou emocionada.
― É, o mais tardar sexta-feira à noite, um C-130 da Força Aérea pousará em Kinshasa, antes de ir a Luanda buscar os homens. Deus queira que o Fagundes não se vingue neles!
― Duvido! Agora, o governo angola está entre a espada e a parede! ― acrescentou embaixador.
― Obviamente, mas com os fanáticos tudo é possível.
― Posso saber quem lhes deu a feliz novidade, Dr. Rui?
― O Sr. Brigadeiro Júlio Galvão Sampaio, irmão da Cris, Excelência! ― respondeu o advogado, apertando a mão à médica.
Apalpando o regaço, a directora adiantou solenemente:
― Seria com muito orgulho que, no mês de Maio, em data ainda a fixar, os veríamos a todos, Sr. Embaixador, colegas e a vós, nossos heróis, no nosso casamento. O Rui e eu ficaríamos muito orgulhosos, se partilhassem connosco esse momento de felicidade!
― Não rias, Chico! Digam lá, Tião, Calu e Jojó, vocês vão ou não?
― Se os doutor pagar as viagem e as cachupa, nós ir ver o Bairro Alto e o Madragoa ― respondeu Calu, consultando o Chipenda.
― Quem convida paga! ― assegurou o noivo.
― Então vamos! ― garantiu o taxista.
― E o senhor embaixador? ― questionou a médica.
― Com muito prazer e muito orgulho, Dra. Cristina!
― Convosco nem é preciso falar mais nada.
― Claro que não, Ra. Directora ― confirmou a pediatra.
― Paula não se atreva a estragar-me o dia, ouviu?
― Ah! Pense bem, patrão, olhe que a russinha ainda está com dúvidas!
― Então que as tire antes de subir ao altar!
― Eu, Sr. Embaixador, ― volveu a secretária ― fui a primeira convidada para o enforcamento do patrão, mias precisamente no dia 3 de Novembro, quando esta bicha, oh! Perdão, Sra. Directora!
― A Paula tem razão: naquele dia eu estava pior uma fera!
E, inevitavelmente, lá teve que lhes contar a história do Morris. Entusiasmados, os angolanos imaginavam-se as estrelas do filme do Cavaleiro Branco que, perseguido implacavelmente pelo destino desde a mais tenra idade, se julgava invulnerável a todo, menos ao amor absoluto das duas mulheres que amara loucamente e por quem arriscara a vida.
À noite, depois de uma conversa demorada com os noivos, Chipenda, Calu, Jojó e Tião, decidiram ir descansar mais cedo, pois tencionavam sair de madrugada, retornando a Luanda com uma carta para o Xaquim e a Filomena e mil e quinhentos dólares que, divididos pelos quatro, lhes permitiriam alimentar as suas famílias durante quase meio ano. No portão, Rui e Cris, pediram-lhes que devolvessem o jeep roubado aos soldados e desejaram-lhes boa viagem. O abraço da despedida foi deveras comovente. Emocionado, o advogado disse:
― Deus colocou no meu caminho um homem generoso e bom, Chico! E a prova foi que vós arriscastes a vossa vida por mim. Sabei que, apesar dos meus pais e a Dina terem morrido aqui, eu levo e terei Angola no coração para sempre. Contem comigo e nunca se esqueçam que em Portugal haverá sempre alguém para vos ajudar! Vá, beijai lá a lourinha..., mas não comam!
― Posso beijar a mão dos doutora? ― perguntou Calu, nervoso.
― O Rui só autorizou o rosto, não ouviste? Vá, ganhai juizinho e pirai-vos, senão ainda me fazeis estragar a maquilhagem! ― acrescentou a médica, beijando-lhes as faces que eles lhe estendiam timidamente.
― Mais uma vez, muito obrigado e que Deus vos proteja. Vá, pirem-se, seus pilantras, que senão ainda vou convosco. Calu, Tião, Jojó, Chico, até sempre, boa viagem! Ei, nunca deixem de acreditar em Angola que a paz há-de voltar um dia! ― declarou convicto, abraçando-os entusiasticamente.
― Muito obrigada! ― gritaram as mulheres, acenando da varanda.
― Diz aos português que os preto já tem Saudade dos branco! ― bradou Chipenda, lançando beijos a toda a gente.
― Adeus! Adeus e bem hajam! ― agradeceu o embaixador.
Os angolanos montaram nos jeeps e arrancaram cabisbaixos, escondendo a emoção que sentiam naquela hora. Nessa noite, depois de tranquilizarem as suas famílias, elas reuniram-se no quarto das solteiras para desabafarem à vontade. Prolongando as confidências até alta madrugada, recordaram longamente os bons e os maus momentos do atribulado périplo humanitário, enquanto os noivos se entregavam de corpo e alma.

Na quinta-feira, Dr. Crisóstomo de Almeida dispôs-se a acompanhá-las num passeio pela capital zairense, mas, traumatizadas, elas preferiram passar o dia nos jardins da residência para eliminar das suas almas a revolta e o medo que o olhar cínico e paranóico do nojento Fagundes lhes suscitava. A directora realçou-lhes o lado positivo da aventura e animou-as, dizendo-lhes que, se cada ser humano, em toda a sua vida, tem menos de dez por cento de coisas más, elas deviam dar graças a Deus por terem saído incólumes da tormenta e olhar o futuro com confiança e optimismo, pois só já lhes restavam as boas.
Entrementes, Rui contactara a jornalista, que, trancada no primeiro andar do botequim, lhe anunciou a chegada iminente do Sr. Joaquim. Pouco depois surgiu a secretária da embaixada com quatro faxes com os recortes do Diário e um desenho com esta mensagem da Celina: “ Cuidado! Por favor, não machuquem o Artur, seus malandros! Mil beijinhos! CÉLY! ”
À medida que os faxes passavam de mão em mão, elas não resistiram à emoção, corando de vergonha e chorando de emoção pelo heroísmo que a Vera lhes atribuía, porque, não podendo ajudar os necessitados, como desejavam, a missão fracassara redondamente.

Enquanto elas analisavam e comentavam os artigos do Diário, Rui, que escutava a cassete gravada pelos espiões, ia escrevendo e sorrindo. Intrigada, Cris ainda pensou questioná-lo, mas acabou por desistir, preferindo ouvir os comentários das colegas. Estranhando a ausência da Paula, sempre tão ávida de protagonismo, olhou à sua volta e deu com ela a fumar debruçada na varanda, derreada e de calcinhas à mostra. Enciumada pela pose da descarada, a médica começou a desconfiar da fidelidade do noivo. Estática, pensou em mil e uma questões, mas a nenhuma o seu coração ousou dar crédito e a suspeição acabou por se refugiar envergonhada no subconsciente, para amadurecer e ressurgir em hora mais apropriada. Lendo a inquietação das retinas da sua amada, Rui veio de mansinho acariciar-lhe o ventre e cochichou-lhe ao ouvido:
― O pesadelo já acabou!
― Juras que não chegaste mesmo a fazer nada com ela? ― insinuou nervosa, mirando as coxas da mulata.
― Por favor, não me fites assim com esses olhos de queixume! Sinceramente, não sei onde vais buscar tanto ciúme, Cris! Abre os olhos de uma vez por todas, meu amor! Não vês que só tu é que consegues atear as labaredas do lume que arde dentro de mim? Vá, não o faças esmorecer!
― Por favor...
― Será assim tão difícil fazer o meu diagnóstico? A senhora doutora ainda não viu que quanto mais belas e sedutoras são as mulheres que me rodeiam mais eu penso em si e mais desejo sinto de a amar? ― confessou enamorado, segurando-lhe o rosto entre as palmas das mãos para a hipnotizar melhor.
― Ai os teus olhos castanhos, Pat!...
― E o que vê a menina nos meus olhos castanhos?
― Bom, a canção diz que os olhos castanhos têm encantos tamanhos e são raios de luz...
― E os teus, Cris, verdes de queixume, são as labaredas do lume que me seduz...
― Eu sei que o meu ciúme pode parecer uma cruz, mas eu não suporto a ideia de te partilhar...
― Nem eu!
― Sou muito egoísta, não sou?!
― Egoísta não direi, mas insegura...
― É, este conto de fadas é tão bonito que por vezes duvido que seja real.
― Ah! Se preferires, eu posso fingir e...
― Psch! ― cochichou atemorizada.
― Eu já me vou deitar, Sra. Directora! Boa noite! ― disse uma enfermeira, aproximando-se a bocejar sonolenta.
― Espera, eu vou contigo, Lurdes!
― Boa noite, Dr. Rui!
― Boa noite e tenha muitos sonhos cor-de-rosa, menina.
― Obrigada, igualmente!
― Eu não demoro! ― disse a médica, empiscando ao marido.
Pouco depois, Cris, desatando a madeixa dourada, entrou, trancou a porta e começou a despir-se lentamente. Saltando da cama, Pat agarrou-se a ela e, mordiscando-lhe as orelhas, deixou-se escorregar por ela abaixo, beijando-lhe langorosamente os seios e o ventre. Ajoelhado aos seus pés, encostou-lhe o ouvido na zona púbica para escutar o coração do seu herdeiro.
― O Artur ainda é muito pequenino. Dá tempo ao tempo, meu amor!
― Ai o tempo, Cris! ― lamentou sisudo, beijando-lhe a púbis luzidia.
E o amor voltou, como dantes, delirante, guiando-os pelas miríficas e sinuosas margens de um prazer incandescente que lhes consumiu loucamente as entranhas e lhes abrasou a cabeça pela noite fora. As labaredas da paixão, atiçadas pela saudade e pela eterna gratidão, não tiveram a coragem de se extinguir com o primeiro vaivém sem retorno que fez o intrépido cupido morrer de prazer. Extenuados e alagados de suor, os seus corpos preferiram colar-se assim no sono e dormir caprichosamente, esquecendo de vez tortura daquelas horas desesperadas.

Continua em Capítulo X




















LMP - LUXEMBURGO, FEVEREIRO DE 1997
LUD
MacMartinson

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