Lady

sábado, 12 de abril de 2008

FD * Capítulo XI



CAPÍTULO XI



Apenas entrou no espaço aéreo nacional, o C-130 foi acolhido por uma esquadrilha de F-15 da base aérea de Monsanto que o acompanhou até ao início da manobra de aterragem, quando o sol desnudava as sete colinas da cidade de Ulisses e aureolava o Cristo Rei de Almada que, do outro lado do Tejo, lhes abria serenamente os braços.
Na sala de desembarque do aeroporto, armados de câmaras de filmar e fotografar e dezenas de micros, apinhando-se e acotovelando-se uns aos outros, numa algazarra infernal, os jornalistas esperavam impacientemente que os reféns descessem para lhes arrancarem as confidências sensacionalistas.
Avistando ao longe o Sr. Sérgio Afonso, director de gabinete do Ministro da Saúde do governo demissionário, Rui Patrício, que se apercebera da balbúrdia, lá do interior do autocarro, pediu ao condutor que se mantivesse afastado e não abrisse as portas enquanto ele não voltasse. E, correndo ao encontro do amigo, abraçou-o. Depois, pedindo-lhe que o acompanhasse, apresentou-o à delegação com um rasgado elogio que muito sensibilizou o funcionário.

Entretanto, o condutor do autocarro anunciou-lhes a presença, no salão V.I.P do aeroporto, de Sua Excelência o Sr. Presidente da República e pôs o veículo em marcha, fazendo menção de se dirigir para lá, mas o advogado reteve-o, ordenando furioso:
― Pare! Pare, porque em primeiro lugar estão os nossos filhos, a nossa família e os amigos, a quem fizemos sofrer.
E a comitiva, profundamente sensibilizada, irrompeu numa salva de palmas, deificando-o. Rui, franzindo a testa, pediu-lhes que parassem e informou:
― Lá dentro, há uma corja de jornalistas prontos a tudo para vos estripar mil e uma confidências.
― Eu vou lá falar com eles ― prontificou-se o funcionário.
― Obrigado! Sr. Sérgio Afonso, por favor diga a esses tubarões que, enquanto não abraçarmos as nossas famílias não faremos qualquer declaração, porque reservámos a primazia para o Sr. Presidente da República e para o Diário, que foi o único jornal que nunca nos abandonou.
― E se marcássemos uma conferência de imprensa para amanhã? ― sugeriu a directora, vendo-os excitados e nervosos.
― É, livre-nos desses abutres, Dr. Rui! ― apoiou a Dra. Celeste.
― Talvez seja melhor irmos para casa e passar este sábado em paz ― opinou um enfermeiro, dando brado aos cochichos dos colegas.
― Se quiserem, podemos marcá-la para o 1º de Maio à tarde! ― adiantou o advogado.
― É, quanto mais tempo tivermos para descansar, pensar e tirarmos as ilações desta experiência melhor será ― apoiou a directora, interpretando o estado de alma dos colegas e apoiando a sugestão do marido.
― A senhora directora tem razão ― concordou um senhor de bigode.
― A Vera que diz? ― volveu o representante do Ministério da Saúde.
― Eu, por uma questão respeito da pessoa humana e de ética profissional, prefiro abster-me ― acrescentou a jornalista.
― Realmente, é melhor irmos escutar os conselhos do travesseiro! Por favor, guardem mais uns minutos que eu não demoro ― disse o Sr. Afonso, retirando-se e correndo apressado na direcção da sala de desembarque.
Por detrás da vidraça, os familiares e amigos não paravam de gesticular e de lhes enviar beijinhos e desabafos que nem chegavam a ultrapassar os vidros espessos e a ecoar, tão bafejados que eram pela multidão curiosa.
Após quatro minutos de impaciência, o autocarro abriu-lhes, finalmente, as portas. Livres, correram a abraçar e beijar quem os procurava. Celina e a pequenada, quebrando a quietude dos adultos, esgueiraram-se e lançaram-se desesperadamente nos braços dos heróis, cobrindo-os de beijos.
Entretanto, furtando-se àquela contagiosa felicidade, o assessor do traidor Fagundes esgueirara-se e desaparecera sorrateiramente por entre a multidão, esquivando-se ao opróbrio geral e às reprimendas que o Chefe do Estado, a quem traíra por conivência, lhe reservava.

Impaciente, o Presidente da República esqueceu o protocolo e veio saudá-los à sala de desembarque, misturando-se com o povo que, apinhado atrás dos cordões e empoleirado no que calhava, aplaudia veementemente os seus heróis. Procurando o intrépido advogado, o General esqueceu aquela postura rectilínea militar, que tanto o caracterizava e o fazia passar por um insensível, e, curvando-se respeitosamente, abraçou-o e disse-lhe:
― No Verão de 1974, milhares de compatriotas nossos vibraram com a sua Love Story com a Dina e quase esqueceram o Romeu da Revolução, mas hoje, Dr. Rui Patrício de Aguiar Fontoura, o país sabe que, afinal, mesmo depois da tragédia lhe ter batido à porta e lhe roubar que mais amava, a força do Amor, que é infinita e move montanhas, continua viva no seu coração. Parabéns, muitas felicidades e, sobretudo, muito obrigado pela lição de coragem que nos deu. Portugal ficar-lhe-á eternamente grato.
― O Sr. Presidente sabe, melhor que ninguém, que a satisfação do dever cumprido é a melhor das recompensas.
― Sem dúvida, Dr. Aguiar!
― Porém no meu caso, o dever tem um nome: Cris, a mulher que merece esta e mil uma loucuras! Cris! Por favor, Cris!!! ― chamou orgulhoso, arrancando dos braços maternais.
― Desculpe cumprimentá-lo neste estado lastimável, Sr. Presidente! ― disse a médica, enxugando as lágrimas a um lenço de papel, que a Celina lhe meteu discretamente entre os dedos.
― Os seus olhos serão cada vez mais a esperança, não só dos seus doentes, mas da nossa gente, menina! Vá, por favor, não fique assim corada, Sra. Directora, porque se alguém devia envergonhar-se neste dia, era eu, o primeiro e único responsável pela cobardia daquele desgraçado. Aceite, pois, as minhas desculpas mais sinceras e acredite que essa cobardia não ficará impune ― garantiu o general, beijando respeitosamente a mão da médica.
― As suas palavras só enobrecem e engrandecem o Homem e o Chefe de Estado exemplar, que todos descobrimos quando o comunismo se quis apropriar de Portugal. Quanto ao Dr. Fagundes o Sr. Presidente não deve sentir-se responsável por ele, porque, infelizmente, não tem o condão de ler ou adivinhar os pensamentos, não é verdade?
― Como diz, infelizmente não, Sra. Directora, mas bem gostaria de o ter! Aqui entre nós, não terá, porventura, o seu noivo esse condão? ― questionou baixinho, sorridente.
― Agora, não tenho a menor dúvida, Sr. Presidente: obviamente que o tem! ― garantiu peremptória.
― Mas que menina tão bonita, Dr. Rui! Tu tens os olhos e a boca da tua mamã, que era uma mulher fascinante. Aliás, para desencantar e se rodear de tais princesas, o teu papá é, seguramente, o herdeiro da lâmpada de Aladino. Desculpa, como te chamas ― perguntou o general, beijando-a, carinhosamente no rosto.
― Celina, Senhor Presidente!
― Tu gostas muito do teu papá, gostas?
― Mas que pergunta?! Claro que eu adoro o meu papá!
― Pronto, era só isso que eu queria saber. Obrigado, Celina!
― Hum! Só isso, Sr. Presidente? ― gracejou maliciosa, mirando-o obstinadamente.
― Sra. Directora, Dr. Rui, desculpem, mas estou a ver que a Celina, além de ser bela e irreverente como a Dina, também tem o condão e a coragem do pai. Muito bem, Celina, com todas essas qualidades e esta frontalidade, estás condenada a fascinar, como a tua mamã, quem se atrever a perder-se nestes teus olhos ― profetizou o Chefe de Estado, afagando-lhe o rosto.
― E eu que o diga, Sr. Presidente ― ironizou o pai, baboso, acenando.
― Dr. Rui! ― gritou o general, retendo-o.
― Sim, Sr. Presidente!
― Agradecia que fizesse o favor de me acompanhar com a sua esposa e me apresentasse os seus colegas de ventura.
― Com muito prazer, Sr. Presidente! ― anuiu prontamente, sorrindo e apertando a mão às pessoas que o interpelavam.
No meio da multidão, Rui Patrício descortinou o sorriso orgulhoso do padre Ximenes e, abrindo uma passagem, foi abraçá-lo fraternalmente.
― Vá, um herói não cora nem chora, meu irmão! ― bradou o Salesiano.
― Talvez...
― Assim, mais bronzeado, já passas melhor por meu irmão. Valentes férias, sim senhor! ― ironizou o sacerdote.
― Pois, mas só o bronzeado de Timor é eficaz contra a timidez, Carlos! Senão repara: tu, que falas que te fartas, nunca ficas corado e é também por isso mesmo que aqueles desgraçados indonésios não se envergonham das barbaridades que cometem, porém eles que se cuidem porque quem semeia ventos, colhe tempestades, não é, Belo guerreiro!
― Sei lá, Rui, sei lá! ― desabafou o timorense, resignado e triste, como se ninguém pudesse mudar o destino do seu povo mártir.
― Só um Homem que ame Timor de verdade e que esteja disposto a sacrificar-se pela sua felicidade, poderá lutar contra a fatalidade e vencer a irracionalidade do destino e acabar com a barbaridade desse cretino que é o Shuarto! Antes de domingo, eu sabia que podia dar a vida por uma mulher, e quando vi que a podia perder, senti que era meu dever partir, pois há muito que descobri que quando a certeza vem, nada mais detém o coração de um homem apaixonado.
― Nestes dias tenho pensado muito em ti e, confesso-te, que também senti essa certeza. O tempo e a distância poderá separar-nos fisicamente, mas jamais espiritualmente. Depois do teu casamento, regressarei definitivamente a Timor. Como dizes e muito bem, Rui, é lá que tenho ajustar as contas com o meu destino e descobrir o meu verdadeiro desígnio.
― Definitivamente, Carlos?!
― Pelo menos até que a Liberdade e a Felicidade, a que o meu povo sofredor tem direito, assente arraiais naqueles corações e purifique, se puder, as águas ensanguentadas das nossas fontes, dos nossos rios, das nossas montanhas e, sobretudo, das lágrimas de crocodilo que os poderosos da humanidade deitam por nós. ― revelou revoltado.
― Não os sabia tão amigos, Sr. Padre Ximenes! ― exclamou o General.
― Tão irmãos, Sr. Presidente! ― rectificou o eclesiástico.
― Nem que nos leve o resto da nossa história, mas a cobardia de 1975 alguém terá que a lavar e a pagar um dia, porque senão o martírio de Timor pesará eternamente na nossa consciência colectiva e jamais o nosso povo poderá ser verdadeiramente feliz, sabendo que, um punhado de cobardes, e eu terei sido um deles, não soube escutar e obedecer à voz da sua consciência e de agir como era seu dever.
― Deus o ouça, Sr. Presidente ― disse o timorense.
― Há-de ouvir! ― repetiu o general, despedindo-se confiante.
Entretanto, o povo saíra para a rua e dispersara-se. De retorno a casa, Paula seguiu no Mercedes do arquitecto com o patrão e a noiva, enquanto a Celina, a Sílvia e D. Elvira enchiam o BMW turbo diesel que se dirigiu para o solar, onde se reuniriam todos, por volta da uma da tarde, com a Vera e o director do Diário e suas famílias, para festejarem o regresso à Pátria Mãe.




Depois de passar pela Brandôa, os noivos desceram em Santo Amaro, onde, depois de abraçaram a Sra. Noémia e tomarem um banho regenerador, tiraram um cochilo entre cheios de rosas brancas e vermelhas, que o padrinho comprara na véspera e pusera coma Celina no quarto.

Exaustos, Pat e Cris deitaram-se e, agarrando-se amorosamente um ao outro, caíram num sono profundo.
À meia hora, o arquitecto mandou a governanta acordá-los, para não chegarem todos atrasados à recepção, como o amigo lhe pedira, visto precisar da velhota para ajudar a Maria e a Ana a servirem os convidados.
Entretanto, não faltando ao combinado, Paula, que viera de comboio até Santo Amaro, surgia toda catita diante da vivenda. Vendo-a tão airosa, o velhote foi recebê-la e, instalando-a na sala de visitas, pediu-lhe que esperasse pelos noivo.
― Vais tão triste, filho! ― observou o arquitecto, decepcionado.
― Oh! Nem sei o que vestir, padrinho!
― Veste as calças de um fato e põe uma camisa de manga curta para se ver esse bronzeado heróico, filho.
― O senhor sabe como detesto a lisonja! Eu não tenho nada de herói, padrinho! Bom... e a Paula? ― inquiriu impaciente, virando as costas.
― A Paula está na sala de visitas! Vá, despacha-te, filho!
Entretanto, chamando a secretária do afilhado e a governanta, o arquitecto foi ligar o Mercedes e, fazendo marcha atrás, estacionou sobre a calçada. Mal os noivos pisaram no jardim, o mar sussurrante, em alterosa maré-cheia, quis galgar as falésias para lhes beijar os pés; as gaivotas, mais pipilantes do que nunca, esvoaçaram em bando, como a convidá-los para um passeio pelo infinito.
Até ao Monte Estoril praticamente ninguém falou: os velhotes, ainda traumatizados com as notícias dos últimos dias e o calvário da incerteza, olhavam-se mudos e sorriam, enquanto que Rui, mais pensativo, servia de travesseiro à secretária, que procurava acabar o sono no ombro do patrão embalada pelo balanceamento do carro; Cris, essa, fingia dormir, espiando os trejeitos sonolentos da mulata. Em mias de vinte e cinco anos, era a primeira vez que a governanta ocupava o banco da frente ao lado do amo.

No solar, os convidados tomavam o aperitivo e deambulavam pelo jardim, conversando e espiando os portões. Inquieta, Celina, mal ouviu o ronronar do velho Mercedes, acorreu lesta a dar a mão ao papá e à Cris que, arvorando um conjunto róseo, sobre o qual descaía a madeixa dourada, e usando as suas jóias preferidas, o medalhão da profecia ao pescoço e uma pulseira rendilhada no pulso esquerdo, nem precisava do brilho dos olhos para ofuscar o Sol.
Depois de saudarem toda a gente e beijaram carinhosamente os filhos da Vera, cujo contributo fora determinante para o sucesso da cavalgada fantástica por terras de África, Pat e Cris pegaram num copo de champanhe e, brindando ao amor e à amizade, agradeceram-lhes o apoio recebido, sem se esquecerem os angolanos e muito particularmente o Sr. Xaquim, que, capturado e feito refém do MPLA, fora dado como morto e enterrado algures em Trás-os-Montes, acabara por sucumbir ao charme da Filomena, e de Angola, onde decidira viver eternamente.
Guardando os detalhes para o Diário e para os tribunais, caso movesse um processo-crime ao traidor comunista, Rui Patrício, para dissipar definitivamente as sequelas dramáticas dos corações amigos, pediu-lhes silêncio e fê-los escutar o diálogo de um certo Michel Lecornu, cooperante belga, com uma meretriz angolana, avisando-os que qualquer similitude com a realidade ou com personagens conhecidos, seria pura coincidência ou mera alucinação das suas imaginações alucinadas.

Três minutos depois, quando em pleno drama, parou o gravador, a assistência soltou um oh! tão frustrante que ele, vendo-os curiosamente mudos, lhes fez a vontade e deixou a fita ir até ao prelúdio do coito artificial, para não induzir ninguém em pecado ou traumatizar os inocentes, incapazes de diferenciar o virtual do real e, sobretudo, não se divorciar antes de casar.
Depois de uma salva de aplausos, especialmente dirigidos à Paula e ao Rui, a professora Susana, virando-se para o marido, observou irónica:
― Desculpa, querido, mas acho que vais ter que desembolsar umas lecas para que o professor Lecornu me dê umas lições especiais de actualização prática do meu francês, que está realmente muito académico.
― Lamento muito, mas chega tarde de mais: eu já celebrei com o Michel um contrato de exclusividade vitalícia para todos cursos possíveis e imaginários... ― interferiu a cativa, agarrando-se ao cooperante.
― C’est vrai? M’as-tu fait ça, Michel? ― insistiu desconsolada.
― Oui, madame, je regrette, mais votre fille a été très maline.
― Ainda bem que a Cristina se antecipou, senão lá ficava o Edgar sem a bela Susana ― ironizou o sogro, empiscando aos convivas.
― Bom, se quiserem conhecer o da história, é melhor assinarem o Diário, porque, até ao Verão pelo menos, ele vai esgotar e o Dr. Rui de Aguiar, em tudo hábil, como acabam de ouvir, limitou-nos a tiragem ― esclareceu Mário Wellenstein.
― Eu acho que o patrão devia renegociar já esse contrato ― preveniu a Vera, perspicaz, fitando seriamente o director e empiscando aos noivos.
― Chega mesmo a tempo, padre Ximenes! ― interferiu a catedrática.
― Se é para sentenciar...
― Nem mais nem menos, padre Ximenes! Então não é verdade que, segundo uma tradição milenária, dois seres que se salvem mutuamente têm o dever e a obrigação física e moral de se amarrarem eternamente?
― É! ― responderam todos, presos ao fio do pensamento astuto.
― Se é verdade, como é que a menina Cristina pode pertencer exclusiva e eternamente a dois homens ao mesmo tempo, o belga, que acaba de contratar ad vitam eternam e o português, que tem direito ao seu corpo? ― questionou o advogado, malicioso.
― Realmente só me resta casar com o meu o guardião do meu corpo, pois ninguém pode pertencer, amar e servir lealmente ao mesmo tempo dois senhores que tudo separa, pois não, mamã?
― Hum! Que generosidade!
― Alto lá, deixemo-nos de conversas, antes que as concessões cheguem longe de mais ― ironizou o marido ciumento.
Aproveitando a gargalhada geral, os predestinados beijaram-se tão fervorosamente que a Celina teve que os sacudir e lhes recordar que a fome se matava à mesa.
Durante a refeição, Júlio não parou de apalpar a barriga da esposa. Depois da sopa, a mana levantou a mão e, apontando o ventre liso e esbelto, mostrou-lhe dois dedos, estancando a galhofa do irmão que, invejoso, nem queria admitir a hipótese de vir a ser padrinho de gémeos.

E o resto da tarde até ao lanche, que os adultos passaram a conversar e a jogar às cartas, foi um verdadeiro regalo para os filhos da Vera e a Celina que, apesar da temperatura primaveril, não resistiram à tentação da piscina, nadando, saltando e batucando até ficarem roxos, enquanto que, à sombra do pinhal, o director do Diário recolhia as impressões da multava, cujo vestido apertado delineava e avivava divinamente os contornos sensuais.
Antes de se separarem, a médica anunciou-lhes que o casamento religioso seria antecipado para o dia 14 de Maio, sábado, em Fátima, convidando-os a todos para a cerimónia.

Neste domingo, 30 de Abril, o Dr. Félix levantara-se cedo e fora à padaria comprar bolos para os noivos que, deixando a Celina no solar, preferiram vir pernoitar a Santo Amaro. Acordando pelas onze horas, Pat e Cris desceram para tomar o pequeno almoço e viram que a mesa fora posta no terraço.
― Que lindo dia, Cris!
― É verdade, Pat, aqui tudo é divino: a mesa redonda, as rosas, as chávenas da Vista Alegre e os bolinhos. Hum! Que café mais delicioso! ― bradou felicíssima.
― Dormiste bem? ― questionou carinhoso, beijando-a na testa e acariciando-lhe a madeixa loura.
― Divinamente! Com este silêncio e a maresia sussurrante até parecia que o colchão boiava no espaço sideral. Hum, o teu amor, ao deitar e ao despertar, foi magnífico!
― Eu não conheço melhor sonífero!
― Olá! Não me diga que vem a pensar na morte, padrinho? ― arguiu a médica.
― Hoje não, mas antes era a Noémia a rezar e a choramingar para um canto, a Celina querer convencer todo o mundo que o sonho dela tinha um final feliz e eu, como o tolo no meio da ponte, a correr para o telefone de lenço na mão...
― Vá, tome um cafezinho connosco.
― Só se for para vos fazer a vontade, filha ― esclareceu o arquitecto.
― Se prefere um sumo... ― sugeriu atenciosa, levantando-se jovial.
― Sem açúcar, se fizer o favor, Cristina.
― Está bem, padrinho! ― exclamou sorridente, apertando o manto de lã que lhe cobria e escondia a combinação de seda.
― A Cristina é realmente...
― A Cris é um anjo e em tudo magnífica... Perdão, excepto quando os ciúmes a incomodam, mas, mesmo assim, até aí o seu beicinho é divino ― confessou enamorado.
― Nestas noites de insónia, passei horas a fio aqui sozinho a imaginar o vosso ninho de amor ― disse rejuvenescido, esboçando um sorriso altivo.
― Para quê mais casas, padrinho? Temos esta...
― Esta, filho, comprei-a pouco antes de me casar com a Alice e era só para remediar. Porém, como ela morreu, não cheguei a fazer mais nada. Sem a alegria de viver, só pensava no trabalho e no cigarro para me distrair e me curar as mágoas. E, inexplicavelmente, foram esses os anos de solidão, em que, pensando em perder a vida, ganhei rios de dinheiro. Depois, com a Dina ainda julguei que podia construir uma casa nova e recomeçar tudo de novo, mas, cheio de remorsos, por ter renegado o juramento sagrado, fui adiando, adiando até que vieste tu para me salvar. Foi naquele Verão que me reconciliei definitivamente com a única mulher que amei em toda a minha vida, a madrinha Alice. Se tu não tivesses sido tão audacioso, ao ponto de me roubar a Dina, pondo fim ao meu calvário, há muito que me teria suicidado, se Deus não me tivesse castigado e me desse um mal incurável, como aquele que desconfiei trazer dentro de mim. Ainda te lembras, filho?
― Claro que lembro, padrinho. Foi nesse dia em que, enquanto fui com a Dina e a Cris à praia da Azambujinha, o senhor fez o seu testamento...
― Há uma questão que me atormenta e...
― Qual?
― Será que depois, no Céu, as almas que se casaram e viveram contrariadas, na Terra, poderão unir-se, finalmente, diante de Deus?
― Com certeza, se tal for o desígnio de Deus para essas criaturas.
― De que estão a falar, padrinho? ― perguntou Cristina, segurando a bandeja com três copos e uma caneca de sumo de laranja.
― Nós questionámo-nos sobre a possibilidade das almas poderem realizar, no paraíso, os sonhos desfeitos ou proibidos na Terra, como os amores e as paixões que os homens ou exiguidade do tempo lhes impediram de viver ― explicou o místico, mirando-a distraidamente.
― E a que conclusão chegaram? ― insistiu a médica.
― De que se Deus é Amor, como dizem e cremos, Ele só tem que reparar o mal e ajudar essas almas gemebundas a unirem-se espiritualmente, como tanto desejavam fisicamente, mas a gente sabe lá, filha, a gente sabe lá!...
― Também sou da mesma opinião, padrinho. Mais, eu penso que Deus tem sempre uma razão para tudo o que nos acontece durante a nossa passagem pela Terra ― opinou convicta, servindo o sumo ao velhote.
― Pois, no teu caso, a tua felicidade não destruiu a de quem, mais não tendo, pôde também conhecê-la, enquanto que, por amor, tu ias amadurecendo com o sofrimento...
― O sofrimento cimenta e purifica o amor...
― E não só. O sofrimento também nos torna famintos... É como se regressássemos de uma longa travessia do deserto! ― exemplificou Rui.
― Deixemo-nos de filosofia, que o tempo voa! ― exclamou o arquitecto, bebendo o sumo e refugiando-se no escritório.
― E... Mas, nós ainda temos que ir ao hospital, Cris! ― recordou o advogado, alarmado com o atraso.
― Basta passarmos por lá antes de irmos para a conferência...
― Tens razão, mas de qualquer maneira não nos podemos demorar, senão, no solar, eles vão pensar que...
― A Celina é que deve estar desesperada. A pobrezinha anda tão desconsolada! Hoje temos que lhe dar mais atenção, porque ontem mal lhe falámos ― disse a médica, deixando falar o coração maternal.
― Até eu já sinto saudades das suas irreverências, dos seus olhitos...
― Dos olhitos dela ou dos da mãe? ― retorquiu Cristina, colando-lhe as retinas no nariz a ponto de lhe mostrar os seios.
― De ambas, meu amor! ― confessou envergonhado, beijando-lhe amorosamente a ravina do busto.
― Da Dina, não tenho ciúmes, Pat, mas da Paula... Tu vê lá! ― avisou ciumenta, apertando-lhe a cabeça contra os seios.
― Ei, larga-me senão ainda obrigamos os velhotes a correr as persianas. Hum, que gostosa! Este perfume...
― Gostaste, meu traidor?
― Traidor, eu?! A menina não me faça ser o que não penso, nem quero!
― E se eu te fizesse o mesmo, hein?
― Matava-te, arrancava-te o coração pelas costas e deitava-o aos cães.
― Ui, credo, que crueldade!
― Ai é?! Vá, lá, tenta, se és capaz! ― desafiou sério, agarrando-a pelas espáduas e fazendo-lhe balançar o busto.
― Ai! ― balbuciou queixosa, fingindo-se violentada.
― Ai que mal ou ui que bom? ― concluiu voluptuoso, desejando-a.
O pêndulo da sala batia as doze badaladas do meio-dia, quando, reconciliados, desapareceram na marginal, embalados pela melodiosa Cabana junto à praia, do José Cid.
No Monte Estoril, Celina começava a desesperar e a cansar-se com as subidas e as descidas incessantes ao muro da quinta, donde espiava a estrada de acesso ao solar, quando avistou o BMW da médica. Radiante, saltou para a calçada e, gesticulando zangada, esperou que a viatura se imobilizasse diante dela, bradando queixosa:
― Demoraste tanto, papá!
― Desculpa, meu anjo, mas ainda não recuperei o sono. Vá, dá cá uma beijoca ao rei Iur, princesinha Anilec! ― rogou o pai.
― Agora, que a princesa Sirc vai ser rainha, vamos ter que a obrigar, nos nossos contos, a chamar-se Anitsirc, pois a única princesa vou ser eu, papá.
― Claro, princesinha...
― Não me venhas com paninhos quentes! Até parece que não gostas mais de mim! ― volveu ciumenta.
― Mas que ideia, nós adoramo-la cada vez mais, princesinha Anilec! ― refutou a médica, beijando-a no rosto e afagando-lhe os cabelos pretos.
― Tu vê lá, papá, olha que eu já tenho dois namorados!
― O quê?! Dois namorados?! Ai, ai, ganhe juízo, princesinha, senão sua majestade terá que a encarcerar na masmorra do castelo! ― advertiu enciumado, fazendo cara de mau e batendo o pé para afirmar a autoridade.
― Está bem, segunda-feira eu vou dizer-lhes que encontrei outro namorado ― desculpou mimada, agarrando-se ao pescoço paternal.
― Ai, quem não está a gostar nada da conversa sou eu! ― protestou a médica, empiscando ao marido.
― Não tenha medo, rainha Anitsirc: o rei é maluco por si!
― Se não tenciona roubar-mo, poderemos viver todos felizes no mesmo castelo, até que a morte nos separe ― concluiu solenemente.
Da soleira da porta, a professora observava os trejeitos da neta e sorria.
― Boa tarde, dorminhocos!
― Bom dia, mamã! ― retorquiu a médica, beijando-a.
― Olá! Que elegância, Rui! Hum, cuidado, filha, olha que o Dr. Aguiar passou a usar um perfume extremamente... apetecido!
― Por favor, não lhe meta mais minhocas na cuca, D. Susana, que a doutora é alérgica aos ciúmes ― cochichou irónico, beijando a soga.
― Ele que experimente, mamã! ― gritou a médica, ameaçadora.
― Está a ver?! A sua menina tem que arranjar um antídoto...
― O melhor antídoto, filha, é causar-lhe ciúmes também ― interferiu o pai, da porta do salão.
― Ela que tente o anjinho e verá o diabo que terá pela frente!
― Não me force a embarcar nessa, papá, que eu só entro em guerras que posso vencer! ― declarou perspicaz.
À mesa, os noivos sentaram-se diante do advogado e da professora, deixando a cabeceira da mesa para a Celina, que não parava de se debruçar para lhes espiar os trejeitos subterrâneos do papá, que não parava de acariciar a barriga da Cris.
Depois do almoço, apesar da RTP transmitir a conferência de imprensa, Dr. Edgar e a esposa fizeram questão de os acompanhar e ouvir de viva voz as suas explicações para exorcizar definitivamente o horrível pesadelo.
Antes, porém, os noivos foram ao hospital reunir-se com os restantes actores do melodrama. Foi então que, aproveitando a euforia geral, a directora anunciou-lhes a data do casamento, convidando-os a todos. E, seguindo nos seus carros, deslocaram-se para o Ministério da Saúde, onde foram recebidos pelo Sr. Sérgio Afonso.

Os jornalistas, num corrupio ensurdecedor para conseguirem de mão beijada o scoop do ano, não paravam de espreitar as travessas da avenida à cata do herói.
Entretanto, os populares ocupavam os patamares do Ministério da Saúde e enchido as ruelas contíguas ao edifício, o que obrigara a polícia a cortado o trânsito nessa avenida. Acolhida entusiasticamente pelo povo em delírio, a delegação ocupou as cadeiras que lhes estavam reservadas no salão nobre. Descortinando a Paula e a Vera no meio da multidão pelo ecrã de controlo, o advogado levantou-se e, abrindo caminho por entre os repórteres e o povo, foi chamá-las, trazendo-as para junto de si, obrigando o empregado de serviço a ir procurar mais duas cadeiras. Recebendo o sinal do realizador da transmissão televisiva, o Sr. Afonso aproximou-se do estrado e disse num tom hesitante:
― Boa tarde a todos! Como o prometido é devido, aqui estamos para, com civismo e o máximo respeito pela vida privada, ouvir dos membros da missão humanitária o relato dos tristes acontecimentos que tiveram, felizmente, o desfecho que todos conhecemos, mas cujo final poderia ser outro, se o Dr. Rui Patrício de Aguiar Fontoura não tivesse tido a coragem de desafiar o destino ― disse orgulhoso, apontando o herói.
E uma salva de palmas monumental fez o povo erguer-se e gritar Rui amigo, o povo está contigo! Rui amigo, o povo está contigo!
Arrepiado pelo slogan, o advogado levantou-se, sorriu e, apelando à calma, murmurou um comovido obrigado, que calou toda a gente. Retomando a palavra, o Sr. Sérgio recomendou:
― Tendo em conta a susceptibilidade da pessoa humana e as mazelas psicológicas que um sequestro sempre deixa na alma dos mais sensíveis, agradeço que os senhores jornalistas pensem bem, antes de colocar as suas questões. Como vêem, cada membro da delegação está identificado com um cartão, mas permitam-me que os apresente brevemente a todos, excepto o chefe da missão, que, como sabem, ficou em Luanda sob a custódia da República Popular de Angola, de quem obteve asilo político. Bom, em primeiro lugar, como podem ler na placa à sua frente, temos o Sr. Raimundo Coelho, funcionário do Ministério da Saúde, assessor do Dr. Alfredo Fagundes que, como disse, decidiu ficar a gozar férias tropicais. No centro temos a Sra. Dra. Maria Cristina Galvão Sampaio, Directora do Hospital Santa Estefânia, responsável pela equipa médica, e ao seu lado a Sra. Dra. Celeste Faria, pediatra e sua coadjutora. E, para evitar mais delongas e não monopolizar a antena e porque não é a mim que os senhoras e as senhores estão ansiosos por ouvir, os restantes membros, cujo nome e função podem descobrir pelas câmaras, apresentar-se-ão pessoalmente, antes de responderam à primeira pergunta que lhes for dirigida. Antes de passarmos às questões, a Sra. Directora vai explicar-lhes como se processou a escolha da delegação e a preparação da missão. Faça o favor, Dra. Cristina!

O burburinho, que ainda havia na sala, dissipou-se. Sorrindo, a médica pegou no microfone sem fio que estava à sua frente e, depois de saudar os telespectadores e agradecer a simpatia que país lhe testemunhara, iniciou o relato da preparação da prestigiosa missão, desde o apelo transmitido pelos PALOP ao governo Português e à partida, nesse dia 13 de Abril, no aeroporto. E, para que não restassem dúvidas, quanto à escolha dos seus acompanhantes pelo périplo africano, pediu ao Sr. Carlos Lucas, enfermeiro e chefe do pessoal, que explicasse a forma como tinham sido eleitos, o que ele fez em termos simples e claros, revelando o espírito de família e o grau de participação e democracia interna do hospital onde trabalham, para dano de muitos, que pensavam que tudo aquilo, como quase sempre, em Portugal, fora cozinhado entre amigos, os mesmos, que nos bastidores, tudo manipulavam. Depois, cada um dos presentes confirmou verbalmente as palavras do colega e referiu as esperanças e os propósitos humanitários que realmente os movia e queriam cumprir o melhor possível.
Quando chegou a vez dela, como a Paula se intimidasse com as câmaras e, sob o peso da emoção, perdesse momentaneamente a voz, o advogado socorreu-a imediatamente.
― Esta donzela chama-se Paula Amaral, nasceu em Angola e é minha secretária ― referiu sereno, apaziguando-a com um sorriso angelical.
― Eu sou a Vera de Sousa, assessora de direcção, e conheço o Dr. Rui de Aguiar dos tempos de estudante ― revelou a jornalista.
― Como a Vera referiu, eu chamo-me Rui Patrício e sou advogado.
― Obrigado, Dr. Aguiar! Concluídas as apresentações, têm a palavra os senhores jornalistas. Façam o favor!
― Sra. Directora, constatando a derrapagem da missão logo em Moçambique, porque é que não voltou imediatamente para Portugal, evitando despesas ao país e, sobretudo, os riscos de um acto de bravura como o do seu noivo que, diga-se, poderia ser mal sucedido?
― Acredite, meu caro senhor, que nunca foi minha intenção pôr a vida de alguém em perigo. Além disso, Portugal, ao responder favoravelmente a este apelo humanitário, não só aceitou implicitamente os custos, mas assumiu sobretudo os riscos de uma eventual derrapagem como você referiu. Contudo, é bom que não se esqueça que o maior risco foi assumido pelos membros da delegação e as suas famílias, porque o dinheiro, pouco ou muito, ganha-se, gasta-se e volta-se a ganhar para gastar de novo, tem ida e volta, mas a vida, o nosso maior tesouro, não ― explicou a médica, fustigando o insolente.
― Pois... ― murmurou confuso.
― Quanto ao regresso precipitado a Portugal, ― prosseguiu convicta ― fique sabendo que, se você julga e mede a nossa cobardia e a nossa fraqueza pela sua, se engana redondamente. Realmente eu fico cada vez mais abismada com o conceito que homens, como você, fazem da responsabilidade. Vá, ganhe juizinho, e que fique claro, se alguém, vem para aqui brincar ou dar lições do quer que seja, é melhor sair imediatamente desta sala, porque o nome de Portugal, a nossa consciência humana e as populações que não conseguimos ajudar, como era nosso propósito, ao aceitarmos este desafio, merecem-nos outro respeito. Desculpe a minha franqueza e a minha cólera, mas eu e a minha equipa só costumamos brincar com os filhos depois do serviço.
Regalada pela firmeza de tão esbelta mulher, a multidão aplaudiram ruidosamente, encorajando a delegação.
― Quando é que teve a certeza que, se nada fosse feito, as coisas podiam terminar, desculpe-me a crueza, num banho de sangue? ― perguntou o representante da televisão.
― Como sabe, nem todos temos a percepção do perigo ou entramos em pânico ao mesmo tempo ou com a mesma facilidade, como nem todos reagimos da mesma maneira às emoções, porque isso depende de vários factores que não me compete analisar agora, mas, no que me diz respeito, sinceramente e afastando a hipótese de um acidente de percurso, tão previsível em países em guerra com tantas minas e estradas esburacadas, eu só me assustei realmente, quando vi o oficial cubano, um certo major Ruiz, já embriagado, segredar ao ajudante la rubia és para mi, conho, aí sim, pensei que, provavelmente, eu e as minhas corajosas amigas não sairíamos de lá invioladas e apertei a mão à Dra. Celeste e à Maria do Céu, que estavam a meu lado. Antes, e elas que me contrariem se não tiveram a mesma impressão, penso que não deixei transparecer as dúvidas e os medos que trazia comigo.
― Não, a Sra. Directora nunca se mostrou intimidada. Quanto a esse instante de medo, recordo-me perfeitamente de ela me apertar a mão e murmurar a palavra Artur ― confirmou a pediatra.
― Artur?! Quem o misterioso Artur, Dra. Cristina? ― questionou o jornalista.
― Misterioso? Só se for para si, senhor...
― José Rodrigues, da radiotelevisão portuguesa, Sra. Directora.
― Bom, senhor Rodrigues, eu e o Dr. Rui de Aguiar, que estamos noivos desde o dia 2 de Novembro último e temos o casamento agendado para o próximo dia 14 de Maio em Fátima, decidimos dar ao nosso bebé o nome do pai dele, Artur, que, como é do conhecimento público, era professor e foi assassinado juntamente com a esposa no Nambuangongo em 1966...
― A Sra. Directora jurou dizer a verdade e...
― E é isso que faço e sempre fiz, Sr. Rodrigues ― interferiu a médica sorridente, adivinhando os pensamentos ao repórter.
― Quer dizer que a Sra. Directora partiu grávida?
― Perfeitamente!
Atento, o público acolheu a feliz novidade com uma salva de palmas e só parou quando a directora lhes pediu calma com um gesto suave.
― Eu sou a Célia Ferro da Rádio Renascença e gostaria de fazer ao Dr. Rui de Aguiar uma pergunta especial, porque relativa à Fé que, obviamente só poderia vir de nós, a emissora católica portuguesa.
― Como todas as perguntas pressupõem logicamente uma dúvida e uma evidente razão de ser, esteja à vontade, menina Célia ― disse o advogado sorridente, fitando-a profundamente.
― Qual seria a sua atitude, face a Deus, se Ele, depois de lhe roubar os pais e a sua primeira esposa, acabasse por lhe levar a noiva? ― questionou a jornalista, corando profundamente.
― Olhe, eu falo com Deus de tu a tu e antes de partir, jurei que passaria o resto da vida a amaldiçoá-lo, se...
― Não lhe parece estranha essa chantagem com Deus? ― insistiu a representante da igreja.
― Se é verdade, e é, que os amigos se vêem nas ocasiões e se em duas delas o seu melhor amigo lhe falta, acha que, tratando-se de um homem, essa amizade resistiria a uma terceira cobardia? Não foi Ele, o Todo-Poderoso, quem nos ordenou que crescêssemos e nos multiplicássemos e sobrevivêssemos. Deus fez-nos e quer-nos ganhadores, menina Célia.
― Dr. Rui de Aguiar, ― interferiu um jovem ― quando é que sentiu que a sua noiva corria perigo.
― No dia em que ela nos disse que nos amava e implorou que lhe perdoássemos! Nesse instante, percebi tudo e parti.
― Partiu, mas teve que arrastar consigo a sua melhor amiga e a sua secretária, duas mulheres indefesas e...
― Alto lá! Talvez o colega não saiba, mas eu só não fiz a cobertura de tal périplo e não parti logo com a delegação porque o Dr. Fagundes nos impediu de o fazer. Depois, se o menino conhecesse a nobreza de carácter do Dr. Rui de Aguiar não proferiria tal juízo: ele tentou dissuadir-me de partir, mas, não o conseguindo, só aceitou que eu o acompanhasse se lhe prometesse que não sairia de Luanda, onde não corria perigo, e se lhe jurasse denunciar a felonia do miserável, o que fiz ― esclareceu a Vera.
― E a menina Paula, porque seguiu o seu patrão? Devia-lhe favores? ― ironizou um jornalista, empiscando-lhe cinicamente.
― Eu parti porque... ― balbuciou embaraçada, emudecendo.
― Que espécie de homem é você, miserável? ― interpelou colérico, prosseguindo sério: Os senhores telespectadores desculpem, mas eu não posso deixar passar impunemente tão desavergonhada suspeição, que atenta e ofende grosseiramente a dignidade e a reputação da minha secretária. Por isso, apresente-se, diga o jornal que representa e, sobretudo, peça imediatamente desculpas à menina Paula Amaral pela insinuação que lhe fez ou se retire como um vil canalha que é e será, ouviu? ― replicou brutalmente o advogado, levantando-se terrivelmente indignado.
E um coro de aplausos ecoou pelos microfones, provocando um feed-back estridente na casa dos telespectadores, que viram as câmaras filmar a retirada inglória do cobarde que, depois de se ver apupado pelos companheiros de profissão, quase foi linchado pela multidão revoltada, que gritava irada: Para a Sibéria! Comunistas para a Sibéria! Vai para a Sibéria, seu comunista! Fora! Rua, seu comunista, rua!!!
― É, esse canalha só pode ser comunista ou cúmplice de alguém tão infame como o Fagundes ― apoiou o advogado.
― Bom, para que as coisas fiquem claras e não restem dúvidas, permitam-me que me explique. É verdade que qualquer mulher gostaria de ter um marido como o Dr. Aguiar, ai gostaria, mesmo uma preta como eu, mas também me parece evidente que, para colocar tão baixo a dignidade humana, nunca deve ter deixado de rastejar ou andar a quatro!
― Muito bem! Bravo, Paula! ― apoio a delegação em coro.
― Bom, ainda no que respeita a questão, ― prosseguiu Paula ― eu confesso que acompanhei o Dr. Aguiar porque queria visitar a família e os amigos que deixei em Angola, que fez a fortuna de muitos brancos.
― Fortuna? A menina não acha provocante a forma como se refere aos brancos? ― retorquiu um jornalista, visivelmente escandalizado.
― A verdade só é provocante para quem tem medo dela! Você...
― Não, não tenho! ― interferir o repórter, corando nervosamente.
― Não tem o quê?
― Medo da verdade ― respondeu confuso.
― Depois de tudo isto, não guarda rancor aos angolanos, Dr. Rui? ― perguntou uma donzela.
― Nem aos angolanos nem a ninguém, menina! A única pessoa a quem guardo rancor é a mim mesmo, quando não consigo manter a coerência dos meus actos e das minhas palavras ou não faço aquilo que deveria e poderia.
― Então posso deduzir que é precisamente por isso que o Dr. Aguiar não quer fazer política! ― interferiu uma senhora.
― Perfeitamente! Os políticos estão a enxovalhar, a desacreditar e a matar a democracia... Bom, para concluir, eu queria agradecer a todas as pessoas que, de uma maneira ou de outra, nos ajudaram a sair do inferno. Muito obrigado, bem hajam e que Deus vos pague! ― disse emocionado, levantando-se para beijar a filha, que correra lançar-se-lhe ao pescoço.
― Obrigado! ― bradaram os homens, batendo palmas.
― Obrigada! ― exclamaram as senhoras, sorrindo e acenando.
Encerrada a conferência, eles congratularam-se uns aos outros, beijando-se, abraçando-se e apertando a mão a quem os quis felicitar e desejar boa sorte. E a transmissão televisiva terminou com os olhos da Celina a encherem o ecrã, por cima de um beijo furtivo que a Dra. Cristina viera roubar ao seu herói...




Continua em Capítulo XII


LMP - LUXEMBURGO, FEVEREIRO DE 1997 / Lud MacMartinson

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