sábado, 12 de abril de 2008

FD * Capítulo V


CAPÍTULO V




No sábado, 25 de Dezembro, apesar do cansaço, todo o mundo se levantou para assistir à missa à igreja de Santo António do Estoril, onde Rui Patrício, depois de se confessar ao padre Ximenes, o informou da sua decisão de voltar a contrair matrimónio e o convidou para celebrante. Consultando a agenda, o sacerdote viu que já tinha outros compromissos para esse dia, mas garantiu-lhe que tudo faria para ser ele a uni-los perante Deus. Ainda acertavam pormenores, quando a Cély, acompanhada da Cris, veio ter com eles à sacristia barroca.
― Parabéns, Dra. Cristina e que Deus vos abençoe ― disse o sacerdote, apertando-lhe levemente os dedos.
― Obrigada, padre Ximenes ― agradeceu a médica.
― Como é que o senhor padre conheceu o meu papá? ― perguntou Celina, oferecendo orgulhosamente o rosto ao timorense.
― Olha, Cély, foi no seminário de Mogofores. Ele era um rapaz tímido, acabava de perder os pais em Angola e encontrara na poesia a forma de escapar ao sofrimento. Depois, ambos gostamos da simplicidade, da frontalidade e cultivamos uma certa ingenuidade. É, o teu papá ganhou muitos..., melhor, todos os concursos de poesia, não foi Rui?
― Acho que sim, Carlos.
― Ah, tu chamas-te Carlos! ― exclamou a irreverente Celina.
― Cély! ― repreendeu a médica.
― Desculpe, Sr. Padre Ximenes, mas como o papá diz que são irmãos...
― Isso mesmo, entre irmãos não deve haver cerimónias ― defendeu o reverendo, baixando-se para ficar da altura da inocente.
― O papá diz que o teu país sofre muito, porque um ditador cruel, que nem é de lá, manda os soldados matar todos os timorenses.
― Mas um dia Deus pedirá contas a esse homem e o povo de Timor será livre e viverá em paz. Depois, quando não houver guerra em Timor, tu tens que me ir visitar... com a mamã, o papá e os maninhos...
― Visitá-lo?! Não me diga que nos vai deixar? E se o matam? Coitado, o meu pai já chorou tanto pelos meus avós e pela minha mamã que eu duvido que ele ainda tenha mais lágrimas para chorar por si. Não se vá para lá, dom Ximenes, pelo menos enquanto esse homem mau não morrer.
― Sabes, Cély, a minha família ficou lá e o meu povo precisa de mim para o encorajar e o ajudar a aguentar o martírio. Jesus, a quem eu sirvo, quer que eu seja o Bom Pastor de Timor. É esse o meu destino!
― Os soldados podem fazer-lhe mal, podem torturá-lo, prendê-lo ou mesmo matá-lo. E se o matam, Padre Ximenes?
― Um homem que morre a defender a liberdade e a dignidade humanas, só morre para quem o matou e naquela hora, mas depois torna-se um fantasma para os seus algozes e um herói para quem o amou, um justo de Deus, sem contar a imortalidade, porque a alma não morre, percebes, Celina? ― perguntou o sacerdote, fitando-lhe o olhar azul-turquesa.
― Claro que percebo, padre Ximenes. O meu pai diz que o verdadeiro amor, como o da minha mamã, não morre jamais. É imortal, não é papá?
― Sim, filha, é como dizes ― apoiou o pai baboso, sorrindo à noiva.
― Senhor padre, há uma dúvida que eu gostaria de desafazer...
― Que dúvida, senhora doutora?
― Seria possível realizar a cerimónia num lugar privado?
― A verdadeira morada de Deus, Dra. Cristina, é o coração dos seus filhos. Mas, concretamente, onde pensava celebrar o seu casamento?
― Eu gostaria de me casar no solar dos meus pais.
― Com certeza. Deixem isso comigo.
― Obrigado, Carlos, e boas-festas! ― agradeceu o colega, abraçando-o.
― Boas-festas e que Deus abençoe as vossas famílias! ― exclamou o sacerdote, acenando à Celina que, depois de o beijar, correra para junto dos três avós adoptivos.
Depois de saudarem e desejarem as boas-festas aos conhecidos que cruzaram no átrio da igreja, perto das palmeiras, dirigiram-se para os carros, partindo na direcção de Cascais, onde almoçariam. E o Santo dia de Natal, passado fora de casa, fê-los andar de sítio em lugar até às dezanove horas, antes de saborearem o prato frio que a Maria e a Ana, depois da agradável surpresa matinal, com que o Pai Natal as presenteara, lhes serviram orgulhosamente.
Antes de partir, Dr. Félix teve que aceitar uma bandeja com bolinhos, que a D. Susana lhe prepara pessoalmente, para tomar o café no dia de Santo Estevão, o primeiro mártir da igreja, segundo a lenda. A Celina e o pai, despedindo-se dele no terreiro, garantiram-lhe que estariam em Santo Amaro no dia seguinte, para o almoço, e não o largariam mais até à noite do fim de ano.

No dia 26 de Dezembro, domingo, o Diário, anunciava, em primeira página, o noivado do Dr. Rui Patrício de Aguiar Fontoura, o talentoso advogado da Costa do Estoril, com a Sra. Dra. Maria Cristina Galvão Sampaio. Num artigo sucinto, mas repleto dos mais eloquentes atributos, a Vera, que não conseguira guardar o segredo, recordava a vida dos nubentes e, prometia aos leitores, uma biografia completa de ambos em jeito de conto de fadas até Agosto de 1983. Emproada, a Celina não cabia em si de contente, por saber que a amiga da mamã também a queria entrevistar, para conhecer, finalmente, as histórias que a Dina lhe contava ao adormecer. A noiva, essa, não apreciava nada as luzes da ribalta, mas aceitava com toda a naturalidade e um certo orgulho a responsabilidade que a celebridade lhe exigia. Isolando-se nos aposentos conjugais, os noivos aproveitaram para, longe do ruído e das solicitações, resolver os assuntos mais prementes: enquanto a Cristina manteve o telefone ocupado, o Rui seleccionou as fotos que ele gostaria de ver publicadas no jornal, a ilustrar a reportagem da Vera, solicitando, contudo, no fim, uma opinião à sua cara metade que não se fez rogada em dar-lha, censurando as opções mais ousadas.

À noite, surpreendidos pelos assédios dos sonhos atrasados, nem esperaram pelo telejornal. Aliás, nesse dia, a televisão manteve-se surda e muda. As insistências da Celina convenceram o arquitecto a ir contar-lhe uma história de embalar, o que ele, depois de um início tímido, fez maravilhosamente até a inocentinha fechar os olhos. Apagando-lhe a luz do candeeiro, o velhote beijou-a paternalmente no rosto e retirou-se para o seu quarto, onde leu uns versículos da Bíblia como era seu hábito desde que retornara da Terra Santa.

Segunda-feira, ainda não eram nove da manhã, quando a secretária do advogado lhe ligou aflita para casa, colhendo-o em plena viagem quimérica agarrado à sua dulcineia.
― Alô?! ― bradou a governanta, mordiscando um biscoito.
― D. Noémia, aqui é a Paula. Chama-me o Dr. Rui, por favor.
― Ele ainda dorme, menina.
― E o senhor arquitecto?
― Também ainda não desceu. Porquê? Aconteceu algo de grave, Paula?
― A mim não, mas o senhor doutor que me ligue, mal se levante. Não, é melhor deixá-lo tomar o pequeno almoço primeiro.
― Esteja descansada, menina, que eu lá lhe direi. Adeus!
― Adeus, D. Noémia.
Pousado o auscultador, a velhota retirou-se, intrigada. Depois de acordar, de se lavar e de se vestir, Celina foi espreitar para o quarto do pai e, vendo-o abraçado à sua chérie, foi chamar o vovô que fitava o mar agitado.
― Bom dia, vovô Félix! ― bradou a criança, abraçando-se ao velhote.
― Bom dia, Celina! Vamos tomar pequeno almoço?
― Directo, que bicho já está a roer-me as paredes do estômago.
― Ai já?! Credo, então vamos! ― exclamou mimalheiro.
No corredor, Celina bateu os pés, fazendo propositadamente barulho para acordar os dorminhocos, mas eles não lhe responderam, preferindo saborear serenamente os beijinhos matinais. Depois de beber o café e comer os biscoitinhos, que a Sra. Noémia trouxera de S. Domingos de Rana, onde passara a consoada e o Natal com a família, o Dr. Félix convidou a netinha para ir à padaria e ao quiosque para espraiar um pouco e conceder aos pombinhos a intimidade que os seus jogos amorosos exigiam. Dobrando o jornal sem o ler, o velhote deu a mão à pequenita, que balançava jovialmente o saco dos moletes, e perguntou:
― Celina, eles já te convidaram para levar as alianças?
― E nem precisam. O vovô pensa que eu os deixava casar se eles me trocassem por outra? Eu sou a chérie deles.
― Chérie?! Queres dizer que renunciaste ao mon amour?
― Não, mas sei que, no fundo, o mon amour deles sou eu. Além disso, a vovó Susana disse-me que chérie, em francês, é a mesma coisa, só que o mon amour se utiliza mais entre o homem e a mulher, sobretudo se estão apaixonados...
― Ah bom?! A vovó Susana é uma óptima professora de universidade e ser aluna dela, assim tão cedo, deve ser um privilégio muito raro, Celina.
― Ela diz que o meu papá falava muito bem francês há dez anos e que eu,para ter um bom emprego e poder viajar muito, também devo aprender muitas línguas.
― Com certeza! Depois, quando fores como a tua mamã, tu poderás ir fazer reportagens pelo mundo fora, ver pessoas importantes...
― Eu não quero ser jornalista, vovô ― respondeu peremptoriamente.
― E que queres ser?
― Actriz, cantora ou médica, ainda nem sei muito bem, mas jornalista é que não.
― Porquê? A tua mamã escrevia artigos, fazia sonhar as pessoas...
― Eu preferia ser médica como a Cris, para poder ajudar os pobrezinhos da África, como o vovô Artur e a vovó Celina.
― Mas eles eram professores, filha!
― Sim, médica ou professora, tanto faz, o que eu queria era que os meninos da África e do mundo inteiro não sofressem e não morressem ainda pequeninos como eu, sem conhecerem o mundo e sem se casarem como o pai e a Cris. Eles amam-se tanto, vovô Félix! ― exclamou a pequenita.
― E é tão bonito vê-los assim, não é, Celina?
― Até parece que eles têm amor de sobra!
― Pois têm, filhinha, pois têm! ― anuiu o arquitecto, melancólico.
― Tu também tiveste um grande mon amour, não tiveste, vovô Félix?
― Sim, eu fui e sou muito feliz com o madrinha Alice.
― Era muito linda, não era?
― Era?! A Alice é muito linda ― disse nostálgico, sorrindo para o Céu.
― Tu falas todos os dias com ela, não falas, vovô?
― Pois falo! A madrinha Alice nunca morreu. Ela vive dentro de mim, aqui, bem quentinha no meu coração ― segredou comovido, pondo a mão no coração.
― Eu acho que fazes muito bem, vovô, porque eu também falo com a minha mamã todos os dias e à noite, antes de adormecer, digo sempre boa noite, mamã! .Depois, sonho e durmo logo, como quando ela me inventava os contos de fada, mas se me esqueço dela não consigo adormecer e se tenho pesadelos.
― Será que os dorminhocos ainda estão na cama, filha?
― Desta vez, eu arrombo-lhes a porta ― disse zangada, franzindo a testa.
― Credo, que força, Celina! ― bradou o velhote, arregalando os olhos.
― Enganei-te, eu estava a fingir! ― riu safada, esticando a língua.
No portão da entrada, vendo as persianas dos namorados corridas, Celina desatou a correr. Porém, entrando de rompão na cozinha, deu com os olhos neles aos beijos.
― Seus dorminhocos! ― bradou mimalheira, correndo a abraçá-los.
― Que lábios tão frios! ― exclamou a médica, arrepiando-se toda.
― A noite de consoada descontrolou-vos o sono? ― perguntou Dr. Félix.
― Completamente! ― responderam simultaneamente, levantando-se para o beijarem filialmente.
― Já leu o jornal, padrinho?
― Toma, eu tenho tempo, Rui ― disse sereno, entregando-lho.
― Assenta-te e bebe mais um galão connosco, filha.
― Obrigada, Cris, mas tenho que ir acordar as minhas dorminhocas!
― Boas notícias, Pat? ― questionou Cris, passando a geleia na torrada.
― Em princípio..., espera..., meu Deus!!! ― bradou apavorado.
― O que se passa?! ― indagou inquieta, vendo-lhe as órbitas arregaladas saltarem-lhe para o jornal.
― Eu sabia que isso ia acontecer! ― murmurou triste, escoando o rosto pálido e deitando a mão à testa.
― Deixa ver ― gritou nervosa, puxando-lhe o jornal.
― No princípio não acreditaste em mim, mas ainda bem que o teu anjo da guarda te dominou os nervos e...
― Desculpa, meu amor, desculpa! ― implorou chocada, pousando o jornal e aninhando-se-lhe desesperadamente no peito.
― E foi mesmo debaixo dos arcos do aqueduto!
― Deve ter sido horrível!
― Que Deus lhe dê o eterno descanso!. Coitado, no fundo, ele devia ser bom, mas estava doente. ― murmurou condoído.
― Que coincidência, meu Deus! Foi mesmo como disseste! A imagem vermelha..., as torres e os arcos, que são os pilares do aqueduto, tudo..., santo Deus! Mas como é possível essa premonição?
― Não me perguntes, que nem eu sei como! Apenas me recordo aquele sonho foi medonho e que, ao ver o Austin naquele estado, senti uma pontada tão acutilante no coração que pensei morrer...
― Agora, que me livrei desta, vou confessar-te um segredo que guardei para ignorar e recalcar o medo!
― Que segredo, Cris?! Comigo não há segredos! ― disse impávido.
― Sempre que fui contar uma história à Celina, antes de fechar os olhos, e de me dar o último beijo, ela implorava: “ Por favor, vende o carro! ”
― À força de me ver sofrer em silêncio, ela aprendeu... É, eu creio a Celina aprendeu a ler mais depressa na minha alma que nos livros!
― Que coincidências mais estranhas! ― bradou lívida.
― E se depois daquela zanga, no dia 3 de Novembro, nos tivéssemos...
― Realmente...
― E agora o que eu faria sem ti, meu amor?
― Matavas-te! ― balbuciou contemplativa.
― Talvez não, Cris, porque acredito que quem se suicida se afasta irremediavelmente de Deus...
― Obrigada, por me teres impedido de arrancar para a morte!
― Deus sabe que a loucura do verdadeiro amor é, no fundo, um mal que vem sempre por bem!
― Vais contar isto a alguém?
― Para quê? Não, Cris, o amor que sinto por ti não seria digno dessa inconfidência ― disse pesaroso, abraçando-a desesperadamente.
― E agora, Pat?
― Com licença! Deixa-me ir rezar pela alma do Dr. Santos.
― Espera! Eu vou contigo, meu amor! ― rogou nervosa.
E, limpando apressadamente os lábios, seguiu o seu anjo da guarda até ao jardim para respirar a maresia e olhar o Céu, numa prece pelo condenado. Depois, sentindo a brisa resfriar-lhes a alma, entraram na vivenda e foram sentar-se no sofá, onde desabafaram, pensando na fragilidade da vida e nos misteriosos caminhos do destino. E foi assim, abraçados no silêncio, que um trrim inoportuno os colheu. Inquieta, Paula ligou novamente para lhe contar o trágico acidente da véspera, mas o auscultador só lhe devolveu o eco do pesar que ele sentia pelo infeliz. Apaziguada, a secretária pôde, então, concentrar-se e voltar a trabalhar como dantes.

Depois do almoço, Pat e Cris, passando pelo Estoril, aproveitaram para se confessar ao padre Ximenes, a quem revelaram, individualmente, o sonho premonitório e encomendaram uma missa pelo falecido, antes de irem escutar pela centésima vez cassete da arrelia diante do Morris, trancados no sótão. E só a providencial soneira da sesta, arrebatando-os, conseguiu varrer-lhes da memória tamanha fatalidade.
Acordando à hora do lanche, desceram e tomaram-no com o Júlio e a Sílvia e os pais, a quem a médica, para desabafar e ficar em paz com a sua consciência, resolveu contar a nefasta notícia. Clarividente, a professora associou instantaneamente a tragédia à revelação da Celina, fazendo, arrepiar a Sílvia. Foi então que, entre dois golos de café, a gestora empiscou à médica que, apaziguada, lhe sorriu cumplicemente, deixando todo o mundo intrigado.
― O que se passa, Sílvia? ― inquiriu o marido, curioso.
― Nada, Júlio, nada! ― respondeu intimidada.
― É verdade, Cris? ― insistiu Júlio, fitando a mana.
― Corremos o risco, Sílvia? ― perguntou indecisa.
― Olha, Júlio, já que insistes, ― adiantou a gestora ― ou nos enganamos muito ou vais ser pai.
― Não?! ― retorquiu orgulhoso.
― É verdade! Vais ser pai, meu amor! ― confirmou envergonhada, abraçando-se ao marido.
― Não nos diga, Sílvia?! ― duvidou a sogra.
― Desta vez não deve haver engano, mamã! ― assegurou a médica.
― Até que enfim que conseguiste encontrar o buraco, seu brigão! Parabéns e muitas felicidades, Sílvia!! ― ironizou o cunhado.
Depois das felicitações, a professora levantou-se e foi buscar o telefone sem fio que o marido lhe comprara de manhã em Cascais, para evitar as corridas pelo solar.
― Vá, estriem lá esse aparelho e dai a feliz novidade à outra avozinha.
E, discando instantaneamente o número dos sogros, na Amadora, Júlio esperou pelo bip, respirou fundo e rogou nervoso:
― Segure-se, D. Elvira, segure-se que...
― Que quê, Júlio?! ― perguntou a sogra, aflita.
― Vai ser avó, mamã! ― berrou-lhe a filha.
― Ai...
― Elvira! Elvira!!!
― Que se passa, mamã? ― perguntou Sílvia, assustada.
― Alô? Parabéns, filha.
― O que se passa com a mãe, papá?
― Nada! Eu bem lhe digo que ela deita cera de mais...
― Caiu?
― Oh! Assustou-se e quase se espalhou-se no sobrado! ― riu o major, sustendo a esposa.
― Aleijou-se, mãe?
― Não é nada, filha! Parabéns! Vá, vinde com cuidado! ― rogou combalida.
― Então beba um chá que nós vamos já! Adeus!
― Sílvia!!
― Sim... ― respondeu in extremis.
― Passa-me o Júlio, filha!
― Toma, é para ti! ― cochichou Sílvia, entregando o telefone ao marido.
― Parabéns, Júlio! Agora, veja lá se conduz com mais cuidado, ouviu? Olhe, transmita as minhas felicitações aos seus paizinhos. Até logo!
― Obrigado, D. Elvira. Vá, não se aflija que nós voltamos devagar ― tranquilizou o genro, desligando e transmitindo o telefone e o recado à mãe.
A feliz novidade encheu de júbilo a professora que, não cabendo em si de contente, esqueceu os filhos e correu ao escritório a mostrar ao marido o primeiro sorriso avoengo. Radiante, o advogado, largou tudo e veio abraçar o filho e desejar à nora uma boa gestação. Conhecendo e ressentindo a amargura da primeira decepção, Júlio preferiu esperar pelos resultado dos testes para deixar embalar o seu coração paternal, tamanho fora o desgosto da falsa gravidez da esposa que, meses antes, quase acabara com o seu casamento.
Quando os filhos deixaram o solar, D. Susana ligou para saber novas da D. Elvira. Eufóricas, as avozinhas ficaram mais de meia hora ao telefone a opinar sobre o sexo do bebé, para que o enxoval estivesse bordado a tempo, e a estudar uma estratégia para contrariar os militares, que juravam a pés juntos que o rapaz seria o primeiro Marechal da família, enquanto elas, mulheres, gostariam de fazer as tranças à menina.
Em Santo Amaro, a noite surpreendeu os noivos a falar dos mistérios da existência, com o arquitecto no escritório, enquanto a inocente Celina dava vida às bonecas que animavam o seu mundo feérico.

Na penúltima manhã do ano, quinta-feira 30 de Dezembro, a médica deslocou-se ao hospital para assistir à missa pela alma do colega, a quem perdoara e por quem rezara para que, também ele, pudesse viver em paz no outro mundo. Depois da missa, na capelinha da clínica, passando pelo seu departamento, a Dra. Galvão teve a impressão que os colegas e o pessoal auxiliar a saudavam e a miravam com um olhar beato, como se a quisessem adular e pôr no altar. À saída, a Maria do Rosário, a recepcionista, esboçou um sorriso de alívio e, saltando da cadeira, correu a saudá-la, desejando-lhe as maiores felicidades a ela e ao Dr. Rui que, ao volante do carro, as espreitava e lhes acenava pelo vidro da porta de entrada.
Em Santo Amaro, a Sra. Noémia ia mantendo o lume aceso para que o cozido à portuguesa mantivesse a fervura, enquanto Celina ajustava os talheres e os guardanapos, sob o olhar orgulhoso do avozinho que, de pé e de atalaia, aguardava que os noivos chegassem para sossegar o corpo e a alma.
No fim da refeição, quando degustavam o pudim da sobremesa, o do telefone espevitou a curiosidade da Celina que saltou lesta da cadeira.
― Alô! Quem fala?
― Olá! Estás a reconhecer-me, Cély? ― inquiriu uma voz afável.
― Desculpa, mas, assim, à primeira vista, não, não estou a ver...
― Por favor, chama o teu papá.
― E quem lhe devo anunciar?
― A amiga da Dina ― respondeu a estranha.
― Ah, és, Vera!
― O Pai Natal trouxe-te muitos brinquedos este ano, Cély?
― Eu acredito nem no Pai Natal nem no Pai do Céu!
― Então em que acreditas tu, Cély?
― No pai da Terra.
― Eu também era assim, mas como o meu era muito mau, tive que sonhar com o Pai Natal. Ah, que o meu fosse como o teu...
― Graças a Deus, o meu é o melhor papá da Terra, Vera!
― Pois..., só é pena que tua mamã esteja no Céu!
― Quando vieres buscar as fotos que o meu papá seleccionou, vou contar-te um segredo que eu e mamã guardámos durante muito tempo.
― E que segredo é esse? ― insistiu a jornalista.
― Ah, Vera, achas-me assim tão tola para te revelar o meu segredo pelo telefone?! ― volveu matreira, entregando o auscultador ao pai que, acabava de chegar.
― Guardar segredos é com ela, Vera ― acrescentou vaidoso.
― Quando é que posso ir entrevistar-vos, Rui? ― perguntou a amiga.
― Não é para publicar imediatamente, pois não?
― Claro que não, Rui! Eu é que gosto de estar prevenida e de rever os artigos, antes de lhe dar uma forma definitiva. Se não te importasses, gostaria de os pôr a fermentar e a amadurecer na gaveta. Além disso, temos que agir, porque só faltam sete meses para o casamento.
― Sete meses?! Sete anos, Vera! ― bradou o noivo.
― Tens bom remédio, Rui ― acrescentou a confidente.
― Antecipo o casamento?
― Claro! Tanto mais que nada justifica tal espera. Tu e a Cris já vos conheceis e vos amais há uma eternidade...
― Não sei, mas tenho a impressão que o destino ainda me quer pôr à prova, quiçá para sofrer e me purificar um pouco mais... Entendes, Vera?
― Não, não entendo, Rui! Bom, mas como o teu coração tem um sétimo sentido, terás razões que eu desconheço. Segue o teu instinto e não te atemorizes com o destino que ele tem medo de ti...
― Que Deus te ouça, Vera! Olha, vem quando quiseres, mas telefona antes para que a Cris e a Cély também estejam. Sei lá, num dos próximos fins-de-semana, e aproveitaremos para almoçar fora, está certo?
― Certíssimo e que o ano de 1983 seja o ano da tua purificação!
― Que Deus vos proteja o teu lar e te permita realizar os teus sonhos mais intrínsecos. Escuta, a Celina quer enviar-te um beijinho.
― Outro para vocês. Eh, diz à Celina que me guarde o segredo só para mim. Adeus!
― Adeus, Vera! ― bradou sorridente, pousando o auscultador.
Mal virou costas, um trrim mais estridente ainda reteve-lhe a marcha, fazendo-o rodopiar e ir atender sem demoras.
― Alô? Ah, muito boa tarde, Dr. Edgar!
― Boa tarde! Há novidades, Rui, mas faça o favor de chamar a Cristina.
― Um momento, por favor! ― disse pensativo, tapando o auscultador e gritando: ― Cris! Cris!!!! É o teu papá, meu amor.
Acorrendo ligeira, a médica perguntou ofegante:
― Que me deseja, papá?
― O Sr. Sérgio Afonso telefonou e pediu-me para irmos falar com ele, se possível ainda hoje, porque amanhã o Ministério da Saúde está fechado.
― Que me quererá ele a estas horas?
― Mal não é, certamente, filha.
― Nós estávamos mesmo para sair...
― Então não se mexam! Preparem-se que eu não demoro ― sugeriu ofegante, enfiando a mão que a esposa lhe punha nas costas.
― Pronto, mas venha devagar, papá ― suplicou a médica, desligando e retirando-se apressada atrás do namorado.
― Não te aflijas!
― Porque me chamam eles ao Ministério? Será para depôr?
― Se o vosso amigo faz questão que o teu papá esteja presente só pode ser para coisa boa..
― Estou bem assim? ― perguntou inquieta, ajustando a saia que tirou apressadamente do guarda-roupa.
― Assim ou doutra maneira, tu estás sempre bem, meu amor!
― A sério! ― insistiu preocupada, mirando-se de alto a baixo.
― Não me diga que a senhora doutora quer ir de bata branca?! ― retorquiu irónico.
― Não gozes, Pat! ― barafustou nervosa, batendo o pé e mordendo os dedos como uma criança mimada.
― Ui! Assim estás um camafeu, mas dá para fazer subir ao sétimo céu um homem como eu ― sentenciou malicioso, retirando-se do quarto.
Correndo o fecho da saia, ela correu atrás dele, beijou-o e, vestindo o casaco acastanhado que estava no bengaleiro, foi ver-se ao espelho do corredor. Penteando-se à pressa, trocou de brincos e seguiu abraçada a ele até o jardim.
Mal teve tempo para se mirar. O BMW turbo diesel surgiu fulgurante em face da vivenda. Apesar da insistência, Rui Patrício não os acompanhou por julgar incorrecto da sua parte imiscuir-se numa conversa de amigos. Impaciente como estava, a médica nem se lembrou de insistir.
E, enquanto os Sampaio foram a Lisboa, os Fontoura aproveitaram para ir ao Stand de Carcavelos admirar os últimos modelos da BMW. Fascinado por um carro preto, o advogado chamou o vendedor, pediu-lhe algumas explicações técnicas, mas desistiu apenas ouviu o preço.
― Se o Sr. Dr. Aguiar gosta realmente deste modelo...
― Reconheço que é atraente, mas a Mercedes, de quem somos fidelíssimos clientes, faz-nos grandes reduções, oferece-nos óptimas condições de pagamento e, além disso, a assistência e o serviço após venda são impecáveis. Obrigado, mas estamos bem servidos, senhor...
― Pires! Paulo Pires, para o servir ainda melhor, senhor doutor! ― respondeu o gerente, sorrindo e apertando-lhe a mão calorosa.
― Como o Sr. Paulo Pires sabe, a Mercedes...
― É óptima, sem dúvida, mas que devo eu fazer para ser digno da sua confiança, Sr. Dr. Rui Patrício de Aguiar Fontoura?
― A essa questão... de confiança só Sr. Paulo Pires pode responder, não acha? ― retorquiu jovial, accionando o motor.
― Como sei também o vosso tempo muito precioso, não ouso retê-los aqui, mas ficar-lhes-ia extremamente grato se, antes de se decidirem, os senhores estudassem a minha proposta.
― Tem a minha palavra de honra! Contudo, até segunda-feira terei que comprar um carro novo. Adeus e muito prazer em conhecê-lo, Sr. Pires.
― Igualmente. Obrigado e muito boa viagem ― disse gentilmente.
― Com licença! Adeus! ― concluiu o advogado, arrancando lentamente com um aceno.
Na hora do lanche, Cristina contou-lhes o teor da entrevista no Ministério da Saúde, revelando-lhes que recusara uma promoção hierárquica e que aceitara sanear, gratuitamente, a gestão do hospital, pondo à prova a sua capacidade de chefia. É que ela detestava o compadrio e adorava imenso os desafios difíceis.

Depois do café, aproveitando a boleia do sogro, que retornava ao Monte Estoril com a esposa, Rui Patrício convidou a sua Vénus a seguí-lo no Mercedes e, chegado a Carcavelos, fez sinal ao sogro para que estacionasse. E, apontando o Stand da BMW, pediu à Cristina que fosse dar uma olhadela nos modelos expostos, enquanto ele falava com os sogros. Mesmo na hora de fechar, como ninguém entrasse, ela acenou-lhes da porta da garagem. Foi então que o advogado e os sogros se aproximaram e a viram instalada dentro de um bólide a acariciar-lhe o volante e o tabuleiro.
― Agrada-te? ― perguntou o namorado, espreitando para o interior.
― Além de confortável, o bichinho é raçudo!
― Ainda há pouco tive a mesma sensação.
― Ah, estiveste cá?!
― Como sei que vais precisar de um carro para ires trabalhar...
― Pois, mas um carro destes custa uma nota!
― O Sr. Pires ficou de me apresentar uma proposta, vou chamá-lo.
― Não me digas que já o namoraste?
― Ele pareceu-me um homem bom, honesto e digno de confiança! ― murmurou baixinho, roçando sensualmente os dedos no volante lustroso.
― Pronto, convosco tem que ser tudo à primeira vista! ― disse o sogro, envaidecido.
― Será que este é da mesma raça dos seus, papá?
― Bom, em mais de trinta anos de fidelidade, esta marca nunca me deixou ficar mal, filha ― testemunhou orgulhoso.
― O Sr. Dr. Sampaio disse trinta anos? ― inquiriu o gerente todo prosa.
― Sim, meu amigo, em trinta e três anos só conheci esta mulher excepcional que o senhor está a ver e três Bêémedablius ― disse o advogado, beijando amorosamente a mão da esposa.
― Nunca vi ninguém que tomasse decisões tão acertadas, Dr. Sampaio! Parabéns! Minha senhora... ― acrescentou o cavalheiresco, reverencioso.
― Saberá, porventura, o Sr. Pires como merecer a nossa confiança? ― questionou Rui Patrício.
― Depois do que acabo de ouvir, nem que passasse a noite a matutar, não encontraria, seguramente, melhor resposta, Dr. Aguiar.
― Sou todos ouvidos! Faça o favor...
― Pelo que li no jornal, o vosso casamento está agendado para Agosto.
― Marcado, Sr. Pires ― rectificou D. Susana, acariciando a filha.
― Olhe, como os sei pessoas de confiança, proponho-lhes que voltem amanhã, para que nós o possamos polir, e que o experimentem durante dois dias. Depois, se ele for mesmo o carro dos vossos sonhos, falaremos do preço e das modalidades de pagamento. Está de acordo, Dr. Aguiar?
― Perfeitamente, Sr. Paulo Pires ― aceitou o advogado, apertando calorosamente a mão ao negociante.
― Dá-me o teu bilhete de identidade, por favor, Cris.
― Não, regista-o em teu nome, Pat.
― Não seja tão teimosa, menina que o Sr. Pires tem que fechar!
― É possível registá-lo no nome dos dois, Sr. Pires? ― questionou a médica, saindo do B.M.W.
― Sim, mas se o Sr. Dr. Aguiar deseja que...
― Pronto, assegure-o então no meu nome ― concordou submissa, recebendo o consentimento paternal.
― Quer que lhe deixe um sinal, Sr. Pires?
― Por amor de Deus, Dr. Aguiar! ― recusou o gerente.
― Se for possível, instala-lhe um bom radio cassete digital ― sugeriu a médica, sorrindo e dando a mão ao futuro marido.
― O melhor, um pionneer, senhora doutora. Até amanhã!
― Até amanhã! ― responderam todos, acenando jovialmente.
Entregando a chave do Mercedes ao padrinho, Rui juntou-se aos sogros e à noiva, partindo imediatamente para o solar, onde, radiante, Júlio lhes confirmou a gravidez da Sílvia. Pelos cálculos da mãe, o bebé viria à luz nos princípios de Setembro, um mês depois do casamento dos tios. Ao serão, o Dr. Sampaio comentou a situação política nacional e, reconhecendo a clarividência e a frieza de análise do genro, observou:
― Se fosse há quinze ou vinte anos, serias, indubitavelmente, filha, a esposa de um óptimo ministro de estado.
― Ministro?! Só?! Nem me fale disso, papá! O ministro não passa de um servidor. Eu quero ser a rainha de Sua Majestade Tapiur I! ― retorquiu altiva.
― Eu estou a falar a sério, filha!
― Eu também, papá.
― É, o Rui Patrício tem que deixar de andar a iluminar essas candeias apagadas e candidatar-se a deputado ― apoiou a professora, acariciando a mão peluda do marido.
― Era o que eu faria, se não fosse militar ― opinou o brigadeiro.
― Vá, maninho, não me queiras aliciar o marido que de política já ele tem vírus a mais no sangue, ouviste? Mudando de assunto, a Sra. Gestora estaria, porventura, interessada em estudar comigo um plano para optimizar os recursos do hospital? ― perguntou séria, fitando a cunhada.
― Porque não? ― respondeu a gestante.
― A sua princesa anda em maré de sorte, não anda, papá? ― retorquiu o militar, um nadinha invejoso.
― E tu não, Júlio? ― questionou o pai, mirando-o obstinadamente.
― Tem razão, papá, mas com ela é demais e não pára. Senão veja o que lhe aconteceu em dois meses: primeiro, encontrou o seu príncipe encantado; depois, e segundo, teve a sorte de vender o Austin a tempo; em terceiro herda um medalhão de ouro e hoje, num dia só, quarto, vê-se forçada a aceitar uma promoção e, quinto, um carro de sonho. Isto é sorte a mais, puxa!
― A minha rainha merece muito mais, Sr. Brigadeiro!
― Santa como é, até o Paraíso já tem garantido! ― ironizou invejoso.
― Pois, mas antes tive que passar pelo Inferno, não te esqueças, enquanto tu passas o tempo no Céu! ― arguiu oportunamente a médica.
― A propósito, e antes que me esqueça, vocês já sabem onde vão festejar a passagem de ano, Sílvia? ― perguntou a professora.
― Não, como foi o meu pai que organizou tudo, vai ser uma surpresa, D. Susana ― respondeu a nora.
― E vocês, mamã? ― volveu o aviador.
― Este ano não programamos nada!
― E vocês têm algum plano, Rui Patrício? ― perguntou o patriarca.
― Não, não temos, Dr. Edgar, porque não podemos ir muito além da meia-noite: a Cris pega ao serviço às oito horas do primeiro dia do ano, não é meu amor? ― esclareceu o noivo.
― É, ainda não será este ano que poderei festejar o Réveillon como gostaria ― confessou desconsolada.
― Tens bom remédio, mana!
― Qual, Júlio?
― Antecipas a S. Silvestre. Em vez de a festejares amanhã...
― Hoje? Agora? Daqui a pouco?
― E porque não?!
― É, no dia 1 voltaria mais atinada para o trabalho... Que dizes, Pat?
― Se o papá nos emprestar o BMW, por mim tudo bem, bela princesa.
― Tomem lá as chaves ― acrescentou prontamente o Dr. Edgar, empiscando à esposa, que baixou os olhos para esconder um riso malicioso.
― Então, adeus e até amanhã! ― exclamou a noiva, erguendo-se lesta.
― Boa noite a todos e bom ano! ― bradou o noivo, seguindo a sua graciosa Afrodite.
― Boa noite e muito juizinho, senão ainda fazem o menino! ― brincou Júlio, descarado.
― Boa noite, divirtam-se e não sigam os conselhos do Sr. Brigadeiro ― respondeu a professora, acenando aos apaixonados que, depois de vestirem um sobretudo, esticaram a língua ao Júlio, partindo de mão dada.
Apenas entraram no carro, os noivos assentaram-se, beijaram-se e desapareceram na noite, trauteando euforicamente os sucessos que a Rádio Renascença ia difundindo.



No Estoril, ainda passaram diante do Hotel Palácio de tão sublimes recordações, mas não pararam, retomando a estrada Marginal na direcção de Cascais, cuja iluminação de Natal se reflectia na baía, e foram cear ao Mar do Inferno, onde o desmaio do dia 2 de Novembro último selara definitivamente os seus destinos, abrindo-lhes as portas do Paraíso e devolvendo-lhes a felicidade perdida. À mesa, iluminados pela luz ténue de uma vela, não pararam de jogar ao sério, encandeando-se mutuamente: o brilho da chama amarela, reflectindo-se nas retinas platónicas, desnudava-lhes a alma enfeitiçada; as mãos esguias, roçando voluptuosamente, encrespavam a paixão que os pés, escondidos em subtis tacteios, faziam alastrar pelas artérias dos seus corpos febris. Deificando-se reciprocamente, Pat e Cris iam saboreando a inefável magia da libidinosa adrenalina em viagem de amor pelas alamedas da quimérica Via Láctea. E nem o Café Glacé, que se ofereceram amorosamente um ao outro, conseguiu amainar as ondas alterosas que a paixão fazia desmaiar nos seus corações ululantes.
Depois da sóbria refeição, retomaram a viagem pela estrada da Boca do Inferno e, assediados pelo inelutável desejo, viram-se forçados a saciar a indomável fragrância libidinosa que delirava pelos desembarcadouros dos seus corpos enfurecidos. Rolando pacatamente uns trezentos metros, o cupido entrou, pela rua Frei Nicolau de Oliveira, na silenciosa Quinta da Gandarinha e, dissimulando o B.M.W negro na escuridão, desligou o turbo do motor a diesel e trancou as portas, obedecendo cegamente àquele olhar louco. Arrancado à realidade pelos bafejos sensuais da divina Afrodite, ele partiu em desordenados tacteios pelas margens da admirável sinuosidade, mas ela, conhecendo melhor que ninguém os seus pontos fracos, atraiu-o para a sublime fenda vital, obrigando-o a escalar voluptuosamente as escorregadias ravinas do monte de vénus e provar o salino néctar com a língua, enquanto os dedos mão direita se infiltravam, corpo acima, pelas encostas dos hemisférios à descoberta do mamilo. Deleitada, a Afrodite esqueceu momentaneamente os ânimos egocêntricos e, libertando o acorrentado estigma da fertilidade varonil, desflorou-o para o beijar também, todavia o incómodo nicho não lho permitiu. Ainda pensaram mudar-se para o banco traseiro, mas, retendo os impulsos libidinosos, preferiram recompor-se e partir à procura de um ninho onde pudessem saciar amplamente a impetuosa paixão.
Em Cascais, pedindo ao seu bem-amado para estacionar perto de uma cabina pública, Cris ligou para o solar e soube, pela mãe, que o irmão e a cunhada haviam decidido passar a penúltima noite do ano na Amadora. Condoída, a médica sossegou-a, dizendo-lhe que se fossem deitar tranquilos, que eles já estavam a caminho. E assim foi, entristecida pela solidão dos seus adoráveis velhotes, que Cris elegeu o sótão da primeira vez para antecipar a passagem de ano.

No dia seguinte, sexta-feira, 31 de Dezembro de 1982, quando o pêndulo do solar repicou as onze horas, como eles ainda dormissem e o marido já os esperasse para irem buscar, como combinado, o BMW ao Stand de Carcavelos, D. Susana decidiu ir bater-lhes ruidosamente à porta do quarto.
Assarapantados pelo ruído e pelo reflexo dos números do relógio digital, os noivos agradecerem e, vestindo-se à pressa, lavaram-se mais rápido que o diabo esfrega um olho, correndo aflitos para o terreiro. Como o pai lhes aconselhasse calma, a médica pediu à mãe que se vestisse também, enquanto o Rui avisava a Sra. Noémia que, além da filha e do padrinho, teria mais quatro para almoçar, sugerindo-lhe, porém, que não cozinhasse nada de pesado, visto aquele dia ser muito longo.
Entretanto, ouvindo o genro, Dr. Sampaio pediu à esposa trouxesse o casaco de pele. Antes de partir, porém, foram desejar um bom ano à Maria e à Ana, atarefadíssimas com a limpeza geral do solar, recomendando-lhes que fechassem bem as portas antes de saírem e meteram-lhes discretamente no bolso mais uma abençoada gorjeta.
Em Carcavelos, o Sr. Pires aguardava-os serenamente perto da viatura luzidia. O meio-dia estava mesmo a bater, quando no seu olhar se espelhou a imagem dos noivos, irradiando uma contagiosa e indescritível felicidade.
― Bom dia!! ― exclamou o gerente, apertando-lhes as mãos suaves.
― Bom dia! ― responderam sorridentes.
― Pontualidade Suíça, Dr. Aguiar!
― Se quer que lhe diga, hoje, quase transgredia este sacrossanto princípio, Sr. Pires. Mas que agradável surpresa! Além de simpático, vejo que o senhor de muito bom gosto. Parabéns!
― Era assim que o queria, Dra. Cristina? ― perguntou emproado, fitando o presente que estava dentro do BMW.
― De fada devem ser as mãos que bordaram esses corações, Sr. Pires.
― Ontem à noite, quando falei de vocês à minha Vilhelmina...
― Vilhelmina?!
― Sim, senhora doutora, Vilhelmina o nome da minha esposa.
― A minha avó, que mandou fazer e usou este medalhão, também se chamava Vilhelmina ― revelou a médica, mostrando a jóia que adornava o seu pescoço esbelto.
― Apraz-me constatar que as Vilhelminas têm muito bom gosto!
― As Vilhelminas são raras como as pedras preciosas, Sr. Pires.
― E, pelo que vejo, dão sorte!
― Porquê? ― perguntou cabisbaixa, admirando o interior do carro.
― Bom, porque não é todos os dias que se descobre uma mina de pedras preciosas, pois não, Dr. Rui?
― Sem dúvida! ― apoiou o advogado, sorrindo ao gerente.
― Como não sei se apreciam os spoilers, ainda não lho pus ― disse o garagista, pegando no apêndice e colocando-o no carro para eles verem.
― Gostas, Cris?
― Se não for muito caro! ― murmurou pensativa.
― Fica mais aerodinâmico, filha! ― acrescentou jurista, seduzido.
― É, assim não confundimos com o nosso ― disse D. Susana, empiscando ao genro.
― É caro, Sr. Pires? ― insistiu a noiva, acariciando o volante.
― Oferta da casa, ou, se preferirem, da Vilhelmina!
― Onde estiver, obrigada, D. Vilhelmina!
― Então o meu chefe de atelier ocupar-se-á de lho instalar enquanto acertamos alguns pormenores. Façam o favor de me seguir ― convidou o gerente, acenando ao empregado e dirigindo-se para o seu escritório.
Enquanto Pat e Cris conversavam, D. Susana despiu o manto e, instalando-se ao volante, saboreou o confortável assento da viatura negra, observada pelo marido, que ora lhe sorria, ora admirava a destreza do mecânico. Os dígitos verdes fascinaram-na tanto que ela não resistiu à tentação de experimentar o som estéreo do radio cassete.
À uma menos vinte, segurando cautelosamente o volante da viatura, Cris dava bridas à Liberdade, que a felicidade fazia renascer no seu peito ofegante, adulada pelo noivo e invejada pela mamã que, fascinada, quisera acompanhá-los para sentir o odor da viatura. Seguindo-os a uma respeitável distância para os proteger da fúria irracional dos malucos da velocidade, tão comum naquele asfalto, Dr. Edgar não parava de sorrir à esposa.
Em Santo Amaro, Celina, que os vira chegar, desceu logo a saudá-los e a gabar o brinquedo da princesa Sirc, impressionada pelo som melodioso que ecoava pelas campânulas incorporadas nas portas laterais. Tal criança mimada, a médica não sabia como lhes pagar a alegria que sentiam.
Ao almoço, a felicidade metamorfoseava divinamente aquela refeição. O encanto era tanto que o arquitecto, com a sua modéstia peculiar, pediu aos colegas que o ajudassem a passar de ano, porque com a Celina e a Sra. Noémia não conseguiria comer os doces todos nem beber sozinho uma garrafa de champanhe. Como eles hesitassem, a médica, fitando os pais, disse candidamente:
― O padrinho nunca ouviu dizer que quem cala consente? O papá e a mamã vão jogar uma Suecada connosco, brindar a 1983 e, depois, dormem cá pois, com esses doidivanas embriagados, é muito perigoso voltar para casa de madrugada.
― Pronto, Félix, só ficamos se depois apresentares a conta à Cris ― interferiu o Ex-Conselheiro, empiscando à esposa.
― A vovó Susana conta-me uma história? ― perguntou a Celina.
― Duas ou três, filhinha ― respondeu carinhosa.
― Obrigado, vocês são os melhores papás do mundo! ― agradeceu a médica, enviando-lhes um beijinho carinhoso.
― Nós só lhe arranjamos trabalhos, D. Noémia ― comentou o Dr. Edgar, sorrindo à velhota.
― Trabalho, senhor doutor?! Com a Celina a tratar da casa, isto agora é uma brincadeira! ― respondeu a governanta, empiscando à mocinha.
― Mesmo, Celina? E eu que pensava que tu só sabias dar ordens! ― bradou a catedrática, traquinando a netinha.
― Ordens, só em sua casa que mais parece um castelo, vovó! Aqui, eu aspiro, limpo o pó, faço as camas, lavo a loiça, ponho e levanto a mesa...
― Credo, tanto coisa, filhinha! ― volveu admirada.
― Só não mexo no gás porque a vovó Noémia não deixa!
― E quanto te pagam por isso tudo, Celina? ― perguntou vovô Edgar.
A mocinha sorriu, pensou um instante e, mirando o pai silencioso, disse:
― O papá compra-me tudo o que preciso: vestidos, sapatos, livros, doces e dá-me muito mais amor, sobretudo depois que a mamã foi para o Céu.
E a emoção, subindo-lhes à garganta, fê-los emudecer por longos segundos. Depois, mudando de assunto, a médica falou-lhes da sua nova missão e pediu-lhes sugestões, como utentes, para tornar o hospital mais funcional, eficaz e humano, dizendo que a melhoria da saúde pública dependia, também, do interesse, da participação e da persistência da indignação dos doentes, em particular, e da sociedade em geral.
Rui Patrício, depois de escutar as opiniões do padrinho e dos sogros, aceitou, enquanto eles viam o telejornal, falar de assunto a sós com a noiva.
― Se calhar a minha opinião carece de confirmação, mas resume-se nisto: o hospital é, obviamente, o local onde as pessoas mais precisam de apoio moral e de amor, porque a ele se vêem forçados a recorrer nos piores momentos da vidas, certo? O corpo médico e o auxiliar é, na maior parte dos casos, a última tábua de salvação que, desesperadamente, os doentes tentam agarrar e de quem esperam milagres impossíveis. Aí, nessas horas, é preciso que os serviços de saúde saibam escutar e atenuar a dor e o sofrimento das pessoas, que lhes transmitam um pouco de coragem, de confiança e isso só será possível se eles próprios não tiverem ou arrastarem para o hospital os seus problemas particulares. Deves pois, meu amor, procurar sarar primeiro a mentalidade e equilibrar o biorritmo afectivo do corpo médico, escutando-o e estimulando-o a falar, individualmente ou em equipa, tu lá verás como é que eles se sentirão melhor. É que, só pensando mais e resolvendo os seus próprios problemas, poderão incorporar nas suas terapias a dimensão humana e usar o melhor dos antibióticos: o amor!
― Hum, obrigada por mo recordares, meu amor! ― suspirou beijoqueira.
― Mais, em tudo o que fizeres, lembra-te sempre que não há soluções duradouras e eficazes se, no centro de tudo o que possas empreender, não estiver a dignidade da pessoa humana, pois é com ela e por ela que todos trabalhamos. Evita dar ordens e impor ideias, suscita-as de preferência e verás como os teus colegas sentirão o dever de assumir, cada um no seu lugar, as suas responsabilidades. Ouve muito, porque as pessoas cada vez têm menos quem as escute e as valorize. Enfim, humilde e generosa como és, só poderás vir a conseguir os teus objectivos e ser bem sucedida na tua missão, Cris.
― Achas?
― Absolutamente!
― Estou com tanto medo, Pat!
― É normal. Estás diante de um grande desafio e sentes uma responsabilidade enorme, por isso, como te disse, divide-a com os outros, delegando-a e avaliando o desempenho de cada um para que eles nunca duvidem da tua autoridade. Direi que tens que ser como és: docilmente forte!
― Tu tens o dom da palavra. Cedo te habituaste a enfrentar multidões e a contrariar adversários políticos, depois, nas barras dos tribunais desenvolveste ainda mais a tua oratória. Eu...
― Nunca duvides de ti e terás êxito em tudo o que empreenderes, meu amor! Tu possuis outras qualidades bem mais persuasivas. Além disso, depois de te lançares à água só tens que nadar e pedir auxílio se, por acaso te sentires em grande dificuldade. As pessoas podem ser más e egoístas, mas extremamente boas e generosas quando ouvem um S.O.S: é o instinto de sobrevivência da nossa raça que vem ao de cima, Cris. Olha que, excepto eu, ninguém te come ― acrescentou malicioso, deitando-se por cima dela, e mordendo-lhe delicadamente a orelha.
― Hum, se calhar!
― Bom, se te quiserem comer, diz-lhes que vendeste o teu corpo a uma tribo de canibais forretas e já lhes gastaste o dinheiro.
― Ai credo, que horror! ― bradou arrepiada.
― Horror não, humor. Vá, desculpa, querida, mas o que eu te quero dizer é que rir, nem que seja de nós próprios, faz muito bem e a jovialidade é saúde, sobretudo para quem tem tão delicada missão.
― E se não conseguir?
― Não, Cris, nunca te metas no condicional. Vê e pensa positivo. Diz, eu quero e posso, logo consigo. Mas basta de teorias. Anda, vamos dar uma lição de sueca aos velhotes.
― Ei, ainda te lembras das chitadas que demos à mãe e à Dina?
― Claro que lembro, tolinha! Nesse dia, perdão, nessa noite, eu passei o jogo a fazer renúncias para te impressionar, mas tu estavas tão ceguinha...
― Mas hoje não vais fazer batota, pois não?
― Bom, renúncias não farei, mas favores de cortesia também não, ouviu menina? Se é para brincar e perder de maneira boba, mude de parceiro, que eu só jogo para ganhar.
― Se juras que não fazes batota, traz as cartas que eu vou chamá-los ― disse duvidosa.
E, para não haver brigas, deitaram reis, ditando a sorte que o pai fosse o parceiro da filha e o genro jogasse com a sogra, enquanto o Dr. Félix e as suas governantas tratavam da ceia e dos petiscos do fim de ano. Fartos de jogar, verificando que havia empate, preferiram sair e espraiar um pouco no terraço, admirando a baía e o mar sussurrante e retirando dos seus rostos aquele ar sisudo que o jogo lhes dera. Constatando a correria suicida dos bólides da Marginal, ergueram os olhos ao Céu, pedindo que nenhum deles escolhesse aquele dia para passar o outro lado da vida, obrigando a médica a uma intervenção urgente.
Meia hora antes do parto do novo ano, depois de recordarem os factos mais relevantes desde os tempos da faculdade, onde se conheceram, Félix chamou os amigos para a mesa e convidou-os saborear um prato frio de salmão defumado e rissóis de camarão com um vinho verde, ficando o bolo e o champanhe para festejarem e brindarem a l983, entre beijos e abraços, admirando o fogo de artifício que, lançado do tabuleiro da Ponte 25 de Abril, iluminaria o Cristo Rei e o céu de Lisboa.
Depois de falar com o Júlio, a quem retribuíram os desejos de um ano cheio de amor e de prosperidade, que ele lhes enviou do Casino do Estoril, onde estava com a esposa e os sogros, os noivos e Cris subiram para o quarto do sótão que, renovado e decorado a preceito pela fascinante Dina, presenciara as mais delirantes sinfonias de amor do jovem Rui Patrício, Verão de 1973, só descendo para brindarem com a família, cinco minutos antes da passagem de ano.
Apesar do soberbo espectáculo com a pirotecnia lusitana maravilhava os Lisboetas, a árdua missão que, naquele sábado 1 de Janeiro, iniciaria, não deixou a médica admirar o fogo de artifício do terraço em paz.
Às seis horas e quarenta, vestida e penteada, Cris foi beijar a irradiante Celina no rosto e desceu para tomar o café que a D. Noémia, madrugadora como sempre, lhe preparava na cozinha. Pouco depois, surgiu o noivo a bocejar de sono.
― Para onde vais, querido? ― perguntou surpreendida.
― Até o colchão fica mal-humorado, quando tu não estás a meu lado! ― cochichou enamorado, ajustando a camisola de gola e o cinto castanho.
― Espera!
― Vou comprar bolos para o café.
― Bolos?! O padrinho comprou-os ontem à noite, Ruizinho! ― avisou a velhota, apontado para a bandeja tapada atrás do vaso de flores.
― Hum, que bom! ― exclamou guloso, descobrindo as suas natas.
― Se tiver um mil-folhas...
― E cocos e bolinhas...
― Obrigada, um mil-folhas.
― Se quiserem, eu estrelo-lhes uns ovinhos!
― Obrigado, Sra. Noémia! A Cris...
― Não me diga que ainda a quer mais elegante? A menina coma, senão ainda lhe dá fanico! ― alertou a governanta.
― Logo que seja no hospital... ― respondeu a médica, comendo o bolo e bebendo o café.
― No Verão, quando a Cris largar estas roupas largas, a Sra. Noémia verá como as aparências iludem!
― Não estás na pensar que é para esconder a celulite...
― A celulite não, a cera!
― Olha quem fala! A folha de papel...
― Ah, mas eu tenho atenuantes!
― Que atenuantes? ― indagou corada.
― Depois do que me aconteceu, adeus praia, adeus joggings...
― E eu, achas que conhecendo o teu sofrimento e o meu...
― Que Deus te pague, meu amor!
― Deus não, tu é que vais ter que pagar e com juros por tudo o que fizeste, disseste e pensaste ― afirmou vingativa.
― Queres torturar-me? Pois, tortura! Queres comer-me? Pois come, mas deixa-me pelo menos os ossos, para os juntar aos dos meus pais! Dito isto, mexa o rabistel que o tempo... ― disse impaciente, consultando o relógio e bebendo o último golo de café.
― Os meninos vêm para almoçar? ― perguntou a velhota.
― A Cris não. Eu, se não vier, avisarei antes do meio-dia.
― Então boa viagem e que Deus vos abençoe; Boa sorte, menina!
― Obrigada! Adeus! ― gritou da soleira da porta, acenando de costas.
Arrancando a todo o gás, o BMW rapidamente atingiu os cem. Enquanto conduzia, Rui Patrício não parou de aconselhar calma à noiva e, sobretudo, lhe relembrar quão importante era simpatia que ela irradiava. A simplicidade e a afabilidade, servidas por uns olhos tão fascinantes, seduziriam, seguramente, os subordinados que comandaria doravante. E assim aconteceu, mas azáfama daqueles dias atarefados, não tendo em quem se desforrar, foi-lhes roubando, subtilmente e cada vez mais, o tempo do amor...



Continua em: A Força do destino - Capítulo VI


LMP, LUXEMBURGO - FEVEREIRO DE 1997 /LUD
MacMartinson

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