Lady

sábado, 12 de abril de 2008

FD * Capítulo XII



CAPÍTULO XII


Depois da conferência no Ministério da Saúde, onde, pela RTP, o país pudera confirmar a firmeza e a nobreza de carácter dos seus noivos mais queridos de Portugal, Pat e Cris reviveram uma memorável noite de amor numa das mais belas suites do Hotel Palácio, para que os seus corpos ardentes nunca deixassem extinguir nas suas entranhas as labaredas da paixão. E os seus jogos íntimos prolongaram-se, com a benevolente cumplicidade da recepcionista, amiga do Zé Manel, o moço que o Dr. Rui de Aguiar salvara da prisão perpétua, até ao meio-dia, depois de, pelas nove horas terem saboreado um copioso breakfast, que lhes permitiu recuperar as calorias esbanjadas com a sedutora e inebriante sinfonia do amor.

Segunda-feira, quando chegaram ao solar, onde eram aguardados pelo padrinho, a Celina e o Júlio e a Sílvia, verificaram, pelas manchetes dos jornais, a sua imensa popularidade, assustando-se com o exagero e a eloquência dos títulos como: Simplesmente Heróis! Pelo Amor de Uma Mulher! Os conquistadores estão de volta! Humilde Herói! Os Caminhos da Glória! Corações de Ouro! e outros tantos subtítulos eloquentes, arrepiaram-nos. Porém, mal o leu de longe, por ocupar uma página completa, o que Rui mais adorou foi A FORÇA DO DESTINO!, assinado pela amiga que melhor o conhecia.
Pegando no auscultador, o advogado telefonou-lhe imediatamente para a felicitar, mas o Rui, o filho mais velho da assessora respondeu-lhe que a mamã saíra para o Monte Estoril. Olhou instantaneamente para a janela e descobriu e sorriu.
― Que telepatia, Vera! Acabo mesmo de ligar para tua casa! O Ruizinho disse-me que tinhas saído. Obrigado! Hum! Parabéns! ― bradou radiante, beijando-a no rosto.
― Olá! Bom dia a todos! ― exclamou ofegante, saudando-os à pressa.
― Acalme-se, Vera, que hoje não se trabalha! ― acrescentou Júlio, brincalhão.
― Engana-se, Sr. Brigadeiro! Porque pensa que eu estou em brasas? ― replicou a jornalista, impaciente, tremelicando e segurando um papel.
― Não me diga que acertou na lotaria, Vera?
― Acertaremos e na americana, Júlio, se os pombinhos quiserem!...
― Por favor, não perguntes ao ceguinho se quer ver! ― ironizou o noivo, segurando jovialmente a mão da sua amada.
― Não me diga que os americanos querem comprar a vida do papá? ― interferiu Celina, constatando a perplexidade do pai.
― Ei, vocês vivem uma bruxa..., perdão, com uma fada! ― arguiu estupefacta, empiscando à princesinha.
― Não?! Não me diga que a Celininha sonhou com o filme da vida do Rui Patrício?! ― deduziu a catedrática, perplexa.
― Pois, eu sonho muito todas as noites, vovó! ― confessou a pequenita.
― Sonhas com namorados, com fadas... ― disse o militar, reinadio.
― Com namorados não preciso de sonhar, tio Júlio, porque já tenho dois.
― Eh, vocês deixam a Vera falar, deixam? ― interferiu o interessado, pondo um ponto final à ironia do cunhado.
― Imaginem que a Century Fox e a Paramount Pictures, as duas mais famosas produtoras de Hollywood, querem fazer um filme sobre a vossa vida e estão tão apressados que mandaram o embaixador americano em Lisboa telefonar-me. Este é o número do telefone celular dele.
― Celular?! ― estranhou o arquitecto.
― Sim, Dr. Félix, o celular é um telefone via satélite, sem fio, que se pode transportar no bolso e que está a revolucionar a indústria das telecomunicações, mas que ainda vai levar uns anos a chegar a Portugal ― informou a jornalista.
― Mas isso é formidável, Vera! Com um telefone desses, tudo teria sido muito mais fácil! ― exclamou a médica, pensativa, imaginando as vantagens de tão revolucionária descoberta.
― No Pentágono, eles já usam isso há muito tempo. Aliás, eu nunca vos disse, mas a maninha foi seguida em permanência por um satélite espião americano ― confidenciou orgulhosamente.
― Em permanência?! Não é bem assim, Júlio. Bom, a partir do momento em que ela accionou o microprocessador, sabíamos onde a poderíamos encontrar, morta ou viva, se ela não fosse queimada... ― clarificou o noivo.
― Por detrás do couro da marca dos teus jeans tens um minúsculo emissor que um oficial americano de origem portuguesa, o Bill Garcia, nascido em Negrões, no concelho de Montalegre, ofereceu ao Júlio, quando passou pelo pentágono. Como vês, afinal, o Arturzinho não era o teu único anjo da guarda, filha! ― esclareceu a professora.
― É verdade, o emissor! Mas... eu nunca mais pensei nele, Júlio!
― O quê?! Se não foste tu quem... Quer dizer que os meus conselhos... os mandaste às malvas? ― questionou o irmão, perplexo e incrédulo.
― Quem accionou o dispositivo, se não foste tu, Cris?
― Quer dizer que aquela pulga metálica, que mordia o rabistel de vez em quando, era um microprocessador... Ah! Um dia enervou-me tanto que a tirei do bolso de trás e a meti... Onde a meti? Olha, se queres que te diga, Júlio, já nem lembro..., mas pouco importa! O pai queria dizer?
― Estou a ver que os americanos ainda me compram o sócio e o genro, Vera ― observou D. Edgar, empiscando à filha.
― E vocês acham que há dinheiro que pague esta feiticeira?! ― acrescentou Rui, beijando amorosamente a noiva na boca.
― Uah! Estou mesmo a ver que vamos todos para Hollywood fazer cinema! ― gritou Júlio, entusiasmado.
― Vera, liga ao Sr. Embaixador e diz-lhe que nós estamos dispostos a estudar todas as propostas, se as produtoras me derem dois meses para, enquanto tenho a memória fresca, escrever um livro, que servirá de cenário e guião para o filme.
― Oh! Os americanos vão meter sangue no filme, papá ― bradou Cély.
― O sangue está associado à vida! Mas... porque me dizes isso, filha?!
― É que, afinal, eu sonhei com o filme dos americanos. No meu sonho havia tanto, tanto sangue, que tive que sonhar por duas vezes, pois da primeira acordei toda suada e a tremer de medo. Depois, como o fim era lindo, até chorei de alegria. Ai, tu e a Cris estáveis tão giros, papá! ― exultou a criança, arregalando os olhos.
― A sua esposa está tão amuada, Júlio! Diga qualquer coisa, Sílvia.
― Se o Dr. Félix soubesse como é bom sonhar acordado! ― bradou a gestora, felicíssima, acariciando a barriga.
― O bebezinho já mexe? ― insistiu o arquitecto, carinhoso.
― De mais, Dr. Félix! O papá habituou-se a brincar com ele todas as noites e agora, quando ele não vem ficar a casa, é um bate-bate nas minhas costelas que nem imaginam. É interessante, às vezes tenho a impressão que é de zangado que ele me dá com os pés ― confidenciou a gestante.
― Não me diga que vou ser padrinho de uma jogadora, Sílvia?
― Porque não, compadre?! – replicou a gestora, empiscando ao cunhado e parando para que a jornalista lhes contasse o teor da conversa que acabava de ter com o diplomata americano.
― Amanhã podemos ir falar com Sr. Embaixador Frank Tartucci às dez horas. Até lá, seria bom que a Sampaio & Aguiar estudasse o assunto e vocês levassem na manga uma contra proposta mais vantajosa para todos. Generoso como é, estou certa que o Dr. Rui Aguiar não se esquecerá de ninguém, mesmo dos figurantes mais insignificantes... Bom...
― Só mais uma coisa, Vera! ― interpelou o advogado.
― Posso roubar-te o título da primeira página do Diário?
― A Força do Destino, Rui?
― Sim, minha amiga!
― Se o senhor escritor me prometer que não omitirá o mínimo detalhe daquela tarde em que, sentindo-o passar-me voluptuosamente o bronzeador nas costas, na praia da Azambujinha, cheguei a iludir-me e a imaginá-lo..., enfim, passemos, senão a Cris ainda vai pensar o que não foi, estou perfeitamente de acordo!
― E quanto lhe devo pagar, menina?
― A ilusão só exige um tributo a quem a tem. Essa não a teve, pois não?
― Não, mas ainda não é tarde de mais, Vera!
― Para mim é e, de qualquer maneira, essa ficou saldada naquele dia! Vá, escreve isso depressa! Até logo e bom apetite a todos ― disse corada, acenando e correndo apressada.
― Até logo, Vera! ― exclamou todos.
E, aproveitando o conselho, não perderam mais tempo. Depois da refeição, os compadres foram passear pelo pinhal de braço dado, curtindo o Sol Primaveril. No jardim florido, os botões das rosas abriam-se a olhos vistos e as maias, amarelinhas como as gemas, davam outro encanto à floresta, onde os passarinhos, acasalando-se e chilreando, faziam os ninhos; envaidecida com aquele promontório, em natural expansão, a Sílvia não cessava de elogiar o marido, contando aos cunhados as brincadeiras nocturnas com o bebé ou as longas esperas para o ver mexer e lhe fazer cócegas; a felicidade, tantas vezes ameaçada, assentara definitivamente arraiais nos seus corações; Cristina, essa, bem olhava para a barriga, mas ela mantinha-se firme e elegante como há um mês atrás.
Quando voltaram, duas horas depois, Dr. Edgar, que tentara dormir a sesta, mas não conseguira fechar os olhos, tal era a ânsia de elaborar o contrato para apresentar ao embaixador dos Estados Unidos no dia seguinte, apresentou ao genro um rascunho. Assentado-se no sofá com a noiva, Pat leu-o baixinho e pediu ao sogro que aumentasse a contrapartida financeira para três milhões de dólares e lhe salvaguardasse, numa cláusula especial, os direitos da edição inglesa e francesa do romance, cuja publicação devia ocorrer, na pior das hipóteses, dois meses depois da projecção do filme. Erguendo-se, a médica foi à sala de televisão chamar o irmão e a cunhada para tomarem o lanche com os pais, porque o Dr. Félix, cansado, preferira retornar a Santo Amaro mais cedo e a Celina dormia ferrada no quarto do sótão, onde se costumava refugiar para reviver o passado e falar com a mamã, cuja foto a rival aí afixara depois da tragédia.


Nas duas semanas que se seguiram, enquanto afinavam os últimos detalhes do dia mais desejado da vida da filha, Dr. Edgar e a professora Susana tentavam resolver tudo a tempo, para que no dia 12 de Maio à noite pudessem estar em Fátima para participar na tradicional procissão das velas. Rui Patrício, que depois do amistoso encontro com o simpático embaixador Frank Tartucci, percorrera religiosamente os sítios onde, naquele inesquecível Verão de 1973, o seu coração, antecipando a revolução de Abril de 1974, se libertara dos fantasmas eclesiásticos e, tal condenado, se lançara de cabeça perdida nos inebriantes braços do amor, decidira refugiar-se no seu quarto e escrever freneticamente o romance que todos lhe reclamavam. Sabendo-o tão obcecado por essa ideia, a Sra. Noémia deixara de utilizar o aspirador para não o perturbar; a Celina, compreensiva, nunca mais pedira para lhe contar histórias antes de dormir, evitando roubar-lhe tempo e distraí-lo; o arquitecto, esse, aproveitara para ir à Asneia, a aldeia do senhor Xaquim de Angola, procurar o Manel da Rita, a quem pagou para que florisse, regularmente, a campa dos pais do único soldado da aldeia falecido na guerra colonial, antes de ir visitar a da sua Alice e convidar os tios do Rui Patrício, que nunca mais voltaram à terra, para o casamento; Cris, atarefada com a organização da cerimónia, só vinha ter com o ermita solitário, à noite, para dormir, ou quando, sob a influência das cenas que descrevia, ele lhe pedia que lhas relesse, acabando, quase sempre, excitados pela magia do erotismo, por fazerem amor; Vera, que, entretanto, começara a publicar as entrevistas realizadas antes da aventura africana, telefonava-lhe todos os dias à hora do almoço, para saber se já tinha escrito a cena da praia da Azambujinha; Paula, a trabalhar para a Sampaio & Aguiar, Advogados, cujos escritórios provisórios eram os do Rui em Miraflores, andava muito ocupada com a escritura do apartamento que havia sinalizado com o dinheiro do Austin Morris; no hospital, o pessoal e os doentes começavam a sentir saudades da Dra. Cristina, apesar de ela os visitar de dois em dois dias; padre Ximenes, em Manique do Estoril, ensaiava o coral para que os cânticos do matrimónio do irmão comovessem os anjos do Céu; no solar, a ilustre família engajara temporariamente mais duas empregadas para porem a mansão a brilhar, enquanto que Júlio, Sílvia e D. Elvira, a trabalharem dia e noite como mouros, cuidavam da organização da viagem dos convidados que haviam manifestado o desejo de se deslocarem a Fátima de excursão.
E, assim sublimados pela azáfama, ninguém viu os dias passar!



No dia 9 de Maio, segunda-feira, depois de uma inebriante noite de felicidade, quando acordou, Rui, que nem sentira a sua vénus abandoná-lo, espreguiçou-se e, abrindo os olhos, comoveu-se até à raiz: uma enorme cesta de flores naturais, provavelmente colhidas na véspera pela Cris e pela Celina, tapava completamente a secretária, onde, durante oito dias a fio, numa frenética corrida contra a exiguidade do tempo, ele deixara o coração chorar, sorrir e bater ao ritmo apaixonado da sua autobiografia. Emocionado, o escritor olhou o manuscrito, cujo derradeiro capítulo escreveria no avião, lá no firmamento, quando admirasse os castelos de nuvens, e, pegando numa rosa vermelha, cheirou-a demoradamente, regando-a com as irreverentes lágrimas do amor. De tabuleiro nas mãos, Cristina, que, numa combinação de rósea musselina, descobria a alegria que escorria da alma do noivo, tossiu forte e, pousando o pequeno almoço na cómoda de ébano, foi beijar-lhe os lábios e lamber-lhe sensualmente o rosto salgado, abraçando-o tão fortemente que os seios, julgando-se asfixiados, espreitaram aflitos, como que a pedir socorro. Esquecendo a porta aberta, eles desnudaram-se e, enlouquecidos, apostrofaram a tumescência matinal, num vaivém tão furioso e endemoninhado que, no bule, o café nem teve tempo de arrefecer. Depois, assentando-se na cabeceira da cama, encostados às travesseiras, e pousando o tabuleiro nos joelhos, ofereceram-se mutuamente os bolos e os sumos, antes de beberem um café bem forte para não dormirem diante do oficial do registo civil de Cascais.
Constatando o atraso, Rui fez a barba, deixando a noiva tomar banho, e só depois é que se aduchou à pressa, enquanto ela se pintava e maquilhava. Calçavam os sapatos, quando a Celina lhes bateu à porta.
― Despachem-se, senão ainda ficam por casar, seus malandros! ― gritou impaciente, espreitando pela fechadura.
― Por favor telefona à vovó e diz-lhe que nós vamos directamente para a conservatória ― ordenou o advogado, apertando o cinto preto.
Correndo lesta, Celina avisou a professora Susana e desceu para o jardim a admirar o poupo branco da vovó Noémia, toda bonita, com um vestido escuro e uma bolsa preta como os sapatos, enquanto o arquitecto vestia umas calças aos quadrados e um casaco de malha a cobrir uma camisa de manga curta, sem gravata, como de costume, desde que a D. Alice morrera.
Cinco minutos depois, penteados e perfumados, os noivos desciam de casaco na mão, para não o amarrotarem. O advogado escolhera um fato claro e uma camisa azul de colarinho branco, que uma gravata florida quase eclipsava; a médica, essa, vestindo um conjunto cor-de-rosa claro, para atenuar a brancura da blusa de ouro bordado, como o medalhão da bisavó Vilhelmina, a pulseira e o anel que o Rui lhe oferecera, ia muito chique; a saia, que lhe bailava por cima da rótula, dava-lhe às pernas um look sedutor que os olhos suavemente pintados e os lábios rosados acabavam por divinizar.
O arquitecto e a governanta partiram no Mercedes, enquanto a Cély fez companhia à Cris, no banco traseiro do BMW, conduzido pelo paizinho que, por causa do Sol intenso, usava óculos escuros. Segurando a bolsa da mãe adoptiva, a mocinha não parava de a olhar e de lhe piscar orgulhosamente.
Em Cascais, diante do edifício da Câmara Municipal, uma multidão de curiosos, sobretudo senhoras e donzelas, aguardava ansiosamente os ilustres conterrâneos com cestas de flores e punhados de arroz; três repórteres do Diário, armados até aos dentes com câmaras de filmar e máquinas fotográficas, espreitavam em todas as direcções, tentando colher os noivos de surpresa.
Entretanto, Dr. Edgar e a esposa, elegantemente vestidos, ladeavam o Sr. Conservador do Registo Civil, enquanto a Sílvia, segurando o ramo da noiva, descansava num banco da entrada, pois a menina começava a pesar. Júlio, esse, ostentando orgulhosamente o seu fato de brigadeiro, mantinha os transeuntes a uma respeitosa distância para que a maninha não sufocasse à chegada, observado pela elegante Vera.

Finalmente, o BMW da médica, rolando pacatamente, contornou a multidão e estacionou no lugar que lhe estava reservado. Rui pediu à filha que fosse buscar o ramo de flores da Cris, saiu do carro e vestiu o casaco. Depois, sorrindo feliz, abriu a porta à noiva e esperou que ela se penteasse.
Ligeira, Celina, pegou cuidadosamente no ramo de flores campestres e rosas brancas e amarelas que a Sílvia lhe deu e, entregando-o orgulhosamente, beijou-a, balbuciando baixinho:
― Muitas felicidades, Cris!
O pai fitou a noiva e, sorrindo à filha, murmurou:
― Obrigado, filha!
― Obrigada, filhinha! ― agradeceu Cris, acariciando-lhe o rosto macio.
E não se disseram mais nada. Trancado o carro, dirigiram-se para as escadarias, onde foram aplaudidos entusiasticamente pelas pessoas, beijados pela família e cordialmente recebidos pelo conservador.
Metralhados por centenas de flashes cruzados, os noivos pararam no patamar de granito, sorriram à multidão e, acenando, enviaram-lhe um beijo de gratidão, que muito sensibilizou aquele povo hospitaleiro.
Depois, no interior, de lidos os direitos e os deveres dos casais, constatando a aceitação mútua dos noivos, o conservador declarou-os casados perante a lei e convidou-os a beijarem-se, sob os mais veementes aplausos das testemunhas. Como Pat e Cris reservassem as alianças para a cerimónia religiosa, o oficiante mandou-os assinar o registo e, pedindo-lhes que se sentassem, desejou-lhes os mais sinceros votos de felicidade, oferecendo-lhes, antes de lhes apertar a mão, o livro histórico de Cascais, que eles agradeceram.
Entretanto as testemunhas, encabeçadas pela Celina rodearam os esposos, beijaram-nos e felicitaram-nos, enquanto o povo, sem arredar pé, aguardava impacientemente a saída dos seus príncipes.

Mal surgiram na porta, Pat e Cris foram beijados por milhares de pétalas de rosas e grãos de arroz e um vivam os noivos que ecoou pelas vielas contíguas à Câmara, fazendo parar o trânsito na cidade. As máquinas vídeo e fotográficas não se cansaram de perpetuar aquele brado de carinho e simpatia, disparando raios de luz em todas as direcções. Foi então que, acenando e lançando à multidão delirante um beijo afectuoso, os esposos se dirigiram para o BMW, onde os esperava o arrumador de automóveis da Boca do Inferno com toda a sua família e um ramo de flores que a caçula ofereceu à senhora doutora, enquanto o pai estendia a mão ao herói.
― Muito obrigada! ― bradou a médica, beijando-lhe o rosto.
― O Sr. José Barros escusava de se preocupar connosco! ― disse o advogado, beijando a esposa do arrumador.
― Neste momento feliz da vossa vida, eu queria apenas desejar-lhes muitas felicidades e bênçãos de Deus e dizer-lhe, que eu e a minha família, gostamos muito dos senhores ― acrescentou humildemente.
― Muito obrigada, Sr. Barros, e que Deus lhes dê o cêntuplo do que para nós desejam. Adeus! ― agradeceu a noiva.
― Adeus! ― exclamaram eles, sorrindo e acenando.
Sentando ao lado do marido, Cris virou-se para trás e, oferecendo o ramo de noiva à filha, disse-lhe:
― Que o perfume destas rosas apaixonadas acompanhem os teus passos, para que nunca duvides do nosso amor por ti, Cinderela!
― Muito obrigada, rainha Anitsirc! Estas vou guardá-las numa caixinha de vidro e pousá-las na mesinha de cabeceira, para que a minha vida nunca deixe de ser um verdadeiro conto de Fadas e o meu Príncipe Encantado me sida para todo o lado!
― Queira Deus, mas vê lá não penses muito nos rapazes, filha! ― rogou o pai, empiscando enciumado.
― És bem tonto, papá!
― Tonto?! Eu?!
― Tu pensas que eu não sei como tu és, não?!
― Pst! Não digas nada que a Cris pode ouvir! ― segredou baixinho, escondendo os lábios com a mão.
― Está bem papá! ― acatou a mocinha, antes de segredar ao ouvido da mãe: ― Eu depois conto-te tudo, Cris!
E, abençoados, lá partiram rumo ao Monte Estoril.
No solar, a luz, entrando de roldão pelas amplas janelas do salão, dava às mesas redondas, aos vasos floridos e aos castiçais de prata, donde emergiam velas brancas, um ar festivo e nobre, sobretudo quando as mil lâmpadas dos candelabros se acendiam e se iam espelhar magicamente nos olhos radiantes dos convivas.
Antes de voltar ao Diário com os fotógrafos para revelarem as fotos, Vera ainda tomou a sopa de marisco e comeu o melão com presunto da entrada à pressa, para que a reportagem estivesse concluída antes dos convivas se separarem.
Quatro horas depois, mostrava orgulhosamente aos convidados, que conversavam e tomavam o digestivo à sombra dos pinheiros mansos, as fotos encantadoras deste maravilhoso e inolvidável dia, recebendo como recompensa a notícia de que o manuscrito de A Força do Destino já dormia no fundo da gaveta, desde a madrugada.

Curiosa, Paula, que, devido à azáfama da abertura da Sampaio & Aguiar, só chegara a meio do almoço, ofereceu-se logo para ir com a jornalista fazer uma quádrupla fotocópia do romance, porque, além delas, também a professora Susana e a Sílvia morriam de ansiedade para ver o que o Rui pensava delas. Foi então que a Sra. Noémia aproveitou a boleia da jornalista e retornou a Santo Amaro, entregando-lhe o manuscrito.
Às dezanove horas, quando elas regressaram com cinco resmas de papel, a sogra e a nora, que tomavam um chá, largaram tudo e foram sentar-se nos sofás e, esfolhando o livro, procuraram as passagens que mais as excitavam. Receosa, Vera preferiu voltar para Lisboa e lê-lo tranquilamente em casa, arrastando a Paula consigo até à Brandôa.

Na terça-feira, após um regenerador sono matinal, Rui conduziu a esposa até ao hospital e dirigiu-se para a avenida 5 de Outubro, sede do Diário, para falar com o Sr. Mário Wellenstein que, aconselhado pela assessora, lhe propôs a publicação, no jornal, da sua excitante autobiografia. O homem de leis, porém, lembrando-se da sua cara metade, prometeu dar uma resposta à Vera, com quem jantaria, na Boca do Inferno, até porque devia consultar a Twenty Century Fox, que lhe comprara os direitos de autor para a versão inglesa.
Posto isto, o advogado e o director saíram e foram beber um whisky. Foi então que o Sr. Wellenstein lhe falou do projecto de um canal de televisão privado. Uma hora depois, ao despedirem-se, o director revelou-lhe:
― Caríssimo Rui, nós estamos a pensar em si para liderar esse projecto.
― Contem comigo, se for para dar a voz à liberdade e para fazer uma televisão popular, mas educativa e defensora dos valores humanista!
― Com certeza! Bom, mais uma vez, muitas felicidades, Rui!
― Obrigado, Mário. Adeus! Até sábado! ― agradeceu comovido, apertando-lhe entusiasticamente a mão.
Passando pelo hospital, o advogado foi saudar a cunhada que, vendo-o sorrir, corou como um pimento e baixou instintivamente os olhos.
― Olá! Vejo que já acabou de ler o livro, Sílvia! ― constatou radiante, beijando-lhe o rosto avermelhado.
― Com aquele erotismo todo, duvido que haja alguém que seja capaz de o largar a meio! ― ironizou envergonhada, mexendo nos papéis, cabisbaixa.
― Eu bem te avisei, menina! ― lembrou a directora, surpreendendo-os.
― Se estivesse no teu lugar, eu não lhe deixaria publicar o livro, Cristina!
― Porquê?! ― perguntou a médica, empiscando ao marido.
― Sei lá, as mulheres que o lerem podem ficar a fantasiar, a...
― Eu lhe pedi que evitasse a descrição pormenorizada de certas cenas, mas ele não me escutou, Sílvia.
― Assim, ele nunca será seu a cem porcento, Sra. Directora!
― Eu nunca tive essa ilusão, porque nunca ninguém consegue ser ou ter alguém a cem porcento, mas...., enfim, agora... sei qeu quanto mais o quiser amarrar, mais ele me fugirá...
― Há pessoas que podem ficar escandalizadas e pensar que em vez de um anjinho, afinal, anda por aqui um diabo à solta.
― Diabo?! Eu?! Credo, comadre! ― refutou escandalizado.
― Logo que me conduza diariamente ao sétimo céu...
― Diariamente é impossível, Cristina! ― sentenciou incrédula.
― Psch! Estás a ir longe de mais, meu amor!
― Tens razão, Pat! Bom, agora só nos resta fazer duas edições: uma tal qual e outra, mais pudica, para toda a gente.
― Óptima ideia! ― apoiou o escritor.
― De resto, está óptimo, compadre! ― opinou Sílvia, sem o fitar.
― Pois, mas para surtir efeito, é imprescindível que o Júlio o leia, senão é a comadre quem vai passar a noite a chupar no dedo ― volveu malicioso.
― Pat! ― repreendeu a esposa, incomodada, puxando para fora.
― Até logo! ― gritou Rui, acenando de costas.
― Até logo, compadre! ― respondeu a gestora, sorrindo.
No corredor, os noivos foram abordados pela Dra. Celeste que os felicitou e lhes confirmou a presença da delegação no Santuário de Fátima no dia 14 de Maio.

Na quinta-feira, Pat e Cris reservaram o dia para ir receber os convidados africanos, cuja estadia em Portugal se prolongaria por uma semana, ficando a secretária do advogado dispensada de ir trabalhar para servir de guia aos conterrâneos.
À noite, depois de jantarem com os amigos angolanos, na pensão familiar onde foram instalados, os noivos voltaram a Santo Amaro a tempo de assistir, com a Sra. Noémia, o Dr. Félix e a Celina, à transmissão televisiva da célebre procissão das velas, comungando o fervor da multidão, visto a verdadeira missa de acção de graças ser a do casamento.


No dia 13 de Maio, sexta-feira, depois do almoço, Cristina, que passara a manhã a ler as dezenas de cartas, postais e telegramas que haviam chegado ao solar, ao consultar a agenda, constatou que não arranjara as malas para a lua-de-mel e, pedindo ajuda ao marido, fê-las durante a sesta, antes de partirem com os pais, os padrinhos e a filha para Fátima, onde pernoitariam, pois o advogado havia recusado a oferta do brigadeiro, que queria transportá-los num helicóptero da força aérea.
Dr. Edgar, D. Susana, Júlio e Sílvia seguiram todos juntos, enquanto Dr. Félix e Celina acompanharam os noivos, porque a Sra. Noémia, que festejava a sua sexagésima oitava primavera nesse dia, preferia viajar de autocarro com as famílias dos funcionários do hospital, que sairiam na madrugada da cerimónia para evitar o engarrafamento.
E foi ao pôr do Sol que chegaram a Fátima, dirigindo-se imediatamente para o hotel, onde se repousaram até que a noite envolveu o santuário.
Depois, saindo incógnitos, Pat e Cris percorreram o trajecto que os conduziria ao altar onde, dentro de horas, selariam para sempre as suas vidas.



Continua em : Capítulo XIII


LMP - LUXEMBURGO, FEVEREIRO de 1997

LUD
MacMartinson

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