sábado, 12 de abril de 2008

FD * Capítulo VII



CAPÍTULO VII


Acordando cheia de genica, a mocinha sorriu às bonecas e, correndo pés descalços, foi espreitar pelo buraco da fechadura do quarto dos noivos. Descobrindo-os abraçados e a irradiar felicidade, fez a sua toalete sozinha e desceu para tomar o pequeno almoço com o vovô Félix que, mais madrugador, já limpava os lábios a um guardanapo de linho bordado de azul pelas mãos mágicas da Alice dos seus sonhos. Aqueles olhos cansados do avozinho, fizeram despachar-se e tomar o café com leite à pressa, não fosse o místico perder-se novamente numa infinda e endofásica conversa com a sua ente querida, esquecendo-se das exigências da vida.

Mas não, nesta quarta-feira, 13 de Abril, o arquitecto, tal autómato, chegou pontualmente com a Celina à escola. Na entrada, agarrada ao portão de ferro, a professora olhava desesperadamente para o fundo da calçada, ignorando os alunos que passavam e a saudavam.
― Bom dia, senhora professora! ― disse o avô, sorumbático.
― Bom dia, Dr. Félix! ― respondeu pálida e triste.
― A Sra. Professora que tem? ― perguntou a aluna, fitando-o.
― Hoje não dormi nada Celina.
― A menina Ester precisa de alguma coisa? Quer um comprimido?
― Obrigada, senhor arquitecto, mas isto passa.
― Eu já lhe dei um copo de água com açúcar ― afirmou o porteiro, atencioso, abeirando-se condoído.
― Puxa, Sr. Henrique, o que é que nos deu hoje a todos para estarmos com esta cara de sexta-feira santa? ― inquiriu o vovô, mirando-os.
― Todos não, vovô! Eu dormi bem, tive um sonho lindo e estou muito feliz por o meu papá ser o herói do filme ― esclareceu vaidosa, sorrindo e emproando-se toda.
― Tu tiveste um sonho lindo, Celina?!
― Lindíssimo, professora Ester!
― Ai o meu foi tão triste, filha!
― Se calhar o seu ficou a meio! ― ironizou a aluna.
― Lá isso é verdade! Mas... como é que sabes?
― Oh! Sei lá!...
― É verdade, o meu sonho estava a ser tão horrível que me assustei e acordei assarapantada com uma dor de cabeça atrás da nuca!
― Se me contar o começo do seu, eu contar-lhe-ei o final do meu, professora Ester ― propôs a felizarda.
― Psch! Conta lá então! ― disse a professora, intimando os velhotes e acariciando o rosto da aluna.
― Só o fim, porque pelo meio é muito triste: chora-se muito; o coração bate com picadas; há tiros, mortes, facadas, catanadas e sangue...
― Credo, tudo isso, filhinha?! ― perguntou o avô, incrédulo, sorrindo e empiscando à mestra.
― Ei, vocês não se assustem que, no fim, há uma praça de gente a chorar de alegria e a bater palmas. Ai é tão lindo o fim do meu sonho!
― Lamento muito, mas... está na hora! Fiquem com Deus e depois contem-me o fim, professora Ester ― desculpou-se arquitecto, sentindo a musa do projecto chamá-lo.
― Até logo, Dr. Félix! Vá tranquilo que a dor já passou.
― Assim tão depressa é milagre, menina Ester!
― Ai é, senhor doutor, ai é! ― exclamou a donzela, pegando a aluna predilecta pela mão e entrando.
Taciturno, o porteiro abanou a careca bronzeada e retirou-se para o postigo de guarda, cismando com a Celina que, em permanente estado de graça, tanto encanto e graciosidade ia semeando em seu redor, como se o seu coração pequenino já conhecesse a força do amor.

Na vivenda, o arquitecto nem falou nada do sonho da netinha ao afilhado, para não o afligir ainda mais, deixando-o despedir-se e matar bem as saudades da Cris, que a distância lhe roubaria por um mês apenas, mas que a demência da paixão seguramente transformaria em eternidade, virando os segundos em minutos, os minutos em horas, as horas em dias, os dias em meses, e um mês de um coração amargurado é muito pior que o inferno, a que se vê condenado o apaixonado.
Depois do pequeno almoço, Cris acabou de arrumar as malas, que Pat fechou e trouxe para o corredor, antes de partirem para o Monte Estoril.
No solar, a Maria, abrindo as janelas e correndo os cortinados, fizera entrar, finalmente, a Primavera no salão; o perfume das rosas, dos cravos e dos lírios brancos, dissipando-se no ar, limpou dos muros e dos recantos as derradeiras pegadas do Inverno. Acolhida por aquele jardim encantador, a rainha Sirc estremeceu e, arrepiando-se toda, deitou as mãos à barriga, falando mentalmente com o homem invisível. Atento, o rei Iur sorriu e, copiando a melodia de Nino Rota, no Padrinho, trauteou enamorado:
― Leva contigo este mar de rosas, por favor
e pensa em todas as coisas que fizemos e faremos por amor,
para que a saudade não te faça esquecer
que depois da tempestade vem a bonança do amor.
― Por favor, guarda-me esses olhos apaixonados para quando eu voltar e, deitados a bronzear perto da piscina, estivermos a contar a história deste mês. Vá, deixa-me partir carregada de lágrimas para eu ter que fazer e as chorar quando a saudade vier.
― Nunca duvides da força do sonho e da oração, sobretudo quando tudo o que nos rodeia se parece com as grades de uma prisão!
― Oração?! Para rezar por quem, Rui Patrício? ― perguntou a sogra, colhendo de surpresa aquela confidência e beijando-os maternalmente.
― Por nós, D. Susana. A senhora sabe muito bem que antes de rezar ou fazer qualquer coisa pelos outros devemos cuidar de nós. Não é bom nem justo, quem não aplica primeiro a si e aos seus a virtude da caridade..., quem presentear primeiro o estrangeira estará a pecar por vaidade.
― Tem razão, mas... tu vens muito bonita, filha! Este conjunto azul claro e estes cabelos louros são o Sol no Céu! É assim que tencionas viajar?
― Viajar de saia, mãe?! No avião, vestiremos todos de calças de ganga, t-shirt e casaca, como se fôssemos para o campo. Nós, médicos e enfermeiros, não vamos para uma festa ou fazer turismo. Pimpões irão os chulos do povo.
― Isso mesmo, filha, carrega-lhes sem dó nem piedade! ― bradou o pai, orgulhoso, recordando o dia em que quase faltou ao respeito a um ministro, mais preocupado com o nó da gravata e a graxa dos sapatos que com o seu múnus ministerial, quando o professor Marcelo Caetano era Presidente do Conselho. ― É, por pouco não lhe parti a cara ― confessou o Conselheiro.
― Nesse dia o senhor não deviria ter estes olhos de dormir, pois não, papá?! ― ironizou a filha, abeirando-se dele.
― É, por uma vez que o teu pai não se levantou às seis...
― Hum! Mas estás tão cheiroso, papá! ― exclamou Cris, beijando o rosto paternal humedecido de Aqua Velva.
― Então, hoje é dia de festa, filha ― acrescentou o jurista.
― Se hoje é dia de festa, papá, então o que será quando eu voltar.
― Ui, quando tu voltares, não sei se chegarás para o meu caríssimo...
― Ai não chega não, Dr. Edgar. É, tem razão, conforme-se, porque quando esta anjinha voltar, não haverá nada para ninguém ― adiantou malicioso, lançando aos sogros um ar glutão, antes de beijar furiosamente a feiticeira do seu coração.
― Bom, está mais que visto que se o teu marido te raptar à chegada, estoirará em Portugal a segunda guerra de Tróia...
― A minha princesa, Helena não sendo, certamente...
― Não sonhes, belo Ulisses, que raptar-me não será preciso, pois serei eu, quem de bom grado te perseguirei e te obrigarei a honrar os teus compromissos e a retribuir os beijos mil que, entretanto, te mandarei ― interferiu a princesa.
― Eh, falando sério, vocês não vão fazer-nos isso, pois não?
― Quem sabe, D. Susana? ― respondeu o noivo.
― Ui, nesse caso, o melhor será o Rui nem aparecer no aeroporto ― avisou o sogro, intimidado pelos olhos assanhada.
― E se eu voltasse para o seminário durante um mês, D. Susana?
― Ah, se sabe, de antemão, que não resiste à tentação da carne, será melhor ir para lá rezar e pedir perdão, para depois pecar à vontade ― zombou a sogra.
― Não não, mãe, deixe-o ficar por aí, porque se for para lá ainda pode cruzar alguma freira histérica que lhe fará pior do que eu... ― ironizou a filha, sorrindo maliciosamente.
― O Júlio não vem almoçar, Dr. Edgar?
― Não, Rui, ele irá directamente da base de Monsanto com a Sílvia para o aeroporto ― informou o advogado.
― Desculpe, posso servir-lhes o aperitivo, Sr. Doutor? ― interferiu a Maria, bastante acanhada, fazendo uma vénia aos noivos.
― Claro, Maria. Olha, para mim, traz-me um Campari com água das Pedras Salgadas.
― Eu prefiro um Martini Rosso ― acrescentou a patroa.
― Para mim, faça o favor de me trazer um sumo de laranja.
― Está bem, menina. E para o Dr. Rui?
― Um whisky seco, se fizer o favor, Maria. Um duplo...
― Um duplo whisky seco, Pat?! ― retorquiu a noiva, perplexa.
― Por favor, meu amor, deixa-me beber pelo menos um whisky, porque mais vale beber um whisky na vida, que passar a vida a beber whisky ― desabafou o advogado, corando ligeiramente.
― Muito obrigada. Eu trago já. Com licença!
Pouco depois, no meio das roseiras do jardim, levantavam o aperitivo e brindaram à saúde da Sra. Directora, ao sucesso da missão e a um feliz regresso. Foi então que, mirando uma rosa vermelha no canteiro contíguo à janela, Rui Patrício se ergueu e, colhendo-a, a trouxe à sua amada, oferecendo-lha com um beijo na boca, sob o olhar encantado dos sogros, que aplaudiram. E com aquele gesto de amor, até a dor do adeus se eclipsou para que o almoço tivesse outro sabor.

Duas horas mais tarde, os BMW estacionaram diante da vivenda. Sorridente, ostentando um vestido florido, Celina acorreu lesta, beijou os vovôs do Monte Estoril e entrou no carro do papá, que saíra para ajudar o padrinho a trazer as malas, enquanto a médica se despedia da velhota. Fechado o cofre do carro, o arquitecto acenou ao amigo, que desapareceu na Marginal, abrindo caminho aos noivos. Não, ele, temendo uma síncope, não quis a reviver a tristeza do último adeus.
Na Portela de Sacavém, onde foi a primeira a chegar, Cristina fez questão de receber pessoalmente todos os membros da missão e de saudar as famílias deles, apresentando-lhes também a sua, antes de passarem ao check-in. Cumpridas as formalidades do embarque, e porque ainda dispunham de quase duas horas, cada um deles voltou para junto dos seus, sorrindo e acenando, de vez em quando, uns aos outros, encorajando-se mutuamente. Júlio, a esposa e os sogros chegaram acompanhados de uma senhora bonita, de cabelos pretos, curtos, de jeans e casaca de couro pretos, que lhes sorriu intensamente, deixando-os intrigados e, mais ainda, quando, antecipando-se a eles todos, beijou e abraçou demoradamente o advogado.
― Olá, Rui! Até que enfim que vou conhecer a tua família! ― bradou a jornalista.
― Vocês ainda não conheciam a famosa Vera de Sousa, a subdirectora do Diário, pois não? Bom, então, a partir de agora, se a quiserem conhecer melhor, passem a comprar e a ler atentamente as suas crónicas. A Vera, e não levem a mal por nós nos tratarmos por tu, mas em dez anos, sobretudo nos nove primeiros, tivemos tantas reuniões e debates, que já quase nem precisamos de falar para saber o que cada um de nós pensa, a Vera, dizia, é simplesmente... a minha amiga, porque...
― Porque o Rui é daquelas pessoas que contagia quem tem o privilégio de o conhecer. Com ele, todos ganhamos um sétimo sentido.
― Quando não os perco todos diante de caras tão bonitas. Mas vamos às apresentações, Vera. Bem, ao lado da Cris tens o senhor Dr. Edgar Sampaio e a sua esposa, a Dra. Susana, professora de francês na Faculdade de Letras, com quem aperfeiçoei o meu...
― Deixe-o falar, Vera. Prazer em vê-la e muito obrigada por ter vindo.
― Ora essa, eu estou em serviço, Dra. Susana! ― disse ela, retribuindo o beijo à catedrática.
― Alto aí. A Celina merece um beijão!
― Um, Rui?! Mil beijões! ― bradou emocionada, abraçando a filha da inseparável Dina, a sua maior amiga, de quem fora assessora no Diário.
― Vá, hoje é proibido chorar para terem direito ao segredo, sobretudo diante do brigadeiro Júlio Sampaio e da formosíssima Sílvia, meus cunhados e futuros compadres. Diz, Vera, de uma barriga destas só pode nascer uma princesinha ― traquinou o apresentador, orgulhoso.
― Que eras marido e pai baboso, já sabia, mas compadre... Muito prazer!
― Ah, desculpa, omiti-te um detalhe: a Sílvia, que é filha do Sr. Major Manuel Contreiras e da D. Elvira, é gestora, formada em económicas e actual braço direito da Cris no hospital.
― O Sr. Major tem uma esposa e, obviamente, uma filha muito bonitas!
― Muito, obrigado, Vera, mas tal cumprimento, na sua boca, só a embeleza e enobrece ainda mais ― disse o militar, tocando-lhe timidamente nos dedos.
― Obrigada, Sr. Major ― agradeceu a jornalista, oferecendo-lhe o rosto.
― Pronto, Vera, acho que já conheces a família. Ah, espera aí, vem ali a negrinha mais bonita e mais simpática de Portugal, do Algarve e de Além Mar e, claro, tal beldade só podia ser a minha e a futura secretária da Sampaio & Aguiar, a partir de Julho, não é Dr. Edgar?
― Exactamente. O meu genro está tão satisfeito com a Paula, que decidimos confiar-lhe a intendência da nossa sociedade.
― Olá, Paula! ― bradaram todos, empiscando-lhe sorridentes.
― O meu patrão reuniu-vos todos aqui para ver se consegue me fazer corar? Ei, isso não vale e é cobardia, Dr. Aguiar: tanto branco canibal contra uma preta! ― ironizou jovial.
― Preta não, mulatinha quase branca... por dentro ― corrigiu inocente.
― Pois... e se deitasse no café tanto leite como você, já estaria mais pálida que Sra. Directora.
― Nós devíamos tê-la convidado para nosso guia, Paula! ― interferiu a médica, auscultando a malícia do noivo.
Consultando o relógio mural, o Dr. Edgar sugeriu:
― E se fôssemos todos tomar qualquer coisa? Aproveitem que eu pago.
― Boa ideia, vá andando, papá, assim posso dar um conselho à mana ― apoiou Júlio, retendo a irmã pelo braço.
― Venham! ― convidou o pai da directora.
E lá foram, conversando uns com os outros. Pelo caminho a médica foi empiscando e encorajando os colegas de aventura, com um sorriso aqui, um beijo ali e uma carícia aos filhos dos colaboradores, cativando-os e orgulhando-os a todos.
Entretanto, as câmaras da RTP vieram colher imagens furtivas, focando olhares e detalhes para os serviços noticiosos do fim-de-semana. À mesa, Cris escutava atentamente e um tanto inquieta os conselhos sábios do militar, ao passo que o Rui, alheio aos cochichos, se ria com as facécias da Celina, a reinar com a Paula, estimulada pela Vera, enquanto que a Sílvia contava aos pais e aos sogros detalhes da sua gravidez.
O chefe da missão, o Dr. Fagundes e o seu assessor passaram, sorriram, e, não dispondo de cadeiras, acenaram, indo sentar-se mais adiante, nas costas da família da directora, mirando-a de soslaio. Mesmo à civil, o Major e o Brigadeiro usavam um boné militar que lhes tapava um impecável corte de cabelo e onde se distinguiam as suas patentes.

Entretanto, a equipa de reportagem da televisão ainda abordou a directora para uma derradeira entrevista, mas ela recusou-a, dizendo que estava com os amigos e eles teriam muito tempo para filmar a delegação na hora do embarque. Foi então que, lembrando-se, lhes sugeriu que entrevistassem o responsável pela missão que, envaidecido, estudou a melhor pose, obrigando, contudo, o captador de imagem a filmá-lo pelo melhor ângulo do seu esquizofrénico perfil. Perspicaz, Vera enchia-se de rir do gabarola.
― A política sempre nos cria cá uns vaidosos! ― murmurou baixinho, antes de se levantar e ir colher gentilmente as impressões dos familiares dos colegas da Cristina que, levantando o polegar agradeceu o gesto.
― A quem se referia a Vera, Dr. Rui? ― perguntou o major.
― Ao gravatinhas que vê empertigado à sua frente.
― E quem é o sujeito?
― O chefe da missão...
― Prosápia tem para dar e vender. Oxalá que a peneira não perca o aro...
― O nosso Primeiro não iria confiar a um incompetente...
― O Rui diz isso, mas não engraça muito com ele, Sr. Major ― observou a professora, apercebendo-se da frivolidade do indivíduo.
― Eu não gosto de presunçosos que colocam os súbditos diante do facto consumado e se aproveitam de tudo e de todos... Homens desses não merecem a minha confiança ― explicou o social democrata, irritado.
― Não te aborreças que nós conhecemo-los de ginjeira. Ficai tranquilos que a missão vai ser um sucesso e eu quero festejá-lo convosco dentro de um mês...
― Explicaste-lhe tudo direitinho, Júlio? A Cris não ficou com dúvidas?
― A Sra. Dra. Cristina é uma galvanizadora, não é, mamã? ― volveu o brigadeiro, brincando com o apelido que a mana gravara na t-shirt.
― Não o digas muito alto, filho, porque senão o teu pai chateia-se ― avisou a professora Galvão, traquinando o marido.
― Ei, está na hora de dizeres o segredo, Cris! ― lembrou a Celina, largando a Paula, com quem se ria, e fitando a médica.
― Por enquanto, vocês estão todos a portar-se muito bem, mas eu ainda não embarquei e, daqui até lá, ainda pode haver quem se ponha para aí a choramingar ― recordou a médica.
― Que segredo é esse, Dra. Cristina? ― insistiu a D. Elvira, curiosa.
― Que impaciência, D. Elvira!
― O segredo! O segredo! ― exigiu o brigadeiro.
― Também tu, Júlio?! ― retorquiu a catedrática, aliando-se à filha.
― Então os homens não têm o mesmo direito, não?
― Se vocês chorarem, não, por isso sequem lá essas lágrimas! ― ordenou D. Susana, mirando as retinas dos homens.
― A condição aplica-se igualmente às mulheres, mamã ― avisou Cristina, comovendo-os.
Pouco depois, surgiu nas campânulas o anúncio do embarque do voo TAP ― Lisboa ― Luanda ― Maputo, aconselhando os passageiros ao último adeus. E a emoção, até ali contida pelos gracejos de uns e os sorrisos de outros, fez abalar os seus corações com a eminência da despedida.
Apesar do esforço as retinas da médica, que pareciam de metal, não resistiram à pressão e as lágrimas começaram a resvalar-lhe pela face, provocando uma choradeira geral. Depois de abraçar toda a gente, Cris agarrou-se desesperadamente ao marido e beijando-o, desabafou lacrimosa:
― No regresso ninguém vai chorar! E tu, Pat, porta-te bem, ouviste? Oh, este dedinho diz-me tudo! Adeus, meu amor, adeus! Adeus!!! Ei, quero vê-los todos cá para o nosso regresso! ― gritou soluçante.
― Adeus e que Deus te guarde. Eu amo-te, Cris! ― bradou o noivo, largando-lhe os dedos humedecidos para que ela pudesse juntar aos colaboradores, que se apressaram a rodeá-la e a encorajá-la.
― O segredo! O segredo! O segredo!!! Oh, eu não chorei, Cris! ― barafustou Celina, correndo para ela e esganiçando-se toda.
― Deixa lá, filhinha, depois perguntamos ― disse a avó, consolando-a.
E, depois de todos os passageiros terem embarcado, quando a porta se fechava e na pista as luzes do avião espelhavam na vidraça um clarão vermelho, eis que ecoa inesperadamente o grito lancinante da gestante:
― Vais ter um mano, Cély, vais ter um mano!!!
Atónitos, eles viraram-se e, aplaudindo-a, enviaram-lhe um derradeiro beijo, abraçando e felicitando o papá. Depois, abeirando-se das janelas, acenaram até que a médica, aguardada por uma hospedeira de bordo, se refugiou no Boeing 707.
E o avião, tomando a sua posição na pista principal, fez acelerar os reactores, descolando rumo a África, sem lançar ao Cristo Rei de Almada um último adeus.

Antes de saírem do parque de estacionamento do aeroporto, Rui Patrício convidou-os a irem afogar a dor num copo de whisky a Santo Amaro para darem a feliz novidade aos velhotes.
Paula seguiu com a Celina no banco traseiro do BMW da directora, que o patrão guiou nas calmas. Como a Vera tinha que ir para o Diário, o advogado prometeu-lhe um Chivas Regal. O Major Contreiras e a mulher, acompanhados pelo genro e a filha, esperaram que o Dr. Edgar e a esposa arrancassem e seguiram-nos até Santo Amaro.
E o segredo foi, inevitavelmente, o mote de todas as conversas, para alegria de todos, sendo, contudo, a coragem da Celina quem mais espanto e perplexidade lhes causou. Que sonho teria sido o dela, para sorrir e enfrentar assim tão natural e misteriosamente aquele plangente adeus? Até parecia que o azul-turquesa dos seus olhos, que se transformavam em verde esperança ou vermelho sangue, segundo o estado de alma de cada um deles, guardava orgulhosamente a chave da felicidade cor-de-rosa que o papá, repentinamente, via mais negra que o breu.
À noite, depois de todo o mundo se dispersar, Rui Patrício pediu ao padrinho que acompanhasse a Paula à estação e, passando a beijar a princesa adormecida, foi deitar-se a sonhar com a Cris para fazer passar o tempo e matar aquela maldita dor que tinha no peito.

Esquecida a tristeza e apaziguada a inquietação dos dois primeiros dias, em que a médica não conseguiu contactar a família, todos aguardavam febrilmente as suas chamadas., levantando-se e acordando com a sua maravilhosa voz encantada. Mesmo assim, Rui estranhou o silêncio da comunicação social, tão ávida de scoops bombásticos. Passada a euforia da partida, excepto o Diário, onde Vera dava eco às informações que o amigo lhe transmitia, todos se esqueceram da missão. A RTP, minada por saudosistas marxistas, aproveitava sobretudo o telejornal da noite para publicitar a FRELIMO e o MPLA, partidos comunistas revolucionários que governavam Moçambique e Angola, onde russos e cubanos lançavam farpas ao imperialismo capitalista americano.

Depois de uma circunscrição de dez dias, a tornear a magnífica e acolhedora cidade do Maputo, a capital moçambicana, numa encenação dos camaradas apparatchiks, que aproveitaram para desviar para as suas sumptuosas datchas parte da ajuda humanitária, a equipa médica apercebeu-se da manipulação, mas, para não criar um incidente diplomático, evitaram comentários públicos, apresentando, todavia, pela voz da Dra. Galvão, um veemente protesto ao Dr. Fagundes que se mostrou irritadíssimo com tais críticas. Furioso, ele ameaçou mesmo instaurar um processo disciplinar e declarar persona non grata, quem se mostrasse ingrato para com as autoridades dos países irmãos.
Na véspera do adeus à antiga Lourenço Marques, a pérola do Índico, o executivo moçambicano organizou uma festa de despedida, para condecorar com a Medalha do Mérito Socialista a comitiva, mas a Directora, depois de se reunir com a delegação, invocou uma indisposição e não apareceu ao banquete, irritando profundamente o seu chefe de missão que prometeu fazer-lhe a vida negra até chegar a Portugal.
Contudo, nos seus contactos com a família, Cristina nada referiu, preferindo omitir esse pormenor, para não os alarmar em vão, dado que não acreditava seriamente nas ameaças do pretensioso.



Quando sobrevoavam o Atlântico, rumo à Guiné Bissau, o Dr. Fagundes decidiu mudar de rota, mostrando à equipa médica que era ele quem mandava realmente, e aterrou em Luanda, modificando unilateral e arbitrariamente o programa preestabelecido e acordado em Lisboa, depois de inúmeras reuniões de trabalho.
A noite caía sobre a capital angolana, quando o Boeing 707 pousou. Apesar da insidiosa intriga, com que ele tentava dividir a delegação, esta, apercebendo-se do golpe politiqueiro, uniu-se e solidarizou-se com a intrépida directora, muito decepcionada com a mesquinhice e a arrogância do chefe da missão, a quem pediu um dia de repouso para serenar os espíritos e falar pessoalmente com os representantes da Cruz Vermelha da República Popular de Angola.
Com todas aquelas mudanças, naquele sábado, 23 de Abril, Cris nem viu a hora do contacto com a família passar. Morta de fadiga, ainda tentou ligar-lhes às duas horas da madrugada, mas não encontrou nenhum telefone disponível, o que a fez chorar de raiva.

Domingo, Rui Patrício, que ficara toda a noite de vigia no solar, acabou por adormecer no canapé diante do telefone. Às sete horas, a Maria, passando para a cozinha, viu-o e, procurando um cobertor, agasalhou-o, antes de ir preparar o pequeno almoço. Entretanto, inquieta, D. Susana ergueu-se sobressaltada e foi ajudar a criada a fazer o café e a pôr a mesa, pois o Júlio, sem notícias da irmã, deveria estar a chegar para tentar saber o que se passava. Às oito horas, o telefone tilintou estridentemente no solar.
__ Alô?! Ufa! Até que enfim! Porque não telefonaste, filha? Na Guiné não há telefones? ― arguiu irónica, respirando de alívio.
― E vocês? Está tudo bem? O Pat onde está? Ele dormiu aí?
― E contigo, Cris? O que se passa contigo para te esqueceres de nós? ― berrou o dorminhoco, sobressaltado.
― Nós estamos em Luanda. Tinhas razão, o Fagundes não presta. O trate mudou de rota, de calendário, mandou os planos às malvas e anda só a ameaçar-nos com processos disciplinares. O desgraçado quer dividir a equipa para reinar a seu bel-prazer e fazer de nós gato-sapato, mas engana-se. Nós estamos cada vez mais unidos. Vá, eu disse-te isto para desabafar e não ficares a imaginares coisas muito piores. Agora a telefonar-te do hospital e está tudo bem. Afinal, pelo que me apercebi, o que ele quer é que nós sejamos mansinhos como cordeiros...
― Por favor, não o contraries, Cris! Nessas condições, mais vale não resistir, não vá o diabo tecê-las!
― Mas isto é uma palhaçada, meu amor!
― Lembra-te de nós, do bebé e, por favor, nunca te esqueças que nós te amamos muito e pensamos em ti a toda a hora. Mil beijos! Vá, olha o papá.
― Então, filha? Escuta o que o teu marido te disse. Não te revoltes, porque ninguém muda o mundo sozinho! Eu vou falar com o Afonso e no próximo contacto já te direi o que poderás e deverás fazer. Como o país anda desgovernado, é normal que os comunistas, infiltrados nos ministérios, tentem sabotar tudo, sobretudo com canalhas da raça do Fagundes. Quando voltas a ligar?
― À noite, pelas onze horas, se puder e tudo correr bem.
― Então sorri e mostra-te dócil para que ele não se aperceba de nada. Nessas condições, mais vale fingir que resistir.
― Mas o trate sabe muito bem o que nós pensamos dele, papá!
― E como tem reagido?
― Acolhe tudo com cinismo.
― Ai o macaco! Mudem de táctica e passem a gabá-lo a dizer-lhe que, afinal, ele, como nasceu em Angola, é quem melhor conhece a realidade...
― Adeus, papá! Beijinhos para todos e sosseguem que o meu anjo da guarda não me larga. Ah, diga ao Pat que fale com o padre Ximenes e antecipem o casamento para o fim de Maio. Adeus!
― Adeus, filha! ― murmurou inquieto, pousando o auscultador.
― A Cris está em perigo, Dr. Edgar ― adiantou o genro, angustiado.
― Seria insensato, se o negasse, Rui. Esse Fagundes é um filha da...
― Eu não lho disse? Bom, enquanto eu faço a barba e tomo um duche, telefone ao seu amigo e conte-lhe tudo, não vá o ordinário tramar-nos. É preciso agir rapidamente, porque a Cris e os amigos poderão muito bem estar a caminhar para uma cilada.
― Se o Júlio viesse!
― É, falem no diabo que ele logo aparece! O que se passa, pai? A Cris telefonou? Pat? Estás tão pálido, rapaz! ― disse alarmado.
― A Cris está em Luanda, mas o teu pai que te conte que eu ainda nem me lavei!
― O.k! Vá, que eu vou explicar a situação ao Júlio.
― Não se aflija, que a maninha não morrerá! ― garantiu o militar, beijando-a e reconfortando o aterrorizado coração maternal.
― Coitadinha da Cristina, filho! E se esse indivíduo é um desses comunistas fanáticos e a violenta... até atingir os seus fins?
― Estranho! O Rui deve ter um sexto sentido, mamã.
― Por favor não dês parte de fraca, Susana!
― O pai tem razão! A Cris, graças a Deus, é corajosa, está prevenida e sabe que poderá contar connosco. Não se aflija que ela não largará o grupo e não irá na conversa desse desgraçado.
― Na conversa não, filho, mas já viste o que lhe poderá acontecer num país em guerra, com tantas minas por toda a parte e os mercenários estrangeiros. E se os matam a todos, filho? Ai meu Deus! Ó meu Santo António! Ó minha Nossa Senhora de Fátima!
― Por favor, querida, não nos aqueças ainda mais o cérebro! Vamos tomar o café que o Rui não demora ― interferiu nervoso.
Obedecendo, aproximaram-se da mesa e serviram-se. Pouco depois, vestindo umas calças e uma camisa de ganga roçada, surgiu o noivo apressado, dirigindo-se para o telefone.
― Vem comer primeiro, Rui.
― Apronta-me um café que eu não demoro, Júlio ― disse ofegante, discando os números de memória.
Os sogros e o cunhado, retendo o café na boca, escutaram-no estáticos. Depois de telefonar à Vera e contar-lhe o que se passava, ele ligou para o aeroporto, mas a empregada de serviço não se mostrou nada compreensiva, desdenhando o seu apelo. Irritado, pousou o telefone e foi beber o café, nervoso, ouvindo de pé os conselhos que o cunhado lhe prodigava. O trrim do telefone interrompeu-lhe a mastigada. Engolindo o biscoito, Rui correu a responder. Depois de falar com o director e com o marido, Vera propunha segui-lo na aventura. Profundamente grato, o advogado disse-lhe que fizesse rapidamente as malas e viesse ter ao Solar, enquanto ele ia acertar uns pormenores a Lisboa. Sentindo-se mais aliviado, pediu ao cunhado que o acompanhasse ao aeroporto. Antes, porém, passou na Branda para falar com a Paula que, sabendo o sucedido, enfiou umas calças, umas t-shirts e alguma roupa interior num saco e os seguiu sem hesitar. Despedindo-se à pressa da mãe e dos irmãos, ela prometeu beijar e abraçar os tios e os primos angolanos e trazer-lhes lembranças de Luanda.

De regresso do aeroporto, onde conseguidos os bilhetes, recuperou o sorriso, Rui quedou-se dez minutos em Santo Amaro para avisar o padrinho e apanhar alguns objectos pessoais, que enfiou no saco de viagem, antes de prometer à Celina um milhão de histórias, quando voltasse. A sonhadora acompanhou-o até à ao passeio e, dando com os olhos na secretária do pai e no tio Júlio, murmurou invejosa:
― Vocês têm cá uma sorte!
― Que sorte, Cély?! ― perguntou o brigadeiro, beijando-lhe o rosto.
― De ficar na história, bolas! ― replicou a menina, enfadada por eles não lhe adivinharem os pensamentos quiméricos.
― Na história?! Que história?! ― retorquiu perplexo.
― Na que eu sonhei!
― Desculpa, meu amor, mas nós estamos atrasados. Adeus e porta-te bem! ― alertou o pai, consultando nervosamente o Ómega dourado.
― Pois, vocês nunca me deixam falar! ― barafustou queixosa, fazendo-lhes um beicinho frustrado.
― Não tenho tempo, meu amor! ― desculpou-se o pai, impaciente.
― Não adianta pores-te assim nesse estado que...
― Adeus e porta-te bem ― repetiu aéreo, beijando-a de fugida no rosto.
― Boa viagem e não se esqueçam de me trazer uma boneca preta para fazer de bruxa nos meus teatros!!! ― avisou jovial, atirando-lhes um beijo e rejubilando inocentemente.
E, correndo a agarrar-se e a espreitar pelo gradeamento da cerca da vivenda, Celina lá seguiu sem pestanejar a fuga desenfreada da viatura negra rumo ao atormentado Solar do Monte Estoril. Depois de lançar um último aceno ao vulto que se sumiu na curva do pinheiro manso, a irreverente esboçou um sorriso que, aureolando o azul-turquesa das suas órbitas, se espelhou placidamente no rosto macio, colorindo a esperança, que morava no seu coração ingénuo, com as cores do arco-íris.
Quando chegaram ao solar, a jornalista já lá estava com o director para acertar os últimos pormenores da viagem e do acordo que selara oralmente com o amigo. Quando o Sr. Mário Wellenstein tirou da pasta um contrato escrito, Rui Patrício lançou-lhe um ar contristado e fez-lhe compreender que a palavra de honra era, para ele, mais sagrada que a própria vida. E um olhar profundo, seguido por um caloroso aperto de mão, bastou para que a semente da verdadeira amizade irrigasse os seus corações.

Entretanto, compreendendo a gravidade da situação e a angústia do colega, o Sr. Sérgio Afonso viera transmitir-lhe de viva voz os mais desolados pedidos de desculpas pela atitude irresponsável do funcionário do ministério, a quem instauraria um processo disciplinar que, muito provavelmente, o irradiaria dos quadros da função pública.
E, apesar do insistente convite que o Dr. Sampaio lhe fez para honrar a sua mesa, o Sr. Afonso, sentindo-se responsável por tamanha dor, retirou-se confuso e envergonhado, depois de entregar ao colega um cartão com os números de telefone que teria a seu lado dia e noite, enquanto o incidente não fosse sanado e a delegação não pisasse sã e salva o saudoso solo pátrio.
Como o Sr. Mário Wellenstein tivesse que almoçar fora com o administrador e os accionistas do Diário, muda, aquela refeição não teve nenhum sabor. Olhando para o jardim florido, D. Susana não soube dizer se fora para o casamento ou para o enterro que tinha criado aquelas rosas tão belas. O perfume, porém, animou-a, dizendo-lhe que para o velório não seriam, certamente, porque o destino não lhe levaria a sua Cristina na Primavera da vida. E as lágrimas interiores regaram-lhe o último grão de Fé e de Esperança que guardava no coração.

Às quinze menos dez, o BMW turbo diesel, guiado pelo impetuoso oficial, partia rumo à Portela de Sacavém, arrastando com ele o cavaleiro do impossível, a quem mais nada restava senão morrer em busca da sua amada. Assentado ao lado do cunhado, Rui Patrício parecia um viajante do infinito a perscrutar o eco de um gemido, de um choro ou de um grito, enquanto no banco traseiro a Paula e a Vera, vendo a sua dor, espiavam pelo retrovisor o olhar inquieto do Júlio, que se roía de raiva por não poder partir também em demanda da maninha.
Depois do check in junto dos balcões da Air France, foram beber um café para passar o tempo e desabafar um pouco. O advogado e a jornalista vestiam calças e camisas de ganga e calçavam sapatos de caça, como se fossem para um safari, enquanto a secretária, de mini-saia e t-shirt amarelas, usava umas sandálias pretas como o cinto, como se partisse de férias.
Às 17 horas, quando o megafone lhes pediu que se dirigissem para a porta de embarque número vinte e quatro, Júlio deu um abraço ao cunhado, beijou as moças e permaneceu ali de pé a acenar até que eles entraram no Airbus da companhia gaulesa.
Depois, colando-se ao vidro, esperou que o avião iniciasse a descolagem e desaparecesse no horizonte, largando duas tiras de fumo branco que, desfazendo-se lentamente, se integraram nas nuvens. Quando sobrevoava o Cristo Rei de Almada, Rui Patrício, lembrou-se dos que ficavam e, pensando que fosse o último, lançou-lhes fervoroso beijo de adeus.



Continua em: A Força do destino - Capítulo VIII


LMP - LUXEMBURGO, FEVEREIRO DE 1997
LUD
MacMartinson

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