Lady

sábado, 12 de abril de 2008

FD * Capítulo VIII



CAPÍTULO VIII



E, instalando-se no assento, encostou a cabeça e cerrou as pálpebras, sob o olhar da condoída Vera, enquanto a Paula esfolhava curiosamente a revista de bordo, tentando traduzir os títulos, num teste aos seus conhecimentos de francês, antes de se aninhar contra o patrão.
Depois de um pesado cochilo, o advogado abriu os olhos e, vendo-as adormecidas, procurou livrar-se do peso que lhe provocara uma dor no pescoço. Gentilmente, a hospedeira de bordo, uma esbelta e simpática parisiense de cabelos castanhos, vendo-o suster com ambos os braços as duas mulheres, esboçou um sorriso e, procurando nos armários do avião, ofereceu-lhe duas almofadas para que deixasse de fazer de travesseiro às beldades. E as dorminhocas só acordaram, irritadas com as cócegas que ele lhes fez nos ouvidos, para tomar o petit-déjeuner que precedeu a manobra de aterragem.
Quando o comandante de bordo lhes pediu que apertassem os cintos de segurança e parassem de fumar, a escuridão nocturna, liquefeita pela luz difusa do sol nascente nos confins do horizonte, quiçá emergindo do Lago Vitória, levantou o véu da magnífica e perfeita igualdade dos homens de todos os países vistos do céu, pondo fim a tão flagrante ilusão. Mas, apesar dessas disparidades, como fora bonito assistir ao nascer do sol tropical, com o seu clarão rubro alaranjado, um tudo-nada diferente do de Portugal.

Na penumbra, Luanda parecia uma cidade fascinante, em tudo igual a tantas outras do primeiro mundo, com o bónus do encanto do Atlântico, tal noivo enamorado, a beijar, adorar e a esperar que o tempo passasse e com ele levasse o malefício da sua bela adormecida, mas a guerra hedionda, que os cisnes daquelas paragens se moviam, era um canto desolador que açambarcava todas as suas horas, não lhes deixando um mísero minuto para o tempo do sonho, porque a morte era o único passatempo dos abutres daquele povo.
Mal pisou o solo angolano, Paula sentiu um calafrio e, arrepiando-se toda, abraçou-se emocionada ao patrão, agradecendo-lhe aquele momento de felicidade. Ele, sorrindo à Vera, acariciou-lhe paternalmente os cabelos frisados e enxugou-lhe a lágrima de gratidão que lhe resvalava pela face. Foi então que a jornalista tirou da bolsa dois crachás e lhos entregou para usarem em caso de necessidade. Oficialmente, elas eram respectivamente a assessora e a secretária do Dr. Rui de Aguiar, consultor do Diário que, aproveitando o comprovado eco interno, pelas entrevistas que precederam a partida e as eventuais repercussões internacionais da missão humanitária lusitana, pretendia liderar um pólo de comunicação que influenciasse uma maior participação de Portugal no processo de reconciliação angolano e iniciasse, nas Nações Unidas e com o beneplácito dos EUA e da URSS, as duas superpotências mundiais e os verdadeiros mentores daquela e de outras guerras, o longo e penoso caminho da Paz, sem a qual nenhum país pode aspirar a um futuro digno. Infelizmente, Angola, Líbano, Afeganistão e tantos outros países terminados em ão em que de Iraque, eram o tabuleiro onde o capitalismo e comunismo, jogando com a sobrevivência do plante, tentavam o derradeiro xeque-mate.

Enquanto aguardavam a bagagem, eles aproveitaram se mentalizar da nova identidade. Quarenta minutos depois, passaram pelo controlo, onde o camarada de serviço, enfeitiçado pelos seios da mulata, lhes carimbou automaticamente os passaportes. No exterior, um taxista nem o deixou acabar de pousar as malas para respirar de alívio, oferecendo-se para os conduzir para onde quisessem e pela melhor tarifa do mercado. Simpatizando imediatamente com o negro, o consultor pediu-lhe que os levasse ao hotel da delegação portuguesa, onde deveriam encontrar-se com a delegação médica portuguesa. Desconhecendo o facto, o taxista abordou dois colegas que lhe encolheram os ombros. A fim de evitar voltas inúteis, foi então que, lembrando-se que a noiva lhes havia telefonado pela última vez do hospital, o Rui pediu ao motorista que o conduzisse até lá pelo caminho mais curto, para não perder tempo nem dinheiro.
Na entrada, enquanto as senhoras aguardavam no velho Lada do Chipenda, que aproveitara o percurso para se apresentar e tagarelar, o consultor procurou obter junto do porteiro respostas para as suas inquietações, mas recebeu apenas a ordem seca de se dirigir à recepção. Aí, a funcionária de serviço confirmou-lhe que a camarada Mutemba acolhera realmente uns médicos portugueses, mas que eles, depois de uma breve visita ao hospital, haviam partido para o interior no mesmo dia. Aflito, voltou ao táxi, pedindo ao Chipenda que lhes escolhesse um lugar tranquilo para tomar um café e raciocinar um pouco.

Enquanto o motorista conduzia e lhes falava da sua vida e o dia ia dissipando os derradeiros sombreados da noite, desnudando-lhes a miséria daquela cidade fantástica, vista do Céu, mas negativamente desoladora rente à terra: ruas imundas, edifícios esventrados, postes derrubados, árvores esfarrapadas e vultos movediços a surgir de todos os cantos, como formigas, cruzando-se e escoando-se pelos escombros das avenidas, enquanto os filhos da rua, deitados nos seus colchões de pedra, se espreguiçavam para iniciar mais um contra relógio da sobrevivência. Como eram desoladores e metiam dó as tão apregoadas conquistas socialismo democrático, na realidade, aquela cidade espelhava imbecilidade e comprovava a derrota da dignidade humana.

O táxi imobilizou-se diante do Café do Malamba, paradeiro do Chipenda, propriedade de um morto vivo português. Largando os companheiros de viagem no carro, Paula, tal artista de cinema, entrou espalhafatosa no botequim e, mirando à esquerda e à direita, perguntou com um ar sedutor:
― Essa geringonça funciona como deve ser, bonitinho?
― Ôh, o telefone, madame? ― indagou o mulato, embasbacado, fascinado pela mini-saia amarela donde espreitavam as coxas da estrela.
― Sim, aquele telefone chega a Portugal ou não? ― retorquiu irónica.
― Desculpe, menina, mas o ti Xaquim, o meu patrão, diz que, para quem não come nem bebe nada, o telefone está sempre enguiçado ― lamentou o moço, retirando os olhos do busto da garota.
― Então serve-nos quatro cafés com leite ― ordenou decidida, sacudindo a saia e beijando-o de fugida no rosto, perante a risada do taxista que sambava ironicamente no terreiro.
― Tu!... Tu vais... Não bebes mais cachaça...― berrou furioso, correndo para dentro do balcão.
― Desculpa, meu, mas tu não gostou do beijo da menina, Roberto? Se tu não gostou, tu és paneleiro! ― deduziu o taxista, reinadio.
― Pára, Chico, senão ainda te atiro com um... ― barafustou o empregado, corado pelos olhares dos jornalistas.
― O Chipenda está a brincar!
― Café, caipirinha, chocolate quente, o que é que lhe sirvo, menina?
― Café para três e caipirinha para um e o telefone que chegue a Portugal. Ei, a chamada é cara ou não?
― Se tu falares pouco e depressa... ― respondeu duvidoso.
― Se ele nos servir bem e nos fizer um desconto, o Roberto merece uma gorjeta, Dr. Rui, não merece?
― Certamente, Paula ― apoiou o advogado, arrastando uma cadeira.
― Até que o Roberto é um rapaz bem bonito, não é, Paula? ― reparou a assessora, sentando-se entre o consultor e o chofer.
― O Roberto Carlos é muito envergonhado e a gente só xinga ele de brincadeira, não é amigão? ― explicou o Chico.
― Roberto Carlos como o cantor?! ― retorquiu Vera, admirada.
― É, a minha mãe gostou muito de um soldado português que era fã e tinha muitos discos do Roberto Carlos, como o Calhambeque e Eu sou terrível, e quando eu nasci, como o meu pai já tinha ido embora para Portugal, ela lembrou-se de me chamar assim ― explicou a mulato.
Deixando o café a arrefecer sobre a mesa, Rui foi ligar para casa, mas demorou pouco, voltando com os olhos encharcados, tal como os sogros e o cunhado, para quem aquele 25 de Abril, feriado nacional e dia da Liberdade, se transformara, sem notícias da Cristina, num verdadeiro calvário.

Desesperado, prometeu o céu e a terra ao Chipenda, se o ajudasse a salvar a sua noiva; ao Roberto, que, sem clientes, o escutava religiosamente curvado de pé, jurou ajudá-lo a descobrir o paradeiro do pai e prometeu-lhe uma moto, o que entusiasmou o garotão, cujo sonho sempre fora ir para Lisboa ganhar dinheiro para um rádio, uns óculos e umas roupas garridas como as da Paula, enquanto que para as intrépidas companheiras só restaram lágrimas e soluços.
Comovido e revoltado com aquele drama, Chico, que, depois de sete anos a combater a Unita de Jonas Savimbi, não conseguira mais que um carro velho que pintara de táxi para, no mercado negro, ganhar os Kuanzas para matar a fome à família, que não via há 24 horas, levantou-se e disse irado:
― Não chore, Dr. Rui, que a senhora doutora há-de aparecer, nem que, para isso, tenha que chamar o meu regimento para virar Angola do avesso.
― Então fá-lo rápido! ― disse o advogado, dor e enxugando os olhos.
― Os senhores vão a pé até aos correios e vejam se a Embaixada vos pode ajudar, enquanto eu vou falar com os camaradas e o Roberto fala com o ti Xaquim. Daqui a três horas, ao meio-dia, cá estarei com novidades. O Café do Malamba é o lugar de maior confiança de Luanda ― disse confiante, bebendo uma segunda caipirinha de um trago, o que lhe fez abrir a boca e esticar a língua esbranquiçada.
― Então corra que nós cá estaremos ― rogou impaciente, seguindo Chipenda até ao táxi para pegar nos sacos, que a Paula ajudou a trazer para dentro do botequim.
Guardando-os no interior, Roberto tranquilizou-os e, acenando-lhes, pegou no auscultador e telefonou ao patrão, contando-lhe o sucedido com o compatriota e pedindo-lhe que viesse quanto antes pois precisavam urgentemente da ajuda dele.
Entretanto, Chico, depois fazer saltar da cama os colegas de armas, lembrou-se de um amigo que fizera parte da guarda pessoal do primeiro presidente da República Popular de Angola, o Dr. Agostinho Neto, líder do MPLA, a quem os comunistas portugueses haviam passado o poder, e telefonou-lhe, pois sabia que ele, entretanto saneado, mantinha contactos com os serviços secretos de Luanda.
Depois de ligar para vários lugares, o consultor e a assessora ficaram convencidos que o Fagundes beneficiava da protecção e do beneplácito de gente influente, o que o obrigou a ligar novamente para Portugal e a pedir ao Júlio, que estava na base aérea de Monsanto, para melhor receber as informações do seu amigo Bill Garcia do pentágono.


Entretanto, postado no terreiro do botequim, Roberto ia perscrutando as vielas que desembocavam na avenida, num incessante e desesperante vaivém, na ânsia de aperceber alguma cara conhecida. Quando faltavam dez minutos para o meio-dia, surgiu o Chipenda com o táxi abarrotado de negros, três, quatro, cinco, seis rapagões, muito divertidos, a fumar liamba, todos emproados num uniforme desbotado por sete anos de sol e chuva. Chegando a pé, com as duas senhoras, Rui Patrício sorriu-lhes e, sentindo a familiaridade com que o olhavam, acrescentou:
― Se os nossos amigos forem tão corajosos como alegres...
― Estes camaradas são tipos porreiros, patrão! ― exclamou o taxista.
― Prazer em conhecer-vos! Eu sou o Rui, advogado e consultor do Diário, um jornal de Lisboa, esta senhora é a assessora Vera e aquela beleza descarada é a Paula, a minha secretária, que me convenceu a vir conhecer a terra e, como a minha mulher, que é médica e faz parte de uma delegação portuguesa, está por aqui, juntei o útil ao agradável e vim vê-la, não vá ela sentir de mais a minha falta ― disse reconfortado pela descontracção daqueles, fazendo as apresentações.
― O patrão...
― Ah, Chipenda, deixa lá o patrão, eu sou o Rui.
― É, Chico, ― adiantou Paula ― o Dr. Rui é uma pessoa muito simples, para quem não há preto, nem branco ou amarelo, mas pessoas da mesma Raça Humana, por isso tratem-no como vosso irmão.
― Então já comeram? ― perguntou o advogado.
― Quase nada, Rui. Sem trabalho, estes gajos passam o dia na cama a beber cachaça e a fumar liamba!
― Roberto, dá de comer aos nossos amigos! Por favor, comam e bebam que temos muito que batalhar!
― Sanduíches e cachorros, Dr. Rui?
― O melhor que tiveres.
― Nós come tudo, como tu, meu! ― bradou o mais magro de todos.
― Então vamos lá para dentro, que este sol mata.
― Ufa! Que torreira! ― exclamou a jornalista.
E, sorrindo, entraram no botequim. O Sr. Xaquim chegou pouco depois.
― Eu sou o Joaquim, Dr. Rui.
― Vejo que o Roberto já lhe falou de mim, Sr. Joaquim...
― Da Silva ― acrescentou o emigrante.
― E o senhor Joaquim da Silva donde é?
― De Trás-os-Montes. Da Asnela, na freguesia dos Vilares, que pertence ao concelho de Murça.
― Há quanto tempo já vive em Angola?
― Em 1961, vim para cá como soldado e nunca mais voltei, Dr. Rui...
― Desculpe, Sr. Joaquim, o meu nome completo é Rui Patrício de Aguiar Fontoura.
― Aguiar Fontoura?!
― Sim, amigo Joaquim, Aguiar Fontoura como o meu pai e a minha mãe que Deus tem ― disse comovido.
― Esses nomes não me são estranhos, recordam-me qualquer coisa, deixe-me ver... ― acrescentou pensativo.
― Eu também sou transmontano e os meus pais eram professores...
― Ah, é isso, já me lembro! Eles morreram aqui, não morreram?
― Não, eles foram assassinados...
― Santo Deus, então aquele casalinho de professores eram os seus pais! Sinto muito, Rui, mas aquilo foi uma barbaridade que chocou toda a gente, colonos e indígenas, como os portugueses diziam. Ouvi dizer que os seus pais amavam tanto este país que tinham vendido tudo em Portugal. Coitados, quis o destino cruel que deixassem cá o corpo e a alma. Foi perto do Nambuangongo, se não me engano.
― Não se engana.
― Onde estava o senhor nessa altura? Porque não estava cá com eles?
― Eu estava a estudar em Vila Real.
― Isso deu-se há mais ou menos quinze anos, não foi?
― Há dezassete! Eu ia fazer onze anos. Mas o que mais me entristece é que nunca ninguém chegou a ver os seus corpos. O governo disse-nos que morreram calcinados, mas sempre acreditei que não foi assim e devem restar por aí muitas coisas deles, fotos e objectos pessoais. Se soubesse como gostaria de ter a certeza...
― Que eles morreram, Dr. Rui Aguiar, lá isso é, infelizmente, verdade, porque houve muitas pessoas, sobretudo das redondezas que foram ver e assistiram no local da tragédia a uma missa campal celebrada pelo capelão. Dizem que estava lá um mar de gente, brancos e muitos negros que gostavam muito dos senhores professores. Olhe, se isto o pode consolar, aquilo foi um engano. A emboscada destinava-se a um jeep de um graduado do exército colonial que andava a mostrar o local das suas façanhas à mulher, que por sinal era uma puta refinada, mas pronto...
― O Sr. Joaquim ouviu falar dos médicos portugueses que estão aqui?
― Não, não sei nada. Quando chegaram?
― Sábado. A minha noiva telefonou-me ontem do hospital e disse-me que alguém queria tramá-la.
― Eu desconfio que...
― O quê? Fala, Chico! ― questionou nervoso.
― Um amigo disse-me que os médicos foram separados em dois grupos de mais ou menos dez pessoas cada: um foi entregue à camarada Mutamba e ao chefe dos portugueses e o outro a um oficial cubano, o Major Ruiz.
― A minha mulher está nesse grupo. E qual foi a direcção que...
― A Mutamba desceu o Lobito e o Ruiz seguiu Cabinda.
― E para que lado fica o Nambuangongo, Sr. Joaquim?
― O Nambuangongo fica mais perto do Uíge, no nordeste, não é, Chipenda? ― perguntou o emigrante.
― É isso, Xaquim.
― Angola já não tem oficiais, Chico?
― O camarada Presidente acha que os russos e os cubanos são mais inteligentes e reserva-lhes as melhores datchas, os melhores hotéis e até as mulheres mais bonitas, enquanto que o povo morre de fome. Para nós, desmobilizados ou mutilados, deixou a rua e os coqueiros...
― É, esses filhos da puta roubam o nosso dinheiro, as nossas as mulheres e têm carro e hospital de graça, mas nós, que lutámos estupidamente contra os nossos irmãos da Unita nem um Kuanza ― desabafou outro, mastigando uma sanduíche de queijo que o Roberto Carlos lhes serviu com meia dúzia de latas de cerveja.

Entretanto, surgiram dois mulatos dos dez anos, com os livros às costas, que beijaram o Xaquim no rosto. Rui Patrício e a Vera, que bebiam um sumo de laranja, viram logo que eram filhos do transmontano e sorriram-lhes, cativando-os imediatamente. A Paula acariciou-os e beijou-os, o que muito sensibilizou o português de Murça e a D. Filomena Neto, sua mulher, uma negra bonita que, enquanto lhes preparavam as sanduíches, não parava de espreitar pelo postigo da cozinha e de observar as reacções do marido.
Duas horas depois, vendo diante do botequim o jeep que o Sr. Joaquim lhe fora desencantar, Rui Patrício, que passara esse tempo a estudar um plano de acção com a Vera e os mocetões escolhidos pelo Chipenda, respirou mais confiante, pensando que o destino o arrastara ali para saldar todas as dívidas. Antes de sair de Luanda, telefonou ao cunhado, contando-lhe o encontro com o conterrâneo e anunciando-lhe a partida iminente com a Paula e quatro matulões ao encontro da Cris, algures nas planícies da Lunda, entre a cidade costeira de Nzeto e o rio Kongo. A Vera ficaria com a Filomena para lhes servir de elo de ligação e lhes ir comunicando, à medida que as fosse recebendo, as novidades ou a notícia fatal, enquanto o conterrâneo, o moço e dois amigos do taxista que, sem nada que fazer, se ofereceram para ir conhecer o Nambuangongo com o negociante português.
A separação foi comovente. Abraçando-se desesperadamente como se fosse pela última vez, Rui e Vera beijaram-se no rosto e viraram-se as costas sem dizer adeus.

Nesta tarde de segunda-feira, 25 de Abril, enquanto o advogado e a secretária descobriam a pujança da imensidão angolana, numa empoeirada corrida contra o tempo, a Filomena foi ao hospital falar com a recepcionista e o porteiro para tentar, com uns Kuanzas, sacar-lhes informações sobre o paradeiro da delegação médica portuguesa. Mas, apesar de toda a generosidade, teve que voltar ao botequim, onde o Tó e o Quim cuidavam do comércio e da Vera que, consultando o mapa no interior da loja, anotava num bloco os nomes das principais cidades da ex-colónia portuguesa, bem como dos números dos telefones mais úteis. Desconsolada, a mulher do Xaquim quase nem se atrevia a falar-lhe.
― Desembucha, Filomena, até parece que recebeste más notícias!
― Mim gastar os Kuanzas toda para nada ― contou decepcionada.
― Então?! Vá, conta!
― Os camaradas parece que têm medo de abrir os boca!
― Mas eles não te disseram mesmo nada? ― insistiu a jornalista.
― O gajo diz que os branco volta todos às cidade prós festa de domingo.
― Que gajo, Filomena?!
― O soldado que guarda os porta do hospital.
― Mas isso é muito importante, Filomena! Obrigada, e não chores mais os Kuanzas, que o Dr. Rui pagar-vos-á tudo a dobrar. Pela lourinha do seu coração, ele daria tudo, tudo, mesmo a vida, se fosse preciso ― disse confiante, consolando-a.
― A mulher dos doutor é mesmo bonita? Ela é os doutora dos barriga e dos cabeça e sabe dos milonga?
― Ela é um anjo, uma fada, uma princesa, Filomena!
― Um anja ou uma anjo, Vera?! ― retorquiu duvidosa.
― É isso! E o teu Xaquim nunca mais quis voltar a Portugal?
― Os família do meu homem já morreu e ele diz que os camarada pensa que ele morreu nos emboscada dos preto nos 1963.
― Em 1963?! Se bem entendo, ele foi dado como morto e os pais dele enterraram outro. É isso, Filomena?
― É, ele ficou preso dez ano nos mato e depois nós gostar muito um do outro e fazer muito zaque-zaque e os barriga crescer muito com os menina.
― Que idade tem o Joaquim, Filomena?
― Quarenta e quatro ano, mas o gajo está mais melhor bom agora!
― Quer dizer que vós sois muito activos na cama, é isso?
― Nos cama, nos mesa, nos cadeira, onde calha. Porque estás a rir?!
― Desculpa, Filomena, mas nunca pensei que o teu Joaquim fosse tão assanhado ― acrescentou maliciosa, estancando o riso.
― As mulata gosta muito do careca do meu Xaquim, sabias?
― Está bem, deixa que quando ele voltar, eu vou pedir-lhe que me conte a história da vida dele, sobretudo depois que te conheceu, mas eu pago.
― Bô dar Kuanzas a ele pra falar? Dás meia-dúzia dos cerveja e uns cachaça prós camarada e ele conta tudo ― disse risonha.
― E se tu me contasses como conheceste o Joaquim?
― Tu querer mesmo ouvir os história dos preta, Vera?
― Mas és uma preta muito bonita, Filomena! Sim senhor, o Xaquim tem muito bom gosto!
― Agora, eu já estar velha e muitos fodida! Antes, sim, eu pôr os gaja todos maluca com os tanga nos anca ― acrescentou vaidosa, ensaiando um pé de dança que lhe fez balançar as coxas e os seios.
― Vá, quando quiseres, podes falar! Começa por onde nasceste, como viveste, o que fizeste, enfim!, o que te der na gana, Filomena ― disse ela, impressionada com a genica daquela bacia, de gravador na mão.
E, deitada no colchão, Vera ficou a tarde toda a ouvir a narração da negra que, ora debruçada na janela a olhar para a avenida, ora sentada na cama a mirar os brincos e os lábios finos da branca, ia recordando a sua miserável, mas alegre infância no mato ao lado dos guerrilheiros do MPLA. Pela noitinha, o trrim estridente do telefone, fê-las parar.
― Alô!! Sim, aqui fala o Filomena Neto dos Café dos Malamba.
― Eu sou o Rui, passe-me a Vera, por favor, D. Filomena.
― É dos doutor para tu, Vera ― acrescentou a negra, de auscultador na mão, arregalando os olhos e mostrando ligeiramente os dentes brancos como o marfim.
― Onde estás, Rui? ― perguntou Vera, impaciente, colando bem o aparelho no ouvido, dadas as péssimas condições da comunicação.
No diálogo deu para perceber que eles seguiam no encalço da delegação, depois de, a duzentos quilómetros da capital, terem finalmente conseguido saber que os cinco médicos portugueses haviam passado por ali há cerca de nove horas, sob a escolta de três soldados angolanos e dois oficiais cubanos. Não perdendo tempo, a jornalista ligou imediatamente para o solar para sossegar a família da doutora, dizendo-lhes que o Rui e a Cristina só estavam separados por cem quilómetros, o que atenuou a angústia que se vivia no Solar, onde afluíam os amigos do ex-Conselheiro, apesar de, por todo o Portugal, se homenagearem os heróis da Revolução dos Cravos. E nunca uma noite fora tão longa como a deste 25 de Abril de 1983.

No meio daquela tempestade fúnebre, só Celina não se deixava invadir pelo mau presságio e intimidar pelo medo, procurando, tal enfermeira incansável, curar as chagas invisíveis daqueles corpos exaustos, a quem o sono nem se atrevia a apoquentar, tão histéricos e herméticos estavam. E à medida que as horas passavam, a maior parte do tempo a beber café para não desfalecer, e a rezar, para não deixar morrer a esperança e manter viva a chama da fé no único desfecho possível para aquele coração maternal, a histeria foi-se apoderando dos mais racionais. A Cély bem quis animá-los antes de regressar a Santo Amaro com o vovô Félix, mas em vão.

Entretanto, enquanto Júlio se mantinha na base e aguardava a chamada do cunhado para lhe dar a notícia que mantinha os pais a cochilar perto do telefone, Rui e Chipenda, revezando-se ao volante, prosseguiam a histérica demanda, desbravando os poeirentos estradões da Lunda Norte; Vera, essa, ora se deitava e dormia um pouco, ora se levantava atordoada e olhava simultaneamente para o tic-tac do relógio e para a mudez do auscultador, quando não espreitava pela janela e perscrutava a escuridão, rezando para que o dia e o sol fossem mais madrugadores.
E doze horas passaram sem que o cavaleiro da noite lhes desse sinais de vida e o telefone quebrasse o silêncio hediondo daquém e dalém mar, como se a desventura tivesse posto um ponto final na vida da ténue esperança que eles se obstinavam a suster estoicamente.

Na terça, descontrolada pelo incessante vaivém nocturno, Vera só pegou no sono de verdade pela manhã acordando pelas onze horas. Angustiada, não perdeu tempo telefonou ao director do Diário, confiando-lhe tudo o que sabia e pedindo-lhe que fizesse estoirar a bomba na edição de quarta-feira, se não fosse possível fazer uma tiragem especial e sacudir as autoridades nacionais, para que, face à emoção e à pressão populares, o embaixador e o governo de Angola se explicassem sobre o desmembramento da missão humanitária e o mistério que rodeava a delegação.

Mário Wellenstein, depois de avisar as famílias dos médicos e de consultar os seus conselheiros, mobilizou de imediato toda a redacção do jornal e à noitinha o scoop estava imprimido e pronto a sair para a rua, aguardando apenas uma ordem da Vera.
Entretanto, em Luanda, como o tempo passasse e a tarde batesse muda no Café do Malamba, a jornalista contactou a Embaixada de Portugal em Angola e pediu-lhe que fosse recebida com a maior urgência, mas a secretária do embaixador, invocando o feriado do 25 de Abril em Portugal, escusou-se, dizendo-lhe que Sua Excelência se encontrava fora do país, muito provavelmente em Lisboa, em Kinshasa ou em Dakar, no Senegal. Mal pousou o auscultador, o trrim fê-la estremecer.
― Alô?! Ufa! Até que enfim, Rui! ― desabafou aliviada.
― Não, Vera, sou o Joaquim. Olhe, diga ao Rui que encontrei o que ele mais desejava.
― Ó Sr. Joaquim, eu estou sem notícias dele desde ontem à noite!
― Não se aflija, Vera, que o Chipenda e os amigos são rapazes de confiança e conhecem muito bem as manhas da guerra e do mato. Se Deus quiser, o Dr. Rui Fontoura encontrará tudo o que procura e regressará em paz à pátria ― acrescentou confiante, tranquilizando-a.
― A sua Filomena passou a tarde de ontem a contar-me a vossa vida.
― Psch! Ela não sabe o melhor, Vera!
― O senhor autoriza-me a publicar o que sei?
― Credo, Vera, eu já morri há tantos anos! Já viu o que fariam ao cemitério dos Vilares se soubessem que não é o Quim da Asnela que lá está? Aquilo seria um rebuliço tão grande na vizinhança que não restaria vivalma no Fiolhoso, na Carva ou em Alfarela. Com aquela gente toda a cavar, até os mortos se pirariam para o inferno!
― Claro que, como deve calcular, nunca revelarei o seu nome nem a terra onde isso aconteceu...
― Pronto, pode escrever, mas tenha cuidado, para que não me venham cá desencantar. Como dizia aquele ajudante do general da anedota, eu estou morto e bem morto, ouviu, Vera?
― E o quando é que o senhor estará de volta?
― Sexta-feira, à noite, se Deus quiser já poderei consolar a Mena.
― Vá, juizinho e boa viagem! ― disse esperançada.
Pousando o telefone, espreitou pelo alçapão para o botequim, onde a Filomena e os filhos distraíam os clientes. E, voltando a sentar-se na cama, escreveu desesperadamente tudo o que lhe passava pela cabeça. Mas como era frustrante viver na incerteza, querer virar o mundo do avesso, dar umas chapadas na secretária da embaixada e, sobretudo, pôr de molho aquele desgraçado do Fagundes, depois de uma valente sova e cortar-lhe de vez o símbolo da virilidade, e não poder fazer nada.
Às seis da tarde, depois de comer uma malga de cachupa, Vera fixou devotadamente o telefone, pensando ligar para Lisboa, mas, assustada por um disparo, escondeu-se rapidamente debaixo da cama e, aterrorizada, aí ficou de respiração suspensa, até que ouviu o Quim soltar uma gargalhada e gabar-se de ter posto um assaltante em fuga. E foi nesse preciso momento que o trrim ecoou timidamente, fazendo-a sair imediatamente do esconderijo.
― Alô?! ― respondeu atemorizada, tremelicando como uma vara verde.
― O que se passa, Vera?
― Nada, foi só um tiro, Rui! E vós onde estais?
― Olha, a Cris e as colegas foram levadas para um Motel. Escuta, eu e a Paula estamos a pensar num estratagema para nos aproximarmos delas, mas por favor, telefona aos meus sogros e diz-lhes que aguentem só mais um ou duas horas. Quando estivermos no Zaire...
― O quê? No Zaire?!
― Sim, nós estamos muito perto do rio Kongo e da cidade de Matadi.
― Então despachai-vos, porque, amanhã, todo o mundo saberá o que aconteceu: o Diário anunciará o vosso desaparecimento para obrigar as autoridades angolanas a reagir imediatamente.
― Por amor de Deus, não faças nada sem eu te avisar!
― E se vos matam?
― Fazei justiça, Vera! Bom..., daqui a pouco vou entrar no motel e só sairei de lá com a Cris viva, caso contrário, adeus até sempre e obrigado por tudo, minha querida amiga.
― Cuidado, Rui! Que Deus vos guarde! Ah..., espera!
― Sim...
― O Sr. Joaquim telefonou a dizer que sexta-feira terá em Luanda o que vieste procurar! Sede prudentes e que Deus vos proteja, meu..., meu... amor! ― balbuciou nervosa, beijando sensualmente o auscultador.
― Até logo! ― disse confiante, pousando o telefone no cabina do bar donde vigiavam o motel.
― O patrão ouviu?
― O quê, Paula?
― A Vera está verdadeiramente apaixonada por si! Beijou-o...
― Dá-lhe o desconto! Coitada, como receia que eu morra, aproveitou para me dizer que me amava...
― É, no lugar dela, talvez fizesse o mesmo!
― O que é que a Paula faria no lugar da Vera?
― Ora essa, beijava-o como me desse na gana... Morrer por morrer, então mais morrer consolada!
― Lá por isso... Espera... e se..., não..., não, esqueça, não daria certo!
― O que é que não daria certo, patrão? Se eu o beijasse ou fizesse amor consigo antes de morrer?
― Credo! Fecha para lá essa boca que me arrepias!
― E o que é que não daria certo? Comigo esteja à vontade, que se for preciso ir com o cubano, para a cama para salvar a sua russinha, eu vou!
― Com o cubano não, comigo!
― Ah! Consigo?! O patrão está a...
― Não! Como o Zaire está perto e eu falo francês, imaginei que podíamos passar por..., sei lá!
― Pois, já vi, eu seria a puta e você o cliente! Um belga, por exemplo.
― Perfeitamente! Mas, descanse que não chegaríamos a...
― Oh! Que pena! ― murmurou desconsolada.
― A Paula tomou a pílula?
― Quer dizer que se for preciso fazer amor de verdade, o patrão...
― Para salvar a Cris até o faria com o Ruiz e um regimento, mas..., depois, se me pudesse vingar, nem ossos lhes deixaria!
― Ei, acalme-se e concentre-se! Bom, para passar por uma puta descarada... Estou bem assim? Je te... Como se diz? ― questionou divertida, ajustando a saia e o sutiã para realçar a silhueta.
― Em francês, dir-se-ia: “Je te plais, mon chéri?” Mas fala português e explícito! Ah! Eu sou belga e chamo-me Michel! Michel Lecornu!
― Com que então o Michel quer pinar!
― Pinaarr?! ― perguntou admirado, pronunciando à francesa.
― Sim, fazer zaque-zaque!
― Óptimo! Até parece uma habituée, uma profissional!
― Ei, descarada sou, mas o resto não, ouviu?
― Longe de mim tal pensamento, Paula!
― Bom, como estamos na minha terra, a partir de agora quem manda sou eu! Por isso, deixe-se levar e não tenha medo que eu não o como, mas cuide-se, que, amanhã, quando a sua russinha souber..., ciumenta como é, mata-o!
― Ui, que bom! Esta noite irei conhecer a loucura da infidelidade! Hum! Oh! Tes seins! Tes cuisses... me... Oh! Que tu es belle! ― exclamou enamorado, desempenhando à perfeição o seu papel.
Divertida, a meretriz adiantou o passo e, empiscando descaradamente, roçou o indicador no polegar, antes de o balançar da esquerda para a direita, obrigando o cliente a apalpar o bolso e a puxar pela carteira.


Continua em : A Força do destino - Capítulo IX






LMP - LUXEMBURGO, FEVEREIRO DE 1997
LUD
MacMartinson

Um comentário:

Anônimo disse...

Hello. And Bye.