sexta-feira, 11 de abril de 2008

FD * Capítulo II


CAPÍTULO II



Na manhã do Dia de Finados, 2 de Novembro, uma chuvosa terça-feira, o arquitecto e o afilhado foram juntos com a Cély ao cemitério visitar a campa da Dina e depositaram nos vasos de porcelana dois ramos, um de rosas vermelhas e brancas e outro de crisântemos. Depois de rezarem pela defunta e os entes queridos, decidiram retirar-se, não fosse compaixão dos vizinhos comovê-los e fazer-lhes perder a firmeza.
À saída, vestindo dois paletós negros idênticos, os doutores foram saudados pelos populares que aí se haviam deslocado para honrarem a memória dos deles, lançando à Celina, que vestia uma gabardina cinzenta desabotoada, um olhar comovido. Os homens agrupados perto das grades miraram-nos sem pestanejar. Incomodado pelo silêncio, o venerando Dr. Félix sorriu ao porteiro da escola e disse:
― Ainda bem que parou de chover, Sr. Henrique.
― É verdade Sr. Doutor. Isto também já era água a mais ― respondeu o velhote, envaidecido pelo tom familiar com que o arquitecto se lhe dirigia, beijando carinhosamente a Celina.
― Sr. Henrique, se a minha filha arranjar algum namorado avise-me! ― murmurou o advogado, esboçando um sorriso tímido.
― Não se preocupe, Dr. Rui, que eu e a Ester temo-la sempre debaixo do olho!
― Muito bom dia a todos! ― disse risonho, acenando às pessoas desejosas de lhe apertar a mão e de beijar a órfã, mas que o pudor colava à calçada.
E, sorrindo timidamente a toda gente, foram-se embora, deixando para a Celina os acenos de despedida. Comovidos, os populares ficaram a comentar a nobreza e a simplicidade daquelas almas, dizendo que era de homens como eles, simples, amáveis e generosos, que Portugal precisava, porque os outros, os que governavam, eram uns ingratos que não sabiam falar ao coração e só lhes ligavam antes das eleições, porque depois fugiam do povo como da peste, excepto, e justiça lhe era feita, o infeliz Dr. Francisco Sá Carneiro, o corajoso Primeiro Ministro, a quem, dizia-se, os comunistas haviam tirado a vida em Camarate, na malfadada noite do dia 4 Dezembro de 1980.

Entrando no Mercedes, o arquitecto assentou-se no banco de trás com a netinha ao colo e pediu ao afilhado que o levasse para o restaurante que quisesse, pois, como a Sra. Noémia tinha ido a S. Domingos de Rana rezar pelos dela, iriam almoçar fora, aproveitando para espraiar um pouco.
“ Caramba, agora não podiam continuar a viver o resto da vida em permanente sexta-feira santa, até porque, no paraíso, onde estavam seguramente, nem a Alice, nem a Dina gostariam de os ver assim.” ― pensavam ambos secretamente.
“ Aliás, aquele ambiente fúnebre lá de casa, com dois viúvos caturras e uma velhota dada a conversas com os espíritos não era nada recomendável, nem tampouco saudável para uma criança tão extrovertida e alegre como a Celina. ” ― cogitavam mudos, dirigindo-se para Cascais.
Rolando lentamente para tentar descobrir um restaurante, Rui, que ao entrar no carro despira o paletó negro e ficara em camisola de gola alta e calças cinzentas, por sinal as mesmas que vestira há um mês na missa por alma da esposa, foi mirando à esquerda e à direita e guiando instintivamente o carro. Mas, chegando junto do Hotel Baía, como não se tivesse decidido por nenhum, deu uma guinada no volante e acelerou rumo ao Guincho. Depois de passar a quinta da Gandarinha, avistou o letreiro Mar do Inferno e virou à esquerda, estacionando a viatura no terreiro que o arrumador de carros lhe indicou com um sorriso envergonhado.
― O Sr. Doutor Rui de Aguiar pode ficar tranquilo que aqui ninguém mexe. ― assegurou o estranho, um homem dos seus quarenta anos e de rosto crestado, mas de uma amabilidade extrema.
― Olá! Vejo que me conhece, senhor...
― Zé Barros, Dr. Rui ― respondeu o arrumador, acanhado, apertando orgulhosamente a mão macia que o ilustre conterrâneo lhe estendia.
― Muito prazer em conhecê-lo, Sr. José Barros! ― adiantou o advogado, confiando-lhe as chaves do Mercedes.
― O senhor doutor quer que lhe lave o pára-brisas?
― Se fizer o favor. Desculpe, já agora, se tiver tempo, agradecia que me limpasse o interior do carro. É que, sabe...
― Infelizmente sei, Sr. Doutor! ― balbuciou condoído, segurando o molho de chaves.
― Por favor, guarde-as até nós sairmos, Sr. José.
― Com certeza, Doutor Rui. Bom apetite a todos!
― Muito obrigado! ― agradeceu o advogado, cedendo a passagem ao padrinho, a quem o arrumador abrira a porta e que saía com a netinha ao colo.
― Muito obrigado, meu amigo! ― agradeceu o arquitecto, sorrindo.
― Ora essa, sempre às ordens, Sr. Doutor! ― respondeu Zé Barros, debruçando-se cautelosamente sobre o capot do Mercedes.
No restaurante, quase deserto, os clientes nem se atreviam a falar e a quebrar aquele silêncio fúnebre, como se o Dia de Finados tivesse particular ênfase naquele sítio onde, segundo a lenda, em tempos idos, uma dama da corte fugira com o cavaleiro que o esposo tirano pusera de guarda na torre do seu castelo e que com ela fugira. E, cercado pelo exército do déspota, mais terra não tendo à sua frente, aí se lançou com ela ao mar, desaparecendo na escarpada brecha da falésia, a que deram o nome de Boca do Inferno, mas que os namorados julgam ser a porta do Paraíso.

O Dr. Félix Fontoura, que não quisera ceder a Cély ao pai, escolheu uma mesa perto do aquário e assentou a mocinha com cuidado na cadeira para que, se porventura acordasse, não apanhasse nenhum susto. O afilhado, que se atrasara a lavar as mãos, veio, entretanto, todo mimos, beijá-la afectuosamente na testa, suscitando a admiração dos presentes que o conheciam sobejamente. E aos poucos, os cochichos foram irrompendo pelos cantos da sala, quebrando a monotonia do restaurante.
Entretanto, acordando despenteada, a caprichosa Cély pediu ao pai que a acompanhasse ao lavabo. Obedecendo lesto, ele ergueu-se e, traquinando-a com cócegas, seguiu-a até ao espaço reservado às mulheres, onde, evidentemente, a menina entrou sozinha.
― Demoraste tanto, filha! ― bradou desesperado, apontando o relógio.
― Tanto?! Só foram cinco minutos, papá!
― Cinco minutos para te penteares e lavares as mãos, filha?! O vovô Félix está morto de fome ― murmurou impaciente, recriminando-a.
― Então anda, corre! ― disse apressada, despachando o pai.
― Calma, Cély, calma! Parece que viste...
― Não vi nada! Deixa-te de fantasmas, papá?
― Até me parece que...― adiantou intrigado.
Saltitando feliz, Celina foi assentar-se na sua cadeira e começou a sorrir.
O arquitecto, que permanecia estático no seu lugar, viu-a piscar e baixou a cabeça para esconder o sorriso. Perspicaz, fingindo-se alheio à aos seus trejeitos cúmplices, o afilhado espiou-os discretamente. Entretanto, o garçon, um senhor de cabelos cortados e entradote, que já os servira por várias vezes, entregou-lhes a ementa que a Cély esfolhou rapidamente, enquanto o servente anotava as bebidas.
― Psch! O meu papá encomendou-lhe um sumo para mim?
― Sim, menina, o seu papá pediu-me um sumo de laranja para si ― confirmou gentilmente o garçon.
― Desculpe, mas eu prefiria um suco de frutas tropicais. Por acaso tem?
― Com certeza, menina. Com licença! ― disse risonho, retirando-se surpreendido pela destreza da pequena.
Fitando-a, o arquitecto regozijava-se de a ver crescer e adoptar, cada vez mais, a irreverência maternal. Orgulhoso, o pai ria-se por dentro, tanto a filha lhe fazia lembrar a esposa.

Durante a refeição, uma salada de polvo com azeitonas e cebola e bacalhau grelhado com batatas a murro para eles, e uma canjinha e um bitoque para ela, o advogado não parou de cismar com os sorrisos que o padrinho e a Cély iam trocando às escondidas. De repente, ao beber um golo de vinho verde Casal Garcia, ele surpreendeu-a a piscar no sentido oposto, mas não se deu por achado, continuando estático e indiferente. Estranhamente esfomeada, a Cély não parava de comer e sorrir para o prato. Enquanto o servente levantava os pratos, o arquitecto, que há muito deixara de fumar, apesar de andar sempre com o cachimbo no bolso para matar o vício, aproveitou para ir dar uma valente cachimbada para a Boca do Inferno, o ex-libris de Cascais. Celina, limpando os lábios ao guardanapo, pediu licença ao pai e correu a juntar-se ao fumador.
― Também a viste, filhinha? ― perguntou nervoso.
― Sim, vovô. Ai, está tão linda com aquela boina preta à Che Guevara!
― Che Guevara?! Tu...
― Quem não conhece aquele mito, vovô?!
― Mito?!
― Pois, mito, como dizia a mamã, mas... será que o papá terá a coragem de lhe falar e fazer as pazes de uma vez para sempre?
― Sei lá, ele já desconfia de qualquer coisa, mas, assim de costas...
― Acabe lá com essa fumaça que eu resolvo a questão. Quer ver? ― adiantou decidida, virando-lhe costas e regressando ao seu lugar.
Pelo vidro, o arquitecto viu-a gesticular, obrigar o pai a trocar de lugar, assentando-o na cadeira dela, e correr para o terraço. Esboçando um sorriso, o afilhado acenou-lhe e, passando distraidamente as mesas em revista, estancou o olhar circunspecto numa delas. Largando o cachimbo, o padrinho viu-o corar e empalidecer, passando, num ápice, de vermelho a amarelo.
“ É melhor entrar! ” ― cogitou o fumador, esvaziando o tabaco no vaso.
― Padrinho, estão ali o doutor Edgar e a D. Susana ― cochichou aflito, amaciando a barba e ajeitando nervosamente a camisola no pescoço.
― Então, filho, eles estiveram na missa. Têm-me telefonado a saber de ti... Não achas que chegou a hora de fazer as pazes? Já lá vão dez anos, filho!
― Dez não, padrinho! Faltam três dias para fazer nove anos e três meses, mais precisamente, mas... eu nunca estive zangado com eles! Se calhar...
― Na Terra Santa, meu filho, eu descobri que para Deus e para o Amor verdadeiro não devem existir ses, porque a condição encerra em si o princípio do fim de tudo, do perdão como do sonho, da fidelidade ou da confiança. Enfim, tolices, esquece e não sigas os conselhos de um velho tonto e dado a visões. Vá, faz o que o teu coração te ditar.
― Que seja o que Deus quiser, padrinho! ― murmurou resignado, acariciando a mão do velhote de cabelos brancos que, vendo-o corar, se retirou para o terraço, deixando-o em paz.
Cabisbaixo, às voltas com a coragem que ainda lhe restava, Rui nem se apercebeu que os pais da donzela de boina preta, donde emergiam duas mechas alouradas, haviam seguido o arquitecto, largando a caturra sozinha.

Celina, que o pai julgava estar com o padrinho e os amigos, ficara a simular um diálogo com os peixinhos do aquário e, tal anjinho da guarda, a vigiá-lo pelo espelho. Passando junto dela, o garçon sorriu e mostrou-lhe a sobremesa. Atraída pela gulosice, a menina correu a assentar-se ao lado do pai que, desculpando-se, pediu ao servente para guardar as sobremesas até que o padrinho regressasse e lhe trouxesse um duplo whisky seco. Enquanto a filha ia lambiscando a banana split, rindo e fitando a sua maldita timidez com aquele olhar traquina que ela costumava lançar antes de pregar alguma partida a alguém, ele tentava aliviar a pressão. Acendendo nervosamente um cigarro, apagou-o depois da primeira chupada, por ver que ali mais ninguém fumava.
― Credo, tu vais comer esse gelado todo, filha?!
― Hum, é bom! ― bradou a gulosa, lambendo os lábios.
― Diz, Cély, tu sabes o é que o vovô está a fazer?
― Com aqueles senhores que estavam com ele na igreja?
― Sim...
― Eu acho que foram ver as falésias cavernosas e o mar bravo, mas fica tranquilo que eles não são tolos para se deixarem morder.
― Morder?!
― Então quem é bravo não morde? ― gracejou a inocentinha.
― Ah, pois é! ― exclamou o advogado, lembrando-se da história do cão bravo que contara meses atrás.
― Vês, já comi tudo, papá. Agora vou lavar a boca.
― Cuidado, não pegues em coisas sujas!
― Eu não sou nenhum bebé como tu, papá! ― protestou Celina, arregalando-lhe os olhos e fazendo-lhe uma careta provocadora.
O pai sorriu e, olhando de soslaio, fitou a múmia, em quem não queria acreditar. Intrigado, ergueu-se para a ver melhor, mas, frustrado por só lhe ver a boina preta e as mechas louras, assentou-se frustrado e impaciente.
“ Era preciso ter paciência de chinês para se manter assim estática durante aquele tempo todo! ” ― murmurou atribulado, recusando-se obstinadamente a aceitar a realidade, como quem, passando uma vida inteira à procura de um tesouro, quando o encontra, se recusa a guardá-lo, temendo que o sonho se acabe e nunca mais que o faça sonhar assim.
“ É a Cris. Não, a Cristina não era assim tão morta! ” ― dizia nervoso.
― Eh papá! Mon amour, eh! ― bradou a filha, agitando as mãozitas para quebrar o feitiço daquelas retinas nefelibatas.
― Âaaah! ― exclamou indeciso, caindo das nuvens.
― Recordas-te de eu te falar da Sra. Doutora M. C. Galvão que me ia visitar e levar muitos presentes ao quarto do hospital?
― Perfeitamente!
― Pois é, papá, ela está ali à espera do teu agradecimento. Anda, levanta-te e vai agradecer-lhe! ― ordenou enérgica.
― Que me dizes, Cély?!
― Vá, deixa-te de fitas e vai ter com ela. Se tens medo, dá cá a tua mão.
― Tens a certeza que é ela?
― Realmente, hoje tu não andas nada escorreito, sabias?
― Escorreito eu?! ― perguntou atrapalhado, surpreendido pelo termo utilizado e a postura decidida da filha.
― Sim escorreito, como diz a vovó Noémia! Hoje mais pareces um choné! Ei, tu piraste-te da mioleira ou perdeste as boas maneiras!
― Ai-ai, Celina Maria!
― Anda, papá, vamos, olha que a Sra. Doutora ainda se vai embora.
― Oh! Tenho tanto medo, filha! ― murmurou nervoso, retraindo-se acutilado por uma respiração asfixiante.
― Medo de quê?! De agradecer a quem tanto carinho me deu ou fizeste alguma de que te arrependes?
― Não, filha, eu..., eu..., eu... ― balbuciou pálido, passando a mão trémula pela testa fria e suada, pressentindo um desfalecimento.
― Sra. Doutora! Ai meu Deus! Sra. Doutora!!! ― gritou aflita, tentando desesperadamente suster o pai que, vítima de uma inexplicável tontura, ainda se agarrou à cadeira, mas, desmaiando, tombou para o chão sem que ela lhe pudesse valer.
Fustigada pelo desespero daquele grito lancinante, a médica saltou da cadeira e correu a auxiliá-la, esbarrando e derrubando o garçon que se metera à sua frente.
Levantando-se estonteado, o servente ajudou-a a erguer o cliente. Beijando desesperadamente a mão do pai, Cély, que estancara as lágrimas quando viu os dedos esguios da médica, estranhamente calma, acariciar-lhe as fontes e a barba como se fosse o seu mon amour, perguntou:
― Ele não vai morrer, pois não, Sra. Doutora?
― Claro que não, Cély ― respondeu meiga, antes de mudar de tom e ordenar ao servente embasbacado: ― Traga-me um copo de água e uma toalha e que ninguém se aproxime!
― Mas...
― Despache-se! Ei, deixem-me sozinha com ele e com a filha! ― repetiu furiosa, fustigando os curiosos com o seu olhar esverdeado.
― Por favor acorda, papá! ― implorou a menina, soluçante.
― Pat! Eu estou aqui, meu amor! ― exclamou a doutora, sorrindo à Cély que nem queria acreditar no que acabava de ouvir.
― Pat?! Meu amor?! ― indagou perplexa, fitando a médica.
― Sim, o teu papá é o meu Pat, o meu amor! ― disse envergonhada.
― É a primeira vez que ouço alguém chamá-lo por esse nome. Pat!! É lindo, Pat! Ah, então tu já conhecias o meu papá!
― Cély, tu não te chateias se te disser que amo muito o teu papá, pois não? ― perguntou afável, enquanto limpava o suor do doente com a toalha que o servente lhe trouxera juntamente com o copo de água.
― Ah não! Pelo contrário, Sra. Doutora M. C. Galvão!... Você é tão bonita! A senhora não conheceu o meu papá no hospital quando eu lá estive, pois não? ― perguntou taciturna, segurando o copo de água e espiando os trejeitos amorosos da médica.
― Não, Cély, eu conheci o teu mon amour antes de tu nasceres.
― É verdade, papá? ― questionou aliviada, sentindo o pai abrir lentamente os olhos e suspirar baixinho.
― Cris! Oh! Dói-me... Oh! ― balbuciou atordoado, clarificando a imagem nublada que pairava suspensa na sua retina e lhe ecoava envergonhada pelos tímpanos doridos.
― Psch! Por favor, bebe um pouquinho de água ― implorou carinhosa.
― É verdade, papá?
― O quê, filha?
― Que tu conheceste esta princesa antes de eu nascer?
― Sim, Cély, mas...
― Ah, então é verdade que tu tens dois mon amour!
― Dois?! Três, filha, eu tenho três mon amour.
― Puxa! Logo três, papá! ― bradou zangada, sem se aperceber que o rosto da médica se enchia de lágrimas.
― Por favor não chores mais, Cris! ― suplicou condoído, enxugando-lhe carinhosamente a face com a ponta da toalha.
― Isso, chora para fora, Cris, chora, que ele só sabe chorar para dentro! Ai, não sei como uma princesa tão encantadora pode gostar tanto de um tolo como o meu papá! ― ironizou maliciosa.
Animada pelo gracejo da Cély, a doutora levantou-se e, olhando à sua volta, foi lançar-se nos braços dos pais que choravam de pé na soleira da porta do terraço, reconfortados pelo arquitecto Félix Fontoura.

Depois, beijando-os, largou-os e, sempre a chorar de alegria, foi aninhar-se amorosamente nos braços do príncipe que o destino lhe roubara nove anos antes, mas agora lhe devolvia muito mais homem. E um beijo febril, espiado pela irradiante Celina, uniu as suas bocas por mais de dois minutos, sarando o sofrimento que a saudade encerrara nos seus corações. De pé, como que a implorar um pouquinho daquele amor, a órfã olhou-os descaradamente e, empiscando ao vovô, lembrou-se da convicção com que a mãe lhe descrevera esta cena, na última noite que passaram juntas, antes de embarcar para Angola.
Reconciliados, Pat e Cris baixaram-se, beijaram-na no rosto, um de cada lado e, como se os seus corações siameses nunca tivessem sido separados, disseram em uníssono:
― O nosso grande mon amour és tu, filha!
― Mesmo?! Ah, então temos casamento! ― deduziu descarada, empiscando ao vovô e aos pais da médica.
― Se Deus quiser ― murmuraram corados, rindo um para o outro.
― Diz, papá... ― adiantou Celina, fitando-o obstinadamente.
― Sim....
― Não será, porventura, esta a princesinha Sirc que tu, príncipe Iur, tanto amaste antes de casar com a rainha Anid?
― Pois... Eh, escutem todos! ― bradou temerário ― Para que esta encantadora princesa se torne minha rainha, por um dia que seja, darei a vida. Por favor, princesa Sirc, pense bem e diga-me: aceita ser a rainha deste pobre e miserável mendigo?
― Há nove anos que o meu coração não suspira por outra coisa, majestade! Sua rainha serei, como diz a profecia ― consentiu altiva, beijando-o fervorosamente na boca.
Estupefactas, as pessoas aplaudiram-nos estrondosamente, só parando de bater palmas com o fim daquele beijo homérico.
― Mas que belos actores! ― pensou alto uma senhora de idade.
― Que casal tão perfeito! ― rectificou orgulhosa, outra mais nobre, deixando transvasar a felicidade que jorrava do seu peito maternal.
Entretanto, abeirando-se emocionado, o Dr. Sampaio infringiu as regras cavalheirescas e, antecipando-se à esposa, abraçou-o o príncipe desejado.
― Se soubesse há quanto tempo ando para lhe pedir perdão, Rui Patrício!
― Por amor de Deus, não pense mais nisso! Foi o destino, Dr. Edgar!
― A Cristina nunca deixou morrer a esperança...
― Dá cá dois beijinhos, filho! Ah! Se soubesses como adorei este momento! Ai, Rui, ― prosseguiu D. Susana emproada ― a mais bela declaração de Amor que os meus tímpanos ouviram até hoje só podia ter sido a Maria Cristina, que, diga-se de passagem, está cada vez mais linda.
― E não era de uma roseira qualquer que podia brotar uma rosa tão perfeita, pois não? ― arguiu felicíssimo, beijando-lhe as mãos suaves.
― Ah, deixa lá que este teu rebento não tem menor encanto! ― retorquiu envaidecida, abraçando e beijando a Celina, em cujo olhar azul-turquesa se espelhava a incomensurável felicidade dos namorados.
― Estás a ver como, quando se ama de verdade, o coração decide? ― adiantou o arquitecto, abraçando-os aos três.
― É incrível como o instinto nos leva a fazer coisas estranhas, padrinho! Tem graça, o Ximenes diz que a graça nos faz iguais a Deus...
― E aqui tens a prova real!
― Realmente, são verdadeiramente imprevisíveis os desígnios de Deus!
E não adiantaram mais nada. As pessoas retiraram-se aos poucos, Ainda digeriam a felicidade que sentiam quando, retomando os seus lugares, os clientes ouviram alguém, que se retirava, dizer emocionado:
― Muito obrigado, Dr. Félix Fontoura! Parabéns e muitas felicidades, aos noivos.
― Ora essa, foi um prazer imenso! Ide em paz e que Deus vos acompanhe, meus amigos ― disse humildemente.
E quis o destino que fosse na Boca do Inferno e neste Dia de Finados que as portas do Paraíso se abrissem e deixassem a felicidade os reconciliasse para sempre. Um laivo de tristeza veio, porém, enlutar a alegria que aquele coração maternal sentia: a ausência do Júlio, o seu primogénito, oficial na Força Aérea, cujo casamento parecia bater de asa...

Quando saíram, os serventes recusaram a gorjeta daquele dia e, juntando-se na soleira da porta, cantaram-lhes os parabéns, oferecendo à noiva um ramo de flores que, entretanto, o gerente mandara vir de uma florista de Cascais. Acenando exuberantes, Pat e Cris deram a mão à Celina e partiram todos três no Mercedes que Zé Barros asseara briosamente.
― Aqui tem as suas chaves, Dr. Rui e muitas felicidades ― disse o arrumador, gratificando-os com o mais simples dos sorrisos.
― Muito obrigado, Sr. José Barros! Pode crer que gostei imenso do seu trabalho. A sua coragem comove-me! Acredite que jamais o esquecerei. Desculpe, jamais o esqueceremos ― rectificou comovido, abraçando-o.
― Muito obrigada, Sr. Barros ― agradeceu a médica, oferecendo o rosto fino ao arrumador que mal lho tocou, tão envergonhado que ficara.
Pouco depois, antes de se refugiar no BMW turbo diesel dos amigos, o arquitecto meteu na mão do arrumador uma nota de cinco mil escudos que ele ainda recusou, mas, face à insistência do velhote, guardou religiosamente no bolso do peito entre os documentos de identidade. Acenando delirantemente pelo vidro, Cris e Cély lançaram-lhes beijos sem conta e partiram fazer as pazes com o passado, trilhando os carreiros onde nascera a felicidade perdida. E, depois de percorrer pelos quatro cantos da Costa do Estoril os caminhos por onde haviam arrastado a paixão e semeado os sonhos da adolescência, pararam debaixo da alameda das palmeiras e assentaram-se no banco do jardim onde, no Verão de 1973, se beijado loucamente. Depois, como a Celina insistisse em conhecer mais detalhes da Love Story deles, caminharam ao longo da maré sussurrante, saltando de pedra em pedra como três crianças mimadas, escutando o eterno pipio das gaivotas. Sentindo a noite fria gelá-los, retornaram ao Monte Estoril, onde o Rui nunca mais voltara desde aquela magnífica tarde 5 de Agosto de 1973, depois de uma memorável noite de amor no sótão, em que a ingénua Cris lhe quisera provar que o amava verdadeiramente e se lhe oferecera em holocausto.

Mal entrou no solar, a Celina foi recebida pela catedrática, que a levou a matar a fome numa mesa posta com talheres prateados no meio de um enorme salão, de cujo tecto pendia um lustre dourado.
Dando a mão ao namorado, Cristina preferiu arrastá-lo até ao sótão, onde lhe oferecera a sua virgindade. Chegando diante da porta, eles suspenderam a respiração, olharam-se e beijaram-se como dois passarinhos. Depois, a donzela tirou do peito uma chave gasta por nove anos de amargurado sofrimento, que trazia presa no fio que a bisavó deixara como recordação, para quem, na família, tivesse uma história de amor igual à dela, que vira o namorado casar com outra, mas que o destino lhe devolvera passados cinco anos, para que ela o amasse apaixonada e loucamente até à morte. Pensando na profecia da avó Vilhelmina, Cris abriu a porta e acendeu pela primeira vez os dois mil watts de luz que aí mandara instalar para ofuscar o Sol do maldito adeus.
― Que loucura, meu amor! Fizeste de mim um deus! ― bradou deslumbrado com o que via.
― O meu, aconteça o que acontecer, sempre foste e serás eternamente!
― Porquê todas estas fotos, estas poesias e estes recortes? Eu não merecia nada disto, Cris!
― Para te dizer que nunca, nem um segundo da minha vida, e foram tantos que nem os consigo contar, sim, meu amor, eu quero que saibas que nunca, mas nunca, deixei de te amar e de te desejar todo o bem do mundo, a ti, à Dina, que te fez muito feliz, eu sei e, depois, à tua querida Celina, de quem obtive uma foto e a quem sempre quis como se fosse minha.
― Se soubesses como te amei, amando a Dina, como te desejei, desejando-a, e como rezei para que esse amor não fosse causa de tragédia. Nunca o disse a ninguém, mas se hoje estou aqui é à Dina que o devo.
― Como assim, meu amor, como?!
― No dia 3 de Outubro do ano passado, no Bailundo, quando festejei com ela o seu trigésimo terceiro aniversário...
― E eu, não as festejando, lembrei as minhas vinte e quatro primaveras, pensando que chegara ao Outono da vida e quase passei a fronteira...
― Credo! Que me dizes, Cris?!


― É verdade, Pat, eu faço anos no dia 3 de Outubro e ainda me recordo do meu vigésimo quarto aniversário como se fosse hoje. Naquela noite senti-me tão triste que quis acabar de vez com o meu calvário.

― Meu Deus, eu estava tão feliz que nunca pensei que a felicidade pudesse ter fim! ― balbuciou confuso, dando-lhe as mãos suadas.
― Mas o que aconteceu, Pat? ― insistiu afável, assentando-se no sofá.
― Por favor, Cris, desliga a luz, porque estas fotos coladas no muro...
― Se preferires contar-me mais tarde...
― Não, meu amor, eu não posso adiar por mais tempo este segredo! É demasiado pesado para mim. Mas... se soubesses como sofro ao ver essas fotos assim iluminadas! Meu Deus, até parece que têm vida!! ― esclareceu nervoso, amaciando-lhe as mãos.
― A barba até nem te fica mal, mas eu preferia o anjo que me seduziu ― disse maravilhada, atirando a boina preta para o canto e passando-lhe os dedos esguios nos pêlos que tanto o envelheciam e lhe entristeciam o olhar.
― Quando chegar a Santo Amaro cortá-la-ei! Mas, como te dizia, nesse dia 4 de Outubro, nós íamos assentados no banco de trás do jeep do hotel em direcção ao posto de controlo das FAPLA ― Forças Armadas Populares de Libertação de Angola ― , para controlarmos os vistos e seguirmos para o Nambuangongo onde repousam os meus pais. A Dina pôs os óculos escuros e eu, cheio de sono, encostei-me no ombro dela, fechando os olhos por causa do sol. De repente, senti a Dina cair por cima de mim e ouvi tiros. Assustado, agarrei-me a ela, permanecendo petrificado de medo no meio do jeep, enquanto durou o tiroteio, e o condutor lá se livrou da emboscada como pôde. A Dina sorria, mas quando lhe perguntei assustaste-te, meu amor?, ela soltou um gemido. Foi então que, tirando docemente a mão que lhe segurava o chapéu de couro para lhe limpar uma lágrima que saltara dos olhos, vi sangue e saltei aos gritos.
― Por favor, pára! ― implorou Cris, chorando comovida.
― É duro, dói muito, mas tenho que desabafar...
― Então chora, chora, meu amor!
― Apenas vi sangue, gritei Dina! Dina, não te vás sem mim, Dina!, mas ela, deitando sangue pela boca, soletrou apenas Cél-Cris e fechou os olhos. Desesperado, procurei a pistola do ajudante para me matar, mas não consegui roubá-la. Perdido com a Dina ali sem vida, dei em maluco. Quis morrer, quis correr atrás dos bandidos, chorei até não ter mais lágrimas, ralhei com Deus, tratei-o de todos os nomes e sei lá o que devo ter feito mais! ― confessou comovido, chorando e suspirando como uma criança no peito da sua amada.
― E como descobriste que foi ela quem te salvou?
― O condutor disse-me que o Sol quase os cegou, mas Dina, a única que tinha óculos escuros, descobrindo um terrorista a fazer-nos mira, se lançou para cima de mim.
― Que coragem, meu Deus! ― murmurou pálida.
― No fundo, ela morreu a pensar em ti. A sua última súplica foi que te desse a Celina. A Dina sabia que eu, sendo-lhe fiel, nunca deixaria de te amar. No fundo, tu foste o cimento da nossa união. Ai, Cris, se soubesses como é triste ver morrer quem se ama!
― Imagino...
― Agora, aqui estou para te amar...
― Outra coisa não desejo, mas, por favor não nos precipitemos, Pat.
― Por ti, esperarei o tempo que for preciso, Cris.
― Por favor, dá-me um pouquinho, só um pouquinho mais para que eu me habituar à realidade...
― Certamente, meu amor.
― Pat?
― Diz, Cris...
― A tua declaração de amor foi magnífica. Ah! Se Shakespeare te tivesse ouvido...
― Desculpa, mas não entendi, Cris.
― Tu declaraste-me o teu amor sob as luzes da ribalta, enquanto que a Julieta teve que esperar pela noite. Lá da janela, ela não viu o amor brilhar no olhar do Romeu como eu vi a paixão encandear o teu!
― Oh! Por ti... ― balbuciou confuso, corando ligeiramente.
― Ainda te lembras da Prece Proibida?
― Sei-a de cor, meu amor! “ Quero beijar a febre do teu regaço e ouvir tua voz murmurar baixinho com fervor! ” ― repetiu sereno.
― Psch! Guarda o resto para depois, meu amor. Será a Cély...
― Há muito que ela te adoptou, Cris! A Celina sempre soube quem tu eras. Acho que a Dina lhe mostrou uma foto tua. Não vês como ela sabe a nossa história?
― Foi a Dina quem fez da nossa vida um Conto de Fadas, não foi?
― Assim, a Dina pode contar-lhe tudo sem a traumatizar.
― E os anagramas? Quem lhe decifrou o anagrama dos nossos nomes?
― Seguramente o padrinho. Aliás, minutos antes de eu desmaiar, ele falou e pediu-me que escutasse a voz do meu coração.
― O Dr. Félix veio transformado da Terra Santa. Está mais sereno. Agora, até parece que a morte já não o atormenta.
― Um dia vou contar-te como tudo se passou...
― Ai vais!
― Estás tão diferente, Cris!
― Achas?
― Pareces-me mais segura e estás mais elegante, mais esbelta, mais...
― Normal, cresci, amadureci com o sofrimento e chorei muito!
― Se soubesses como te desejo, Cris! Mas... vamos senão eles ainda vão pensar que...
― Não faz mal, Pat. Contigo aprendi a não me perturbar com os outros.
― E o Júlio, que é feito dele?
― Oh, o Júlio não é feliz e...
― Entristece-me saber isso! Apesar de tudo, ele gostava de mim.
― Eu também tenho muita pena dele, mas não posso fazer nada! ― lamentou resignada, levantando-se e oferecendo-lhe a mão.
Fintando-a, Rui aproximou os lábios da boca dela e beijou-a antes de descer. No salão, os velhotes jogavam uma partida de xadrez, enquanto a catedrática, fazendo de cicerone, contava a história do solar à netinha que não parava de lhe pôr as mais imprevisíveis questões.
― Seus malandros! ― bradou jocosa, empiscando à avozinha.
― Que acha desse bijou, D. Susana?
― Ah, se o Rui quer uma avaliação precisa, tem que ma deixar cá no fim-de-semana!
― Um fim-de-semana, D. Susana?! Mas eu sem ela não sou nada!
― Porque não vens com ela? Dormes cá. Enfim, camas é o que não falta!
― Camas? Lá por isso até durmo no chão! Bom, se ela quiser vir... Diz, Cély, queres vir passar o sábado e o domingo com a Cris?
― Com a Sra. Dra. M. C. Galvão, querias dizer. Claro! Já agora gostava de ver se a tua princesa é tão carinhosa como quando usa bata branca!
― Princesa?! Eu?!
― Claro! Não me diga que não sabia? Vá, deixem-se de fitas, que eu sei muito bem que vós muitos beijinhos um ao outro!
― Psch! Essas coisas não se dizem, Celina! ― repreendeu o pai.
― Ai não?! E por que se fazem?!
― Ai-ai ― bradou a professora, protegendo-a instintivamente.
― Mamã! Não me diga que pensou que o Pat...
― Bom, zangas tive, tempestades, que me proporcionaram depois momentos de uma inconfundível bonança, também, mas chegar a esse ponto, felizmente, não e Deus me livre...
― O Rui não mudou mesmo nada, filha!
― Eu sei, mamã, eu sei, mas...
― Não me digas que ainda tens medo de dizer sim?
― Dizer não custa, mas assumir..., confesso, assusta-me!
― A Cris tem razão! Demos tempo ao tempo, que de nada adianta forçar a mão ao destino! Caprichoso como é, ele faria seguramente o contrário!
― Exactamente! Eu não me quero precipitar e fazer algo que possa comprometer irremediavelmente a minha felicidade. A mamã não vê o que se está a passar com o Júlio? Os anos passaram e os sentimentos ficaram incólumes, certo, mas nós crescemos e temos que aprender a redescobrir o amor. E olhe que, dizendo isto, o Pat não se sente em nada ofendido... Ele compreende...
― Que Deus vos ajude!
― Ufa! Ainda bem que a mamã compreende!
― Compreende o quê, filha? ― interferiu o Dr. Sampaio, curioso.
― Desculpe, papá, mas são coisas de mulheres!
― Olá, Dr. Edgar, o meu padrinho...
― Os ares do Líbano e da Terra Santa fizeram-lhe muito bem! Qualquer dia temos que ir passar férias, Susana!
― Ouviram? Desta não te safas, Edgar Sampaio! ― adiantou a esposa.
― O Dr. Rui...
― Por favor, trate-me por Rui, Dr. Sampaio! As formalidades ficam para o tribunal...
― Por falar em tribunal, Rui, é você quem vai defender aquele indivíduo que matou o comerciante de Caxias, não é?
― E vou ganhar-lhe a questão! ― disse peremptório.
― É melhor não iludir o seu cliente, porque...
― É o que sempre faço, Dr. Sampaio! Mas também há outra coisa que eu nunca farei: partir derrotado!
― Que o melhor ganhe, Rui, e... parabéns pelo seu fighting spirit, colega!
― O melhor não, a verdade, Dr. Edgar ― frisou o neo-advogado, olhando persistentemente o venerando jurista.
Cristina, que se agarrara à Celina, pegando nela ao colo, sorriu e, empiscando aos pais, beijou orgulhosamente o namorado. E, continuando a conversa à volta da mesa, falaram do Júlio, que se encontrava na América a tirar mais um curso para conseguir mais um objectivo na sua carreira.
Na hora da despedida, como inocente dormisse agarrada ao pescoço do papá, Cris cobriu com um casaco de lã para ela não apanhar frio e acompanhou-os até ao terreiro, agora calcetado, onde nove anos atrás o Sol havia incendiado os seus corações. Olhando o Céu, naquela noite fria, só lhe restava pedir à Lua cheia que não esmorecesse a paixão que renascia no seu coração.
Em Santo Amaro, Rui, readquirindo a mania de dizer em poesia o que lhe ia na alma, acendeu o candeeiro da escrivaninha e, obedecendo à voz da musa, ou do coração, nem sabia, escreveu e tudo mudou...

Não sei porquê, os paralelos da calçada estavam infamemente negros, negros como o breu; as paredes da vivenda permaneciam teoricamente mudas, mudas como a dor. Tudo parecia vegetar pelo circunlóquio da plutocracia. O povo, esse, era um hilota amorfo, sem força, sem cor, sem vida, mas pleno de poesia, a sofrer, com alegria, a ignomínia da ditadura, no dia a dia.
Da penumbra alada, cadente e coagulada pelo gelo de uma vida, evoluiu um vulto sem semblante e parou. Aproximei-me: um olhar vítreo e mórbido; um aceno louco e breve; um silêncio filtrado e oco; uma palavra que não se ouviu; um gesto que se sumiu nu no suor do tempo fugaz; um abraço que se infiltrou dentro de mim; uma lágrima pesada e triste; um beijo..., nada mais e tudo mudou.
Tudo? Não! O povo, esse, permaneceu, como dantes, eternamente amorfo, como um hilota castrado, mas conformado, manipulado pelo Imortal Passado de Portugal.
O amor, oh, o amor!, esse voltou com mais vigor, mais vida, mais cor. A esperança, que perdi com a lânguida saudade do fim do Inverno, efervesceu o meu egoísmo e, dentro de mim, o inferno acabou. E, enfim, tudo mudou...
Alta madrugada, tentando esterilmente adormecer a felicidade extasiante, obedeceu a um impulso repentino, saltou da cama e voltou a acender o candeeiro da escrivaninha. Aureolado pela luz difusa, desenhou um ponto de interrogação do tamanho da folha, utilizando um marcador azul quase gasto, e gatafunhou: “ porquê: a única certeza ”

Ontem, a lua estava inexplicavelmente sinistra; o sorriso era rubro; o coração sofria, convulsamente; as mãos, impensadamente iradas, tremiam. A vida ganhava uma nova dimensão, para mim: a exiguidade do tempo!
A saudade, que tinha quando comecei a balbuciar incoerências, fio a fio, sem saber como e porquê, evaporou-se. Naquele minuto, eu era um ser novo renovado. A incerteza tinha-me deixado. Ou melhor, talvez o passado! O amor, o meu amor por ti, esse, permaneceu, como dantes, em embrião, no mais recôndito do meu coração. Depois, vieste tu fazê-lo desabrochar. Porque vieste? Porque ficaste?
E o porquê não desarma, não desiste, mesmo com a vida a meia haste. O porquê é o atrofiamento da evidência, quando a verdade, sob o peso da consciência, começa a vacilar e a querer atingir a essência da inocência...
O porquê é a ignorância que persiste, quando o coração do homem ou o teu, mulher, procura sem explicação a razão de viver, de sonhar, de sofrer e de amar eternamente.
Porquê esse mistério indubitavelmente sempre certo, a tentar descobrir tão longe, o que tem aqui tão perto...

Livre do pesadelo, o poeta deitou-se e, cerrando as pálpebras, partiu em viagem pelo infinito, sonhando com a princesa encantada que, reencontrando inesperadamente o príncipe desejado, não teve a coragem de assumir a realeza por não ter a certeza do que mais queria, se arrastar para a eternidade o sonho de uma vida ou, porventura, aceitar a realidade de uma vida de sonho.
De manhã, mal abriu os olhos, pegou no telefone, que o padrinho instalara naquele quarto quando ele e a Dina começaram a dormir em casa, e ligou para o hospital. Porém, depois de consultar o quadro de serviço e falar com alguém, a recepcionista respondeu-lhe que a Dra. Galvão se encontrava no bloco operatório. Rui pediu-lhe, então, que dissesse textualmente à doutora que o Pat emitiu um S.O.S, o que fez sorrir a empregada.
As horas foram passando e, apesar de atarefado no seu escritório em Miraflores, o advogado não conseguiu acalmar-se e varrer da memória o olhar indeciso da sua dulcineia. Ainda pensou enviar outra mensagem, mas, receando ferir a sensibilidade da sua amada, preferiu sofrer sozinho.
― Acalme-se, patrão! A sua médica está, seguramente, indisponível! ― disse a secretária, oferecendo-lhe um carioca.
― Sei lá, se calhar a recepcionista esqueceu-se de lhe dar o recado.
― Quer que lhe ligue novamente?
― Faça o que o que achar melhor, Paula.
― Se eu fosse a senhora doutora, ficaria toda babada com a insistência do meu namorado. Uma mulher...
― Tem razão! Se ela se chatear, é porque não gosta de mim!
― O Dr. Rui precisa de mais alguma coisa?
― Não, obrigado, Paula.
― Então, com licença! ― disse a mulata.
Encorajado pela opinião da secretária, ele respirou fundo e discou rapidamente o número do hospital.
― Alô?!
― Hospital D. Estefânia, boa tarde!
― Desculpe, menina, aqui é novamente o Dr. Rui de Aguiar. Por favor, ligue-me para a Sra. Dra. Maria Cristina Galvão que é muito urgente!
― Sra. Doutora! Sra. Doutora! É para si! ― gritou a recepcionista.
― O que se passa? ― perguntou o advogado, inquieto.
― Teve sorte! A Sra. Doutora ia mesmo a sair. Só um instante que eu passo-lha já ― disse mais amável, entregando o auscultador à médica e murmurando: ― É um tal Dr. Rui de Aguiar!
― Alô?!
― A operação demorou assim tanto, meu amor?! Porque não me telefonaste, Cris? Recebeste o meu S.O.S?
― Que operação?! Que S.O.S?! ― perguntou perplexa, fitando a recepcionista com olhos de fogo.
― Desde as oito horas que estou diante do telefone, Cris! ― desabafou chateado.
― Onde estás?
― Em Miraflores, no meu escritório, sabes onde é, não sabes?
― Oh, Pat! Não conheço outra coisa, meu amor!
― Espera, eu vou buscar-te!
― Não é preciso, eu vim com o meu Austin Morris.
― Austin Morris?! Disseste Austin Morris?!
― Sim, porquê?
― É vermelho?
― Claro! Mas porquê tanto mistério, Pat? Se é para me impressionares...
― Por amor de Deus, não lhe toques, Cris!
― Que se passa, Pat?
― Nada. Não saias daí! Eu não demoro!
― Pat! Pat!!!
E os seus brados ecoaram em vão. Aflito, o advogado desligou o telefone e partiu em camisa sem dizer adeus à secretária. Na janela, Paula ainda acenou, mas a nuvem de poeira não o deixou ver mais nada.
Dez minutos depois, surgindo de gravata desfraldada, ele barrava o caminho à lourinha.
― Onde está o teu Morris, Cris?
― Acolá. Mas porquê, Pat?! Estou com uma pilha de nervos!
― Dá-me a chave, por favor ― implorou desnorteado.
― Para quê? ― perguntou perplexa.
― Não, tu ficas aí! ― ordenou peremptório.
― Não, Pat, não! Espera! ― gritou aflita, correndo atrás dele.
Abrindo loucamente a porta do Austin, o advogado accionou a ignição do motor, pondo o carro a trabalhar e soltou um desabafo, limpando o suor e fitando a médica. Pálida, a Dra. Maria Cristina Galvão fitou-o enigmaticamente. Parando novamente o motor, ele foi abraçá-la, murmurando baixinho:
― Desculpa, meu amor, mas o sonho desta noite assustou-me.
― Para que eu te ame, Pat, não precisas de fazer teatro! Eu detesto...
― Ó meu Deus, o que é que eu hei-de fazer para te provar que não brinquei com os teus sentimentos?
― E o que é que tu queres que eu pense de ti depois desta encenação?
― Encenação, Cris?! ― inquiriu ofendido.
― Se não é encenação, é loucura, o que é muito pior ! Egoísta! És um egoísta! ― gritou furibunda, mordendo um punho cerrado.
― Para não confiares em mim, mais vale perder-te de vez! Adeus!
― Pat! Não te vás! Desculpa, eu não queria magoar-te...
― Estás tão diferente! ― balbuciou decepcionado.
― Não te vás, meu amor! Por favor! ― rogou lacrimosa.
― Nunca pensei...
― Não chores, Pat! As pessoas podem ver-nos.
― Que me importam os outros? Eu só tenho que me preocupar com Deus e a minha consciência, entendeu, Sra. Doutora? ― retorquiu furioso.
― Adeus! ― balbuciou espezinhada.
― Se a menina pensa que a vou deixar arrancar sem que me diga o que se passou, engana-se! ― acrescentou colérico, barrando-lhe violentamente a porta do Austin Morris.
― E com que direito me pede o senhor explicações? ― retorquiu furiosa.
― Eu não lhe peço explicações! A doutora Galvão é que as deve à sua consciência. Agora, se quiser, pode ir-se embora porque a minha não deve nada a ninguém, ouviu?
― Terá razão, mas não lha dou... por enquanto!
― Ai dá! Porque se não ma der, e já, terá que acabar comigo! ― garantiu enérgico, estancando as lágrimas e correndo a agarrar-se ao pára-choques.
Perplexa, a médica mudou do vermelho colérico para o amarelo pálido e, deitando as mãos à cabeça, assentou-se ao volante, pensativa, e respirando dificilmente, tão sufocador era aquele remorso da sua consciência acusadora. Cabisbaixo, reflectindo nos disparates que havia dito, ele deitou-se desgostoso diante do carro, indiferente à torreira solar e à pasmaceira dos apalermados transeuntes.
Dominada a fúria passional, Cris limpou os olhos, desligou o motor e saiu, fechando as portas. Arrependida, lançou-lhe um olhar compassivo e estendeu-lhe timidamente a mão. Foi então que, olhando-a no fundo dos olhos, ele murmurou arrependido:
― Duvidar de mim é a pior ofensa que me podem fazer. Mais valia dar um tiro na testa ou no coração do que brincar com os sentimentos de alguém. Por favor...
― Perdoa-me, Pat, perdoa-me! ― implorou arrependida.
E, dando as mãos, lá partiram mudos para o Mercedes, largando o Austin no estacionamento. Assentada no banco da frente, Cristina não sentia coragem para o olhar, de soslaio que fosse, tal era a vergonha que lhe ia na alma. Sentindo-a triste, Rui, que até se esquecera de almoçar, estacionou o carro à sombra, parou o motor e acariciou-lhe o rosto macio. Depois, desviando a mecha loura que lhe tapava aquele olhar melancólico, pegou-lhe na mão direita e beijou-a respeitosamente, murmurando:
― Agora, que tempestade já passou, queres dizer-me o que te aconteceu de manhã ou preferes que te leve para casa?
― Não, mas se calhar tu ainda nem almoçaste! ― balbuciou nervosa, acariciando-lhe timidamente as mãos.
― Deixa lá que não é de pão que eu tenho fome!
― É de perdão?
― Não, é de verdade, de verdade para ter paz e me poder olhar no espelho sem corar.
― Então a que horas me telefonaste esta manhã?
― Mal acordei, às oito mais ou menos!
― E o que te disse a recepcionista?
― Que a Dra. M. C. Galvão estava no bloco operatório.
― Diz, ela respondeu-te imediatamente ou...
― Não, pareceu-me que ela falou primeiro com um tal Dr. Santos.
― Pois, só podia ter sido esse tarado!
― O quê?!
― Esse imbecil anda a assediar-me há muito tempo e está cada vez pior.
― E porque é que não o denuncias? Pode ser perigoso, Cris!
― Eu não tenho provas concretas para o acusar. Ele usa o cinismo...
― Deixa-o comigo.
― De madrugada, quando entrei ao serviço, ele viu-me chegar tão diferente que desconfiou logo que ...
― De madrugada?! Dormiste pouco, meu amor! ― interferiu condoído.
― É assim, quando somos chamados temos que ir. Nós, os médicos, não temos horas. Para nós todos os segundos são vitais.
― Cuidado com o stress e a ambição, Cris!
― Não, Pat, o que obtiver na vida, será por mim. Eu detesto o compadrio e o tráfego de influências que está a apodrecer o nosso país.
― Vejo que temos política! ― volveu orgulhoso, sorrindo meigo.
― Se calhar, mas, como disseste há pouco, vamos ao que te devo.
― Desculpa, foi uma força de expressão, Cris! Tu bem sabes que não me deves nada ― escusou-se compreensivo, acariciando-lhe os dedos finos.
― Sinceramente, pensando bem, acho que tinhas razão. É que se eu tivesse arriscado a minha vida por alguém, mesmo que irreflectidamente, e o ingrato pusesse em causa a minha inocência, não sei se lhe perdoaria! ― murmurou envergonhada.
― Não te amofines mais, meu amor. Nenhum de nós tem culpa desta paixão ser tão violenta...
― Até no perdão és generoso, Pat.
― Mas não, Cris, a tua indignação veio provar-me o quanto tu me amas.
― Desculpa, mas já não devo estar aqui... Dizias?
― Que ninguém tem o direito de exigir dos outros o que nunca exigiu de si e que a força da indignação é proporcional à força da inocência, da paixão e do amor, porque quem ama de verdade não admite falsidade.
― Realmente devo andar bem cega para não ter visto tudo isso!
― A culpa foi desse filho da mãe ciumento que não te chamou, nem te passou o meu S.O.S. Um bom traste, esse diabo! Mas deixa lá que Deus não dorme.
― Coitada, a recepcionista deve ter sido muito pressionada para...
― Se esse tarado ousa gozar-te a ti, médica e colega, o que não fará à recepcionista e às outras pobres coitadas que dependem do emprego para sobreviver?
― Parece que te estou a ver naquele comício da Aliança Democrática no Campo Pequeno com o Dr. Sá Carneiro ― interferiu contemplativa.
― Não me digas que estiveste lá?!
― E bem pertinho de ti, silenciosa no meio da multidão. Se soubesses como fiquei orgulhosa quando, depois da tua intervenção, o Primeiro Ministro te sorriu e, sobretudo, como senti aquele beijo profundo que a Dina te deu diante daquela multidão em delírio!
― E os ciúmes? Não tiveste ciúmes, Cris?
― Ciúmes?! Não, fechei os olhos e, pensando que estava a fazer amor contigo, senti um prazer imenso. Acho que me molhei toda...
― Posso dar-te um beijo?
― Um milhão, meu amor! ― exclamou soluçante, oferecendo-lhe a boca para ressuscitar aquele beijo virtual que tanto a excitara três anos antes.
Saciada a fome da verdade e apagado o rancor da inocência, lá partiram para Miraflores, onde a mulata lhes serviu um café com biscoitos para enganar o estômago. Vendo neles a sofreguidão amorosa, Paula retirou-se com um sorriso malicioso nos olhos, mas recuou e bateu timidamente na porta.
― Entre, Paula.
― Desculpe, o senhor doutor viu o seu rádio gravador? Ah, está ali! ― bradou sossegada, dando com os olhos nele.
― É tão pequenino que nem o senti no bolso da camisa ― disse surpreendido, retirando-o e entregando-lho.
― Quer que lho ponha na pasta, senhor doutor?
― Se fizer o favor... Não, espere! ― hesitou distraído, estendendo a mão trémula e agarrando-o.
― Guarde-o, era só para saber se não se esquecia dele para o julgamento de amanhã ― disse a secretária, entregando-lho gentilmente.
― Muito obrigado, Paula.
― De quê, senhor doutor? ― perguntou confusa, fitando a médica.
― Por me ter encorajado a telefonar novamente à Dra. Cristina ― disse grato, apresentando-lhe a mulher por quem tanto se afligira.
― Francamente, senhor doutor, agora nem entendo bem porquê tanta hesitação da sua parte. Parabéns! A senhora doutora é divina!
― Além de simpático, esse elogio é exagerado. Muito prazer em conhecê-la, Paula! ― acrescentou a médica, estendendo-lhe a mão.
― Desculpe, mas a Sra. Doutora está a precisar de praia.
― Mesmo?!
― Assente-se um pouquinho e tome um café connosco, Paula ― convidou o patrão, apontando a cadeira.
― Com tanto trabalho?! O senhor doutor nem as pensa!
― Se a clientela continuar a aumentar, dar-lhe-ei carta branca para engajar uma ajudante.
― Quem trabalha por gosto não cansa, Sr. Doutor!
― Nas horas de maior solidão, foi a Paula quem me valeu, Cris! Além de uma excelente profissional, ela é uma óptima pessoa e ainda bem que muitos dos meus colegas racistas nem no escritório a deixaram entrar...
― É verdade, Paula?!
― Infelizmente, Sra. Doutora. Aliás a maior parte deles despachou-me sem me ouvir. Com a peste negra, o preto deve-se ter transformado num bicho do outro mundo. Se calhar caiu de Marte ― ironizou a mulata.
― Você sabia que os pais do Dr. Rui foram assassinados em Angola?
― Não! Por quem? Quando? ― perguntou condoída.
― Vá buscar um cafezinho e coma uns biscoitos, enquanto ele lhe conta.
― Eu detesto ouvir tragédias! ― retorquiu entristecida, olhando o patrão.
― Pronto, está bem, Paula e, mais uma vez, deixe que lhe diga que tenho muito prazer em conhecer a mulher que mais horas passa sozinha com o meu namorado ― acrescentou maliciosa.
― A senhora doutora é muito simpática, mas o prazer é todo meu, porque agora sei que os sonhos do senhor doutor devem ser realmente muito lindos. Fiquem à vontade. Com licença ― disse enigmática, saindo impressionada a simplicidade de tão bela mulher.
Intrigado com o gravador, o advogado carregou no play e verificou que a cassete estava mal colocada. Virou-a e tentou ouvi-la, mas ela parecia virgem. Puxando ligeiramente a fita para trás, apoiou novamente na tecla do play e, compreendendo o sucedido, exclamando confuso:
― Esta é boa, Cris!
― O que se passa? É a gravação de algum julgamento teu? Mostra.
― Não, Cris, maluco como estava, corri daqui com gravador no bolso da camisa, mas o voice sensor estava ligado e pronto...
― Voice sensor?! ― inquiriu estranha.
― Sim, o voice sensor é um mecanismo que faz com que o gravador funcione automaticamente ao captar o menor ruído.
― É como o nosso dictafone. Mostra! No tribunal também...
― No tribunal?! Esta é a gravação da nossa discussão, meu amor!
― Não me digas?! Ai, não te zangues, mas isso, bem analisado, vai ajudar-me a tirar as dúvidas que me restam.
― Espera um pouquinho, meu amor ― disse afectuoso, beijando-a na testa franzida, enquanto a fita acabava de se bobinar.
Carregando no play, o advogado fez ecoar a verdade pelo gravador. Paralisados, olharam-se profundamente e escutaram religiosamente a fuga suicida do sonhador. Depois de um ruído de passos ofegantes a estalar pelas escadarias do prédio e o barulho ronronante do motor do Mercedes, ouviu-se um Ó meu Deus, meu Deus! tão lancinante que os fez engolir em seco.
― E agora, ainda tens dúvidas? ― perguntou trémulo, parando o gravador.
― Por favor, continua! ― implorou meiga, fechando os olhos para não o intimidar.
“ Por amor de Deus, não ligues esse carro maldito, Cris! Eu não posso perder-te, meu amor! Protege-a, meu Deus, porque se ela morre, juro-te que Te farei pior que o Átila! Ó mãezinha, ó Dina, se me ouvis, ajudai-me!!! Ó meu bom anjo da guarda, deixa-me e vai impedi-la de entrar naquele carro maldito! Por favor, voa, voa! E tu, ó aselha, chega-te para lá senão ainda te desfaço o traseiro!. Ah, compraste a carta, cabrr...”
― Desculpa, mas sinto-me tão, tão, oh, nem sei como te dizer! ― balbuciou confuso e corado, mutilando o palavrão com que xingara o condutor pachorrento que lhe barrava a estrada.
― Pronto! ― murmurou baixinho, beijando-lhe os cabelos.
― Ui, que arrepio! ― bradou extasiado, sentindo um choque electrizar-lhe o corpo e eriçar-lhe a epiderme.
― Como pude duvidar de ti, Pat ?! Como?
― A dúvida só existe no coração de quem cultiva a verdade absoluta!
― Realmente não mudaste mesmo nada!
― Mudei e muito, Cris! ― disse envergonhado.
― Ainda te recordas da noite do dia 4 de Agosto de 1973?
― Pensei nela tantas vezes que até lhe perdi a conta, tolinha. Foi a recordá-la que inventei as mais belas cartas de amor e vivi os melhores momentos da minha vida. Detalhes não te conto, claro. Mas... e tu?
― E eu? Ai o que eu não fiz por ti! Nos anos da faculdade beijei colegas, pensando que era a ti; corri as discotecas com o Júlio e a Sílvia e exibi-me como uma volúvel para que os outros me vissem, desejassem e, confesso, quase fiz amor para me desforrar dos remorsos que tinha por não ter tido a coragem de, naquela inesquecível e maravilhosa noite, não ter atingido a plenitude do amor contigo.
― Chegaste a..., ou não?
― Pensas que eu seria capaz de trair o nosso juramento, sabendo da profecia da minha avó Vilhelmina?! Só se fosse para me matar em seguida.
― Psch! ― sussurrou emocionado, roçando-lhe os dedos trémulos nos lábios róseos e tão frescos como os dos dezasseis anos.
― Que horas são, Pat? ― perguntou nervosa, corada pelo fogo do amor que lhe consumia as entranhas.
― Oh! cinco e dez... a Paula já se foi embora.
― Mesmo? ― perguntou desvairada, contorcendo-se na cadeira.
― Espera! ― disse ele, levantando-se ligeiro e evitando-lhe aqueles olhos esfomeados.
Enquanto o advogado se certificou que estavam realmente sós, a médica abriu a bolsa e tirou um minúsculo comprimido que engoliu a seco. Depois, molhando o dedo na saliva, passou-o de fugida pelos mamilos erectos.
― A Paula é bem descarada! ― bradou irradiante, mostrando-lhe o slogan O AMOR É LINDO DE MAIS escrito em maiúsculas com baton vermelho numa folha A3 branca.
― Vem, Pat, vem! ― rogou langorosa.
E, abraçando-se desesperadamente, foram-se despindo e beijando furiosamente até ao sofá. Entrelaçados, os seus corpos uniram-se febrilmente e, friccionando-se com frenesi, concluíram, finalmente, aquele concerto de amor, cuja partição fora escrita e executada parcialmente, mas perdida nesse Verão de 1973, e que o destino magnâninmo decidira, porém, devolver-lhes na véspera para que eles o interpretassem plenamente nesta melodramática quarta-feira. E a febre do desejo, incessantemente inflamada pelo ardor da paixão, que um ano de luto e abstinência quase nele secara, mas que nela amadurecera pacientemente durante quase uma década, fê-los esquecer as reticências e as incertezas estéreis que ainda pairavam nos seus corações e conceder à nudez delirante a tão merecida liberdade de amar. Prisioneira de um algoz impiedosamente amoroso, que tanto a deleitava com as mais ousadas carícias e carinhosas mordeduras, a Vénus contorcia-se, gemia e explodia de prazer como nunca imaginara. Depois de a beijar, de a mordiscar e de lhe lamber integralmente o corpo, das unhas dos pés até às raízes da madeixa loura, durante quase dez minutos da mais ardente bajulação, ele decidiu, finalmente, abordar-lhe a boca por onde a vida vem ao mundo e por onde a virgindade se esvai para sempre um inebriante gemebundo, entre gritos, uivos e ais. Obcecado pela divina Afrodite dos seus pensamentos perversos, que tantas em noites de insónia e de paixão ele amara virtualmente, o rei Tapiur, tal escravo submisso, foi cobrindo de beijos o monte de vénus e as suas vertentes, obrigando a orquídea virginal a abrir-se e a dilatar a fenda por a glande passaria impunemente. Transpirando de êxtase e implorando desesperadamente o golpe que a desvirginasse definitivamente, Cris, agarrando a virilidade estonteante com as mãos, tapou o vulcão vaginal e gritou desvairadamente e cerrando os dentes para que a dor da ruptura do hímen não a intimidasse e a fizesse voltar à noite do dia 4 de Agosto de 1973, em que não tivera a coragem de colher tão inefável amor, implorou: “ por favor, arrebenta-me! ”
Endemoninhado pelos trejeitos e os gemidos lancinantes da presa e impelido pelas unhas que ela lhe cravava por onde calhava, o algoz desferiu-lhe desvairadamente golpes sem conta até que, rasgado o véu, o sangue da vítima lhe manchou o alfanje. Banhada em suor e lágrimas, Cristina, a quem o vaivém fulgurante anestesiara a zona púbica, não se cansava de implorar continua, meu amor, continua, isso, assim, ui-que-bom, ah-ah! Foi então que Rui Patrício, agarrando-lhe bem as nádegas, iniciou o movimento final, pautado por suspiros e gemidos, que terminou em apoteose com a explosão da seiva seminal na desvairada fenda vaginal.
Exausto, deixou-se cair levemente para que o suor secasse nos seus corpos.
E, durante cinco minutos, não disseram mais nada, deixando que a simbiose dos seus corpos lhes retirasse da alma as dúvidas que, porventura, ainda restavam; agraciadas e divinamente calmas, as suas mãos colaram-se em prece, enquanto os seus olhos infinitamente mudos, perscrutando-se, aproveitaram aquele silêncio sagrado para transvazar para as suas bocas o juramento de amor eterno que morava no relicário dos seus corações. Depois de repetirem mutuamente e vezes sem conta que se amavam e se desejavam, cobrindo-se de beijinhos, eles ergueram-se e vestiram-se, retornando serenamente a Santo Amaro pela estrada do Estádio Nacional até à Cruz Quebrada, onde apanharam a Marginal.

Transpirando felicidade por todos os poros, a doce Cris abriu o vidro para que o vento lhe fizesse voltear a madeixa loura que tanto fascinava o seu príncipe encantado que, aproveitando a visibilidade das longas rectas, lhe ia afagando o gineceu para que a seiva do amor a mantivesse colada no sétimo céu. Avistando o vulto negro no fulcro do horizonte, lá do terraço, a Celina gritou:
― Agora são eles, vovô, são eles!
Correndo felizes, o Dr. Félix e a governanta foram acolhê-los ao jardim.
― Cély! Cély! ― bradaram radiantes, estendendo-lhe as mãos.
― Papá! Cris! ― exultou a filha, beijando-os no rosto.
― Deus escreve direito por linhas tortas, Sra. Doutora! ― recordou a velhota, abraçando-a demoradamente.
― Que doutora, D. Noémia?! Agora é a Cristina que está junto de si ― acrescentou a médica, beijando-a.
― Boa tarde, padrinho! ― exclamaram em uníssono, beijando filialmente o arquitecto no rosto.
― A Cristina fica para jantar?
― Muito obrigada, Dr. Félix, mas temos que ir embora, porque hoje eu fui chamada de madrugada para o hospital e ando tonta de sono.
― Posso ir ver a vovó Susana, papá? ― perguntou Celina.
― Hoje não, filha, amanhã tens que te levantar cedo ir para a escola.
― Está bem! Adeus, seus ..., seus...
― Oh! Vê lá o que vais dizer, Celina!
― Seus... pombinhos!
― Sábado à tarde, venho-te buscar, Cély. Au revoir! ― disse Cris.
― Au revoir! ― gritou radiante, repetindo uma das palavra que a professora de francês lhe ensinara na véspera.
― Adeus, menina! ― exclamaram os velhotes.
E, retribuindo os acenos, os namorados, que haviam deixado o motor em marcha, partiram felizes para o Monte Estoril, desaparecendo na curva do pinheiro manso embalados pelas músicas mais românticas que o advogado gravara nos tempos livres para amenizar a dor que amargurava o seu coração. Apenas viu a filha transpor a porta do solar com aquele brilho inconfundível do amor nas retinas esverdeadas, D. Susana percebeu imediatamente que algo de maravilhoso acabava de acontecer à sua adorada Cristina. Da fragilidade melancólica, que ela costumava disfarçar com aquelas blusas e aquelas saias compridas e largas, onde enrolava e afagava a afectividade da sua alma errante, nem sombras! Ah, o que a força do amor não faz, em que está apaixonado!
― O Rui Patrício não entra, filha?
― Não, mamã, ele está com muito trabalho e eu hoje já não sei às quantas ando! Ó mãe, eu..., eu! ― balbuciou feliz, beijando-a e abraçando-a sensualmente.
― Só a plenitude do amor...
― A plenitude do quê? ― questionou distraída a olhar para o terreiro onde se despedira do seu Cupido.
― Mas... que transformação mais radical?! A que se deve este milagre, filha? Se soubesses como me amedrontaste com aquela tua indecisão de ontem! Agora...
― Hoje, quase o perdi e caí no Inferno para sempre, antes de o ganhar definitivamente e conhecer as inefáveis delícias do Paraíso!
― Que coisa mais estranha, Cris! Quase o perdeste, antes de o ganhar?! Inferno? Paraíso?
― Parece absurdo, mas não é, mamã!
― Realmente, o amor...
― Psch! O papá que está a chegar!
― Sim, mas conta, filha, conta!
― Agora não que ainda estou tonta! ― disse assustada, retirando-se apressada.
― Não demores, que eu estou curiosa por saber o fim da história ― suplicou a mãe, vendo o marido estacionar o carro no fundo da alameda.
Quinze minutos depois, lavada e perfumada, a donzela não parava de sorrir e de mostrar aos pais aquele seu olhar encantador sem, contudo, aceder às suas súplicas veementes, limitando-se a mastigar lentamente os raros alimentos que pusera no prato, antes de os deixar desconsolados.
Por volta das vinte horas, depois de tirar um cochilo no canapé da sala da televisão, levantou-se meio sonolenta e, vendo-os assentados a seu lado, pediu-lhes que escutassem em silêncio a partida que o destino lhe pregara. E, escutada a gravação, que os fez chorar e comungar a alegria que sentiam, o pai beijou a filha na testa e balbuciou comovido:
― Valeu a pena filha!
― Se valeu! Oh, papá, soubesse como me sinto feliz!
― Imagino! ― respondeu soluçante.
― Também tu, Edgar?! ― repreendeu a professora, vendo-o perder o controle e chorar.
― Que pena que o mano tenha perdido a felicidade, mamã!
― Se Deus quiser, ele também a há-de encontrar, filha!
― Oxalá! Agora desculpem, mas deixem-me ir sonhar. Boa noite!
― Boa noite, filha! Eh, Cris, e amanhã com quem vais?
― É verdade, nem pensei mais nisso, papá.
― Se aceitares a boleia de um velho taxista...
― Velhos são os trapos, papá! Claro que aceito! Acorde-me às sete..., pois, só espero que o outro maluco não se lembre de me chamar de madrugada e me obrigue a acordá-lo mais cedo ― disse apreensiva, atirando-lhes um beijinho.



Continua em capítulo IIII
nb: comentem !!!

LMP, LUXEMBOURG - FEVEREIRO 2007
LUD MacMartinson
Traduzido e publicado em França em 2001 - La Force du destin

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