Lady

sábado, 12 de abril de 2008

FD * Capítulo X


CAPÍTULO X
Nesta sexta-feira, 29 de Abril, o Sol despontou sorrateiramente sobre Kinshasa, colhendo os amantes em paisagem natural. No salão, as súbditas, cujas retinas haviam recuperado a alegria de viver, aguardavam que a directora se dignasse largar o seu cupido e viesse tomar o café. E as dez hora bateram e repicaram o quarto sem que os enamorados dessem sinais de vida. Foi então que a maliciosa angolana comentou irreverentemente:
― Os pombinhos...
― Onde vai, Paula? ― interpelou a Dra. Celeste, acanhada.
― Ué?! Pô-los a pé, senão os gajos ainda morrem a malhar....
― Veja lá, olhe que o seu patrão... ― advertiu a pediatra.
― O meu patrão?! Descanse, que eu conheço-o como as minhas mãos! Eh, vocês não pensem que eu e ele... Aqui entre nós, ― cochichou descarada ― vontade não falta, mas o garanhão não se enche da lourinha.
― Ai, ai, Paula! ― repreendeu a Maria do Céu.
― Ué, não me digam que são de ferro, meninas! ― retorquiu maliciosa.
― Bom, avise a Sra. Directora que o café está na mesa ― disse a Céu risonha, despachando-a com um aceno.
Pouco depois, surgiram os noivos, sorridentes e de mão dada.
― Bom dia, meninas! ― bradou jovial; empiscando às moças.
― Bom dia! - responderam envergonhadas.
― Então, dormiram bem?
― Graças a Deus..., perdão, graças a si, Dr. Rui, esta noite o nosso biorritmo funcionou muito melhor ― respondeu a pediatra.
― A Dra. Celeste reze por mim se quiser, mas não me agradeça porque foi a pensar no meu tesouro que corri Seca e Meca... Por isso, se há aqui alguém que me deve pagar, só pode ser esta criatura...
― Pagar?! Eu?! Por alma de quem? ― volveu a directora, corando.
― Pela sua, ora essa! Mas é o seu corpinho que eu quero! ― retorquiu zombador, fazendo-lhe cócegas.
― No escritório, o Dr. Rui também é assim, Paula? ― questionou a anestesista.
― O patrão é..., posso, Dra. Cristina?
― Pode ganhar juízo! ― avisou receosa.
― O patrão é um anjo... ― revelou a mulata.
― Ufa! ― desabafou a médica, fitando o marido impávido.
― É um anjo que eu gostaria de ter como guarda-costas, dia e noite ― acrescentou a secretária, esticando a língua irreverente.
― A Paula fala assim, porque ela tem sempre uma vantagem natural.
― Que vantagem, Sra. Directora?
― É desavergonhada, latada, descarada e nunca fica corada! ― explicou nervosa, provocando uma gargalhada geral que fez espirrar toda a gente pelo nariz e acabou com a irreverência da mulata.
Depois do pequeno almoço à inglesa, elas foram aprontar os sacos e as mochilas, enquanto o advogado contactava sucessivamente a Vera em Luanda, o padrinho em Santo Amaro e os sogros no Monte Estoril.

Ao meio-dia, o Dr. Crisóstomo de Almeida veio saudá-los nos jardins da embaixada, onde, debaixo das palmeiras, se distraíam, jogando às cartas.
― Você não tem parceiro, Dr. Aguiar?
― Se o senhor embaixador quiser dar uma lição de sueca à Sra. Dra. Celeste e à minha esposa...
― Mas só uma partida, que espero visitas.
― Permitem que nós nos vinguemos de vocês, Maria do Céu?
― Gramava, Dr. Rui! ― disse a anestesista, cedendo-lhe o lugar.
― Faça favor, Sr. Embaixador. Vocês desculpem, Dra. Celeste, mas alguém vai ter que as derrotar.
― Olhe que nós estamos bem treinadas, Dr. Rui! ― avisou a pediatra, empiscando à directora.
― E se perdemos, Dr. Aguiar? ― perguntou o diplomata, medroso.
― Paciência, Sr. Embaixador! Bom, faça o favor de dar cartas, Dra. Celeste ― disse confiante, encorajando o parceiro com um toque no braço.
A sorte não os bafejou nos três primeiros jogos, perdendo, quase sempre, por vinte pontos de diferença, até lhe coube dar cartas. A esposa, empiscando à colega, esticava-lhe discretamente a língua para o enervar ainda mais. Porém, mal olhou as cartas, o advogado sorriu para o embaixador e esperou que a pediatra saísse, para pegar no jogo e, destrunfando, obrigar todo o mundo a dobrar-se ao naipe de copas, sem lhes deixar fazer nenhuma vaza.
― Uuuuh! Uuuuh! ― gritaram Céu e Lurdes, vingativas.
― Realmente o meu marido tem muita sorte com os corações não é, Sr. Embaixador? ― desabafou a médica, desanimada.
― O Dr. Aguiar nasceu sob uma boa estrela... A propósito, a sua vida daria um belo romance, Dr. Rui!
― Um dia, quando tiver mais tempo...
― Depois não se esqueça de me autografar um exemplar e de mo enviar.
― Ainda faltam tantos capítulos ao livro da minha vida, Sr. Embaixador!
― Os que me contou nestes dois dias chegam e sobram.
― Na lua-de-mel, talvez escreva os dois primeiros capítulos: o da infância e o da orfandade.
― Na lua-de-mel? Duvido! ― interferiu a noiva, envergonhada.
― Pois, na lua-de-mel...
― Um dia, encher-me-ei de coragem e escreverei o primeiro tomo das minhas memórias ― acrescentou pensativo.
― E porque não o fazem a dois? Um dita e outro escreve! Só espero que estes dias tenham direito a um capítulo.
― Com certeza que terá! Nós ser-lhe-emos eternamente devedores, Sr. Embaixador! ― disse humilde, olhando reconhecidamente o diplomata.
― Ora essa, Dr. Rui, não fiz mais que o meu dever!
― Seja como for, quando tiver concluído o manuscrito far-lhe-ei uma fotocópia, Sr. Embaixador. Mas..., Júlio!!! ― gritou atónito, vendo o cunhado entrar no recinto da missão diplomática de táxi.
Correndo lesto, foi abraçá-lo fraternalmente, logo seguido pela Cristina.
― Rui! Cris! ― exclamou o brigadeiro, abraçando-os desesperadamente.
― Oh, Júlio, Júlio!!! ― soluçou a médica, beijando o mano.
― Ei, não me faças chorar, diante de toda a gente, maninha!!
― Júlio, apresento-te Sua Excelência o Sr. Dr. Crisóstomo de Almeida, o nosso mui digníssimo Embaixador em Kinshasa.
― Muito prazer em conhecê-lo, Sr. Embaixador! ― disse o militar, fazendo-lhe uma sentida continência.
― O prazer é todo meu, Sr. Brigadeiro! O Dr. Aguiar sempre acreditou que o senhor não resistiria...
― Como Vossa Excelência deve calcular, desde que o meu cunhado partiu, no domingo, dia 24 de Abril, nunca mais ninguém conseguiu dormir uma noite em paz.
― Imagino, Sr. Brigadeiro, imagino! Eu tencionava apresentar-lhes estas guerreiras, mas vejo que já as conhece ― adiantou o diplomata, vendo o militar cumprimentar as colegas da mana.
― A minha esposa trabalha no hospital e nós cruzamo-nos frequentemente nos corredores.
― O Sr. General é muito simpático! ― confirmou uma enfermeira.
― General?! Até lá chegar ainda falta muito, menina Lurdes.
― A Marechal não digo, mas a General verá que não demora, Sr. Brigadeiro Júlio Sampaio. Mas... quais são as ordens?
― Segundo o protocolo, devemos estar hoje à tarde em Luanda! ― informou compenetrado, beijando a Paula, que chegava atrasada.
― Então ainda temos tempo para almoçar.
― Com certeza, Sr. Embaixador! ― anuiu o militar, submisso.
Ligando para o C-130, o brigadeiro recomendou à tripulação que comesse e estivesse pronta para descolar dentro de uma hora e dez. Enquanto almoçavam, um funcionário, obedecendo ao aceno do diplomata postou-se diante das mochilas e protegeu-as religiosamente como quem guarda um tesouro, não arredando pé sem a autorização do embaixador, o que só aconteceu trinta e cinco minutos depois.

Entretanto, dois funcionários, que se ofereceram para conduzir os compatriotas ao aeroporto nos seus carros particulares, içaram uma bandeira portuguesa na antena do rádio e, avisados pelo interfone, vieram estacioná-los junto da viatura de funções do Dr. Crisóstomo que fez questão de os acompanhar até às escadas do avião.
Dois membros da tripulação saíram da cauda do monstro para carregar as mochilas das senhoras, que se despediam do diplomata. Depois de cumprimentar a tripulação, sentindo os reactores zunir, o Dr. Crisóstomo gritou emocionado:
― Boa viagem e que Deus vos proteja!
― Obrigado e bem haja, Sr. Embaixador! ― agradeceu o advogado, apertando-lhe a mão.
Da rampa, as mulheres lançaram-lhe um beijinho e acenaram comovidas. Mal o Hércules C-130 se estabilizar nos ares, Rui e as reféns foram efusivamente saudadas pelos três homens e as duas hospedeiras da tripulação. Em pleno Atlântico, passadas as emoções da descolagem, quando já conversavam normalmente umas com as outras, as senhoras foram surpreendidas pela aparição repentina de um punhado de soldados vigorosamente armados, mas joviais, comandados pelo Major Contreiras que, em continência, lhes bradou energicamente:
― Apresentar, armas! Baixar, armas!
E a emoção, colada nas suas gargantas, permitiu-lhes apenas que estancassem as lágrimas nas retinas e aplaudissem. Depois, saudando-as, uma a uma, o Major a todas dirigiu uma palavra de apreço. Quando chegou a vez da directora, o militar beijou-lhe a mão e perguntou perplexo:
― Mas que feitiço fez ao seu marido para ele ser assim tão louco por si, Dra. Cristina?
― Nenhum, Sr. Major, porém, como diz o ditado de poeta, de génio e de louco, todos nós temos um pouco, só que a genética foi excepcionalmente generosa para com ele. Porém, modéstia à parte, acho que o meu sacrifício valem mais que um feitiço. Mas..., a D. Elvira e a Sílvia deixaram-no vir?
― Ai de mim, que não corresse atrás do seu mano, Dra. Cristina!
― O que o Sr. Major Contreiras quis foi sair do quartel e vir matar saudades desta Angola órfã que nunca devíamos ter abandonado... ― interferiu o herói.
― O Rui nem imagina o ror de voluntários que tive que rejeitar, quando lhes falei em resgatar, debaixo de fogo, se fosse preciso, a sua esposa e as colegas! ― acrescentou orgulhoso.
― Obrigado por tudo, Sr. Major. Só espero que os colegas da Cris e a Vera estejam de óptima saúde e tudo se passe bem na hora do embarque. Já agora, permita-me que cumprimente e agradeça a estes bravos!
― Com certeza, Dr. Rui. Com licença, o Júlio quer falar-me.
― Faça favor! ― disse o advogado, dirigindo-se aos soldados.
Entretanto, as hospedeiras serviram-lhes bebidas e sentaram-se para que as enfermeiras lhes contassem a aventura, mas elas, desculpando-se com o cansaço da viagem, preferiram deixar essa confissão para quando, de regresso a casa, tivessem escutado primeiro a dos homens.
Antes da manobra de aterragem no Aeroporto Internacional de Luanda, os comandos, liderados pelo major Contreiras, puseram-se em posição de fogo na retaguarda do C-130. Imobilizando-se na pista de emergência, o avião manteve a portas fechada. Pouco depois, surgiu o autocarro da delegação lusitana, escoltado por um jeep das FAPLA ― Forças Armadas Populares de Libertação de Angola ― com quatro homens de kalachnikov em riste. Estacionando a uns cinquenta metros da aeronave portuguesa, o autocarro abriu as portas, liberando os passageiros que, de mochilas às costas, se dirigiram para a traseira do C-130, que se abria lentamente.
Pouco depois, surgiu a Vera, ladeada pelo Sr. Joaquim e a família. Os filhos seguravam cuidadosamente duas caixa de madeira. O assessor do Fagundes passou por eles, mas nem se atreveu a falar.

Descendo apressada, a directora veio acolher os colegas ao fundo da rampa para os saudar fraternalmente, beijando-os um a um, sob o olhar orgulhoso do noivo, que aproveitou para os felicitar, antes de correr ao encontro dos amigos.
― Até que enfim, Vera!
― Ufa! Que susto! Tive tanto medo de te perder, Rui! ― desabafou a jornalista, lançando-se nos braços do amigo.
― Olá! Como está Sr. Joaquim? Tudo bem, D. Filomena? ― perguntou jovial, cumprimentando-os orgulhosamente.
― Graças a Deus! Bom, agora prepare-se para receber um choque, Rui. Os meus filhos têm uma surpresa para si. Veja primeiro a caixinha do Tó.
― Que me trazes aí, Tó? É triste ou alegre?
― Oh... ― murmurou tristonho.
Ao abrir a caixa do mulato, Rui Patrício lembrou-se instantaneamente do fatídico dia em que, pequeno como ele, lhe foram dar a trágica notícia da morte dos pais. Acariciando os cabelos frisados do mocinho, o advogado olhou os objectos paternais e, tocando-os carinhosamente, deixou escapar uma lágrima das suas íris nubladas. Depois, sentindo o transmontano e a Vera ampará-lo, Rui fechou os olhos de medo e, empalidecendo, respirou fundo, antes de se agarrar desesperadamente à caixa que guardava religiosamente o punhado de terra e de cinza, o que restava dos seus pais. de terra e cinzas. E um grito lancinante, saindo daqueles restos mortais trespassou-lhe o corpo e alojou-se no mais recôndito do seu coração. As suas lágrimas, jorrando-lhe torrencialmente pelo rosto, regaram as cinzas do professor Artur de Aguiar e da professora Celina Fontoura, os pais que o destino lhe colhera cobardemente nas inóspitas e sangrentas terras do Nambuangongo que eles amaram até à morte.
― Coragem, Dr. Rui, coragem! A Vera gravou tudo o que eu consegui saber a respeito dos seus paizinhos que Deus tem. Lá longe, todos os recordam com Saudade e alimentam a esperança de o abraçar um dia!
― Se Deus quiser, virei, mas enquanto viver, jamais esquecerei este momento, meu amigo. Olhe, eu estou tão confuso que nem sei como...
― O senhor já se incomodou de mais connosco, mas, se um dia passar pelo cemitério dos Vilares, plante uma roseira na campa dos meus pais. Depois, quando a paz reinar nesta Angola martirizada, venha fazer-me uma visita com a sua senhora e os seus meninos e traga-me também uma recordação deles ou um punhado de terra da Asnela, onde nasci, aonde jamais retornarei, para que os meus filhos e a minha mulher ma possam meter no caixão ― implorou o transmontano, abraçando o conterrâneo.
― Mas não! O Sr. Joaquim há-de mostrar a sua casa de granito à Filomena e ainda contará aos seus filhos a história da Nossa Senhora do Fiolhoso, como eu ainda tenho esperanças de ir pisar as terras onde os meus viveram e perdoar a quem os matou. ― respondeu apaziguado, despedindo-se com um beijo dos filhos e da esposa do transmontano que o abraçou, soluçante.
― Vá, agora que está quase a voltar a Portugal para o casamento do Dr. Rui, não chore ― implorou a jornalista, beijando-o também.
― A Vera não pode imaginar as saudades que sinto da Asnela, mas, agora, a minha terra são os meus filhos e a Filomena!
― Desculpem, já me ia embora sem lhes apresentar a prisioneira mais bela de Angola! Cris! Ôoh! Vem cá, meu amor! ― gritou lacrimejante, acenando à noiva que, depois de saudar os colegas, fora apertar a mão aos soldados angolanos.
― Suponho que é o Sr. Joaquim da Silva e a família, não é? ― perguntou risonha, beijando-os a todos.
― Ué! O teu noiva é realmente um princesa! ― bradou Filomena, afagando carinhosamente a madeixa loura da médica.
― O senhor comandante faz-nos sinal, Sr. Joaquim! Desculpem, mas temos que partir. Muitíssimo obrigado e bem hajam! Adeus! ― exclamou grato e feliz, entregando a caixa dos objectos à Cris e segurando cuidadosamente a das cinzas.
― Adeus!!! ― bradou a família do senhor Xaquim, enxugando as lágrimas e acenando desesperadamente.

O órfão dirigia-se para a rampa de acesso ao interior do avião, quando surgiu um jeep com o embaixador de Portugal em Luanda para se despedir da delegação, mas a Vera, que o vira chegar, gritou-lhe furiosamente da porta do avião:
― Vade retro, Satanás! Vade retro, Satanás!
― Soldados! Soldados! - berrou furioso, tentando impor-lhes o respeito.
Mas os angolanos, avistando a mira das G-3 dos comandos postados em posição de fogo nas traseiras do avião, nem se mexeram e, dando meia volta, foram-se embora, de kalachnikov a tiracolo, ignorando o apelo do diplomata.
Como era previsível, do Fagundes nem sombra. Talvez os mirasse cinicamente de algum postigo dos nauseabundos sanitários do aeroporto, se não estivesse a comemorar com a Mutamba a pérfida felonia numa das datchas, graciosamente reservadas aos bons samaritanos do Comunismo.

E o C-130, recebendo a ordem de voo, dirigiu-se para a pista principal, iniciando a manobra de descolagem, perfeitamente executada pelo comandante Júlio Sampaio, que depois de estabilizar o aparelho, veio consolar o cunhado que, desesperadamente agarrado às relíquias paternais, chorava como uma criança,
Em pleno Atlântico, quando o avião se dirigia para a Mãe Pátria, o órfão, escutando a voz do seu coração, estancou as lágrimas e, sorrindo à esposa que o animava como podia, entrou no cockpit, implorando:
― Júlio, se é possível, por favor, volta atrás e sobrevoa novamente Angola para que os restos mortais dos meus pais não se separem dela repousem eternamente na terra que eles tanto amaram.
― Eh, um herói não chora, Rui! Vá, acalma-te e fica aqui a meu lado, que eu vou ver se posso realizar o teu desejo.
― Por favor, Júlio!
Obtido o acordo da torre de controlo, o brigadeiro iniciou a manobra de retorno e, baixando de altitude, permitiu que o cunhado e a irmã, que segurava religiosamente o sarcófago de ébano, aguardassem a aparição das imensas florestas angolanas para lhes largar em cima as abençoadas cinzas dos professores. Comovido, até o Sol repeliu o sono para que, num corajoso e benévolo adeus, Rui Patrício se reconciliasse definitivamente com o destino e desse aos restos mortais dos seus pais, que um raio luminoso fazia brilhar no céu como estrelas, a sepultura que sempre sonharam. E uma nuvem de estrelas cadentes, descendo leve, levemente, foi acariciar suavemente o coração de Angola, rogando a Deus que a paz celestial fizesse calar de vez os canhões.


Emocionados, os membros da delegação, a tripulação e os soldados, desarmados em sentida continência, prestaram-lhes uma homenagem no céu, enquanto em terra o bom povo de Angola, acenando, bradava com eles:

― Adeus!!! Adeus!!!
Depois, encarando-os, Rui implorou trémulo:
― Por favor, rezem comigo um Pai Nosso e uma Ave Maria.
E foi em coro que todos iniciaram, cabisbaixos e recolhidos, aquela fervorosa prece final, mantendo-se de pé e de mão dada até que, apaziguado, o órfão lhes sorriu e, lançando-lhes um beijo de gratidão, os mandou sentar. Resignado, Rui agarrou a mão da esposa e, voltando para o seu lugar, fechou os olhos, repousando a cabeça no regaço da sua amada. Suspirando mentalmente, pediu ao Artur que comesse para ser menos chorão que o pai.

Na cabina, Júlio e o sogro contemplavam as estrelas do céu. Entretanto, os homens, rodeando a Dra. Celeste, ouviram sem pestanejar a narrativa daqueles dias de terror que atingiu o paroxismo, quando, ouvindo bater à porta do quarto e pensando que iam ser violadas pelos cubanos, deram com os olhos no salvador. Paula, a quem teciam os mais rasgados elogios, fingia dormir encostada à Maria do Céu, a anestesista, que só pensava no namorado, deixado em Santo António dos Cavaleiros. Apoquentados pelo sono, os comandos da Amadora, esses, aproveitavam para tirar um cochilo, enquanto o Major Contreiras, sentado no lugar do copiloto, recordava com nostalgia os bons velhos tempos da guerra ultramarina.

Apaziguado por um sonho cor-de-rosa, o herói furtou-se cautelosamente à sua amada e juntou-se aos militares. E, à medida que a distância se liquefazia e lhes devolvia o cheiro dos manjericos e da maresia de Lisboa, até os seus corações esqueciam e sublimavam as mágoas, dando às suas retinas uma cor mais luminosa e um olhar mais encantador, como se a alma se vestisse de gala para abraçar Portugal.




Continua em: Capítulo XI



LMP - LUXEMBURGO, FEVEREIRO DE 1997
LUD
MacMartinson

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