sábado, 12 de abril de 2008

FD * Capítulo VI




CAPÍTULO VI



Nos meses de Janeiro e Fevereiro, a Dra. Cristina, como todos lhe passaram a chamar afectuosamente, mostrou ao pessoal do hospital, que a conhecera tão introvertida, uma alegria e uma afabilidade incomensuráveis, cativando-os. Perante tanta humildade, ninguém teve a coragem de se alhear do processo e de se furtar ao trabalho ou assumir a responsabilidade que a directora achou bem delegar em cada funcionário, depois de uma profunda análise do extenso relatório das dolências dos utentes e das deficiências e das mais prementes carências hospitalares.
Depois de resolver pacientemente os problemas mais urgentes e devolver ao pessoal aquele sorriso que tudo transformava e consolava quem mais sofria, a médica decidiu, com o apoio da Sílvia, engajada temporariamente, e dois responsáveis do Ministério da Saúde, com quem negociara e acertara um plano de saneamento financeiro, lançar as bases de uma gestão eficiente, eliminando o défice crónico, que as várias comissões directivas foram herdando e amplificando, impunemente, na última década.

No mês de Março, depois do reconhecimento unânime dos utentes e do pessoal, a Dra. Maria Cristina Galvão Sampaio foi nomeada, oficialmente, aos vinte e cinco anos, a mais jovem directora de um grande Hospital de Lisboa, o que suscitou, inevitavelmente, a inveja e os ciúmes, de quem, não lhe reconhecendo mérito naquele sucesso, se julgava, pela idade ou pelo cargo, mais digno e mais merecedor de desempenhar tal função.
Indiferente à celeuma da ordem dos médicos, onde imperava a senilidade, a médica que, durante três meses, pusera a sua vida familiar a rude prova, pelo excesso de zelo e entrega ao seu projecto, chegando a passar dias inteiros no hospital, sentiu que a sua afectividade definhava, comprometendo seriamente a sua própria felicidade. Apercebendo-se que a ambição ia endurecendo o seu coração, decidiu, antes que fosse tarde de mais, tirar uma semana de férias para voltar a sentir a paixão insolente consumir amorosamente o seu peito.
Mas não foi fácil! Afinal, o hospital tornara-se uma obsessão tal que a privacidade amorosa dos dois primeiros dias rapidamente se transformou em pesadelo, decepcionando profundamente o namorado, que, para evitar discussões fúteis, passara a maior tempo no escritório com a Paula.

Entretanto, a barriga da Sílvia, que, reconhecida sua competência, fora nomeada responsável pela gestão do hospital, crescia a olhos vistos; Júlio mudara-se para a base aérea de Monsanto, para ficar mais perto da esposa; em homem previdente, Dr. Edgar dedicava a maior parte do tempo a estudar o mercado e a lançar a base jurídica da futura associação com o genro, a Sampaio & Aguiar ― Advogados, que oficializariam em Julho, ainda do casamento; Dr. Félix, avô atencioso, ocupava-se da Celina que, sentindo arrefecimento sentimental do papá e da Cris, também se desdobrava em mimos; em Miraflores, Paula atenuava o mal-estar afectivo do patrão, almoçando amiúde com ele e contando-lhe anedotas para distrair; no Diário, Vera continuava à espera de um fim-de-semana para realizar a reportagem sobre os noivos e, no solar do Monte Estoril, o coração maternal da professora começava a inquietar-se com a frieza dos últimos meses, temendo que aquela mudança brusca viesse esmorecer por em perigo a felicidade da sua querida directora.

Entrementes, os PALOP ― Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa ― fizeram chegar ao Ministério da Saúde, pela mão do Embaixador da República Popular de Angola, um pedido de cooperação médica, que também fora enviado igualmente aos M.S.F ― Médecins Sans Frontières ― organização não governamental francesa de reconhecido mérito internacional, sobretudo depois da sua espectacular intervenção humanitária, nos anos sessenta, na guerra do Biafra que pusera a Nigéria a fogo e sangue.
Querendo recompensar a Sra. Directora e a sua equipa pela dedicação ao longo daquele árduo trimestre, o Sr. Ministro, que fizera questão de conhecer pessoalmente a famosa a Dra. Cristina e visitara, incógnito, o hospital para constatar in loco e de visu a mudança ali operada, decidiu atribuir-lhe a responsabilidade da missão médica portuguesa que deveria, entre Abril e Maio, analisar pormenorizadamente a situação da saúde nas antigas colónias africanas para depois, analisados os resultados, lhes conceder o apoio mais adequado às possibilidades do seu ministério. Claro que, no âmbito dessa deslocação, seria reservado um espaço destinado ao lazer, desfrutando, quem quisesse e em dias previamente definidos, das maravilhosas praias africanas, sobretudo em Moçambique e de Angola, onde iniciariam e concluiriam, respectivamente, tão prestigioso périplo humanitário.

No dia 1 de Abril, sexta-feira, apenas estacionou o BMW na cerca da vivenda, depois de mais uma viagem de desabafos solitários ao volante, a directora, que guardara esse convite no segredo dos deuses até constituir a sua equipa, vendo o sorriso acolhedor da velhota, bradou eufórica:
― Vou para a África, Sra. Noémia!
― A menina escusa de sorrir assim que a Celina já me enganou! ― disse desconfiada.
― O quê?! A Celina... Não me diga que ela lhe desobedeceu?
― Nada disso, como hoje é o dia dos enganos, mandou-me à escola falar com Sra. Professora Ester! Veja lá que maçada, ter que descer e subir esta encosta para nada!
― Ai a malandra! Mas, é como lhe digo, vou para a África!
― Se fala a sério, nem pense nisso, menina! ― avisou sisuda.
― Mas porquê? ― volveu frustrada.
― a Sra. Directora acha que o Ruizinho, depois do que aconteceu à Dina, a deixaria voltar àquela terra maldita?
― Agora é diferente, Sra. Noémia! Nós vamos em missão humanitária! São os próprios governos africanos que nos chamam e protegem! Além disso, ainda vamos ter muito tempo para bronzear! ― esclareceu convicta.
― Só se o levar consigo! A Cristina pense no que eu lhe disse: o Ruizinho já sofreu muito por causa dessa terra maldita e nestes dias não tem andado nada bem! Vejo-o tão desconsolado!...
― Eu sei, mas...
― A menina veja lá o que vai arranjar!
― Quando eu lhe explicar, ele compreenderá que isto só pode ajudar a minha carreira e depois, vendo-me voltar bem torradinha, ainda gostará mais de mim.
― Se é verdade que quer ir mesmo para África, aconselho-a a prevenir-se e a usar todos os seus argumentos para convencer o menino Rui, porque, conhecendo-o como eu o conheço e sentindo-o como o tenho sentido nestes últimos dias, desde já a aviso que será muito difícil mesmo convencê-lo a deixá-la partir sem ele.
― Difícil?! Quer apostar como conseguirei? ― desafiou confiante.
― Não, porque perderia de duas maneiras! Então, se for mesmo para África, que Deus vá consigo e a proteja! ― rogou pensativa, elevando os olhos ao Céu.
A médica sorriu e foi mudar de roupa, vestindo uns jeans e uma t-shirt azuis e apanhando o cabelo em rabo de cavalo, como ele gostava tanto de a ver, sempre que iam correr ao longo da maré pelas praias da Costa do Estoril ou quando iam respirar o ar puro dos pinhais que cercam o Solar.
Enquanto eles não chegaram, Cristina ligou para pedir um conselho à mãe, mas a Maria disse-lhe que os paizinhos, que haviam saído depois do almoço, não tinham lanchado em casa, prometendo, porém, avisá-los apenas chegassem. Ansiosa, Cris desceu para o jardim com os braços ao léu, perscrutando alternadamente a curva do pinheiro manso e a descida da estação. Descobrindo-a tão airosa, Rui Patrício gritou de dentro da viatura:
― Se a menina precisa de um guarda-costas para fazer o seu jogging...
― Se calhar... Depois veremos! ― respondeu enigmática.
― Oh! Esses jeans rejuvenescem-na demais, Sra. Directora! ― interferiu Celina, atirando-lhe um beijo.
― É verdade, padrinho?
― Assim até parece outra! Está mais alegre, mais descontraída e, efectivamente, muito mais menina, como em 1973 ― comentou feliz, sorrindo meigo e oferecendo-lhe timidamente o rosto.
― O padrinho também pensa que a promoção me deu a volta à cabeça?
― Não, Cristina, nunca me atreveria a tanto, mas confesso que tive muito medo que o Rui perdesse a paciência. Ele é tão exigente quanto generoso e ainda bem, porque quem se habitua ao pouco, nem se apercebe quando a miséria lhe bate à porta! ― explicou condoído.
― Tem razão ― respondeu pensativa, sob o olhar inquieto da Celina que, atrasando-se perto da garagem, lhe mendigava um pouco de carinho.
Depois de beijar a órfã, Cristina abeirou-se do noivo e esticou o pescoço para que ele adivinhasse a marca do seu perfume.
― Hum, que pescoço e seios mais cheirosos! ― cochichou fascinado.
― Psch! A Celina pode ver! ― disse arrepiada.
― Ai querem ver! Se a menina se arma em rainha de Sabá, violo-a já!
― Assim tão branca?!
― A preta ficou no escritório! ― arguiu provocador.
― No escritório? ― inquiriu perplexa.
― Se a Sra. Directora é do outro mundo: não precisa mais de amor.
― Não gozes, por favor!
― Desculpa...
― Quer dizer que a Paula...
― Paulada é o que tu mereces e há muito tempo, mas está bem, que partida me queres pregar? Ai mim não me enganas tu...a mim...
― Quem te disse que te quero pregar uma partida? - indagou a médica, estancando o tom jucoso do noivo.
― Vê-se em Lisboa, Cris! Hum! Tão mansinha e tão cheirosa...
― Não me digas que a preta...
― Vá, deixe-te de fitas e diz logo o que queres.
― Mais logo! ― recusou nervosa.
― Logo pode ser tarde de mais!
― Vou para África! ― revelou secamente.
― Essa é a melhor! Ei, nessa nem o Menino Jesus cairia!
― É verdade, Pat, vou para África! ― repetiu séria, agarrando-se desesperadamente a ele.
― Realmente tens razão, Cris: deixa isso para logo! ― acrescentou sisudo, olhando-a desvairadamente.
E o silêncio devolveu-lhes o ar triste e pálido das piores horas. À mesa, mal se falaram, deixando a Celina e o padrinho embasbacados. A Sra. Noémia, conhecedora da novidade, não se descoseu e lá serviu a refeição como se não soubesse de nada, encarando a novidade como mais uma laracha do dia dos enganos.
Depois da sobremesa, os noivos preferiram ir resolver a questão longe dos velhotes. Contornando as falésias, não cessaram de argumentar, tentando convencer-se mutuamente. Essa viagem seria óptima e oportuna, se o destino fosse outro e ele a pudesse acompanhar, mas para África, que tudo lhe roubara? Não! Na sua retina pairava ainda a imagem da Dina morta nos seus braços e dos seus olhos corriam lágrimas de sangue. argumento que não esbarrasse e resvalasse naquele olhar petrificado. Coitado, saíra para espraiar e desabafar a amargura que trazia no coração e afogara-se numa tempestade de medo e rancor!

De retorno a casa, deram as boas-noites e foram deitar-se, esperando que o amor os reconciliasse e os ajudasse a resolver tão cruel dilema! Enquanto se beijavam, Rui perguntou:
― E se te acontece o mesmo que aconteceu à Dina?
― E porque deveria eu morrer em África?
― E se eu ou Angola ou mesmo ambos fôssemos malditos?
― Não digas tolices, que se fosses maldito não terias uma filha assim!
― Se soubesse como receio perder-te, meu amor! Com a Dina, parti no encalço do destino, porque não o conhecia... e queria trazer para a terra os restos mortais dos meus pais...
― Não és tu que me dizes, pensa positivo, Cris, pensa positivo?! Vive, meu amor, vive? Então?! ― repetiu confiante, imitando-lhe a voz serena.
― Seja o que Deus quiser! Se é isso o que tu queres..., porém terás que fazer duas coisas, antes de te partires.
― O quê, meu amor?! ― inquiriu inquieta, fitando-o seriamente.
― Se tu morreres, sexo poderei até comprar, mas amor como o teu...
― Oh meu amor, se quiseres casamo-nos pelo civil!
― Deixa-me os teus óvulos!
― Os meus óvulos para uma inseminação artificial? Não, isso não! ― recusou peremptória.
― Do casamento posso abdicar, mas dos teus óvulos não!
― É absurdo, Pat! Como poderia eu caucionar tal loucura?
― Deixa-os aos teus pais e eu juro-te que só os usarei se encontrar uma portadora digna e essa for a última alternativa para evitar um suicídio.
― Suicídio?! Oh, Pat! ― bradou confusa, beijando-o desesperadamente.
― Faz isso e poderás partir com a minha benção! ― disse emocionado, amassando-lhe os seios arquejantes com a cabeça abrasada.
Suspirando de alívio, ela acariciou-o distraidamente. Depois, virando-se por cima dele, beijou-o amorosamente, fazendo-o contorcer-se e gemer de prazer. À beira do clímax, ele reteve-a e, fitando-a desvairadamente, retribuiu-lhe as carícias libidinosas, obrigando-a explodir torrencialmente até que, enlouquecida, ela lhe implorou que a cobrisse e, depois de se libertar do sémen dolorido, adormecesse no seu regaço. Obedecendo cegamente, Rui Patrício não pensou duas vezes e, libertada a hipertensão seminal, manteve-se inerte por mais de uma hora, com a cabeça repousada na travesseira suada.
E naquela noite, os apaixonados dormiram, abraçados e colados pela cintura pélvica, de candeeiro aceso para que a luz da felicidade não se apagasse jamais nos seus olhos.

No hospital, terminada a reunião com os delegados do pessoal, a quem explicou os objectivos da missão nos PALOP, a directora abandonou a sala e pediu-lhes que procedessem democraticamente à escolha dos membros da delegação e lhe entregassem a lista para a enviar ao Ministério da Saúde.
Às dez horas, verificando a acalmia nas urgências, a médica passou pelo escritório da cunhada e perguntou:
― Tens dez minutos para ir tomar um galão comigo, Sílvia?
― E a Sra. Directora não acha que está a engordar demais o seu sobrinho? ― inquiriu brincalhona, mostrando a barriga.
― Então sempre vamos ter um Marechal?
― O ginecologista ainda não tem a certeza, porque a ecografia ainda não é muito explícita.
― Ui, então o Júlio...
― Psch! É segredo! Não vá o médico enganar-se e ele ter mais uma decepção. Aliás, na próxima consulta, vou pedir ao Dr. Serra que não me revele o sexo dele para não cair em tentação.
― Tentação?! Ah! Ontem não tomei a pílula, Sílvia!
― Esquecer-se de tomar a pílula no dia 1 de Abril e engravidar é o cúmulo da distracção, Sra. Directora!
― Que chatice!
― Deixa lá, que isso não pega assim à primeira! Diz, sempre convenceste o Rui? ― perguntou curiosa, assentando-se no banco.
― Convenci, mas vai ser terrível para ele, que passará, seguramente, a maior parte das noites em claro! Além disso, ele pensa que o destino o persegue e que me vai acontecer algo de mal ― murmurou baixinho, pedindo dois galões à funcionária de serviço.
― Oxalá não reviva o calvário da Dina!
― Credo, cruzes! O diabo seja surdo! Ei, eu ainda sou nova de mais para morrer! ― sussurrou assustada, batendo na madeira.
― De qualquer maneira, o silêncio e a distância se não matam...
― Descansa que eu telefonarei duas vezes por dia!
― Então utiliza a linha diplomática, senão não ganharás para as despesas! Afinal, vocês partem em serviço e há por aí tanto parasita a utilizar os meios do estado em proveito próprio, que conto a mais ou a menos... ― sugeriu perspicaz.
― Se a missão for um sucesso e regressarmos sãos e salvos, não serão as despesas que me impedirão de dormir.
― Mas um mês...
― O quê?! Um mês?! Um mês longe dele?!
― Com uns dias de praia pelo meio...
― Se eu morrer, ele mata-se, Sílvia!
― Não acredito que ele seja assim tão louco por ti.
― É e eu faria o mesmo! O Rui é um homem excepcional! Apaixonado, carinhoso, sensível, sincero, sonhador, simpático, idealista, generoso, lutador, optimista, cândido, atencioso...
― Tudo isso, Cristina?! Não estarás a...
― Não, Sílvia, no dicionário não há adjectivos que o possam definir. Acredita, como Fausto, por ele, também eu venderia a alma ao diabo!
― Então sempre valeu a pena esperares tanto tempo por ele.
― Se valeu! Desde o dia 2 de Novembro, faz hoje exactamente cinco meses, já fui mais feliz do que muita gente em toda a vida! Tu nem imaginas como é maravilhoso trazer o coração em Primavera.
― Não, isso não imagino, mas confesso que gostaria imenso de ter a tua sorte. Agora até o Júlio parece contagiado pelo vosso amor.
― Contagiado pelo nosso amor?! Não digas isso, que não é verdade!
― Depois que encontrou o Rui, o teu mano mudou muito.
― Mudastes ambos! É em vós que se encontra a chave da vossa felicidade, não duvides, Sílvia!
― Desculpa fazer-te uma pergunta indiscreta, mas respondes se quiseres: o Rui é mesmo assim tão assíduo? Ele não se cansa?
― Sexualmente? ― perguntou maliciosa.
― Sim! ― respondeu envergonhada, baixando os olhos.
― Psch! Normalmente sou eu quem cedo primeiro!
― Mas... fisicamente...
― Pois é precisamente aí que todo o mundo se engana! Aliás, nós as mulheres enganamo-nos muito: no amor, como na vida, o mental e o espiritual são um milhão de vezes mais fortes e mais importantes que o físico. Agora, que o conheço, posso dizer-te que aquele olhar cândido e aquele coração puro têm uma força capaz de resistir a tudo, mesmo às sevícias do destino...
― Ele possui algo que não sei explicar, mas que contagia e torna feliz quem o aproxima. A simplicidade? A inocência? O quê não sei, mas o que te posso garantir é que, e o Júlio também está convicto disso, foi ele quem salvou o nosso casamento ― confessou a Sílvia.
― Só te peço uma coisa: se me acontecer alguma coisa, não o largueis!
― Acabe de beber o seu galão e sossegue, Sra. Directora, que o seu noivo é um anjo caído do Céu.
― Anjo para si, demónio para mim! ― disse divertida, colando o estetoscópio na barriga da cunhada.
― É menino ou menina? ― perguntou a Sílvia, consolada com aquele gesto carinhoso.
― E o que é que Dra. Sílvia me dá, se for uma princesa?
― Tudo o que pudermos!
― Uma honra que me dará muito prazer!
― Qual?
― A de levar esta menina à pia baptismal com o marido que Deus me deu ― respondeu radiante, retirando o estetoscópio.
― Lá por isso pergunta-se já ao seu maninho.
― Calma! Uma vez que logo à noite vamos todos jantar com o papá...
― Então até logo, Sra. Directora.
― Até logo! ― disse felicíssima.
Às onze horas, o Ministério da Saúde anunciava oficialmente a composição da delegação médica que integraria a missão humanitária aos PALOP, anunciando as linhas gerais do programa: o périplo africano iniciar-se-ia dentro de duas semanas, com a descolagem da comitiva do aeroporto de Lisboa, levando aos povos de Moçambique, primeiro, e aos da Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e, por último, de Angola, donde regressariam à pátria, a solidariedade que tanto desejavam.

Ao meio-dia, a RTP ― radiotelevisão portuguesa ― destacou para o Hospital de S. Estefânia uma equipa de reportagem para entrevistar a Directora, em directo e para o telejornal das 13 horas. Apanhada de surpresa, a Dra. Galvão viu-se obrigada a expulsar os arruaceiros do hospital, pedindo-lhes que respeitassem a dor e a privacidade dos doentes e não obstassem ao bom funcionamento dos serviços, sob pena de nunca mais lhes conceder nenhuma entrevista. E, fascinados dos pela autoridade natural de tão esbelta mulher, muitos deles insurgiram-se contra o desrespeito de certos desordeiros, que mais pareciam hooligans que jornalistas.
Serenados os ânimos, os elementos da comunicação social voltaram uma hora depois, entrevistando calmamente a Directora, que, um comunicado escrito, lhes ditou as regras do jogo, obrigando-os a respeitar escrupulosamente o regulamento hospitalar.
“ A lourinha não brinca em serviço!” ― comentaram uns, intimidados.
“ A gaja é boa como o milho ” ― retorquiram outros, excitados.
E quase brigaram por ela.
Às cinco horas, quando largou os serviços, a Dra. Cristina só pensava nas vinte horas para ver a sua reacção na televisão. Durante a viagem, porém, ouvindo os noticiários radiofónicos, achou que, depois do embate inicial, até nem se saíra assim tão mal.
E, enquanto os pais se encarregaram de registar o telejornal no vídeo, subiu para o sótão com o seu conselheiro. Colado ao televisor portátil, Rui não pestanejou, escutando religiosamente as notícias. À medida que o locutor anunciava os títulos, a respiração hipertensa da directora parava por segundos; os olhos vítreos cravavam-se no ecrã e o peito arquejante batia convulsamente, como se a vida quisesse parar.
Finalmente, quando a sua imagem surgiu no ecrã, Cris, que queria tanto ver-se, fechou os olhos, escutando-se arrepiada, enquanto Pat analisava o seu desempenho.
― Parabéns, Sra. Directora! Quem me dera ser jornalista, solteiro, bom rapaz e afortunado para lhe fazer uma proposta irrecusável!
― Irrecusável ou...
― Indecente!
― E se eu lhe aplicasse os dez mandamentos na cara diante de toda a gente? ― arguiu irónica.
― Se depois... Enfim, a sério, foste impecável, meu amor!
― Achas? Tenho tanto medo de cometer alguma gaffe!
― E quem não as comete?! Vá, vamos!
― Fazer amor? ― sussurrou sensual, atirando-se para cima dele.
― Ei, não, não! Eles estão à nossa espera para jantar! ― exclamou aflito, sufocado pela fúria da beijoqueira.
― Estou com uma fome! ― desabafou a médica, arrastando-lhe a mão pelos mamilos vulva sequiosa.
E o atraso durou apenas cinco minutos, tão fulgurante se revelou aquele ataque libidinoso.
A meio da refeição, Júlio levantou-se e, pegando no envelope que a Sílvia tirara da bolsa, disse solenemente:
― Como prometido é devido, nós, Sílvia e Júlio, temos a honra e o prazer de convidar a excelentíssima Sra. Dra. Maria Cristina Galvão Sampaio e o eleito do seu coração, o mui digníssimo Dr. Rui Patrício de Aguiar Fontoura, para padrinhos do nosso bebé!
― É com muita alegria e muito orgulho que nós, Pat e Cris, aceitamos o honroso convite que Vossas Excelências têm a gentileza de nos fazer neste dia ― respondeu a médica.
― Parabéns e queira Deus que esse bebé nasça em boa hora! ― acrescentou a avó.
― Aproveitando o velho ditado que diz não guardes para amanhã o que podes fazer hoje e porque o tempo às vezes sobra, mas também pode faltar, eu peço à senhora directora que me leia o meu pensamento ― lançou o advogado, fitando enigmaticamente a sua noiva.
― Afinal, a menina é bruxa ou feiticeira? ― questionou o pai.
― Oh! Eu sempre pensei que fosse a tua princesa, papá!
― E foste!
― Fui?!
― Pelo menos até ao dia em o meu rival fez de ti a sua Rainha!
― Deixemo-nos de fitas. O Pat e eu queremos retribuir-vos o honroso convite que acabais de nos fazer e pedir-vos, Sílvia e Júlio, que sejais os padrinhos do nosso herdeiro, seja qual for a mulher que o dê à luz ― disse misteriosa, esclarecendo corajosamente: ― Se qualquer viagem comporta riscos, uma estadia em países em guerra muito mais. Eu e o Pat ainda pensamos casar-nos pelo civil, mas para não haver mal-entendidos, não o faremos. Há, porém, um desejo que queremos realizar antes de eu partir: o Rui, que pensa que entre ele e Angola há uma maldição, nós vamos guardar num laboratório de confiança, bem entendido, os nossos genes, para, se a fatalidade nos bater à porta, o que viver possa perpetuar o nosso amor. Por favor, ajudem-nos a cumprir este sonho ― implorou comovida.
― Realidade será o vosso sonho, mas, nobre como é, Deus não permitirá que seja à custa da fatalidade! ― assegurou a avozinha, enxugando as lágrimas irreverentes.
― Oxalá, Deus a ouça, D. Susana!
― Ai ouvirá, Rui Patrício! A Cristina irá, mas voltará mais morena ― acrescentou o pai, empiscando à filha.
― Diz, Rui, essa é mais uma premonição tua ou tens realmente medo que, como a Cris referiu, entre ti e Angola haja uma maldição? ― questionou o cunhado, apreensivo.
― Premonição ou medo, o que importa é que eu me engane, Júlio!
― Não se aflija, Rui, que Deus não dorme! ― tranquilizou a professora.
― Mas às vezes parece, D. Susana.
― Já que lhes estraguei a ceia, quando vier levá-los-ei a um restaurante de rodízio para tirarmos a barriga de misérias! ― prometeu lacrimosa.
Depois da sobremesa, esquecidos os medos, Dr. Edgar mandou abrir uma garrafa de champanhe para brindarem à entrevista da Cristina, ao bebé do Júlio e à Sampaio & Aguiar ― Advogados.

Nos dias que se seguiram, a directora reuniu a equipa que ficava e com ela elaborou um minucioso plano de permanências no hospital durante a ausência dos membros da delegação. Inquieto, o Dr. Sampaio telefonou ao amigo para saber pormenores de tão perigoso périplo. O Sr. Sérgio Afonso garantiu-lhe que a viagem seria um sucesso, porque o Dr. Alfredo Fagundes, o funcionário que chefiaria a comitiva, nascera em Angola e conhecia África como as suas próprias mãos.
Entretanto, a Vera, a fiel amiga, não cessara de enaltecer a idoneidade e a capacidade profissional e humana da Dra. Cristina Galvão, arrasando com os seus editoriais sarcásticos os colegas que, influenciados pelos senhores comendadores do lobby farmacêutico, invejosos da notoriedade crescente da incorruptível directora, tentavam lançar a suspeição e denegrir a sua imagem, sobretudo depois que os média se interessaram mais de perto a ela. Previdente, a jornalista entrevistara longamente os noivos e propusera ao seu director que a guardasse o seu lançamento para o mês de Julho. Perspicaz, sugeriu-lhe ainda que fosse publicando no Diário pequenos extractos do folhetim para atiçar a curiosidade dos leitores, sempre tão ávidos de contos de fadas.

Desde o confuso, mas célebre 2 de Abril, a Dra. Cristina, que aprendera rapidamente a lidar com os abutres da comunicação social, não cessara de espantar os mais cépticos e mais acérrimos inimigos, demonstrando uma clarividência e um tacto invulgares, tão simples, claras e directas eram as suas respostas. E até os mal-intencionados, se renderam à classe da menina directora. E, para que a sua rainha conquistasse definitivamente os seus súbditos, o advogado decidiu eclipsar-se e cancelou instintivamente todas as entrevistas, até ao regresso da sua amada.

No dia 11 de Abril, depois de uma semana de amor e lágrimas e de um domingo solitariamente apaixonado, Pat e Cris decidiram consultar o Dr. Carlos Serra, o ginecologista da Sílvia, na avenida da Liberdade. A caminho de Lisboa, Cristina sentiu um raio de Sol primaveril espelhar-se na face direita e aureolá-la divinamente. Rui Patrício quis quebrar o silêncio, mas, emudecida e afónica, a garganta fez abortar o eco das palavras. No elevador, a médica beijou-o e murmurou:
― Por favor, guarda-me esses olhos tristes para sexta-feira!
― Se calhar sexta-feira não te vou dizer adeus.
― Não, Pat, chora, grita, blasfema, se quiseres, mas não me deixes embarcar sozinha. Eu que a luz dos teus olhos parta comigo, porque será neles que eu colherei a coragem para enfrentar as vicissitudes da viagem e será nas lágrimas do adeus que eu darei de beber à dor e saberei, aconteça o que acontecer, que vós me amais e nunca estarei só!
― Depois veremos! ― balbuciou triste, retendo as lágrimas.
― Isso, não chores, Pat, que eu hei-de voltar e juro que nunca mais te largarei, meu amor ― cochichou carinhosa, dando-lhe um lenço de papel.
Saindo do elevador, entraram no consultório sem tocar. Tomando a dianteira, a médica tirou o bilhete de identidade da sua bolsa e deu-o à secretária que, reconhecendo-a, lhe sorriu cordialmente.
― Um minutinho, por favor, Sra. Directora. O Dr. Serra não demora. Olhe, aí o têm ― disse a secretária, apontando o patrão.
― Bom dia, Dra. Cristina! ― saudou o ginecologista, jovial.
― Bom dia, Sr. Doutor! Antes de mais, permita-me que lhe apresente o meu marido...
― Muito prazer em conhecê-lo pessoalmente, Dr. Rui de Aguiar! ― exclamou o médico, apertando calorosamente a mão ao advogado.
― Igualmente, Dr. Serra!
― A Dra. Sílvia falou-lhe do nosso desejo?
― Sim, falou, mas é melhor examinarmos...
― Com certeza. E a gravidez da Sílvia?
― Lindamente, só que o seu mano quer um militar, mas se calhar...
― Não me diga que eu vou ser madrinha de uma princesinha?!
― Então pense no cor-de-rosa.
― Quando precisarem de mim... ― adiantou o marido, intimidado.
― Não se vá, Dr. Rui! A sua presença... ― adiantou o ginecologista.
― Fica aqui comigo, Pat ― rogou-lhe a esposa.
― É o primeiro ginecologista que vejo consultar, Sr. Doutor.
― Não se preocupe que a sua esposa não sofrerá absolutamente nada. Ela vai despir-se e assentar-se nesta cadeira para lhe examinar o útero e lhe fazer uma análise de rotina. Faça o favor, Dra. Galvão ― disse impávido.
Enquanto a directora se despiu, o ginecologista manteve-se ocupado com o material. Sentindo-o envergonhada, Cris sorriu ao noivo e pediu-lhe que servisse de cabide. Com uma lâmpada na testa e umas luvas plásticas, o ginecologista aconselhou a colega a pousar as pernas nos esteios e, abrindo-lhe a vagina com um tubo metálico, olhou bem para o interior da matriz. Depois de a examinar, virou-se para o advogado e disse:
― Pendure a roupa e venha ver, Dr. Aguiar.
― Não me diga que Deus se encarregou de lhe poupar...
― Afirmativo, Sra. Directora!
― O que se passa? ― perguntou o marido.
― Os meus parabéns, Dr. Rui de Aguiar!
― Afinal, não vou sozinha para África! ― exclamou radiante.
― Absolutamente, doutora ― confirmou o ginecologista, segurando uma palheta.
― Obrigado, meu amor! ― bradou Rui Patrício, pegando na mão da esposa e beijando-a amorosamente.
― Desculpe, Dr. Serra, mas esta viagem preocupou-nos tanto que até nem prestamos atenção...
― Ainda bem, Dra. Cristina, porque eu não sou muito favorável a manipulações genéticas. É ninguém nos assegura que estes bancos de sémen não possam cair de algum Dr. Moreau!
― Eu também não concordo com as manipulações genéticas, mas seria esta a única maneira do meu marido..., percebe?
― Perfeitamente! Pronto pode vestir-se e, mais uma vez, parabéns e muitas felicidades a ambos! ― disse sereno, apertando-lhes a mão.
― Obrigado! Dr. Serra...
― Sim!
― A minha esposa pode partir sem problemas? Não vai sofrer com...
― Absolutamente nada! Pelo contrário, a gravidez torná-la-á mais robusta, mais resistente!
― Ainda bem!
― Confie em Deus e na sua esposa, Dr. Rui!
Vestindo-se calmamente, a doutora nem sabia se rir ou se chorar, acarinhada pelo noivo que, endemoninhado pela ideia da fatalidade do destino e apanhado de surpresa, quase ficara sem voz nem sangue para reagir a tão feliz e tão desejada novidade. No consultório, ainda pensaram telefonar para a Faculdade de Letras e mandar chamar a professora Susana Galvão, mas acabaram por desistir e guardar o segredo a sete chaves nos seus corações.
Durante o retorno, o advogado não parou de beijar as mãos à sua dulcineia, de sorrir para o pára-brisas e de chorar de alegria, murmurando palavras desconexas que só a inconsciência atribulada sabia decifrar. Presa no turbilhão da incomensurável felicidade que o seu coração maternal lhe insuflava nas veias, Cristina tentou desvendar o mistério que encandeava aquele olhar vítreo, mas a sua curiosidade não obteve a mínima resposta. Perto de Santo Amaro, dominada a apreensão, ele rompeu o silêncio platónico e implorou:
― Cuida bem do menino, Cris. Daqui até sexta-feira, vou gravar-te uma fita para que todas as noites, ao adormeceres, ele possa escutar a minha voz e tu saibas que, onde estiveres, não estais sós.
― Óptima ideia, grava, meu amor, grava!
― Agora podes ter a certeza que eu jamais vos abandonarei...
― Deus e o anjo da guarda vão connosco! Vá, sossega, meu amor, que tudo se passará bem e eu voltarei mais moreninha como tanto gostas.
― Morena ou pálida, tu serás eternamente divina, Cris!
― No dia 2 de Abril, foi a pensar no nosso bebé que eu te pedi que cobrisses! Naquela hora desejei-o tanto, tanto!...
― E eu, Cris?! Se soubesses como rezei para que te esquecesses de tomar a pílula e o meu sémen te fecundasse de vez!
― E agora? Dizemo-lo a alguém ou guardamo-lo até eu voltar?
― Faz o que o teu coração te ditar, meu amor!
― E o casamento? Se esperarmos pelo mês de Agosto, a barriga...
― Porquê? Tens medo que...
― Não, antes, daria tudo para que todo o mundo visse e soubesse que trazia um filho teu na barriga, mas não foi assim que imaginei o nosso casamento, meu amor!
― Sonhaste com um casamento chique, num dia de sol, com centenas de convidados ricos e famosos...
― Não, sonhei com um casamento perto da piscina ou no meio do jardim, com a família e os nossos amigos, simplesmente...
― Eu faria diferente! Para que o mundo inteiro visse a tua beleza, para que os homens te desejassem e me invejassem, eu gostaria de me casar em jeans, barbado, meio selvagem...
― Pronto, deixa lá, que seja o que Deus quiser!
― Só espero que o Deus dos meus pais, o Deus que o meu coração adora, não me decepcione ou abandone outra vez, porque, se vos perder, Cris, juro-te que morrerei, mas num fogo de artifício com as igrejas, inferno de tanta gente, a explodir e a arder comigo!
― Psch! Não me assustes, Pat! ― sussurrou meiga, tapando-lhe a boca.
― Desculpa esta cólera, meu Deus! ― implorou arrependido, ligando a Rádio Renascença para que a música, entrando-lhe no coração, afugentasse dele o mau presságio.
E a sensual melodia killing me softly da negrinha Roberta Flack fê-los recordar milhares de palpitações e de olhares que os seus corpos, perdidos no turbilhão do amor, haviam ignorado. Mal entrou na vivenda, Rui Patrício trancou-se no quarto e, utilizando as cassetes do Sony, iniciou um diálogo com o anjo invisível, a quem confiaria a missão de repreender a mãe, nos momentos de tentação, se os houvesse, ou de a prevenir, se o perigo a rondasse por perto.
Depois do almoço, Pat e Cris foram até ao Monte Estoril, onde a criada, de aspirador em punho, limpava o salão. Sorriram-lhe, saudaram-na e subiram para o quarto do sótão, onde, passando em revista as fotos mais marcantes das suas vidas, se beijaram e amaram fervorosamente.

À noite, no telejornal, a televisão passou uma entrevista do Dr. Fagundes, o responsável pela missão, mas ocupados a acariciar o feto, eles nem lhe prestaram atenção. Pouco depois, D. Susana quis avisá-los, mas surpreendendo o genro a beijar amorosamente a barriga da filha, recuou e, batendo na porta, perguntou:
― Ouviram a notícia?
― Que notícia, mamã?! ― retorquiu surpreendida, tapando o ventre à pressa para que ela não desconfiasse de nada.
― Afinal, vocês partem depois de amanhã à noite, 13 de Abril, para no dia 13 de Maio poderem a Fátima agradecer à Virgem Maria!
― Estes políticos são bem cínicos e desumanos! Como é possível tanta leviandade numa operação destas? Eles brincam com as pessoas como se a vida... Ah! Que raiva, meu Deus! Estes desgraçados marcam, desmarcam, acertam, desacertam com uma insolência de bradar aos céus. Mas quem é que eles julgam para brincarem assim com a nossa vida e os nossos sentimentos? ― indagou furiosa e decepcionada.
― Talvez seja melhor assim, Cris!
― Como assim, Pat?! A expedição, tecnicamente, está pronta, as máquinas, os remédios, não têm coração, mas, humanamente, esses idiotas lembraram-se, porventura, que nós somos gente, que temos uma família, pais, filhos, que abandonaremos por tanto tempo? Isto começa muito mal!
― Mas não, filha, também não é assim tão grave. Quanto mais depressa partirem, mais rápido regressarão a casa! Essa ideia de irem a Fátima agradecer a Nossa Senhora até nem é má, Cris! ― disse mãe, serenando-a.
― A ideia não seria má se não estivesse viciada à partida, mamã!
― A Cris, tem razão, D. Susana.
― Como Rui?! ― volveu a professora, perplexa.
― Já viu que estes políticos de..., enfim!, fazem tudo só para Inglês ver? Até da miséria africana se aproveitam para se promoverem. Isto é só folclore! Esses gajos tomam as intenções por esmola. Ah, que fariseus que eles são!!! É por essas e por outras que eu nunca serei político e, se o for, será para fazer ruir de vez o Carmo e a Trindade, D. Susana.
― Visto por esse prisma, têm toda a razão! ― reconheceu a mãe.
― Ainda bem que o orgulho desmascarou o hipócrita em questão! Assim, estarei de pé atrás e pensarei duas vezes antes de obedecer. Comigo não levarão a melhor.
― Faz como te disse, Cris. Obedece apenas à voz da tua consciência que ela é a única que não te engana, meu amor.
― O Fagundes bem merecia que o desconchavasse, mas nem lhe telefono! ― desabafou mais racional.
― Isso mesmo, Cris, não lhes mostres que percebes as manobras dele!
― É, faz o que o teu marido diz: segue sempre ao teu coração, filha!
― Ai seguirei! ― acrescentou peremptória, chispando raiva pelas retinas.
― Com licença!
― Onde vais? Em que estás a pensar, Pat?
― Em nada de especial, só quero fazer uma pergunta ao Júlio.
― O Júlio vem aqui comer esta noite, Rui ― avisou a catedrática.
― Ainda bem! ― desabafou calmo, estancando o passo.
― Em que estás a pensar, Pat? ― insistiu a médica, intrigada.
― Estás a ver? Agora quem se aflige és tu!
― Eu?!
― Sim, tu estás a ficar uma tremelicas! ― ironizou divertido, empiscando à sogra que se afastava.
― Ei, com ele, aqui dentro, Pat, achas que eu tenho medo? Eu levo comigo um Príncipe Valente ― cochichou séria, engrossando interiormente a voz para sentir a força do guerreiro.
Mais tarde, quando a Sílvia entrou no salão, Cris não resistiu e foi abraçar-se a ela e apalpou-lhe afectuosamente a barriga, observada pelo Júlio que não parava de as arremedar, esticando-lhes a língua.
― O maninho não se ria, porque é de uma princesa que serei madrinha!
― Logo que venha com saúde! ― respondeu conformado.
― Ei, deixa as mulheres em paz, pá! Sossega que daqui a pouco venho fazer festa à menina ― disse carinhoso, chamando o cunhado.
Elas sorriram e foram assentar-se no canapé a comentar o dia de trabalho. Como eles demorassem, a directora aproveitou para ligar aos membros da missão para desabafar com eles e, sobretudo, para lhes dizer que fora o Fagundes quem alterara arbitrariamente o dia da partida. E, para cimentar a união da equipa, marcou-lhes reunião para a véspera do embarque, no hospital. Ainda passeava pelo jardim de portátil no ouvido, quando os homens vieram juntar-se à família. Rui Patrício abeirou-se da cunhada, beijou-a e perguntou:
― As meninas dão muitos pontapés, Sílvia?
― Se dão! As desportistas até são piores do que os rapazes e nem sei porque razão os ficam tão desapontados quando lhes vêem a papoilinha!
― Estás prevenido, Júlio! ― avisou o advogado.
― Menino ou menina, o importante é que venha são, escorreito e em boa hora ― interferiu o brigadeiro, sorrindo à esposa.
― Deixa lá, se o Marechal perder o comboio, telefonamos à base e mandamo-lo vir de F-15 ou de F-16! ― interferiu o avô, dando uma palmadinha nas costas do filho.
― De F-16, Dr. Edgar?! Liga-se logo aos Marcianos que o farão aterrar no meio do jardim! ― sugeriu Rui Patrício, brincalhão, acenando à esposa que, de portátil na mão, lá continuava a gesticular no patamar.
E com aquela galhofa machista, que fez corar a Sílvia, a felicidade voltou a iluminar-lhes o semblante carregado, dissipando as nuvens negras que o medo lhes cravara no coração. De volta, Cristina quis saber a razão de tamanho riso, mas os homens, unidos, fizeram ouvidos de mercador, preferindo saborear lentamente a sopa escaldante que a Maria lhes servia.
― Se a pança lhes pesasse, os homens não teriam tanta vontade de rir! ― arguiu a professora, defendendo a honra feminina.
― É, os cientistas deviam inventar uma barriga artificial e obrigar os machos, que tanto orgulho têm das suas pilecas, a suportar uma gravidez artificial, para saberem quanto custa ― arguiu Sílvia, escarnecendo o marido zombador, que não parava de rir e de a olhar de escárnio.
― Ai eles ousaram rir-se nós? Deixa-os comigo! ― ameaçou a médica, fustigando o machismo triunfante.
― Isso são coisas do teu mano e do teu marido, filha ― desculpou-se o advogado, acariciando a mão da esposa.
― O pai não queira ser o bom da fita, porque foi o senhor quem começou! ― denunciou o Júlio, limpando os lábios.
― Sinceramente, papá! ― repreendeu ameaçadora.
― Desculpa, mas foi o Rui quem me deteriorou o pensamento.
― Eu, Dr. Edgar?! ― questionou surpreendido.
― Também tu, Pat?! ― retorquiu a médica, desapontada pela revelação.
― Ei, o senhor assuma-se, quem não disse nem fiz nada de mal.
― E o que foi que eles disseram ao certo, Júlio? ― insistiu a mana.
― Se não fosse tão segredeira e tivesse telefonado daqui de dentro, a Sra. Directora teria ouvido! ― respondeu irónico.
― Está bem, eu digo. Como a Sílvia, em princípio irá ter uma menina, não era preciso ter gasto tempo e riso e siso, mas o teu papá quis iludir o Julinho, dizendo-lhe que, se fosse rapaz, mandavam vir o marechalzinho de F-16 e eu, para ser mais rápido, sugeri-lhes que telefonassem aos Marcianos e talvez o pilinhas...
― E a causa de tanta galhofa foi só isso? ― retorquiu a médica, explodindo numa gargalhada que a fez engasgar e chorar de riso.
Dominada a risada, ela pediu desculpas à Sílvia e, sorrindo ao nefelibata, murmurou taciturna:
― Só estou para ver como vais mandar vir o teu, Pat.
― O nosso?
― Sim o nosso, ou de quem queres que seja?
― Bem, o nosso que vai ser Juiz do Tribunal Constitucional, vai inventar testar o cúmulo da velocidade: vê lá que ele será mais rápido que o Speedy Gonzalez, pois, antes de nascer, conseguirá vir dizer o pai para avisar a mãe que está na hora de lhe abrir a porta, e zac! tac! ― argumentou sério, batendo as mãos para simular a velocidade.
― Já agora podias mandá-lo vir de pára-quedas para ver se encontrava o padrinho pelo caminho! ― sugeriu o aviador, orgulhoso.
― Oh! Eu pensei que estes homens ainda estivessem na casca! ― exclamou a professora, trocista.
― Hoje parece que estamos todos na Lua, mamã!
― Também se chorassem como riem, ninguém se salvava: morreríamos todos afogados!
― Por falar em lágrimas, se ninguém chorar durante o embarque, eu revelo-vos um segredo... de estado! ― disse Cristina, risonha.
Emudecendo, eles começaram a dar voltas à mioleira, tentando enganar-se uns aos outros, enquanto a Maria lhes levantava os pratos da sopa para lhes servir o bife de cavalo. Ao serão, contaram histórias de saloios e de alentejanos para dissiparem a apreensão que o adeus começava a instalar nas suas almas, nada habituadas a separações tão longas e tão arriscadas. É que Moçambique e Angola eram o palco da guerra paralela que os russos e os americanos se livravam, por intermédio de cubanos e sul-africanos, apoiando os primeiros a FRELIMO e o MPLA, partidos marxistas que governavam esses países, e os últimos a RENAMO e a UNITA, que lhes contestavam o poder, usurpado aquando da vergonhosa descolonização Portuguesa, despachada à pressa pelo Dr. Mário Soares e os seus acólitos comunistas e para a Internacional Socialista ver. Depois do pagode, a médica acariciou a barriga da cunhada e, dando as boas-noites, com um aceno e um beijo, empiscou a seu Pigmalião, subindo a cuidar do segredo.

Na terça-feira, 12 de Abril, depois de um último contacto com os companheiros de aventura e o Ministério da Saúde, a directora reuniu a equipa que ficaria de serviço e convidou-a para um almoço no Pássaro Azul, um pacato restaurante perto do hospital, onde lhe pediu que cultivassem o espírito de família.
De retorno a Santo Amaro, passou por Miraflores para se despedir da negrinha que cuidaria do marido.
― Olá! Tudo bem, Paula?
― Tudo bem, obrigada. E você, Dra. Cristina, como está?
― As saudades matam!
― Mas a Sra. Directora nem sequer ainda partiu!
― É verdade, Paula, mas é como se já estivesse prisioneira...
― Prisioneira em Angola, Dra. Cristina?!
― Esqueça, deve ser tristeza do adeus... E o Rui?
― O Sr. Doutor deve estar a chegar. A audiência terminou, em princípio, às quatro e ele não tem o hábito de demorar.
― Cuide-me bem dele, mas fique-se pela a fronteira...platónica!
― Pois... a anatómica é ele quem atravessa e, pelo que vejo, é a sua.
― Você sabe como são os homens, Paula, donde menos se espera...
― O patrão é muito meu amigo, mas tem um coração fiel.
― Eu sei, Paula, eu sei! E confio plenamente em si para mo guardar intacto!
― Vá tranquila que de anjo da guarda não passarei! Toma um cafezinho?
― Com muito prazer!
― Sabe, o seu papá veio aqui convidar-me para ir trabalhar na Sampaio & Aguiar ― Advogados, a partir do mês de Junho para que, quando se casarem em Agosto, a máquina esteja bem oleada e a vossa lua-de-mel possa ser prolongada, caso vocês decidam.
― Parabéns! Fico encantada por saber que você ficará ligada à família.
― O prazer é todo meu! Por vocês eu daria a minha vida, Sra. Doutora, pois jamais poderei pagar-lhes o que fizeram por mim.
― Oxalá que nunca seja preciso por a sua generosidade à prova e se torne bem depressa directora da sociedade.
― Longe de mim tal pretensão, Dra. Cristina. Eu não aspiro a tanto.
― Mas deve, porque o Rui deposita muita esperança em si.
― O meu patrão...
― O seu patrão quê, Paula? ― interferiu o advogado, surpreendendo-as a tirar o café.
― Nada de mal...
― E a que se deve a visita desta senhora?
― Esta senhora veio engajar-me para seu anjo da guarda!
― Com tantas vitórias, o que eu preciso é de uma guarda-costas!
― Bom, se a Paula se ficar só pelas costas...
― Só?! Nem mais um pouquinho acima ou abaixo?
― Não! A fronteira de cima chega ao colarinho, e apertado, faz favor, e a de baixo termina no cinto! ― interferiu enciumada.
― Desapertado! ― retorquiu prontamente.
― Não, esse é que tem que ficar fechado a sete chaves! ― recusou peremptória.
― Deixem-se de ciúmes... e tomem o café, enquanto está quente!
― Mudando de assunto, o Sr. Dr. Aguiar ganhou, perdeu... que não teve dois minutos para me mandar um beijinho? Isto é que são saudades!
― Saudades?! A princesa ainda nem levantou voo! Oh, ela vai chorar! Quer uma chupeta, menina? ― arguiu zombador, sentindo-lhe a lágrima no canto do olho.
― Se não estivéssemos diante da Paula, eu dir-lhe-ia quem precisa de chupeta, seu chorão!
― Lá por isso, eu vou-me embora, Dra. Cristina.
― Fique porque a educação é em casa que se dá. Vamos, bebé! ― ordenou autoritária, empurrando-o.
― Os dossiês estão na pasta. Adeus! Se ela me matar, reze por mim!
― Vamos! Anda! ― gritou ameaçadora, arrastando-o pelo braço.
― Ai, ai, não me bata! - volveu o patrão medricas, receando uma surra.
No elevador, inverteram-se os papéis e, prisioneira da exacerbada loucura varonil, a megera, golpeada de beijos esfomeados, metamorfoseou-se na mais submissa das escravas, aceitando a tortura passional sem gritar. E, temendo ser apanhado em flagrante delito de amor e ver a sua reputação angelical seriamente comprometida, o endemoninhado estancou aquela inefável exacção antes de que o elevador atravessasse a barreira da indecorosa escuridão e se imobilizasse na fronteira da frustrante claridade.
Depois, pela estrada do Estádio Nacional, o Mercedes e o BMW iniciaram uma sinuosa perseguição até Santo Amaro, onde a doce Celina, assentada no muro da cerca, já desesperava com o atraso.
― Demoraram tanto! ― exclamou frustrada, beijando-os e abraçando-os demoradamente no jardim.
― Já tinhas saudades, filha?
― Sobretudo da Cris.
― Olha que eu vou ficar cheio de ciúmes!
― A Cris vai-se embora e eu também receio que ela não volte mais.
― Oh, encosta a tua cabecinha na minha! ― bradou condoída, afagando-a maternalmente, enquanto o pai, que deixara o motor em marcha, encerrava o Mercedes na garagem.
― Tu vê lá, não te esqueças de telefonar ao papá, porque eu sei que ele recomeçou a chorar para dentro ― cochichou cautelosa.
― Ei, eu conto contigo para o animares e o guardares...
― Um mês é muito tempo, Cris! Só espero que não te aconteça o mesmo que à mamã!
― Morrer? Eu tenho um anjo da guarda só para mim! ― retorquiu a médica, erguendo a voz para espantar o medo.
― Psch! Ele pode ouvir! ― sussurrou a segredeira, espiando o paizinho.
― Vá, corre e diz à Sra. Noémia que nós chegámos para lanchar.
― Não demorem, Cris, que o vovô está lá em cima no escritório.
― Já vamos, filha!
No cavalete, o arquitecto desenhava uma magnífica vivenda com duas piscinas ovais harmoniosamente entrelaçadas, em perfeitos e harmoniosos crescendos e diminuendos, para que os adultos pudessem mudar de profundidade e mergulhar os seus corações nas águas mansas e cristalinas da infância, sempre que essa necessidade intrínseca se fizesse sentir, sobretudo quando a maré negra e superficial da existência lhes parecesse abismal. Rui, impressionado com a filosofia daquele velho que nunca deixara de ser menino, ficara ali, de pé a seu lado a vê-lo dar vida ao sonho, animando a alma em ressonância artificial. Assim, impregnado naquele esboço feérico, até se esqueceu que estava esfomeado.
― Vocês não vêm comer, Rui?
― Não tenho fome, Cris ― disse abúlico, permanecendo de costas.
― O padrinho que está a fazer? ― perguntou curiosa, abeirando-se deles.
― A desenhar o ninho da felicidade! ― exclamou contemplativo.
― Venha lanchar connosco.
― Se abandonasse agora a inspiração e a perdesse, ficaria esfomeado para o resto da vida ― confessou o velhote, preenchendo pacientemente a folha branca, donde emergiam as enigmáticas linhas da gestante quimera.
― Psch! Não quebres a magia do sonho, Cris! ― implorou baixinho.
― Quando eu voltar de África, sentar-me-ei aqui a seu lado para sonhar que vivo nessa mansão consigo e com o Rui e a Celina e o Artur ou a Alice que, entretanto, terá chegado ― cochichou-lhe ao ouvido.
― Melhor seria se viessem ambos, Cristina.
― Gémeos, padrinho?! O Rui seria o homem mais feliz do mundo!
― Quando estiver em África, sobretudo em Angola, veja lá onde trepa, porque a Pátria Mãe da Raça Humana está minada... Por favor, não deixe a sua felicidade se perca nesse continente amaldiçoado...
― Credo, padrinho, eu vou conhecer a glória nessa terra abençoada! ― exclamou optimista, dando-lhe uma palmadinha nas costas.
― O lanche está na mesa! ― bradou Celina, espalhafatosa.
Sorrindo meigo, o arquitecto mudou, finalmente, de ideias e seguiu-os. No corredor, porém, virou para a cozinha e passou as mãos pela água da torneira da banca, observado pela fiel governanta, a velhota mais rija de Portugal que, a um mês dos 68 anos, ainda não sabia o que era um médico, apesar dos seus cabelos brancos e os vinte e cinco anos de abnegado serviço naquela casa, onde vivera tantas vezes, chorara de alegria e, sobretudo, de dor com a trágica morte das mulheres dos seus meninos. Celina levantava a mesa, quando o trrim estridente do telefone a atraiu como um íman, obrigando-a a largar tudo.
― Alô! Quem fala?
― Olá, Celina! ― bradou uma voz pausada e meiga.
― Olá, padre Ximenes! Como está?
― Óptimo! Mas que ouvido, Celina!
― Não me leve a mal, padre Ximenes, mas você fala sempre a rir. O senhor nunca está triste, não? Ou também se aprende a mentir no seminário? ― questionou irreverente.
― Ui, isso e muito mais, Celina, mas, por favor, chama-me o teu papá que eu preciso muito de falar com ele. Diz-lhe que é o guerreiro Belo!
― Um minuto! Com licença! Papá! Papá!!! Vem cá! O guerreiro Belo está pendurado no telefone! ― gritou esganiçada, arrastando o telefone até ao corredor para não perder tempo.
― Alô, Ximenes?! Podes desligar, filha, que eu peguei aqui no meu quarto ― disse o advogado, atendendo a chamada no primeiro andar.
― Então como vão as coisas, Rui? A Cristina está animada? Aqui entre nós: ela é realmente uma mulher excepcional, meu irmão!
― A Dina não era menos e também morreu, Carlos!
― Quem te ensinou a escolher as mulheres.? As aulas dos Salesianos, as lições da vida ou os traumas do destino?
― Sei lá! O coração...
― Como dizem os brasileiros, tu és realmente muito sortudo, Rui!
― Se calhar...
― Sem dúvida! Fechando o parênteses, queria desejar uma boa viagem à tua esposa, dar-lhe os meus parabéns pela forma brilhante como tem gerido a aura da glória e enfrentado a contaminação social, que outro nome não merece. Felicita-a por mim e não te aflijas que ela têm um batalhão de fervorosos a rezar por ela. Deus é Pai, meu irmão!
― Que Deus te pague e ilumine os teus caminhos, para que a aura da tua simplicidade brilhe no mundo inteiro. Um dia, serás o Bom Pastor de Timor e viverás feliz e querido no meio do teu povo. Depois de uma geração de barbaridade e terror, Timor rimará definitivamente com Amor...
― Mas quantos inocentes tombarão até que isso aconteça, quantos, meu irmão? Que os políticos mintam, é mal, mas tolera-se, porque a ambição tudo cega e corrompe, porém que a Igreja seja assim tão falsa e tão incoerente, apregoando uma coisa e fazendo outra, em permanente e deliberada contradição com a sua própria essência, é uma heresia, um imperdoável sacrilégio por omissão. Ai, quantos rios de sangue correrão ainda em Timor por causa dessa cobarde hipocrisia! Que as grandes nações mintam como Judas, dizendo o que não fazem e fazendo o que não dizem, pode compreender-se, mas que a Igreja seja igual a eles e, pior, adopte esses critérios pagãos, em total contradição com os mandamentos que hipocritamente apregoa, isso não!
― Acalma-te, meu irmão, acalma-te! ― implorou comovido.
― Seremos, porventura, nós, Timorenses, cristãos ou homens de segunda classe, Rui? ― arguiu o padre, enraivecido.
― Claro que não, Carlos, claro que não sois!
― Mas para a Igreja somos ― desabafou decepcionado.
― Onde estás, Carlos? Vá, não chores, meu irmão!
― Na capela da Escola Salesiana a confessar.
― Espera por mim, Carlos, que é isso que eu preciso de fazer.
― Vem devagar, Rui, vem devagar!
― Fica tranquilo, Carlos. Com licença, até já!
Chegando ofegantes, Pat e Cris saudaram-no e, depois de lhe acalmarem aquele grito de revolta, confessaram-lhe os pecados nos jardins da igreja, enquanto passeavam, revelando-lhe naturalmente o segredo da paternidade. Vendo-os tão apaixonados, o Salesiano garantiu-lhes que, no dia 6 de Agosto, lá estaria no solar para selar as suas vidas.
Retornando a Santo Amaro em estado de graça, até a mesa lhes pareceu celestial. Celina quisera-a à luz da vela no terraço, animada pelo pipio das gaivotas, para que o eco da paixão atravessasse o Atlântico, se a saudade as fizesse chorar. A sobremesa tomaram-na diante da televisão para assistirem ao telejornal com o padrinho. A inocentinha, porém, retirando-se mais cedo para o quarto dela, fê-los largar o ecrã, as notícias e ir embalar-lhe a felicidade até que as pálpebras, inebriadas por tanto amor, se colaram e refugiaram na quimera. Beijando-a, Cris deixou escapar uma lágrima e, fitando o pai coruja, balbuciou serena:
― Aconteça o que acontecer, a Cély será sempre a tua razão de viver. Nem que seja só por ela, vive, meu amor, vive e, vivendo assim, nela viverei eternamente contigo ― implorou lacrimosa.
O pai emudeceu e, engolindo em seco, beijou a filha na testa, retirando-se amuado para o seu quarto.

Continua em: A Força do destino - Capítulo VII




LMP, LUXEMBURGO - FEVEREIRO DE 1997

LUD
MacMartinson

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