domingo, 12 de outubro de 2008

Vidas Drogadas

Olá, como não vejo rastos da vossa passagem por este " mundo ", nem sei até que ponto vale a pena eu continuar a escrever aqui.


Desde sempre tive a certeza de ser " diferente " dos demais meninos e jovens meus conterrâneos. A minha " reminiscência " remonta aos quase 3 anos de idade. O que se passou antes ficará para sempre nas brumas da memória.

Foi com um sinal de irreverência que luz se fez sobre o espelho da minha existência. A cena passa-se no primeiro andar da taverna que os meus pais tinham, no Outono - deduzo, porque o meu irmão Jorge, que nascera em Julho, estava a ser batuchado com água morna pela minha tia Adélia, que, sorrindo, me rogou: " ó filho, vai buscar a toalha para enxugar o menino! " E eu, que gostava tava tanto dela, saltitando de contente, retorqui irreverente: " Olhe, vá lá a senhora! " Pronto, nasci espírito de contradição! Ainda me lembro: eu estava de calções cinzento segurados por uns suspensórios, vestia uma camiseta de manga curta, branca como as meias, e calçava uns sapatos, que brilhavam de eu tanto os bafejar e lustrar!

Depois deste episódio, há um tunel negro semeado de cenas sem importância,- como lançar aos moços da minha idade alguns rebuçados e a descoberta da anatomia feminina, - que termina com o brilho orgulhoso do olhar da minha mãe, quando me foi matricular na escola nos primeiros dias do mês de Outubro de 1961. No dia do meu nono aniversário li o primeiro jornal e descobri com tristeza o assassinato de um dos ídolos da juventude lusitana da época: o presidente John Fitzgerald Kennedy, o amigo de Portugal!
E é melhor ficar por aqui, senão começo a escrever as minhas memórias.


Hoje, quero deixar-vos aqui parte do primeiro capítulo de um romance que comecei a escrever e tive que largar para não levar a minha curiosidade para a " prisão ".
Aqui se desenrola o enredo de " VIDAS DROGADAS " - inicialmente cruzadas, porque, sem saber, eu me cruzei e convivi com as personagens deste romance, nestas gélidas paragens do Grão Ducado do Luxemburgo, o pigmeu se tornou um dos gigantes da construção europeia, aonde cheguei em 10 de Janeiro de 1976.


Boa leitura e
um abraço !

Luís Macedo





Grão-ducado do Luxemburgo,
Larochette,
sábado, 26 de Setembro de 1998



Primeiro
Capítulo




Neste primeiro fim-de-semana do Outono, Larochette, — Fiels — a capital lusitana do Grão-ducado, madrugava fria e triste. Até parece que a cerimónia fúnebre da véspera, ― em que os portugueses das redondezas, num gesto do mais profundo pesar, haviam prestado uma sentida homenagem a um jovem compatriota, falecido num trágico acidente de viação, ― ainda pairava no ar para lhes lembrar a fragilidade da vida. O Miguel, o infeliz transmontano de Fiolhoso, fascinado pela ilusória miragem da emigração, quisera, como no sonho, usufruir livremente dos privilégio dos ricos e conhecer o Paraíso na Terra. E, engajando-se ingenuamente numa irracional e desenfreada corrida contra o tempo, que a premonição lhe dizia não ser longo, procurou alucinada e desesperadamente a felicidade, perdida na infância, quando, marcado pelo divórcio dos pais, se viu ao Deus dará e para aqui veio tentar corajosamente a sua sorte. Dilacerado pelos golpes do destino, o seu coração deixou intoxicar-se pela estupefaciente e mirífica lengalenga dos narcotraficantes, acabando por sucumbir aos etéreos assédios da maldita cocaína. Entorpecida, a sua alma quis sublimar-se e, desprendendo-se da realidade, alcançar o Paraíso, mas, enredando-se, na alucinante virtualidade, caiu irremediavelmente no Inferno da mirabolante toxicodependência, donde a morte, condoída por tanta ingenuidade, o arrancou brutalmente, na Primavera da vida.

Enfunada pela neblina matinal, esta melancólica monotonia fora divinizada pelas luzes que iluminavam as arcadas laterais e o frontispício da Igreja e se espelhavam nos passeios lavados pela enxurrada da véspera, enquanto que, inamovivelmente petrificado lá no alto do seu rochedo milenar, o Castelo medieval, ex-libris da cidade, vigiava. O silêncio fora quebrado pelo ensurdecedor camartelo dos pedreiros portugueses que calcetavam a secular, mas rejuvenescida, Place Bleiche, contígua ao Hotel onde, outrora, o genial Vítor Hugo costumava pernoitar quando, fascinado por tão inóspitas e misteriosas paragens, plantadas no coração da Europa belicosa, que era a do tempo dele, aqui fazia uma escapada amorosa para melhor perscrutar a inefável candura da musa e se deleitar com as meretrizes locais, que o seu génio, empiricamente grato, sublimaria e imortalizaria na bela Esmeralda de Notre Dame.


Larochette, que começara por ser centro de tratamento de curtumes, antes de se tornar o famoso e rico pólo industrial de pequenas e médias empresas de lanifícios até ao fim dos anos sessenta, — e cujas fábricas, das quais ainda restam vestígios na subida de An der Scheerbach, vestiram os melhores exércitos do mundo, — saiu da letargia decadente em que jazia e, renascendo, conheceu uma 2ª vida com a chegada providencial dos primeiros lusitanos, que, no fim dos anos sessenta, aqui elegeram domicílio. Com efeito, depois de suportarem, estoicamente e invernos a fio, a aconchegante frieza das casas mais degradadas do burgo e enriquecerem os proprietários indígenas que, aproveitando-se da necessidade premente dos emigrantes, aqui permaneciam para melhor explorar a miséria humana, os portugueses decidiram, face à exorbitante especulação das rendas e, sobretudo, aos sucessivos adiamentos do tão ambicionado regresso à terra natal, comprar os barrentos e mofosos barracos onde moravam aos magotes, fazendo deles verdadeiras obras-primas.
É que, depois de limpar e oxigenar pacientemente o coração das ancestrais moradias, os lusitanos lavaram-lhes orgulhosamente o rosto, fazendo morrer de inveja quem, patenteando presunçosamente as sequelas de um passado recente e da ariana estirpe se julgando o mais digno descendente, daquele meio degradante quisera evadir-se e as vendera, muitas vezes ao desbarato, para da lusa raça, se afastando como da peste, se ver livre, esquecendo que, se novo estatuto social possuíam a ela o deviam. De facto, como num atribulado choque tectónico, em que as placas transcontinentais, tocando-se, umas às outras elevando se vão, assim também a saloia ralé indígena das tarefas degradantes se livrou, cedendo-as aos estrangeiros, que, de mãos vazias chegando, a elas generosamente se agarraram, construindo o Paraíso deles sobre as ruínas do Inferno aborígene.
Enriquecidos, muitos autóctones ― Fielsers ― puderam, então, instalar-se pomposamente nos arrabaldes chiques da Capital, para ficarem mais perto dos escritórios bancários, onde passam os dias a contar e a guardar, no mais perfeito sigilo, as fortunas que muitos ditadores e traficantes do terceiro mundo e a maior parte dos mafiosos do primeiro lá vão depositar impunemente.
Agora, que o engenho, a arte e, sobretudo, o braço dos lusitanos a restaurou, Fiels orgulha-se de presentear os forasteiros, que a visitam, com lindíssimos passeios. Amanhados no mais puro granito transmontano, eles ficarão aqui para que as gerações vindouras, quando os pisarem, sintam deles emanar aquele cheirinho agreste das nossas serranias e nos seus olhos, talvez já aburguesados, brotem as lágrimas da Saudade e do amor a Portugal, que aos pais deles nem sempre soube dar guarida e muitas vezes desprezou, mas a quem os seus nobres corações enjeitados perdoaram, amaram e trouxeram orgulhosamente cravado nas suas almas até ao fim da vida.
Na certeza, porém, que centenas de anos passarão e milhares de vezes se pisarão até que o cordão umbilical, que à Pátria-Mãe nos une, se rompa, para que, então, estas pedras, que hoje, aqui se enterram, chorem e reguem a memória dos descendentes deste povo humilde e trabalhador, a quem nada nem ninguém jamais conseguirá denegrir a alma altruísta ou, tampouco, apagar a histórica passagem por tão gélida paragem.


Envoltos pela bruma matinal, os pedreiros largaram a carrinha, onde trocaram de fatiota, encararam a geada, e, soltando alguns arrepios, deitaram mãos à obra.
― Ó Manel, empresta-me a maçaneta! — gritou Zé Grilo, esfregando as mãos e batendo o queixo de frio.
― O quê? Fala mais alto, mongo! — berrou Manuel Balsa, segurando o camartelo que lhe fazia estremecer as encorpadas raízes transmontanas.
― Onde puseste a maçaneta, que não a enxergo? ― questionou o alentejano.
― O quê?!
― Chiça! O gajo é surdo! Onde tens a moca, porra? — insistiu aborrecido.
― E onde é que o compadre quer que eu traga a moca? Entre as pernas! — escarneceu malicioso, parando o camartelo e rindo de escárnio.
― Olha, vai-te lixar, dragão dum corno! ― desabafou o benfiquista.
― Bom, a moca só ta empresto se me pagares uma cachaça para matar o bicho.
― Cachaça?! Bebe água, tripeiro!
― Auga?! Bebe-a tu, lampião! ― arremedou fanhoso.
― Olha vai..., vai tocar um ceguinho ou dar uma volta ao Saldanha!
― Ao Saldanha?! — espantou-se o da Campeã.
― Sim ao Saldanha! A Lisboa! Está-se mesmo a ver que nunca saístes da santa terrinha, transmontano de...
― Psiu! Caluda, cabrão duma figa! ― interferiu autoritário o da Campeã, cuspindo para o chão.
― Deixa lá, Grilo! Então tu não vês que lá pa xima inda num paxou Cristo, poixe não? — interferiu o comparsa alfacinha, trocando o ésse pelo xis.
― Olha, vai apanhar no cú, mouro desnaturado!
― Ei, ei, mais respeitinho!
― Olha quem fala! És bem...
― Ó carago, olha para acolá e arregala-me bem esses olhos de mochos! Como é que eu te posso pagar uma cachaça, se o compadre ainda está com os testos na cama! — ironizou Zé Grilo, apontando para o Café de la Place, donde só saíam sinais de sono e preguiça.
— Pois, o francês ficou na batota até às tantas e...
— Lá por isso ide ao Zé, que a Ana já anda a pé! Já agora, trazei-me lá uma birra para brindarmos ao Pentacampeão! — sugeriu Francisco Lérias, benfiquista de gema, adoçando os lábios aos tripeiros.
— Na orelha ou nos tomates?! Não querias mais nada, lampião apagado! — zombou António Preto, pior que estragado.
— A ti, ainda te parto os cornos qualquer dia! — ameaçou Chico Lérias.
― Ó carago, nem é tarde nem é cedo! Anda, salta para o terreiro, se os tens no sítio, alentejano dum cabrão! ― desafiou o cigano.
― Ei! Ei! Alto aí! Pára, que o Lérias está a brincar, Tonho! — acalmou Manuel Balsa, barrando o caminho ao correligionário portista.
― Brincar? Que brinque com os filhos ou com a mulher dele que é boazona!
― Vós não tendes vergonha? Ei, se armais zaragata, ides ambos para o olho da rua! Falai de bola, de mulheres, ou do que quiserdes, mas não se batam, porra! — sugeriu o contramestre, zangado, irrompendo da carrinha onde se atardara a ouvir a Bola Branca.
― E o chefe acha que com aqueles dois fanáticos tripeiros alguém se entende sobre alguma coisa? Se falamos de mulheres, ninguém é maior garanhão que eles, se viramos para o futebol, ninguém os cala. Senão veja: este ano, a procissão só ainda vai no adro e eles já andam por aí a cagar que, com o Bojardas, o Porto vai ser o primeiro Pentacampeão de Portugal!
― E ainda duvidas, Lérias? — perguntou Juventino da Vieira, despachando discretamente os tripeiros.
― Não me diga que o chefe já se passou...
― Passar não passei, nem passarei, mas reconheço que, com o Pinto da Costa e o Super Mário, ninguém pára os dragões! Dói-me dizer-to, mas o Benfica está podre, Lérias! Primeiro, venderam a alma ao diabo, agora querem alienar o clube aos Ingleses. Abre os olhos homem! O nosso Glorioso deixou de ser o ninho da Águia para se tornar a caverna da máfia e dos quarenta ladrões.
― Ei, também não é bem assim! Puxa! Agora o chefe exagerou um pouquinho!
― Infelizmente não, Chico: o Benfica está mesmo entregue à bicharada!
― Talvez, mas, sabe, eu tenho cá uma fezada que, agora, com o Vale Tudo, o pintinho vai piar fininho e acabará por dar à costa de papo pró ar. Quanto ao bojardas..., aquilo é uma bosta de ouro!
― Não faças como a avestruz, Lérias! Abre os olhos, homem! A águia é que começou a piar piano, como diz o italiano, e a voar rasteiro demais, quando o Pantera Negra deixou de aguentar aquelas seringas de cavalo e arrumou as botas! O Eusébio era o abono de família e a alma do Benfica! Depois dele, ainda surgiram umas imitaçõezinhas reles...
― Realmente aquilo é que era um jogador! O chefe ainda se recorda quando ele enfiou aquele petardo ao Albertosi da Juventus e deixou os mafiosi calados como ratos? O estádio quase veio abaixo, carago!
― Claro que lembro! Ei, aqui entre nós, os adeptos italianos chamam-se tifosi. Os mafiosi...
― E há quem seja mais mafiosi que os tifosi? Mas... lembra-se ou não?
― Então não me havia de lembrar daquela bazuca de mais de quarenta metros? Ó Lérias, o canhão do Eusébio era mais certeiro que a fecha do Robin dos Bosques, homem de Deus! Depois, quem não se recorda daquele monumento só pode ser um atrasado mental ou um provinciano.
― Aquilo sim, é que eram golos! Eu recordo-me que, naquela noite, o Alves dos Santos disse que foi um golo de...
― De se lhe tirar o chapéu?
― Não! Não foi isso!
― Espectacular!
― Não! Ele repetiu-o várias vezes, mas já não me lembro!
― Então puxa pela cabeça... Ei, pá, parece que comes queijo a mais!
― De…, de… — gaguejou obtuso.
— Ah! Já vi! De... an-to-lo-gia! Aquilo foi um golo de antologia!
— Nem mais nem menos, chefe! Aquele foi um golo de anto…, anto…, pronto, de encher o olho e o papo para toda a vida! Valia mais um golaço do nosso Pantera Negra que cinquenta desse cabeçudo do bojardas que…
— Que só não é nosso porque, além de marreta, o Gaspar Ramos era forreta! ― interferiu Zé da Estaca, empunhando a maçaneta do Manel.
― E ainda mais fanático que os dois pacóvios que ali vêm — reconheceu Chico Lérias, mirando os tripeiros de soslaio.
― Pst! Ei, agora não se fala mais de futebol, senão a praça ainda fica por calcetar! ― sussurrou Juventino, autoritário.
― Está bem, chefe! ― acataram cabisbaixos.
Os portistas, aquecidos por dois copitos de aguardente e dois biscoitos roubados ao catraio da Ana, passaram sobranceiramente por eles, mas não lhes passaram cartucho. Agarrando-se ao camartelo, Manuel Balsa empiscou ao comparsa e, mirando sobranceiramente os benfiquistas, começou a sonhar com o ambicionado Penta, título ímpar e inédito, que, a acontecer, faria história nos anais do futebol português e consagraria definitivamente, e com uma coroa de ouro, a magnífica gestão de Jorge Nuno Pinto da Costa, o homem que soube dar à provinciana pronúncia do norte um timbre universal. E, silenciados pelo ruído ensurdecedor do camartelo, os pedreiros deitaram mãos à obra.

Envoltos pela bruma matinal, os pedreiros largaram a carrinha, onde trocaram de fatiota, encararam a geada, e, soltando alguns arrepios, deitaram mãos à obra.
― Ó Manel, empresta-me a maçaneta! — gritou Zé Grilo, esfregando as mãos e batendo o queixo de frio.
― O quê? Fala mais alto, mongo! — berrou Manuel Balsa, segurando o camartelo que lhe fazia estremecer as encorpadas raízes transmontanas.
― Onde puseste a maçaneta, que não a enxergo? ― questionou o alentejano.
― O quê?!
― Chiça! O gajo é surdo! Onde tens a moca, porra? — insistiu aborrecido.
― E onde é que o compadre quer que eu traga a moca? Entre as pernas! — escarneceu malicioso, parando o camartelo e rindo de escárnio.
― Olha, vai-te lixar, dragão dum corno! ― desabafou o benfiquista.
― Bom, a moca só ta empresto se me pagares uma cachaça para matar o bicho.
― Cachaça?! Bebe água, tripeiro!
― Auga?! Bebe-a tu, lampião! ― arremedou fanhoso.
― Olha vai..., vai tocar um ceguinho ou dar uma volta ao Saldanha!
― Ao Saldanha?! — espantou-se o da Campeã.
― Sim ao Saldanha! A Lisboa! Está-se mesmo a ver que nunca saístes da santa terrinha, transmontano de...
― Psiu! Caluda, cabrão duma figa! ― interferiu autoritário o da Campeã, cuspindo para o chão.
― Deixa lá, Grilo! Então tu não vês que lá pa xima inda num paxou Cristo, poixe não? — interferiu o comparsa alfacinha, trocando o ésse pelo xis.
― Olha, vai apanhar no cú, mouro desnaturado!
― Ei, ei, mais respeitinho!
― Olha quem fala! És bem...
― Ó carago, olha para acolá e arregala-me bem esses olhos de mochos! Como é que eu te posso pagar uma cachaça, se o compadre ainda está com os testos na cama! — ironizou Zé Grilo, apontando para o Café de la Place, donde só saíam sinais de sono e preguiça.
— Pois, o francês ficou na batota até às tantas e...
— Lá por isso ide ao Zé, que a Ana já anda a pé! Já agora, trazei-me lá uma birra para brindarmos ao Pentacampeão! — sugeriu Francisco Lérias, benfiquista de gema, adoçando os lábios aos tripeiros.
— Na orelha ou nos tomates?! Não querias mais nada, lampião apagado! — zombou António Preto, pior que estragado.
— A ti, ainda te parto os cornos qualquer dia! — ameaçou Chico Lérias.
― Ó carago, nem é tarde nem é cedo! Anda, salta para o terreiro, se os tens no sítio, alentejano dum cabrão! ― desafiou o cigano.
― Ei! Ei! Alto aí! Pára, que o Lérias está a brincar, Tonho! — acalmou Manuel Balsa, barrando o caminho ao correligionário portista.
― Brincar? Que brinque com os filhos ou com a mulher dele que é boazona!
― Vós não tendes vergonha? Ei, se armais zaragata, ides ambos para o olho da rua! Falai de bola, de mulheres, ou do que quiserdes, mas não se batam, porra! — sugeriu o contramestre, zangado, irrompendo da carrinha onde se atardara a ouvir a Bola Branca.
― E o chefe acha que com aqueles dois fanáticos tripeiros alguém se entende sobre alguma coisa? Se falamos de mulheres, ninguém é maior garanhão que eles, se viramos para o futebol, ninguém os cala. Senão veja: este ano, a procissão só ainda vai no adro e eles já andam por aí a cagar que, com o Bojardas, o Porto vai ser o primeiro Pentacampeão de Portugal!
― E ainda duvidas, Lérias? — perguntou Juventino da Vieira, despachando discretamente os tripeiros.
― Não me diga que o chefe já se passou...
― Passar não passei, nem passarei, mas reconheço que, com o Pinto da Costa e o Super Mário, ninguém pára os dragões! Dói-me dizer-to, mas o Benfica está podre, Lérias! Primeiro, venderam a alma ao diabo, agora querem alienar o clube aos Ingleses. Abre os olhos homem! O nosso Glorioso deixou de ser o ninho da Águia para se tornar a caverna da máfia e dos quarenta ladrões.
― Ei, também não é bem assim! Puxa! Agora o chefe exagerou um pouquinho!
― Infelizmente não, Chico: o Benfica está mesmo entregue à bicharada!
― Talvez, mas, sabe, eu tenho cá uma fezada que, agora, com o Vale Tudo, o pintinho vai piar fininho e acabará por dar à costa de papo pró ar. Quanto ao bojardas..., aquilo é uma bosta de ouro!
― Não faças como a avestruz, Lérias! Abre os olhos, homem! A águia é que começou a piar piano, como diz o italiano, e a voar rasteiro demais, quando o Pantera Negra deixou de aguentar aquelas seringas de cavalo e arrumou as botas! O Eusébio era o abono de família e a alma do Benfica! Depois dele, ainda surgiram umas imitaçõezinhas reles...
― Realmente aquilo é que era um jogador! O chefe ainda se recorda quando ele enfiou aquele petardo ao Albertosi da Juventus e deixou os mafiosi calados como ratos? O estádio quase veio abaixo, carago!
― Claro que lembro! Ei, aqui entre nós, os adeptos italianos chamam-se tifosi. Os mafiosi...
― E há quem seja mais mafiosi que os tifosi? Mas... lembra-se ou não?
― Então não me havia de lembrar daquela bazuca de mais de quarenta metros? Ó Lérias, o canhão do Eusébio era mais certeiro que a fecha do Robin dos Bosques, homem de Deus! Depois, quem não se recorda daquele monumento só pode ser um atrasado mental ou um provinciano.
― Aquilo sim, é que eram golos! Eu recordo-me que, naquela noite, o Alves dos Santos disse que foi um golo de...
― De se lhe tirar o chapéu?
― Não! Não foi isso!
― Espectacular!
― Não! Ele repetiu-o várias vezes, mas já não me lembro!
― Então puxa pela cabeça... Ei, pá, parece que comes queijo a mais!
― De…, de… — gaguejou obtuso.
— Ah! Já vi! De... an-to-lo-gia! Aquilo foi um golo de antologia!
— Nem mais nem menos, chefe! Aquele foi um golo de anto…, anto…, pronto, de encher o olho e o papo para toda a vida! Valia mais um golaço do nosso Pantera Negra que cinquenta desse cabeçudo do bojardas que…
— Que só não é nosso porque, além de marreta, o Gaspar Ramos era forreta! ― interferiu Zé da Estaca, empunhando a maçaneta do Manel.
― E ainda mais fanático que os dois pacóvios que ali vêm — reconheceu Chico Lérias, mirando os tripeiros de soslaio.
― Pst! Ei, agora não se fala mais de futebol, senão a praça ainda fica por calcetar! ― sussurrou Juventino, autoritário.
― Está bem, chefe! ― acataram cabisbaixos.
Os portistas, aquecidos por dois copitos de aguardente e dois biscoitos roubados ao catraio da Ana, passaram sobranceiramente por eles, mas não lhes passaram cartucho. Agarrando-se ao camartelo, Manuel Balsa empiscou ao comparsa e, mirando sobranceiramente os benfiquistas, começou a sonhar com o ambicionado Penta, título ímpar e inédito, que, a acontecer, faria história nos anais do futebol português e consagraria definitivamente, e com uma coroa de ouro, a magnífica gestão de Jorge Nuno Pinto da Costa, o homem que soube dar à provinciana pronúncia do norte um timbre universal. E, silenciados pelo ruído ensurdecedor do camartelo, os pedreiros deitaram mãos à obra.

Ao meio-dia, os alfacinhas, que haviam esquecido a marmita com os restos da ceia da véspera nas casas da Carrière de Ernzen, pedreira onde habitavam há mais de vinte anos, decidiram ir almoçar a um snack-bar, onde, a pretexto de matar a fome, aproveitariam para cobiçar e lançar uns piropos às compatriotas, que ali trabalhavam como serventes. Por duas delas, uma estudante e outra divorciada, boas como o milho, dariam a jorna e uma generosa gorjeta para subir ao sétimo céu no banco traseiro dos seus Mercedes 190. Contudo, a mademoiselle, que era mulher casada, parecia demasiado séria para ousarem concretizar tal desagravo. É que, além de lábia sábia e pintada de sobra e coragem suficiente para lhes aplicar dois pares de estalos nas ventas a ambos ou os denunciar por assédio sexual ao Comissário da Polícia, a presunçosa não a fidalga não gastava ao desbarato o perfume e o verniz, nem perdia o tempo a mirar pacóvios pelintras como eles.
Depois de encomendar um pacote de batatas fritas com uma Mettwurst — a célebre chouriça luxemburguesa — , que regariam com uma pinga de verdinho do cantil escondido debaixo do capote, se o patrão se pirasse dali ou deixasse de os vigiar com aqueles olhos de cuco, os benfiquistas, homens casados e honrados, alaparam-se à volta da mesa de plástico e rezaram para que fosse a estudante a servi-los ou pelo menos lhes sorrisse lá da redoma de vidro onde labutava cabisbaixa desde as 10 da manhã.
Porém, nem um olhar de desprezo ou compaixão se desdenhou a caprichosa lançar-lhes, assanhando ainda mais a volúpia e a obscenidade que morava nas suas estribeiras adúlteras.
— A filha da mãe tem a mania que é boa! — barafustou o Lérias.
— Olha quem nos saiu na rifa! Aquela não é a divorciada que fugiu com o pai dos trigémeos?
— Nem mais nem menos, chefe!
— Eh! Mira-a bem de alto a baixo, Chico! Repara como ela tem os quadris apertados e o rosto fino! A comer, a gaja deve ser uma brasa... Ei! Reparando bem, esta não fica nada a dever àqueloutra pamonha que tem a mania que é a Cleópatra ou a rainha de Sabá de Ermsdorf!
— Deixe lá! A lambisgóia deve saber melhor que chocolate, chefe!
— Psch! Caluda! A meretriz pode ouvir!
— Meretriz?! Ah! Eu não sabia que o chefe também conhecia palavras de sete e quinhentos! — estranhou Chico, mirando descaradamente a fruta proibida.
— Sete e quinhentos?! Só?! Julgava-te mais generoso e inteligente, Lérias!
— Quem dá o que tem, a mais não é obrigado, grande Manitu!
— Ei! Olha lá pra mim e diz-me: achas-me com cara de índio ou de judeu? — questionou o contramestre, adoptando um perfil donde sobressaía o nariz adunco.
Lérias ainda quis corrigir e apelidá-lo de César ou Faraó, mas o chefe, chispando a concupiscência pelos olhos, bateu-lhe no braço e fê-lo calar o bico, para melhor admirar as coxas da servente. Mal a volúvel pisou o terreiro, o tesão que morava nos seus olhos afoitos esmoreceu-se, fazendo-os corar como pimentões.
— Olá! Foi isto que os senhores pediram? — perguntou simpática.
— Sim, duas “ metefôstes” com batatas fritas e maionese, madame! — confirmou Chico Lérias atemorizado com os peitos que ela, ao pousar o tabuleiro, lhe fez roçar no bigodão, que mais parecia uma vassoura de piaçaba.
— Então… bom apetite!
— Merci, mademoiselle! — responderam ambos, metendo distraidamente a mão encardida de cimento no prato e mergulhando a batata frita na maionese!
Sentindo-se desejada, a volúvel sorriu e, empespinando-se toda, correu a buscar a refeição de um senhor engravatado, lançando à cunhada toda a raiva e a inveja que trazia enciumada na alma:
— Até parece que enganas alguém com essa cara de santa! O palerma do meu irmão pode escorregar na esparrela as vezes que quiser, mas eu, cá por mim…
— Por favor, mete-te na tua vida e deixa-me em paz, Carminda! Que mal terei eu feito a Deus para que o demónio não pare de me apoquentar?
— Ouve lá, ó misse simpatia de 2ª classe, pensas que o facto de teres passado anos a passear os livros pelos cafés de S. João da Madeira fez de ti uma doutora?
— Cala-te, se não queres que chame o patrão! Por favor, não me aborreças, nem infernizes ainda mais a minha vida, que para inferno já basta o que o Inácio que me leva todos os dias para casa!
— Ah! E bem haja ele! Contigo só se perdem as que caem no chão, sua...
— Menina! É para hoje ou para amanhã? — inquiriu o cliente, irritado com aquele trá-lá-lá e consultando o nervosamente o relógio.
— É para já, mossiú! — respondeu corada, pegando no tabuleiro e correndo a depositá-lo à frente do estrangeiro.
E naquele dia, Vera não falou nem tampouco olhou mais para a cunhada! Uma forte dor de cabeça fê-la consultar o relógio mural e, vendo os ponteiros acavalados no um, refugiou-se na cozinha a lavar pratos e talheres. Pelas quatorze horas, despachados os últimos clientes, soltou um desabafo maior, deixando fugir da retina todos os raios de raiva e rancor que lhe corriam pelas veias.


Inadvertidamente, Vera repicou no abismo e recordou morbidamente a sua triste vida de casada, depois da maldita hora em que jurara ser fiel ao traste que lhe prometera um mar de rosas, mas de quem só recebera, excepto o amor de criança que era a Florbela, um ror de espinhos. E das brumas da sua memória recalcada ressurgiram os seis anos de pesadelo que acabava de viver. Um autêntico Inferno que, se algum dia acreditou que pudesse existir à face da terra para muita gente, ela nunca admitiu poder vir a cair nele assim tão nova.

“ Vera nascera em 31 de Julho de 1973, nove meses antes da Liberdade, mas ficara ao cuidado da avó, como um vulgar empecilho, quando os pais, arrastados pela ganância do dinheiro que a droga do consumismo exigia à humanidade neste último quartel do segundo milénio, emigraram para a Venezuela, engrossando as fileiras da diáspora lusitana. É que, criança de braços franzinos, a menina só estorvaria, daria despesas e lhes faria perder tempo e dinheiro, e se havia alguma coisa que eles não poderiam perder era certamente isso! E para não esbanjar o precioso tempo e, obviamente, o adorado dinheiro, o Hélio e a Márcia só fizeram o segundo filho, para não passarem as noites em casa como dois mochos, sós e abandonados, depois de retornar com os bolsos bem recheados de bolívares e terem organizado a vida deles. O benjamim servir-lhes-ia de amparo nos dias de trovoada e solidão, que sustento para a velhice já possuíam, graças a Deus.
Hermeticamente trancada no seu mundo, Vera deixou cair das retinas uma lágrima enraivecida: no seu espírito tenebroso fez-se luz e apareceu aquela vergonha imensa provocada pela ausência dos pais na hora em que comungou pela primeira vez. Como fora triste a sua primeira comunhão, Santo Deus! Até parece que naquela hora sagrada uma maldição fora selada com a Santidade, porque a ferida aberta no seu coração nesse dia nunca mais sarou de verdade e deixou de ensanguentar os seus passos!
E todas as suas desgraças céleres se levantaram da masmorra do artificial esquecimento, onde haviam sido ingenuamente amarradas por sucessivas ilusões, e vieram mergulhar nas lágrimas dos seus olhos novas decepções e novos abrolhos, desde que a droga maldita passou a dormir com o marido dela na cama, fazendo cair em desdita a sibarita que ela sempre quisera ser para o dominar a seu bel-prazer! Não, agora ela sabia que o Inácio, por mais doses de cocaína que vendesse sem ser apanhado, nunca chegaria a ter grana suficiente para lhe satisfazer os caprichos e muito menos fazer dela uma Princesa. ”





Lud MacMartinson
LMP - Luxemburgo

Nenhum comentário: