Lady

domingo, 16 de março de 2008

Caprichos do Amor: Domingo, 5 de Agosto ( 20º DIA )


Domingo,5 de Agosto 
( 20º DIA )





Quando o sol do meio-dia se espelhou nos caracóis do seu homem, Cris, que pelas onze começou a velar por ele, sorriu-lhe meiga e serena. Penteada e perfumada, ela usava um vestido azul marinho sem mangas para que ele se apercebesse da metamorfose que a magia daquela noite de amor havia operado na sua vida. Agora, naquele corpo de menina, já batia um coração de mulher. E ela queria que o dono da sua virgindade visse e soubesse que mais ninguém poderia jamais terminar o que ele começara, levasse o tempo que levasse.

Enquanto o contemplava enamorada, ela jurou-lhe incondicionalmente fidelidade e amor até à morte. Mal o seu adorável carrasco abriu as pálpebras cansadas, Cris esboçou-lhe um sorriso majestoso e ofereceu-lhe os lábios vermelhos. Inalando aquele perfume exótico, o dorminhoco arregalou os olhos e, surpreendido, viu diante de si a mirífica vénus dos seus sonhos em carne e osso mais bela e sedutora do que nunca. E toda a felicidade do mundo caiu-lhe súbita e inexplicavelmente no coração. Como era lindo o amor, colhido na deiscência do ardor daquela paixão imaculada!
Foi pois ali, perdidos nos jardins da felicidade, que eles decidiram selar as suas promessas, simulando um enlace matrimonial, abençoado por um Deus que só a cegueira dos seus corações sabia descortinar naqueles olhares puros.
Depois de tomar um vivificante e romântico pequeno almoço no sótão, Rui Patrício foi fazer a sua toalete ao magnífico quarto de banho do solar. Cristina, servindo-lhe de cicerone, mostrou-lhe, então, os quatro cantos da casa, onde os seus bisavós, amantes irreverentes que o destino quisera separar por cinco longos Invernos, haviam vivido, finalmente casados, momentos de grande paixão. Oxalá que a história não se repetisse com eles, implorava no íntimo a neta.

Quisera o destino que fosse entre os muros rosados que a viram nascer há quase dezassete Primaveras, que eles incendiassem novamente os seus corpos endemoninhados, beijando-se loucamente. E foi quando a febre do desejo mais os inebriava que o telefone ousou tocar descaradamente.
Recompondo-se à pressa, Cris acorreu ligeira, mas a criada, que limpava o pó do salão, antecipou-se-lhe, saudando primeiro a patroa, mas mal teve tempo de encetar o diálogo com ela. Célere, a donzela segurou-lhe o auscultador e, despachando-a com um aceno discreto, sossegou a mãe que lhe garantiu estar de volta antes do pôr do sol.
Radiante, Cristina correu a chamar o namorado para almoçar. No salão, eles optaram por se distanciarem, assentado-se nas extremidades da mesa para tentar despistar a criada desconfiada que, recordando-se daquele rapaz bem-posto, a quem por várias vezes deitara o olho, tentando provocar na menina uma pilha de ciúmes, lhe fazia os olhos doces, quando era chamada para lhe servir qualquer coisa. Temendo que o advogado e a professora antecipassem o regresso, Pat preferiu ignorar o apelo tentador da piscina e retornar a Santo Amaro. Apesar das insistências de Cris, que o queria acompanhar até à estação do Tamariz, ele preferiu partir sozinho, despendido-se no portão do solar, lá onde, desde o primeiro olhar, tivera o pressentimento que ela seria a mulher da sua vida. E como ainda se lembrava daquele inefável sentimento, que os franceses chamam coup de foudre! Agora, passados quinze dias apenas, a caprichosa filha do Dr. Edgar não sabia como lhe confessar a alegria que trazia na alma e tanto a fazia exultar.
― Estás a pensar no mesmo que eu, Cris? ― perguntou-lhe o moço, tentando arrebatá-la à mirífica visão, onde se perdia o seu olhar nefelibata.
― Âh? Desculpa, Pat, eu...
― Não faz mal. Ainda te recordas como reagiste quando nos vimos?
― Tem graça, era precisamente nisso que estava a pensar! ― confessou surpresa, sorrindo e beijando-lhe os lábios.
― Sabes que, quando te vi pela primeira vez, tive uma sensação estranha?
― Eu também, Pat. Era como se, numa vida anterior, no outro mundo, sei lá, tivesse tido uma aventura contigo e te tivesse perdido para te voltar a encontrar séculos depois. É, eu amei-te muito, mas...
― Houve qualquer coisa que não correu bem, não foi?
― É, mas o que eu sei é que te amei loucamente, te perdi não sei como e te voltei a encontrar aqui, diante deste portão, há quinze dias.
― Até parece um conto de fadas, minha princesa! ― exclamou maravilhado o rapaz, retendo-lhe a esperança daquele olhar esverdeado.
― Oh, isto é muito mais bonito que um conto de fadas, meu amor! - balbuciou felicíssima, aninhando-se-lhe no peito.
― Será que desta vez poderemos realizar todos os nossos sonhos, Cris?
― Porque não, Pat?
― Sei lá! Estes quinze dias foram tão maravilhosos que...
― Não te aflijas, Pat. Eu amo-te tanto! ― disse-lhe ela, tranquilizando-o.
― Oxalá que ninguém...
― Tchut! Por favor, não te aflijas, Pat! Vais ver que tudo vai correr bem.
― Deus te ouça, Cris, Deus te ouça ― murmurou baixinho.
― Vá, agora que sabes que eu sou só tua, não me atraiçoes, Pat. Por favor...
― Mas que ideia, Cris?!
― Olha, Pat, tudo o que se passou, passou. Pronto, eu perdoo-te, se não lhe resististe, mas agora... ― implorou séria, acariciando-o ternamente.
― Obrigado, meu amor! De hoje em diante, juro-te que só este peito divino saberá como bate o meu coração. Se não, que Deus me leve na hora em que te mentir ou te trair.
― E a mim também, Pat. Por ti morrerei, se preciso for, não esqueças.
― Não será preciso, Cris. Se Deus quis que vivêssemos, uma segunda vez, foi para cumprirmos o nosso desígnio na Terra ― acrescentou filosofal, encostando a cabeça no busto da sua amada.
― Diz, Pat, não ficaste chateado por não termos acabado...
― Por amor de Deus, Cris! Esta noite foi lindíssima. Assim, agora sei...
― Por favor, não te vás ainda. Espera um pouco, um pouquinho mais.
― Uma eternidade, se preciso for, meu amor! ― retorquiu feliz, dando-lhe o derradeiro beijo.
Abraçados sob os raios implacáveis do Sol, os seus corações não sabiam como dizer-se adeus. As suas línguas, mordendo-se desesperadamente como se fosse pela última, não ousavam parar aquele dulcíssimo movimento, temendo a amargura da inevitável partida, a tristeza do adeus. Ai que adeus tão triste, meu Deus! E uma lágrima perdida veio alojar-se-lhes no olhar, mal se despediram. Sorrindo corajosamente, Rui Patrício largou-lhe as mãos, acenou e desatou a correr pelo estradão para que ela não o visse chorar.
No fundo do pinhal, lá onde a vista já se nublava, ainda lhe lançou um derradeiro adeus sem resposta. Depois, felicíssimo, ele galgou os atalhos e, na correria louca até ao Tamariz, nem sentiu as pernas. A doce Cristina não lhe saiu da frente, guiando-lhe os passos da alma em delírio. Agora sabia realmente o que o povo queria dizer com quem corre por gosto, não cansa.

No Estoril, nem as meninas da praia conseguiram desviá-lo da sua virgem. Depois, no comboio, sorrindo enigmático, nem se apercebeu que uma das colegas da Tânia, que entrara em S. Pedro, reconhecendo-o, se assentara a seu lado perto da janela e o olhava descaradamente. Mas, para espanto da moça, durante muitas estações, distraído, ele não lhe ligou.
Finalmente, quando se preparava para descer em Santo Amaro, quebrado o feitiço, ele reconheceu aquele olhar persistente e balbuciou envergonhado:
― Olá!
― Olá, Rui! ― respondeu-lhe a garota, sorrindo-lhe amavelmente.
― Tenho a impressão que já nos vimos ― acrescentou ele, franzindo a testa.
― Na praia da Azambujinha, em S. Pedro, recordas-te?
― Com a Tânia, não é?
― Sim, eu também estava com elas.
― Desculpa, mas eu desço aqui. Adeus!
― Adeus, Rui! ― respondeu a rapariga, feliz por ele lhe ter falado, respondendo-lhe ao aceno fugitivo.
Sorrindo-lhe pela vidraça, ainda tentou cruzar novamente o olhar dele, mas, prisioneiro doutro rosto, ele nem se virara uma única vez, antes da automotora arrancar novamente.

Na vivenda, a senhora Noémia, que de manhã recebera um telefonema da patroa a perguntar se o menino dormira bem, aguardava-o muito preocupada, rogando a Deus que ele chegasse primeiro que os amos.
― Demorou tanto, Ruizinho! ― desabafou ela, beijando-o no rosto.
― Eles devem estar a chegar! ― advertiu ofegante.
― A sua madrinha telefonou a perguntar por si e eu disse-lhe que você estava a dormir e que tinha ficado a ler e a escrever até de madrugada.
― Obrigado, senhora Noémia. Olhe, não diga aos meus padrinhos que caí do terraço e, sobretudo, que não dormi cá em casa ― rogou-lhe aflito.
― Fique tranquilo, Ruizinho. A minha boca é sagrada.
― Olhe, vou dormir a sesta. O balanço do comboio deu-me cá uma soneira!
― Bem se vê que o menino tem os olhos cansados. Se quiser tomar um sumo de laranja, no frigorífico está uma garrafa bem fresca ― avisou a velhota.
― Também acho que é melhor matar a sede antes de adormecer. Por favor, deixem-me dormir até não querer mais ― implorou ele, sorrindo agradecido à cúmplice avozinha.
Depois de beber duas copadas de sumo, o adolescente trancou-se no quarto e, descalçando as sapatilhas, adormeceu em menos de cinco minutos.
Entretanto, a senhora Noémia, como os patrões não chegassem, decidiu esperá-los no terraço assentada no cadeirão de vime. O calor e o chiadouro do tráfego rodoviário fizeram-na piscar os olhos por várias vezes. Sonolenta, até dava a impressão que andara a caçar gambozinos durante a noite.
Finalmente, o Mercedes negro buzinou diante do portão, assustando-lhe o cochilo. Erguendo-se assarapantada, foi debruçar-se no banzo da varanda:
― Olá, a menina Cristina está aí, senhora Noémia? ― perguntou-lhe o amo.
― Não, senhor doutor, a menina Cristina não esteve cá hoje.
― E o Rui Patrício?
― O menino está a dormir a sesta ― respondeu-lhe a criada, protegendo os olhos do reflexo do sol poente.
― Obrigado, D. Noémia ― agradeceu o Dr. Edgar, acenando ao colega e arrancando a todo o gás.
O arquitecto sorriu e, retribuindo o aceno, imobilizou o carro diante da garagem. A esposa, ostentando uns óculos escuros, pegou no saco de mão e saiu, esboçando um sorriso forçado, onde se reflectia a lassidão da viagem e uma certa frustração.
― A minha senhora vem cansada ― disse a governanta, mirando-a bem.
― Uf, com estas estradas, as viagens matam, senhora Noémia!
― Lá isso é verdade, mas graças a Deus que foram e vieram sãos e salvos.
― Graças a Deus! ― respondeu a jornalista, entregando-lhe um embrulho.
― Então o senhor doutor gostou do passeio? ― perguntou-lhe acanhada.
― Sim, foi óptimo! ― exclamou o arquitecto, segurando na maleta da roupa.
― Félix, desculpa, mas antes de mais nada, vou tomar banho. Com este calor, o suor e o pó, até parece que saí agora da mina. Uf!
― Fique tranquila que eu tomarei o meu depois.
― A minha senhora quer que lhe arranje um refresco, quer?
― Eu preferia um copo de Coca Cola com whisky e muito gelo, senhora Noémia.
― Pode ir tranquila que eu não demoro.
― Já agora, faça o favor de preparar também um para mim.
― Está bem, senhor doutor ― acedeu a velhota, retirando-se apressada com o embrulho debaixo dos braços.
Entretanto, no primeiro andar, Dina ainda forçou a mãozeira do quarto do afilhado, ficando decepcionada por não lhe poder mostrar o bronzeado integral. E, sem perder tempo, foi à sua penteadeira procurar os cosméticos, trancando-se no banheiro. Mal abrira o chuveiro e já a governanta lhe gritava:
― Aqui tem o seu whisky, D. Dina.
― Obrigada, senhora Noémia. Por favor, deixe-o diante da porta.
― A minha senhora precisa de mais alguma coisa? ― perguntou a velhota.
― Não, obrigada! ― agradeceu a jornalista, ensaboando-se com o lux.
A governanta retirou-se e foi servir a mesma receita ao arquitecto à sala.
Acordado pelo barulho da madrinha, a cantarolar debaixo da água, o dorminhoco levantou-se e, esfregando os olhos, abriu as janelas para refrescar, deitando-se de costas, atento ao monólogo da jornalista, sem, contudo, se entusiasmar, como era seu hábito, porque agora tudo seria diferente. E, para não sucumbir à tentação, decidiu recolar o fio do sono e dormir até ao outro dia sem comer, a menos que, nalguma gaveta, da mesa-de-cabeceira, houvesse algo que se mordesse. Infelizmente, naquela noite, teve mesmo que jejuar.

continua em: Segunda, 6 de Agosto ( 21º DIA )
Caprichos do Amor
Lmp, luxemburgo - 1996
Lud MacMartinson

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