domingo, 16 de março de 2008

Caprichos do Amor: Terça, 14 de Agosto ( 29º DIA )


Terça, 14 de Agosto 
( 29º DIA )




Apanhada no turbilhão da felicidade, Dina obedeceu cegamente à voz do coração, hipnotizada por um rapaz de sonho, mas, aos poucos, no silêncio da sua consciência, ela foi sentindo e travando sozinha um combate contra os fantasmas do vexame popular, que não se fartariam de a repudiar e os sintomas de uma depressão eminente que apareceram ao terceiro dia.
Acordando terrivelmente melancólica e triste, apesar dos mimos do seu poeta, que se erguera para a acompanhar até à estação, Dina trazia a cabeça em pânico, mas preferiu ocultar-lhe o sofrimento que levava na alma.

Rui, porém, querendo dar-lhe um beijo de despedida, sentiu-a distante e, adivinhando o perigo, voltou a correr para casa e foi contar ao padrinho o estranho pressentimento que ela lhe suscitara.
Depois, pensativo e atormentado, decidiu refugiar-se no escritório e despejou no papel o que sentia, escrevendo, escrevendo sem pensar na rima.
E, pegando no telefone, discou e, ouvindo um alô morto, gritou:

Menina, não seja tolinha!
Não tente esconder,
nessa cabecinha,
o que a faz sofrer!
Menina, não seja teimosa!
Sozinha
não poder vencer!
Olhe que ser corajosa é tudo dizer!


E mudando de tom, como se entoasse o refrão, prosseguiu carinhoso:

Por favor, Dina, abre o teu coração ao vento!
Vá, diz o que trazes no pensamento!
Por favor, Amor, não ligues ao que o povo diz.
Olha que só é pecado ser-se infeliz!


― Mas eu sou muito feliz, querido! ― desabafou lacrimosa, ouvindo aquela melodiosa declaração de amor.
― Por favor, Dina, nunca te esqueças que eu te leio a alma, pois agora eu sei que nasci para te amar e, dê o mundo as voltas que quiser, diga o que disser, jamais deixarás de ser a minha mulher! ― disse-lhe ele numa voz serenamente adulta.
― Oh, se soubesses como te amo, Rui!
― Vá, então prova-mo e conta-me o que vai nessa cabecinha, sua tolinha!
― Agora não posso. Estes muros têm orelhas! ― cochichou cautelosa.
― Então fica para logo...
― Um beijão, meu amor!
― Só?! Então o artista não te merece mais?
― Pronto, um milhão com um chi-coração do tamanho do mundo!
― Ah, assim gostei! Vá, vem depressa, corre, voa, meu amor, que a ansiedade mata!..
― Eu sei muito bem, Rui. Adeus que eu estou a chegar, meu anjo! ― bradou aliviada, retribuindo os beijos estridentes.
Pousando o telefone, Dina foi ao lavabo lavar as olheiras vermelhas, tentando disfarçar a emoção como podia. Animada pelo tom carinhoso do seu destinado, sentiu a maior das dificuldades em se compenetrar de novo, deixando incompleto o artigo que tinha em mãos. Vendo-se assim tão vazia de inspiração, a jornalista puxou por duas crónicas suplentes, que o afilhado lhe inspirara nos primeiros dias de férias, e foi mostrá-las ao director, pedindo-lhe dispensa para o resto da semana. E o homem, há tanto rendido à sua beleza, não teve a coragem de recusar.
Partindo aflita, Dina, esqueceu o estojo de maquilhagem na secretária. Recordando-se disso ainda dentro do edifício, já não voltou atrás, tamanha era a sua ânsia. As retinas ardentes não conseguiam esconder a felicidade que o coração ululante lhe suscitava.

Uma viagem assim tão enfunada viu-se ludibriada pelos sucessivos estremecimentos paragens e arranques da carruagem, como se cada próximo apeadeiro fosse o dela. Perguntava-se aquela alma torturada se, porventura, não estaria a afastar-se de Santo Amaro, quando descortinou as mãos delirantes do seu anjo da guarda. Ao saltar, sentiu-se amparada por uns braços hercúleos que a impediram de pisar a Terra e a fizeram viajar pelo sétimo Céu, beijada e abraçada.
― É perigoso, Rui! ― bradou radiante, levada em braços ao longo da estação.
― Cair ou morrer? ― perguntou sorridente, sustendo a respiração.
― Vá, não sejas tolinho!
― Oh! Taf-taf! ― gracejou Rui, ameaçando atirá-la à linha.
Dina, assustada, perdeu a fala, agarrando-se-lhe desesperadamente ao pescoço. Até casa, o moço não parou de a provocar para a obrigar a deitar cá para fora tudo o que a deprimia, mas ela, envergonhada, preferiu adiar a confissão para a tarde, quando a febre do desejo, que a menstruação lhe retivera nas entranhas, explodisse torrencialmente.
Abençoado purgatório! Depois da sesta, transfigurada, ela nem imaginava que estivera à beira de um colapso depressivo de funestas consequências. Felizmente que o seu anjo da guarda madrugara naquela manhã e, escutando a voz da alma, lhe afugentara aqueles acirrados tabus.

Até ao pôr do sol, depois de levar para a mansarda os embrulhos, que uma camioneta descarregara diante da porta, enquanto que as mulheres arranjavam uma refeição vegetariana, os homens, entusiasmadíssimos, desembalavam e montavam a mobília de casal, para que os pombinhos, aproveitando a folga, pudessem dormir até ao meio-dia da véspera do feriado de Nossa Senhora da Assunção.
Quando os veio chamar para jantar, Dina não resistiu à tentação de experimentar as molas do colchão, atirando-se para cima do plástico como uma criança mimada, deixando-lhes antever, inadvertidamente as calcinhas rubras.
Eles viram-nas bem, mas fingiram-se cegos, sorrindo apenas.
E, enquanto não terminaram tudo, ninguém foi comer. Até a senhora Noémia, sabendo do que se tratava e como eles demorassem, subiu, levando consigo uns lençóis floridos e um farrapo para limpar o pó dos móveis.

Finalmente, antes de descerem, sentiram-se atraídos pelos espelhos do guarda-fatos que, orgulhosos de reunirem, naquele sorriso inocente, o passado e o presente de tão harmoniosa família, brilhavam como em pleno dia. De voz embargada, ninguém disse nada para não quebrar a magia da inefável felicidade.
Ao jantar, o orgulhoso Dr. Félix assentou-se na cabeça da mesa, deixando-lhes o meio da mesa para um discreto, mas intrinsecamente eufórico face a face. Assim, os pombinhos teriam mais espaço para esvoaçar aqueles olhares apaixonados, que tanto o excitavam e lhe devolviam, inexplicavelmente, as cenas de amor com a sua doce e carinhosa Alice.
“ Oh, Alice, Alice! Como brilhavam os olhos tímidos da Alice, naquele dia de Verão de 1946, em que, depois da Grande Guerra, finalmente em paz, se beijaram e amaram, pudica e platonicamente!.. ” ― pareciam exclamar aqueles olhos cansados.

No terraço, uma brisa suave arrefeceu o fim daquele dia atarefado, convidando o arquitecto, cuja nostalgia dava pena ver, aproveitou a retirada da velhota, para se ir deitar mais cedo, largando o casalinho, aninhado, num cobertor, em doces confidências.
Sós, na escuridão do luar minguante, embalados pelos sussurrantes brados do oceano e, a tempos, o chiadouro da diminuição abrupta da velocidade, Rui e Dina, abraçados, foram sonhando. Imaginavam-se avós mimados, de cabelos brancos, no trepasse do milénio; viam-se, em 1975, na maternidade, na clínica de S. Sebastião da Pedreira, com o Artur Alexandre ou a Celina Maria, - nomes dos pais, que dariam ao primogénito - nos braços, a gritar nuá-nuá; pensavam, ainda, dentro de um ano, germinar, eternamente, os seus corações, diante de Deus, para que a tentação fosse menor e a jura sagrada, tendo o director do Rui como celebrante, rodeados pelos verdadeiros amigos, apenas. Isso era para depois de 1974, ano da liberdade total, porque até lá, e já faltava pouco, tinham que aprender a viver a dois.

Perto da meia-noite, sentindo que a descida da temperatura exterior lhes provocara, em contrapartida, uma subida brusca da interior, decidiram ir testar o princípio dos vasos comunicantes, na mansarda, estriando as molas do colchão, se a Dina já não estivesse impedida.
Enquanto subiam as escadas, Rui, atrevido, não parava de excitar a jornalista, ora apalpando-a nas nádegas e nas coxas, ora fazendo-lhe cócegas, tocando-lhe nas costas e nos flancos. Os jogos eróticos, mesmo abafados, não passaram desapercebidos ao padrinho, que, deitado, tentava desesperadamente em vão, entrar em contacto com a Alice.

Subidas as escadas e trancadas as portas da mansarda, o silêncio apoderou-se da vivenda, impondo aos efusivos libertinos uma ordem sagrada, que a remanescente menstruação da Dina veio ajudar.
Depois de beijar e lamber furiosamente a regrada Afrodite, onde podia, o cupido, que não conseguia disfarçar a decepção, pelo impedimento vaginal, soltou um suspiro desanimado, que a alertou. Foi então que, rodopiando e atacando-o, tal fera esfomeada, Dina, depois de o morder e beijar e sugar e arranhar cegamente, agraciou-o com uma felação mágica, que o fez explodir, torrencialmente. Liberto da ululante seiva seminal, Rui Patrício parou de morder o travesseiro e, depois de um derradeiro beijo e um olhar inebriante, virou-se e, feliz, deixou-se agarrar pela afrodisíaca valquíria, que de seios colados nas costas varonis, o embalou até cair de sono.

continua em: Quarta, 15 de Agosto ( 30º DIA )

Caprichos do Amor / Lmp, luxemburgo - 1996 / Lud MacMartinson

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