domingo, 16 de março de 2008

Caprichos do Amor: Quinta, 9 de Agosto ( 24º DIA )


Quinta, 9 de Agosto 
( 24º DIA )




Mal viu a luz do dia, Rui Patrício, que havia dormido toda a noite como uma pedra, apercebeu-se que estava nu e sobressaltado, olhou imediatamente para a porta que, felizmente, parecia estar fechada. Ao espreguiçar-se, pensou nos acontecimentos da véspera e sentiu um calafrio arrepiá-lo até à raiz. E logo surgiu no seu espírito amedrontado a inevitável questão: e se ela engravidasse? Mas um ápice bastou para que aquele sentimento de medo e de culpa fosse varrido da sua memória pela imagem da divina Afrodite e o eco apaziguador hoje, ― e até parecia que a mirífica Dina estava mesmo ali a sussurrar-lhe - não chega antes da meia-noite. E se aquela segurança fosse sinónimo de cumplicidade? ― cogitou duvidoso. “Seria que eles o estariam a manipular? ” ― perguntou-se inquieto.

Não, aqueles olhos doces não podiam mentir; aquele corpo faminto e sussurrante não enganava; sim, a simbiótica e sulfurosa sinfonia daquele incomensurável e indescritível prazer era a prova mais evidente que os seus corpos haviam nascido um para o outro. Porquê duvidar? Não, ele não voltaria a duvidar, porque duvidar era deixar de amar e ele jamais poderia viver sem aquele amor tabu ou adúltero que fosse, porque o amor era a última coisa que lhe restava e mais contava para ele. Aos dezoito anos, o amor era mais que tudo, mais que a liberdade, mais que a própria vida.

Quando soaram as nove horas no pêndulo da sala, ele havia tomado o café da manhã com a avozinha e ido buscar o jornal para ler e falar, por linhas travessas, com a sua amada, lendo a rubrica que mais adorava. Naquela quinta-feira de Verão, ele acordara com um coração diferente, novo para poder amar livremente e bater ao ritmo do amor. E às onze horas, quando o padrinho acordou e lhe veio dizer que os amigos, afinal, não se importavam que ele continuasse a ver a filha como uma simples amiga, a sua alma, vendida a outrem, nem um sentimento de revolta ou de desprezo foi capaz de engendrar e a jovial insistência do arquitecto não lhe mereceu a menor consideração, nem o esboço de um sorriso, ah!, um silêncio pudico apenas, nada mais. Os seus olhos diziam tudo. Naquele preciso momento, em que as suas íris se feneceram nas retinas apáticas, o padrinho compreendeu o seu estado febril e, comovendo-se, deixou-o em paz. Depois de reler a crónica da madrinha, o adolescente foi ouvir os saudosos Beatles e escrever o que lhe ia passando pela cabeça e pelo coração, naquelas horas loucas.
Os receios e os anseios íntimos, até ali invioláveis, foram enchendo uma, duas, três, oh! páginas sem conta. O gira-discos cansou-se de tocar e o tempo, tal bailarina etérea, foi um ar que lhe deu.

Às treze horas, quando teve que ir jantar, as folhas engendradas de bruços, estendido ao comprido sobre o tapete árabe, faziam da sala da televisão um autêntico rebuliço. Impregnado como estava, foi preciso que a senhora Noémia viesse chamá-lo por três vezes. Enquanto apanhava e ajeitava as folhas uma a uma, sorriu para os desenhos geométricos do tapete, deixando-se embalar pela magia das mil e uma noites.
De tarde, para enganar o padrinho, fingiu ir à procura do colega para irem saber da pensão a S. Pedro do Estoril, mas nem chegou a sair da praia de Santo Amaro. Assentado à sombra de um dos rochedos, onde costumava ir filosofar e traquinar a musa, aguardou que o comboio lhe trouxesse de volta a bela Dina, há muito a deusa dos seus olhos. Escondido, viu-a saltar apressada da carruagem. Como vinha elegante! Ainda quis ir beijá-la e dizer-lhe que a amava diante de toda a gente, mas desistiu, preferindo dizer-lho no calor da noite, se o padrinho voltasse a sair. Para que ninguém desconfiasse, ele saiu discretamente do seu esconderijo e foi ao quiosque comprar a Play-Boy do mês que esfolheou timidamente encostado ao muro da estação. Depois, enchendo-se de coragem, desatou a correr até a vivenda, estudando a lição pelo caminho. Do terraço, os padrinhos ainda lhe acenaram, mas, compenetrado, ele não se apercebeu de nada. Impaciente e curioso, o Dr. Félix nem o deixou acabar de respirar, procurando saber logo das novidades.
― Então conseguiu?
― A pensão da rua Guiomar Torrezão não aceita mais hóspedes por agora. Se calhar vou ter que esperar até ao início do ano ― respondeu ofegante, beijando normalmente a jornalista que, arvorando um gracioso vestido azul-marinho, lhe ofereceu distraidamente o rosto.
― Rui, eu acho que você devia, sobretudo, pensar em ficar aqui connosco para sempre ― sugeriu o arquitecto, sorrindo à esposa.
― Como? ― perguntou surpreendido.
― É de uma família que você precisa, meu filho.
― O seu padrinho tem razão ― anuiu meiga, acrescentando: ― Daqui também pode apanhar o comboio e ir e vir todos os dias à escola, não?
― Sim é verdade, madrinha, mas...
― Assim poupa mais dois mil escudos para as suas distracções, come e bebe o que lhe apetecer, tem quem cuide de si em caso de doença e, sobretudo, explicadora gratuita, não é, Dina? ― arguiu o arquitecto.
― Alunos como o Rui não precisam de explicadora ― disse a jornalista.
― Certamente, Dina, mas a vida tem altos e baixos e numa dessas marés de desânimo o Rui, que é de carne e osso como toda a gente, precisará, mais do que ninguém da compreensão e do carinho de alguém que o ajude a recuperar a confiança.
― A maior vantagem para mim, Félix, será a de poder contar com o carinho e o amor incondicional de uma verdadeira família, mas, por favor, deixe-o pensar à vontade, porque da sua vida é ele quem decide.
― Está bem, padrinho, a Dina tem razão: eu vou pensar - concluiu o estudante entusiasmado, retirando-se para o duche.
― Pense bem, Rui! ― insistiu paternal, segurando a mão trémula da esposa.
Enquanto o afilhado não desceu, eles refugiaram-se em confidências no escritório, apostando no tempo que ele demoraria para aceitar a sugestão. O arquitecto estava convencido de que ele, por uma questão de charme, não lhes daria a resposta antes do fim-de-semana, ao passo que a esposa garantia que a conheceriam antes de se irem deitar.
O que perdesse a aposta teria que satisfazer um capricho do outro, o que foi unanimemente aceite. Quando voltou, o Rui Patrício ainda trazia o cabelo a pingar. De chinelos e em calções, bem tentava esconder a alegria que trazia na alma e retardar o anúncio da sua decisão, porque os olhos arregalados, esses, não sabiam mentir. E uma discreta e distante cumplicidade veio cimentar a felicidade implícita que todos iam disfarçando. Psicólogo, o arquitecto não lhe falou de mais nada à mesa, preferindo confessar-lhes, pela primeira vez ao luar, os episódios mais íntimos e dramáticos da sua vida.

A senhora Noémia, que observava todo aquele jogo, continuava, como dantes, a governanta delicada e piosa, escondendo também a contagiosa felicidade por ver assim o amo tão contente, ela que, nas horas mais dolorosas, teria feito tudo para o consolar, se ele não fosse tão tímido e introvertido, mas o viúvo sempre se mostrou de um respeito e de uma cortesia irrepreensíveis. Fora na solidão do sofrimento que o Dr. Félix descobrira o seu desígnio: ser o instrumento da felicidade dos outros. E as reminiscências do passado, recordadas naquele monólogo comovente sobre o terraço, no calor daquela noite de Verão, fizeram-nos sentir mais unidos e, quando adormeceram no outro dia, as lágrimas sentidas que haviam derramado sobre as suas raízes haviam-nos tornado mais felizes. De confidência em confidência, ele chegou a dizer-lhes que, depois de perder a Alice que tanto amava e o herdeiro, em quem depositara toda a sua esperança, duas coisas lhe haviam passado pela cabeça: matar-se ou refugiar-se num convento, tal era o seu ódio por Deus.
Como eram parecidos o padrinho e o afilhado!

continua em: Sexta, 10 de Agosto ( 25ºDIA )
Caprichos do Amor / Lmp, luxemburgo - 1996 / Lud MacMartinson

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