domingo, 16 de março de 2008

Caprichos do Amor: Quarta, 8 de Agosto ( 23º DIA )


Quarta, 8 de Agosto 
( 23º DIA )




Até alta madrugada, dilacerado pelo desgosto e os maus pensamentos, Rui não conseguiu pregar olho, agarrando-se à insónia para mortificar o espírito atribulado. Quantas vezes não mordeu o travesseiro e implorou que Deus o levasse para junto dos pais. Finalmente, quando o a luz ténue do dia começou a romper as trevas, o órfão adormeceu exausto e foi assim que a madrinha o encontrou, quando, antes de sair às sete da manhã para o trabalho, o beijou no rosto e sentiu o gosto salino das lágrimas ressequidas à flor da pele.

No comboio, ela não parou de se atormentar. Afinal, a sua atracção pelo adolescente, além de imoral e incestuosa, era, sobretudo, adúltera. E um forte sentimento de revolta renasceu no seu peito, arrepiando-lhe o corpo e alma.
Entretanto, na vivenda, o arquitecto levantara-se logo que a esposa partira e fora assentar-se pensativo diante do seu cavalete, esperando que o afilhado descesse para tomarem o pequeno almoço, juntos. Mas os minutos passaram-se sem que ele desse sinais de vida. Quando o pêndulo do relógio do salão bateu as dez horas, encheu-se de razão e foi calar o estômago, bebendo um café bem amargo, sob o olhar silencioso da governanta que, depois de ter feito a cama do amo e limpado o pó, ia preparando o almoço.

E o meio-dia bateu sorrateiro, aumentando a pena e a solidão do arquitecto. Ainda pensou telefonar aos amigos para lhes pedir uma explicação, todavia, lembrando-se do pedido do afilhado, desistiu e foi fumar uma cachimbada nervosa no terraço. O seu olhar cansado deixou-se hipnotizar pelos mistérios dos confins do mar, lá onde a realidade e o sonho se confundiam e se uniam simbioticamente. E inexplicavelmente estancou a deleitosa nicotina, apagando e esvaziando definitivamente o cachimbo. Irrequieto, subiu ao primeiro andar, surpreendendo o afilhado em caótico delírio.

Ouvindo-o desbobinar aquelas incoerências quiméricas em plena apostrofação do ódio e do amor e apercebendo-se da amargurada contradição sentimental da orfandade, o arquitecto teve ganas de o acarinhar, mas logo surgiu a voz histérica da sua consciência a repreendê-lo, apagando-lhe do coração as ingénuas veleidades paternalistas. Cabisbaixo, voltou para o escritório, deixando-o desabafar inconscientemente toda a mágoa que acumulara na alma. E a meio daquele rosário de amarguras, o nefelibata acordou assarapantado, abrindo timidamente as retinas doloridas. A enorme decepção interior estampara-se-lhe à volta das órbitas, decorando-lhe o rosto com umas olheiras escuras. Não fossem os caracóis angelicais, quem o visse assim tão pálido, pensaria que acabava de ser desenterrado. Como era triste o reverso do amor!
Olhando-se acidentalmente no espelho, Rui Patrício achou-se horrível e correu a enfiar-se debaixo do chuveiro, aduchando-se e ensaboando-se raivosamente sob os jactos de água fervente, enquanto o seu espírito vagabundo se perdia em divagações penosas e plangentes, reflexo de um inconformismo ingenuamente imberbe.

Às treze menos cinco, quando apareceu na cozinha, a senhora Noémia descobriu-o airosamente transfigurado. No seu rosto antes inquieto pairava agora um sorriso indecifrável, mas gostoso de se ver e que tão bem fazia ao coração. O fio ténue de uma esperança sagrada jorrava-lhe candidamente da íris acastanhada, conferindo ao seu olhar um misterioso encanto giocondino: nele se reconheceriam simultaneamente a tristeza e a alegria, de quem aí se encalhasse.
Depois de saudar a avozinha, que o acarinhou e lhe fez beber um sumo de laranja para recobrar os ânimos, o jovem foi beijar o padrinho, como fazia antes de descobrir e sucumbir à força do amor e se deixar enredar nas malhas daquela demolidora paixão, mexendo com a sensibilidade do benemérito.
Durante o almoço, enquanto mastigava lentamente a comida, o arquitecto, sempre que o olhava pudica e discretamente, só já via diante de si aquele menino calado e melancólico, a quem, numa tarde cinzenta, fizera compreender que Deus decidira chamar os seus paizinhos para o paraíso, escondendo-lhe os hediondos detalhes do sanguinário massacre, ocorrido algures em Angola.
Por sua vez, Rui Patrício, ignorando a dolorida reminiscência do padrinho, ia-se mentalizando e ganhando coragem para, depois da sobremesa, no terraço ou no escritório, ter uma conversa séria com ele, de homem para homem, se Deus não o abandonasse e o medo não o fizesse desfalecer. E, apesar de alimentar serenamente aquele diálogo superficial, o seu subconsciente repetia-lhe endofasicamente o seu grito do Ipiranga, dizendo-lhe, que tal como D. Pedro IV, também ele deveria ter a coragem de se assumir e pedir a sua emancipação, para poder amar quem quisesse.

A partir de agora, uma vez que o destino decidira antecipar e acelerar o processo da sua maturidade psicológica, também se julgava com o direito de antecipar, de facto, a maioridade, para enfrentar os caprichos da desventura e forçar a felicidade. E o sol, entrando de roldão pela janela, sorriu, aprovando-lhe tacitamente os insubmissos propósitos. À medida que a sobremesa se eclipsava no prato do padrinho, o coração batia mais angustiado e a coragem parecia desvanecer. Cabisbaixo e cerrando os dentes, porém, o rebelde dizia-se que, se não o fizesse agora, jamais poderia olhar-se no espelho e logo surgiu o adágio: dos fracos não reza a história, a animar-lhe os propósitos.
Depois, sozinhos no terraço, quando o arquitecto, sucumbindo a mais um assédio da viciosa nicotina, colou o cachimbo nos lábios, respirou fundo e disse com uma voz trémula, entrelaçando nervosamente os dedos:
― Padrinho, eu queria pedir-lhe um conselho, mas nem sei como começar.
― Esteja à vontade, Rui Patrício! ― encorajou o fumador.
― Olhe, pronto ― desabafou o adolescente, argumentando: ― Como o padrinho sabe, eu cresci e comecei a ver a vida de outra maneira. Conheci a Cristina, gostei muito dela, apaixonei-me e agora reconheço que a mãe dela talvez tenha razão ao dizer que somos muito novos.
― Novos?! Porquê? ― perguntou o arquitecto, soltando uma rodela de fumo.
― Sim, padrinho, eu vou fazer dezoito anos, mas a Cris só tem dezasseis. Também sei que temos que ir para a faculdade, contudo, sinceramente e com todo o respeito que ela me merece, acho que a D. Susana não tem o direito de nos cortar as asas do sonho e de proibir o nosso amor.
― Claro que não, Rui, claro que não..
― E isso dói-me muito. Se vocês não fossem tão amigos como são, não me ficaria assim, mas pronto ― acrescentou resignado, desviando o olhar.
― E então o que é que o Rui pensa fazer? ― perguntou compreensivo, reconfortando-o com uma palmadinha no ombro.
― Como o padrinho sabe, no mundo há mais mulheres...
― E jeitosas! ― exclamou o velhote, empiscando e apontando a praia.
― Pois, mas não é só isso, padrinho, eu gostaria que as pessoas me passassem a ver a mim, mas, enquanto viver consigo, até terão muita pena de um órfão, bom menino, afilhado do Dr. Félix, nada mais.
― Mas não, Rui Patrício, mas não! Isso é uma impressão sua.
― De qualquer maneira, ― atalhou o jovem ― eu sinto-me sufocado por este julgamento coitadinho e, com todo o respeito que lhe devo e o senhor muito me merece, convirá que, assim, a minha liberdade...
― Possivelmente até é como diz, não sei, porque eu não sou você, mas o que pode acreditar é que eu, aliás, nós, a Dina e a senhora Noémia também, ― fez questão de frisar ― gostamos muito de si. Nós amamo-lo muito, Rui! ― declarou comovido, olhando o afilhado com redobrado afecto.
― Eu sei, e acredite que também gosto muito de vocês, padrinho, mas...
― Por favor, não me dê esse desgosto, não se vá embora! ― rogou triste.
― Eu só quero arranjar um canto para ser livre, padrinho!
― Livre?! Então você não se sente livre connosco?
― Totalmente, não. E esta minha submissão aos pais da Cristina é a prova disso. O padrinho pensa que, se os senhores não fossem amigos, eu desistiria assim tão cobardemente dela como desisti?
― Se calhar não, mas isso também não é razão para sair assim de casa.
― Eu estou a crescer e a descobrir coisas novas todos os dias, padrinho!
― Ainda bem, Rui Patrício, ainda bem!
― Já imaginou que, aqui, em sua casa, jamais poderei fazer coisas...
― Mas que coisas?
― Sei lá! Convidar alguém de quem gostasse, enfim, o padrinho sabe!
― Pelo contrário, Rui, eu teria muito orgulho em vê-lo e sabê-lo feliz aqui.
― Eu penso que nunca teria a coragem ― retorquiu envergonhado.
― O.k, eu compreendo o seu pudor. O Rui quer ir ao norte ver os seus tios, quer? ― perguntou o arquitecto, fazendo-o desabafar.
― Para o norte não quero ir ― recusou peremptório.
― Ah, já tem alguma ideia!
― Sim, eu pensei, se for possível, economicamente claro, viver numa pensão como outros colegas que saíram do colégio.
― Uma pensão?! Ah, estou a ver, já está farto do internato! - exclamou o padrinho risonho, travando o fumo entre os dentes.
― Por acaso já, padrinho ― reconheceu o jovem.
― Então quer dizer que, no fundo, apenas se quer ver livre dos padres, não é, meu filho?
― É, é isso, padrinho.
― Uf! pensei que se queria ver livre de nós, mas diga lá...
― Durante os meses de aulas, ficava numa pensão familiar em S. Pedro do Estoril, e depois, nas férias e sempre que pudesse, viria até aqui, se vocês quisessem. A vida dá muitas voltas, padrinho.
― E onde tencionava hospedar-se?
― Eu tenho um colega, que por acaso também é do norte, que vive numa pensão de família em S. Pedro do Estoril, mais precisamente no número 107 da rua Guiomar Torrezão.
― Sim, você já disse! Mas..., essa família é decente, é de confiança, é...
― Penso que sim, padrinho, pelo menos o Luís Macedo só me diz maravilhas deles. O pai, um pedreiro nabantino, é muito severo e a família...
― E quantos filhos tem?
― Dois: um rapaz que anda no ciclo e uma rapariga que anda no liceu.
― Bom, você pense bem nisso, veja se realmente é isso que quer e se as instalações, as condições e, sobretudo, as regras de funcionamento lhe agradam, pois eu duvido que essa família lhe conceda veleidades libertinas, enfim, Rui Patrício, veja lá isso, porque se for mesmo esse o seu desejo, por mim tudo bem.
__ Obrigado, padrinho! - agradeceu ele radiante.
E um sorriso resplandecente como o Sol eclodiu novamente pelas órbitas varonis, eclipsando-lhe a mórbida nostalgia que pairava no seu olhar. Irradiando uma felicidade pueril, correu a agarrar-se à velhota, acariciando-lhe o poupo esbranquiçado. E, animado por aquela estonteante euforia, subiu ao quarto para mudar de roupa.
Pouco depois, voltou ao terraço, todo prosa, e disse ao padrinho que ia tratar do assunto a S. Pedro do Estoril, prometendo estar de volta com boas notícias quando a madrinha chegasse.
Mal o afilhado desapareceu nas curvas da estação, o arquitecto telefonou à esposa, informando-a da inesperada resolução do moço e pediu-lhe encarecidamente que o convencesse a mudar de ideias, pois o seu coração, tal como o do pai do filho pródigo, não suportaria aquela caprichosa decisão.

No comboio do retorno, nervosa, a jornalista não pensou noutra coisa. Atarefadíssima, ela fez desbobinar pela cabeça abrasada um milhão de incôngruos pensamentos na ânsia de descobrir o argumento imparável para tão inesperado dilema: deixá-lo ir para a pensão e ir amá-lo às escondidas como uma esposa infiel, ou assumir as consequências daquela endemoninhada e declarada paixão?
Quando entrou em casa, eram por demais evidentes os sinais de desolação que o seu rosto espelhava tristemente, por não saber como resolver aquela dificílima equação sentimental, mas logo surgiu o marido para a consolar e a ajudar a ponderar as hipóteses mais verosímeis.
Nos seus olhos apaixonados, Dina espelhava toda a confusão sentimental que, nos últimos dias, sobretudo, tanto a havia decepcionado. Como lhe era difícil saber que no mundo alguém a amava e desejava visceralmente, mas que as contingências do destino e os tabus da sociedade impediam de amar empiricamente como as suas entranhas libidinosas lhe reclamavam.
Abraçado à esposa, o sorumbático arquitecto sentia a palpitação arquejante que eclodia pelos peitos femininos, mas sabia muito bem que não era por ele que aquele coração ferido batia, o que, paradoxalmente, o tornava feliz, pensando que o afilhado seria o cordeirinho pascal que o redimiria do pecado.
― Você é tão sedutora, Dina! ― confessou-lhe nervoso, apalpando-lhe as nádegas e os flancos.
― Oh, abraça-me e beija-me como se tivesses vinte anos e estivesses loucamente apaixonado por mim, ou então como uma estranha que não voltarás a cruzar na tua vida e que não foi mais que uma aventura sem amanhã. Oh, isso, assim, Félix! - balbuciou a esposa, suspirando sensualmente.
E, passando os dedos por entre as pernas do marido, dirigiu-se para o quarto. Escravo submisso, subjugado por um estonteante perfume e um súbito odor seminal, ele seguiu-a sem pestanejar até aos aposentos conjugais, onde se trancaram para dar bridas à excitação. O sol poente parecia espelhar na ardente nudez afrodítica toda a sedução do mundo.

De repente, quando o calor do desejo ebuliente, se preparava para consumir a febre passional, ouviram os passos estrondosos do angelical fantasma, que unia os seus corpos suados, abeirar-se-lhes da porta, como que a implorar que o deixassem entrar e o pânico congelou-lhes instantaneamente o ardor libidinoso, obrigando-os a vestirem-se à pressa e a abortar aquele corpo a corpo voluptuoso. E, inexplicavelmente, nenhum deles sentiu a menor frustração por ter interrompido os preliminares do coito iminente.
Repelindo-se instantaneamente, como se estivessem a cometer adultério explícito, olvidaram tudo, esquecendo-se de viver e, sorrindo-se cumplicemente, renderam-se de corpo e alma à dor do afilhado que, entretanto, se refugiara no quarto.
Empiscando à esposa, que se pintava ao espelho, o arquitecto preferiu eclipsar-se, confiando na sedutora persuasão daqueles lábios vermelhos e daquele olhar feiticeiro para o convencer a mudar de ideias. Confiando nos seus argumentos, Dina foi bater-lhe à porta.
― Entre! ― respondeu de costas, olhando-a pelo reflexo da vidraça.
O perfume tentador da madrinha fê-lo arrepiar-se todo, tentando-o terrivelmente, mas ele, fechando os olhos e cerrando bem os dentes, reteve-se, permanecendo inerte para disfarçar o súbito sex-appeal. Todavia e apesar do esforço intrínseco, apenas sentiu as unhas roçarem-lhe pelo pescoço, ele estremeceu profundamente e virou-se para lhe aparar o beijo. Desvairadas, as suas bocas colaram-se e morderam-se repetida e desesperadamente, ritmando o ímpeto passional dos seus corpos desnorteados. Num ápice, a fúria varonil, afluindo-lhe à ponta dos dedos, fê-lo redescobrir a tumescência da fenda genital e sentir a libido desmaiar sobre a púbis, irrigando-a fortemente. Ao tactear a glande do membro viril em erecção vertical, Dina desabotoou-lhe as calças e, sentindo o pénis duro na sua mão, introduziu-o na vulva em pranto. De pé, rodopiando furiosamente e encostando-a contra a janela, o cupido iniciou um vaivém tão endemoninhado que em menos de um minuto uma fulgurante ejaculação irrigou as entranhas adúlteras.
Depois, retirando o pénis e limpando o sémen que se colara na glande, ele olhou-a, deu-lhe o lenço para que ela obstruísse a vulva e beijou-a de fugida entre os seios, rejeitando-a em seguida. E, vestindo-se rapidamente, Dina abeirou-se lesta da porta e, espiando o corredor, trancou-se no banheiro, onde apagou as manchas e o cheiro do pecado, se pecado era pagar com amor quem a amava assim.

Fechado no quarto, Rui Patrício não avaliava verdadeiramente as eventuais consequências daquele acto desvairado. Nas suas retinas pairavam apenas os trejeitos delirantes das orgásmicas contracções do furor uterino e os suspiros animalescos. E, inexplicavelmente, nem uma picada de remorso viera perturbar ou ferir a susceptibilidade da sua alma conscienciosa, como se Deus abençoasse aquela paixão proibida. Dominando os sentimentos e as emoções, Dina, que também não sentia o menor remorso, sobretudo depois do divórcio sentimental que representou aquele fim-de-semana em Tróia, em que o marido lhe confessara o seu estado de espírito e lhe perdoara todas as infidelidades com o afilhado, ajudou a senhora Noémia a aprontar o jantar.
Depois, passando pelo escritório, chamou o marido para jantar e, abeirando-se do fundo das escadas, gritou ao afilhado:
― O jantar está na mesa, Rui, podes descer!
― Já vou madrinha, já vou! ― respondeu-lhe do quarto de banho, limpando apressadamente o rosto à toalha.
Enquanto se penteava, o adolescente vestia mentalmente a pele do inocente, vítima de um destino cruel que a caridade mandava amparar, para ignorar a repentina acusação da sua consciência atribulada. E, ostentando um semblante inconsolável, ele assentou-se no seu lugar, evitando olhar o padrinho que acabava de atraiçoar. Cabisbaixo, pousou o guardanapo nos joelhos e, antecipando-se à curiosidade senil, disse desiludido:
― Afinal, não consegui nada.
― Se fosse a si, eu mudava de ideias e deixava de mentir a si mesmo, abandonando o seminário e ficando com quem tanto o ama.
― Eu vou pensar bem nisso e depois falamos, está bem, padrinho?
― Sim, depois falamos ― concordou o arquitecto, sorrindo à esposa que, entretanto, viera ocupar a sua cadeira, radiante, adivinhando aquela mudança.
― Hoje chegou a falar com o Dr. Edgar, Félix? ― perguntou a jornalista, avivando o vermelho dos lábios com a língua provocante.
― Desculpe, querida, mas o Rui acordou tão tarde que até me esqueci de lhe dizer que ele estava a sofrer muito com esta imposição. Agora ele parece outro, mas se a Dina o tivesse visto como eu o vi, assim tão pálido que pensei ter à minha frente um desenterrado... Você pregou-me cá um susto, Rui Patrício! ― confessou perturbado, olhando-os como se de nada desconfiasse sequer.
― A que horas se levantou, Rui? ― perguntou curiosa, provando o arroz.
― Muito depois do meio-dia, madrinha.
― Mas que preguiça o mordeu para se erguer assim tão tarde, menino?!
― Oh! Só consegui adormecer pouco antes da senhora ir para o trabalho.
― O quê?! Gostaria de saber o que é que um santinho como você pode estar a fazer sozinho na cama durante tantas horas, sobretudo depois de ter passado a tarde na praia com uma moça tão linda como a Vera, sem contar as outras duas feras que...
― Não me diga que esta casa alberga um Play boy, Dina?
― Está a ver como o senhor me dá razão, padrinho!
― Você realmente nasceu para ser político, Rui Patrício!
― Político?! Credo, Félix! ― retorquiu a esposa decepcionada, limpando os lábios e bebendo um golo de água.
― Já agora, o padrinho pode dizer-me porquê?
― É simples: os políticos, tal como os advogados e os padres são vendedores de ideias e você tem uma enorme capacidade de persuasão!
― Como assim, padrinho, se ainda nem eu entendi?
― É de mais evidente, Rui, diria mesmo claro como a água.
― Se eu sou assim tão hábil e convincente como o senhor pensa, porque é que eu não fui capaz de impedir que a D. Susana me separasse da filha?
― Isso aí é diferente.
― Como assim, padrinho?
― Você não replicou porque, no fundo, talvez pense que a D. Susana tenha razão e, sobretudo, como disse e muito bem, por não querer pôr em jogo a amizade que me une ao doutor Edgar e à família, o que só mostra o seu altruísmo e a sua nobreza de espírito. Aliás, eu estou convencido que você recuou para, mais cedo ou mais tarde, tal tigre esfomeado, atacar e recuperar a sua presa. Parabéns! Isso é habilidade e, em política, vale milhões ― deduziu malicioso, esfregando os dedos.
― Se calhar o seu padrinho tem razão.
― Político ou não, só Deus sabe, mas de uma coisa, porém, podem estar seguros: para apoiar ou pactuar com os compadres do Salazar, nunca! ― afiançou categórico, enervando-se.
― Tem graça, o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros é seu xará, como dizem os brasileiros ― observou ironicamente.
― Xará?! Não percebi, madrinha.
― Sim, é seu homónimo, mas acaba em Gouveia.
― Aquele que tem sempre o cabelo penteado para trás?
― Esse mesmo.
― Olhe, se quer que lhe seja franco, esse é o único ministro do professor Marcelo Caetano com quem simpatizo. Acho que foi ele quem planeou aquele encontro do Nixon com o Pompidou, nos Açores, não foi, padrinho?
― Sim, mas deixem a política para daqui a dez anos, quando Portugal tiver mudado de regime, sim?
― Ah, o senhor também acredita que isto não pode continuar assim!
― Com que então a Vera gostou do nosso Rui! ― desabafou o arquitecto, empiscando à esposa e mudando habilmente de assunto.
― Se o Félix visse a ternura com que ele lhe passou o bronzeador...
― Por favor, não me faça corar! ― implorou cabisbaixo.
― O Rui tem razão, Dina ― acudiu prontamente o arquitecto.
Obedecendo ao marido, a jornalista acabou de comer e, antecipando-se à governanta, foi à cozinha buscar a sobremesa, deixando-os em silêncio absoluto, enquanto não voltou com um açafate cheio de fruta e uma bandeja com pudim caseiro, mas o moço recusou-os, preferindo deixá-los sós.
Quando se levantaram, ele eclipsara-se. Consultando o relógio, o arquitecto lembrou-se de telefonar ao colega e, regressando apressado, perguntou à esposa se queria ir jogar uma partida de bridge com a Susana e o Edgar, mas ela, estafada, preferiu ficar em casa a descansar.
Apenas o Mercedes transpôs o portão, Dina subiu ao primeiro andar e, como o quarto do adultério estivesse vazio, abeirou-se da janela, perscrutando os rochedos cavernosos e as falésias da costa. Suspirando baixinho na penumbra, ela reviveu a inesquecível e inefável faísca de amor daquela tarde. Esquentada pelos deleitosos flashes da impetuosa e estridente virilidade do adónis, a libido, percorreu-lhe o corpo à velocidade da luz, despertando-lhe os demónios do prazer da masturbação.

Entretanto, o manto negro da noite ia cobrindo lentamente a baía de Santo Amaro, obrigando o nefelibata a recolher à sua cela. Por detrás das cortinas, logo que o viu correr pela calçada iluminada, ela sorriu e aumentou a cibernética uterina, imaginando-o nu à sua frente.
Apenas pisou a relva, vendo a porta da garagem escancarada, ele correu à cozinha, acendeu a luz, bebeu apressadamente dois copos de água para matar a sede e, como não visse sinais de vida, foi deitar-se, pensando que os padrinhos o teriam abandonado. Entrando resignado e cabisbaixo no quarto, trancou a porta atrás de si e, dando com os olhos nas coxas da madrinha, murmurou assustado:
― Tu aqui, Dina?!
― Tchut! Vem, meu amor, vem ― implorou langorosa, abrindo as pernas para que ele lhe visse a púbis negra.
― Ele pode vir ― balbuciou o sonhador, desnorteado pela nudez.
― Não te preocupes que hoje ele não chega antes da meia-noite. Se soubesses como te tenho desejado, Rui!
― Eu passo a vida a desejar-te, Dina! ― confessou-lhe ele de voz trémula.
― Então anda, vem amar-me e mostrar-me como me desejas, vem ― insistiu ela, acabando de se desnudar à pressa.

Na penumbra, a nudez ganhava outra dimensão e até parecia que caíra de um sonho erótico, tantas vezes imaginado e desejado. Agora que a tinha ali, todinha só para si, o coração amedrontava-se e começava a vacilar, enquanto um nervoso miudinho o paralisava e fazia tremelicar. Tomado de pânico, ele ficou estático e embasbacado a olhá-la de alto a baixo.
Foi então que ela lhe retirou a t-shirt e lhe correu o fecho das calças, ajudando-o a despir-se. Depois, abraçando-se furiosos, arrastaram-se aos beijos até à cama e, unidos pelas cintura pélvica, foram atiçando as labaredas da paixão, esquecendo-se de tudo: naquela hora nem Deus, nem vergonha, nem medo, como se estivessem hipnotizados um pelo outro.
E a sinfonia do amor durou enquanto a tumescência varonil, num vaivém irracional, não se deixou ludibriar pelo inédito clímax que, numa precipitada ida sem retorno, explodiu torrencialmente às portas da matriz.

Exausto, o imberbe cupido, guiado magistralmente pela pecadora, permaneceu inerte sobre a doce epiderme da Afrodite, até que o líquido, saindo em jactos intermitentes, parou de jorrar da glande e o pénis, a adaga do prazer, abandonou a fenda deleitosa esmorecido.
Antes de sair, Dina pediu-lhe que não parasse de a desejar, pois só com ele é que ela conhecia a plenitude do amor. Sorrindo-lhe feliz, ele fechou os olhos e adormeceu.


continua em: Quinta, 9 de Agosto ( 24º DIA )
Caprichos do Amor
Lmp, luxemburgo - 1996
Lud MacMartinson

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