Lady

domingo, 16 de março de 2008

Caprichos do Amor: Epílogo !


Epílogo




Na primeira semana de Outubro, quando o ano escolar começou, Rui e Dina já moravam num apartamento, de três assoalhadas, no 5º andar, de um prédio com vista para o mar, no bairro residencial de Miraflores, em Oeiras.

Num mês apenas, o Dr. Félix, que, para evitar o opróbrio da sociedade, oficializara o divórcio em meados de Setembro, não os deixara gastar um tostão, suportando, generosamente, todas as despesas, como forma de penitência, na condição de ser o padrinho do netinho ou da netinha lourinha como a Alice e, de passarem juntos, em Santo Amaro, um dia por semana pelo menos. Do testamento, feito no dia em que, julgando-se condenado por uma doença incurável, quase se suicidou, não mudou uma vírgula, legando, assim, todos os seus bens ao Romeu e à Julieta da vivenda que teriam de cuidar da senhora Noémia até que Deus a chamasse.

Entretanto, depois que se mudaram para Miraflores, Rui passou a colaborar no Diário, escrevendo, sobretudo, para o Cantinho dos Poetas, influenciando, também, as crónicas da célebre jornalista, que, pouco a pouco, foi conquistando a simpatia da juventude mais inconformada com a situação económica do país, que ia de mal a pior, desde que, em 1960, estoirara a maldita guerrilha em África, até então, esteio do regime de Salazar.

No solar do Monte Estoril, Cristina guardava, religiosamente, no sótão, onde, moralmente, perdera a virgindade, num quadro, um quadro com um desenho seu a decorar a Prece Proibida, poesia que Pat lhe oferecera, escrita em caligrafia de ouro, para jamais esquecer o Primeiro Amor, capricho que os pais, pensando no desgaste do tempo, julgavam efémero, pois pretendentes não lhe faltariam logo que entrasse para a faculdade.

Nos fins de Setembro, no dia em que fora acertar as coisas com o director do colégio, Rui Patrício cruzou a Tânia no patamar da praia do Tamariz e, achando-a tristonha, reconfortou-a, dizendo-lhe que ele não mudara nada e que continuava a ser o mesmo rapaz sonhador, a cumprir, porém, irremediavelmente o seu destino. Ao sorriso melancólico da moça, que, entretanto, falara várias vezes com a inconsolável amiga, Rui respondeu com um beijo fugitivo no rosto.

Em Santo Amaro, onde vinha amiúde, a senhora Noémia não parava de lhe dar conselhos, de lhe preparar os biscoitinhos, que a Dina nunca soubera fazer e de perguntar maliciosamente se já tinham feito o bisneto, porque a idade não perdoava e ela ainda queria ser a sua ama. E o Ruizinho sorria e continuava a mesma criança mimada que lhe puxava carinhosamente o poupo, como ela tanto gostava.

No primeiro dia de aulas, Dina, depois da visita médica, foi esperá-lo. Apenas a viu, de pé, sensivelmente no mesmo sítio, onde, no memorável 17 de Julho, o padrinho o aguardava, Rui parou, levantou os olhos ao Céu e, vendo que ele também lá estava, debaixo do mesmo pórtico, sorriu e desatou a correr ao seu encontro como um maluquinho e beijou-a na boca, desencadeando uma algazarra tão infernal que os muros seculares, se não ficaram surdos jamais se esquecerão de tapar os ouvidos, quando a Dina o vier esperar.

Idolatrado pela meninada da primária e invejado pelos colegas do liceu, Rui lá partiu orgulhoso e feliz, protegendo bem a sua deusa, para apanhar o comboio no Tamariz. E quando, na carruagem, Dina, pedindo que se agarrasse, lhe confirmou os seus pressentimentos, o jovem órfão abraçou-a e beijou-a perdidamente, chorando diante de todos como um menino que acabava de realizar o maior dos sonhos: ser Pai!

Os passageiros, estupefactos, respeitaram instintivamente aquele ápice de felicidade, virando-se para que eles tivessem aquele pedacinho de privacidade que transforma o ápice em eternidade, quando o coração de um homem e de uma mulher pode palpitar e consumir livremente aquele fogo que arde sem se ver e tanto nos faz sofrer se não puder morrer.

Em Santo Amaro, quando os viram correr pela calçada, os velhotes sentiram o coração pular-lhes do peito e, impelidos pela voz da alma, desceram aflitos para o jardim, qual pedaço do Éden, que um Sol resplandecente aureolava divinamente. Solevando a vénus fecundada, Rui Patrício, aproveitando o silêncio das gaivotas comovidas, gritou bem alto, para que todo o mundo ouvisse:
― O seu netinho já vem a caminho!
― Obrigado, Alice! Obrigado, meu Deus! ― bradou emocionado.
E, abrindo-lhes os braços, beijou-os na testa, observado pela governanta lacrimejante que, depois de os felicitar entusiasticamente, acrescentou maliciosa:
― Seus malandros!
Rui e Dina enxugaram as lágrimas com os dedos, sorriram e, escondendo desavergonhadamente o rosto com as mãos, uniram as suas bocas, num beijo apaixonadíssimo que fez piscar os avós.

E as gaivotas, quebrando a mudez, festejaram também a feliz novidade, entoando um coro pipilante, que só acabou, quando os adoráveis papás, acenando-lhes, entraram orgulhosamente na vivenda dos Caprichos do Amor...


Nove anos depois...



A Profecia

realiza-se em

A Força do destino

Lud MacMartinson
LMP, LUXEMBURGO, 1996

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