domingo, 16 de março de 2008

Caprichos do Amor: Sexta, 10 de Agosto ( 25º DIA )


Sexta, 10 de Agosto 
( 25º DIA )



Antes de partir para o trabalho, Dina espreitou para o quarto do afilhado e lançou-lhe um beijo, pedindo a Deus que o marido ganhasse para ver o capricho que ele lhe mandaria fazer. Mesmo sabendo que, no íntimo o afilhado há muito que tomara a decisão de ficar e lutar, imoralmente se preciso fosse, pela mulher que o destino lhe enviara para o guiar pelo caminho da felicidade, ela aceitaria perder a aposta para o ganhar caprichosamente. No fundo, aquele jogo excitava-a imenso, por lhe devolver fantasmas sexuais que, depois de casada com aquele anjo de homem, nunca conseguiria exorcizar plenamente.
A manhã daquele dia foi consumida pelo sonhador a corrigir e a passar a limpo os quiméricos gatafunhos da véspera, aproveitando a ausência do padrinho, algures a tratar dos seus negócios. À medida que os textos se clarificavam, o narcisismo poético envaideceu-o e fê-lo mirar-se várias vezes no espelho, para ver como sorria, empiscava e disfarçava, mas o ego arrepiou-o, tão imoral lhe parecia.

Durante a sesta, ele preferiu trancar-se todo nu diante da janela do seu quarto, para aproveitar o sol da tarde e atenuar a marca esbranquiçada que o calção lhe fizera na cintura, perguntando-se onde e como a Dina conseguira aquele bronzeado tão uniforme que até dava vontade de a comer todinha. Enfeitiçado por aquele mirífico e sinuoso corpo de chocolate, que tanto o excitava e fazia masturbar-se incessantemente, só se lembrou da Cristina, da Tânia, da Fátima e da Vera quando, pegando na Play-Boy as comparou à sexy Pin-up do mês que vinha divinamente fotografada no lustroso papel do interior. Ansioso por ter de volta a sua vénus predilecta, o exibicionista deitou-se por cima dos lençóis, adormecendo a pensar que ela, apenas chegasse do trabalho, não resistiria à tentação de espreitar pela fechadura.

Com efeito, aproveitando a boleia do marido, que tivera afazeres na capital, Dina antecipara o seu fim-de-semana para ir descobrir e cobiçar a nudez varonil, antes de se trancar no banheiro e congelar a libido num duche bem frio que a fez arrepiar-se toda e baixar a febre adúltera. Saindo do banho, ela estendeu-se na cama e, fechando os olhos, respirou de alívio por no dia seguinte ser sábado. Sem sutiã, os seios, descaindo-lhe levemente, faziam-na mais selvagem, sobretudo com aquele vestido largo. Sabendo o fruto proibido ali tão perto ao lado, só lhe apetecia pedir-lhe umas massagens relaxantes e sentir a virilidade irracional entrar-lhe pelas entranhas com fragrância, para não parar de morrer de prazer, mantendo eternamente vivos os estonteantes impulsos daqueles rins másculos. E os pensamentos libertinos fizeram-na saltar do leito. Diante do quarto do cupido, ainda se viu tentada a cobiçá-lo pela fechadura, mas preferiu gritar-lhe que se despachasse para jantar, descendo a imaginar a hora em que o poderia colher e desfrutar definitivamente, tal Eva desobediente.
Ele, que já se apercebera da presença dela, saltou lesto da cama, passou pelo chuveiro, lavou-se e vestiu uns jeans roçados e uma camisa de manga curta, calçando os chinelos de praia. Friccionados pela toalha, os caracóis nem precisaram de pente.
Quando entrou na sala, os padrinhos jantavam silenciosamente.
― Bom proveito! ― bradou jovial, passando-lhes a mão pelas costas.
― Obrigado, igualmente! ― responderam em uníssono, quebrando o silêncio.
― Olá, senhora Noémia! Eu sou sempre o mesmo atrasado, não sou?
― Ora essa, Ruizinho, o menino está de férias! ― respondeu a velhota.
― Eu só quero uma salada, senhora Noémia ― avisou o moço, colocando o guardanapo nos joelhos e passando a mão pelos cabelos húmidos.
― Mas assim o menino não medra nada! ― desabafou a governanta.
― Quem não medra nada é o meu padrinho, senhora Noémia. Não vê como ele mantém a mesma linha dos trinta anos? Até parece que é um adepto ferrenho dos weight watchers americanos!
― Eu sempre conheci o senhor arquitecto assim ― disse envergonhada.
― É verdade, padrinho? ― perguntou curioso.
― A senhora Noémia tem mãos de fada, meu filho! ― elogiou vaidoso.
― Sem dúvida! ― apoiou a esposa, olhando a governanta.
― Eu tive muita sorte em ter uns patrões como os seus padrinhos, Ruizinho.
― Sem dúvida, senhora Noémia, mas eles também tiveram muita sorte de a terem desencantado em S. Domingos de Rana, como eu de ter uns padrinhos assim tão..., tão, ah! madrinha, não me olhe com esses olhos que me faz corar e perder a concentração! ― bradou inocentemente, corando envergonhado.
― Não precisa de ficar assim, Rui Patrício, porque cada um de nós só tem o que merece ― concluiu sabiamente o arquitecto, olhando-os serenamente.

Tudo o que disseram depois pouca importância teve, tão justa era aquela máxima. Antes de tomarem a sobremesa, a jornalista sugeriu ao marido que aproveitassem aquela magnífica noite estival para irem todos três tomar uma bica fora, mas ele desculpou-se, dizendo que devia ir jogar uma partida de bridge com o Dr. Edgar ao solar. Foi então que, sentindo-o nervoso, ela lhe perguntou se dava boleia a uma alma solitária até ao Estoril, fazendo-o corar. E, finalmente, repensando bem, o arquitecto acabou por aceitar a sugestão da esposa e lá saíram todos três para espraiar um pouco. Durante a viagem, Dina cedeu o lugar dianteiro ao Rui, preferindo assentar-se no banco de trás para os espiar melhor e passar a mão pelo couro onde conhecera o prazer e os remorsos da infidelidade, sucumbindo à fúria passional do coração órfão, por quem se deixara comover, enredar e perder-se irremediavelmente de corpo e alma.

No Estoril, os canteiros e os muros do casino, iluminados por um cocktail de cores garridas, pareciam mesmo um cartão animado; os turistas nórdicos passeavam sossegadamente na avermelhada e curiosa brancura pelas galerias das arcadas, enquanto que, do outro lado da linha férrea, uma algazarra desabrida de ritmo e som fazia dançar o Tamariz.
Depois de uma ronda frustrante à cata de estacionamento, o arquitecto acabou por imobilizar o Mercedes na projecção de um spot luminoso contíguo ao luxuoso e não menos célebre Hotel Palácio do Estoril. Ladeando os padrinhos, Rui Patrício preferia ignorá-los, para não sentir os ciúmes formigarem-lhe as mãos e os olhos, e saciar a curiosidade, fantasiando com a madeixa loura das suecas que ia cruzando. Depois de uma hesitação, atravessaram a Marginal, para irem tomar a bica do outro lado, mas a algazarra intimidou-os, aconselhando-os a procurarem um café mais pacato na zona residencial.
Assentando-se calmamente na esplanada iluminada do Fantasy Bar, o casal pediu ao garçon que lhes servisse um carioca, um whisky seco e um Baileys. Enquanto o afilhado bebeu o café de dois golos, o arquitecto e a esposa preferiam jogar ao sério, degustando calmamente o aroma alcoólico. Atraído por aquele jogo tentador, Rui Patrício fingia-se distraído a ler o jornal, espiando os trejeitos sedutores da madrinha que, mergulhando a língua pontiaguda no gostoso licor irlandês, tanto o excitavam. Enlouquecido, o membro viril viu-se prisioneiro de uma endurecida tumescência que a Dina sentiu pelos movimentos irrequietos da cadeira.
― E se fôssemos fazer uma visita ao Dr. Sampaio? ― sugeriu o arquitecto.
― Obviamente, os senhores podem ir, eu não ― adiantou peremptório.
― O Félix voltou a viciar-se no bridge? ― perguntou a esposa.
― Não! ― afiançou molemente.
― Ai o padrinho também gosta de jogar às cartas?!
― Foi o única vício que encontrei para matar as ideias funestas, meu filho.
― Por amor de Deus! Se querem ir conversar um pouco com os amigos, estejam à vontade que eu sei ir para casa sozinho.
― Por mim, Félix, você também pode ir. Não se incomode!
― Vocês não se chateiam, não? ― insistiu o arquitecto, picado pelo vício.
― Não! ― responderam ambos.
― Então vocês vão para casa ou esperam aqui por mim? ― perguntou o jogador, levantando-se apressado da cadeira.
― Eu não trouxe carteira, Félix ― avisou a esposa, estendendo a mão.
― Deixe, madrinha, eu tenho dinheiro ― interferiu prontamente.
― Obrigada, Rui, mas o seu padrinho, para onde vai, não precisa de carteira.
― Pronto, então leve estes meus trocados, padrinho.
O arquitecto pegou na carteira do afilhado e retirou-se feliz, deixando-os a olharem-se em silêncio. Enquanto ele não desapareceu, Rui Patrício manteve a respiração suspensa e o olhar impávido. Admirando beatamente a volúvel, ele empiscou-lhe timidamente, tocando-lhe na mão que segurava a carteira.
― Queres provar este licor? ― perguntou entre os dentes.
― Claro, tolinha, esse licor, essa língua, esses lábios, esses..., esse corpo todo ― cochichou-lhe ao ouvido, arrepiando-a toda.
― É bom, não é, Rui?!
― Se é, meu amor! ― balbuciou o moço, mergulhando a língua no copo.
― Garçon, mais dois Baileys com gelo, por favor! - gritou ela acenando.
Enquanto os licores não chegaram, eles deleitaram-se, consumindo demoradamente o que restava e acariciando-se por debaixo da mesa. E as fagulhas da paixão saltaram imediatamente para a mesa. Como o servente demorasse, eles dirigiram-se ao balcão, pagaram antecipadamente a despesa e, esperando de pé pelos Baileys bem gelados, foram assentar-se num canto escuro do interior deserto, longe dos olhares incómodos dos transeuntes da calçada. Naquele ambiente de discoteca encontraram a liberdade, de que tanto precisavam, para satisfazerem os seus caprichos em total impunidade. O que eles não se excitaram naqueles bancos de veludo: os beijos, as carícias e as ousadas palavras sussurrantes, que se cochichavam descaradamente, enlouqueceram-lhes as entranhas. Naquele demoníaco e obsceno, mas quão gostoso turbilhão, só lhes faltou chegar ao amor explícito, nu e cru.

Perdidos a viajar pela galáxia da demencial indecência, eles, num tacteio mais profundo, sentiram o ponto do não retorno daquela atracção imoral e, amedrontados, levantaram-se apressadamente, dirigindo-se para a praça dos táxis para alugar um, não fosse o jogador arrepender-se e chegar primeiro que eles a Santo Amaro. Aflitos, correndo de mão dada, lá se foram postar na marginal, acenando e gritando táxi-táxi!

Quando entraram em casa, como a garagem ainda estivesse vazia, aproveitaram a meia hora que faltava para ser sábado para acabar de saciar a febre que o aromático licor irlandês lhes havia suscitado, fazendo renascer e morrer de vez a frustrada seiva seminal, lá no mesmo lugar da véspera, num rito aflito perto da janela, a contemplar a infinita negridão daquela cálida noite de Verão que rimava à perfeição com sedução, paixão e traição...
Após a vulcânica explosão, os seus corpos exangues de felicidade bem quiseram repelir as sussurrantes reprimendas da consciência, mas tiveram que dormir com o remorso na alma a noite toda.



continua em: Sábado, 11 de Agosto ( 26º DIA )


Caprichos do Amor / Lmp, luxemburgo - 1996 /Lud MacMartinson

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