domingo, 16 de março de 2008

Caprichos do Amor: Sexta, 3 de Agosto ( 18º DIA )


Sexta, 3 de Agosto 
( 18º DIA )




Alta madrugada, Rui Patrício acordou e, depois de satisfazer às exigências fisiológicas, não conseguiu mais pregar olho, ficando a fantasiar e a filosofar sozinho de olhos colados no tecto branco. A madrinha levantou-se às seis, lavou-se e maquilhou-se. Antes de descer, porém, ela decidiu ir vê-lo e despedir-se do afilhado. Ouvindo passos, o doente fingiu dormir, fechando as pálpebras. Aproximando-se dele em pezinhos de lã, ela abeirou-se e, derreando-se, tentou pousar-lhe os lábios no rosto, mas ele virou subitamente a cabeça e fê-los aterrar na boca, balbuciando incoerências sonolentas. Aquele beijo ressequido abriu-lhe os olhos. Colhida de surpresa, Dina murmurou acanhada:
― Tenho que ir trabalhar, meu amor.
― Eu já não tenho febre ― cochichou ele, acariciando-lhe o rosto.
― Cuida bem de ti, doidinho ― disse ela, estendendo-lhe os lábios em bico.
― Adeus, Dina! ― sussurrou meigo, imitando-a.
― Até logo! ― balbuciou carinhosa, depois de um beijo à passarinho.
Entusiasmado, Rui Patrício voltou a cobrir-se e deixou-se invadir pelo sonho até que a porta da entrada rangeu, anunciando-lhe a saída da jornalista para a capital. E, cobrindo-se novamente, confiou o espírito vagabundo às delícias da vivificante quimera.
Às nove horas, depois de servir o amo, a senhora Noémia levou-lhe uma malga de leite com bolachas à cama, mas ele dormia profundamente. Como estava na hora de tomar os remédios, sacudiu-o timidamente. Espreguiçando-se longamente, o adolescente transfigurado disse-lhe que, afinal, já não tinha nada. A velhota sorriu e, largando a bandeja na mesinha, retirou-se, fechando jovialmente a porta atrás de si.

O doente despiu o casaco do pijama de popelina e saltou do leito. No quarto de banho, mirou-se bem e, puxando os pêlos dóceis da barba, pegou na gilette para os raspar depois de ensaboar abundantemente o rosto pálido. O cheiro dos medicamentos urinados, chegando-lhe até às fossas nasais, fê-lo meter-se debaixo do chuveiro morno e lavar-se com o sabão lux rosado da madrinha. O horizonte azul celeste incitou-o, mudada a roupa interior a vestir um fato de treino e a descer em chinelos, depois de escancarar as janelas do quarto para que a maresia devorasse aquele ar viciado.
No escritório, o Dr. Félix Fontoura ia dando vida ao sonho SOS.
― Ah, hoje sim, tem outro ar! ― bradou o arquitecto, surpreendido.
― Isto não foi nada, padrinho! ― disse ele, beijando filialmente o benfeitor.
― Então, vem ajudar-me ou espera por alguém?
― A Cristina disse que me telefonaria esta manhã, mas isso não me impede de o ajudar ― esclareceu ele, analisando o correio.
― Você tem aí uma carta. Presumo que seja o boletim escolar.
― O padrinho já viu... ― retorquiu desconfiado.
― Por acaso não vi, mas mentiria, se não lhe dissesse que estou curioso.
― Então abra ― ordenou o estudante, estendendo-lhe a carta registada.
Pousando o lápis, o arquitecto levantou-se e, pegando num estilete, abriu o envelope dum golpe certeiro. Suspendendo a respiração, o jovem olhou-o e, vendo-lhe o largo sorriso, perguntou confiante:
― Gostou da nota de organização política?
― É, nunca se sabe se temos aqui um futuro deputado, quiçá um ministro.
― Enquanto houver guerra no ultramar, nunca! Isto não se faz...
― Não se faz o quê, Rui?
― Mandar a juventude portuguesa morrer em África, a pretexto de salvar a Pátria em perigo, como diz o governo, quando na realidade são meia dúzia de pançudos que eles vão defender. Se tiver que ir, padrinho, prefiro fugir para o estrangeiro, refractário ou desertor, pouco me importa.
― Você nunca irá para o ultramar, Rui ― afiançou categórico.
― Porque o padrinho tem amigos, não é? ― retorquiu revoltado.
― É, mas deixe que lhe dê os meus parabéns ― disse orgulhoso, abraçando-o.
― Oh, isto não tem nada de especial ― acrescentou o estudante, passando os olhos pelo boletim escolar.
― Uma média de quinze valores, num colégio tão exigente como aquele...
― Ainda bem, porque assim, quem é proposto a exame raramente os decepciona. Os Salesianos são realmente exímios pedagogos.
― Logo à tarde, quando...
― Trrim!... ― retiniu o auscultador, interrompendo-os.
Largando o boletim, Rui Patrício acorreu ligeiro e respondeu ansioso:
― Alô!... Alô? Sim. Olá, Cris! Oh, já estou bom para outra! Por mim, podes, mas..., e os teus pais? Pronto, até logo. Outro maior ainda. Adeus, Cris!.. ― disse o adolescente, monologando e balançando o cabo do telefone.
― Era a Cristina?.
― Sim, padrinho, a Cris virá depois do almoço ― respondeu prontamente, adivinhando-lhe os pensamentos.
― A filha do Dr. Edgar tem um fraco por si, não tem?
― Como eu por ela, padrinho ― confessou cabisbaixo.
― Vejam lá, tenham cuidado!
― Esteja descansado, padrinho ― disse o adolescente envergonhado, sorrindo para o boletim escolar que apanhou e guardou no envelope.
― Ah..., já me lembro! ― bradou o arquitecto, prosseguindo: ― Como dizia, logo à tarde, quando a Dina chegar, vamos festejar a sua passagem de ano.
― Não será prematuro festejar a meio da caminhada? E se deixássemos isso para o fim do ano escolar? ― sugeriu o estudante, batendo na madeira para afugentar o aziago.
― Como queira, Rui Patrício! ― acedeu o arquitecto resignado, respeitando a vontade soberana do afilhado que se retirou a sorrir maliciosamente.
Até às três, o tempo quase que estancou no seu pensamento ansioso. Quantas vezes subiu e desceu as escadas e se debruçou para tentar descortinar a silhueta negra do BMW na curva onde se cravava e esmorecia a sua retina impaciente e nervosa. Ah, até que enfim!

" Mas ela vem a pé! " ― monologou estupefacto, acenando à donzela que, felicíssima, lhe acenava entusiasticamente lá no fundo da rampa da estação. E não resistiu à ansiedade que fazia explodir o seu coração expectante.
― Oh, Cris! ― bradou carinhoso, abraçando-a e beijando-a saudosamente.
― Cuidado, Pat, podem ver-nos! ― avisou intimidada, fitando a vivenda.
― És bem tolinha! Quem é que quer saber de nós?
― Achas? ― perguntou duvidosa, apertando-lhe os dedos.
― Bem entendido, Cris. Além disso, ― esclareceu tranquilo ― o meu padrinho anda tão orgulhoso connosco que só nos podemos sentir felizes!
― Os meus pais também ainda não me disseram nada.
― Cris, às vezes queria ser mais velho, sabes.
― Eu não! Ah, é tão bom descobrir estas sensações dos vinte anos, Pat!
― Sim, mas se tivéssemos a maioridade, seria outra coisa.
― Calma, dá tempo ao tempo! ― acrescentou ela emproada.
E, balançando as mãos apertadas, lá entraram na vivenda. O arquitecto sorria-lhes, escondido por detrás dos cortinados do escritório, enquanto a senhora Noémia, toda mimos, lhes piscava da soleira da porta.
Aninhados, num canto do terraço, onde não batia o Sol, os adolescentes cochicharam em surdina os segredos que escondiam na alma. Passando a sesta assentada numa esteira, Cris, arvorando um leve vestido de linho, que lhe realçava os atributos femininos e o bronzeado, era só charme e carinhos.
Pat, mimado e adulado, imaginava-se um sultão do maravilhoso conto das mil e umas noites. Maravilhado pelos jorros de afectividade que a lourinha odalisca lhe prodigava, ele nem se lembrou de lhe mostrar o boletim escolar. Deliciosamente cobiçada por aquele olhar persistente, a donzela sentia-se indefesa e desnudada pelas retinas vorazes do seu adorável adulador.

As dezoito horas pendulares batiam sorrateiras no pêndulo da sala, quando um carro buzinou na berma da estrada. Levantando-se lestos, eles deram com os olhos na D. Susana que lhes acenava cheia de regozijo. Respondendo aos gestos maternais, Cristina deixou-se abraçar pelo doente e, depois de um beijo fugitivo na boca, largou-o no terraço a acenar.
Assentando-se no banco dianteiro, a donzela ainda se virou para responder aos acenos convalescentes, mas os seus olhares desencontraram-se por entre a ramagem das árvores. Sorrindo feliz, o doente foi à cozinha beber um copo de água. Depois, sempre a falar com os seus botões, subiu para o quarto e deitou-se pensativo sobre a colcha. Confuso, mal acertara a cadência do coração e já a voz afável da jornalista, gritando " eh, já cheguei!”, o fez saltar do leito e voar, tal Sagitário, à procura da sua rainha. A meio do corredor, sentiu a musa traquiná-lo e, caminhando cabisbaixo, nem se apercebeu que o arquitecto e a esposa se beijavam atrás da biblioteca.

Miserável traidora! ― explodiu por dentro. E, corando, recuou cautelosamente para não quebrar aquele legítimo momento de felicidade do padrinho, dizia-lhe a consciência. Dina, apercebendo ainda o reflexo da sombra intrusa, largou o marido, foi fechar a porta à chave para depois deixar cair a indumentária e oferecer à tumescência indolente a vulva sulfurosa, roçando os mamilos erectos nos lábios drogados pela pálida nicotina. Inibido pelo ímpeto da mulher, que a luminosidade difusa enaltecia terrivelmente, o arquitecto não conseguiu suster o ímpeto viril e, envergonhado, pediu-lhe perdão pelo inoportuno esmorecimento. Recompondo-se à pressa, ela pegou na bolsa e partiu silenciosa, deixando o marido desconsolado a olhar pela janela.
Abandonado, ele sentiu uma frustração tão grande que a respiração, asfixiada pelo remorso sussurrante, o obrigou a ir fumar uma cigarrilha para o terraço, onde o afilhado, aninhado no cadeirão de vime, fingia cochilar.
― Rui Patrício! ― murmurou o arquitecto, tocando-lhe levemente no ombro.
― Âh?!... ― resmungou o adolescente, abrindo timidamente os olhos.
― Já viu a sua madrinha?
― Porquê? Ela quer-me alguma coisa, padrinho? ― perguntou sonolento.
― Não tenho a certeza, mas parece-me que sim.
― O Félix dizia? ― interferiu graciosa, num florido e enxugando os cabelos à toalha grande.
― Que você queria mostrar qualquer coisa ao Rui ― disse de costas, soltando umas rodelas de fumo para o ar.
― Olá, Rui Patrício! Então essa doença? ― indagou cansada, estendendo-lhe o rosto ainda húmido.
― Isto não foi nada! ― desabafou o convalescente, beijando-a de fugida.
― Félix, posso roubar-lho por dois minutos?
― Com certeza, menina ― anuiu irónico, empiscando ao afilhado.
Obedecendo, o moço lá seguiu submisso as pegadas tentadoras da jornalista. Olhando-lhe os contornos sinuosos, ele não conseguiu evitar que o desejo irreverente se apoderasse da sua íris cobiçosa e lhe sacudisse a sonolência. No escritório, Rui Patrício, fascinado pela ousada transparência voluptuosa, balbuciou trémulo:
― Cuidado, Dina!
― Tchut! ― cochichou ela, derreando-se para lhe mostrar melhor os seios.
― A Cristina passou o dia comigo ― disse medroso, resistindo à inoportuna e perigosa tentação sexual.
― Onde? Na cama? ― perguntou furiosa, recuperando a pose decente.
― Adivinha ― respondeu malicioso, do outro lado da mesa.
― Se eu sei que tu... ― vociferou enciumada, atirando-lhe com a toalha.
― Vá, madrinha, diga lá o que me quer - volveu ele, fitando-a respeitador.
― O meu director...
― O seu director que vá...
― Eh, calma, Rui Patrício, calma!! - implorou a jornalista, surpreendida pela irascível e inesperada reacção do doente.
― Desculpa, mas... ― escusou-se o ciumento, espiando o padrinho.
― És bem tolinho! ― bradou risonha, beijando-o nas espáduas.
― Se calhar até sou.
― Vá, não metas minhocas na cuca que eu não sou nenhuma...
― Sei lá! ― exclamou duvidoso, virando-lhe ostensivamente as costas.
― Mau-mau, menino! ― desabafou aborrecida, segurando duas folhas lustrosas.
― O que é isso? ― perguntou o adolescente.
― Toma, vê e diz qualquer coisa... ― disse a madrinha, retirando-se amargurada.
Rui Patrício pegou nas folhas, leu-as num golpe de lince e virou-se para comentar, mas ela já ia na soleira da porta com a toalha na mão. Adivinhando-lhe a decepção, o insolente preferiu não a interpelar e assentou-se no cadeirão da escrivaninha taciturno.

No terraço, o arquitecto regalava-se a consumir a maldita nicotina. Depois de analisar calmamente os esboços que a jornalista lhe deixara, ele parou o balanceamento enigmático do lápis e, erguendo-se cego, pegou no retrato da insensata Dina, gratificando-o com um afectuoso beijo.
No corredor, o convalescente cruzou a senhora Noémia que lhe relembrou que estava na hora de tomar os remédios. Brincalhão, Rui Patrício puxou-lhe levemente o poupo branco e, sorrindo meigo, foi lavar as mãos para jantar.
À mesa, como o doente não se mostrasse nada loquaz, o padrinho inquiriu:
― Então que tal, Rui?
― O quê, padrinho? ― perguntou distraído, limpando depressa os lábios.
― A ideia da nossa jornalista.
― Ah, é óptima! ― bradou radiante, mirando a madrinha de soslaio.
― Acha, Rui? - perguntou cabisbaixa.
― Só o título é que não parece muito...
― Está a ver, Dina? ― retorquiu o arquitecto.
― O seu padrinho também me disse o mesmo ― murmurou convencida.
― Se eu bem li a maqueta, trata-se de uma revista para a juventude, não é?
― Exactamente ― anuiu a jornalista, seguindo-lhe o raciocínio.
― Não acha que a Mocidade a vai arrastar para...
― Não. Mas..., explique-se, Rui! ― interferiu intrigada, parando de comer.
― Posso fazer-lhe uma pergunta, madrinha?
― Faça - respondeu ela calma, consultando o marido com um olhar sério.
― Quem lhe sugeriu esse título?
― Foi uma decisão colegial. Desculpe, mas..., ainda não atingi. Você já, Félix? ― inquiriu a ingénua, envergonhada pelo riso do marido.
― Parece-me que o Rui está bem mais homem do que a cara de anjo deixa transparecer, não acha?
― Sim, mas falem-me claro! ― barafustou confusa.
― Pronto, madrinha, eu vou trocar-lhe tudo isto por miúdos.
― Então deixem-me entender ― implorou pensativa, segurando a cabeça com as duas mãos e apoiando os cotovelos na mesa para se concentrar.
― Em primeiro lugar, Dina, recordo-lhe, que a Mocidade Portuguesa é o movimento de propaganda do Estado Novo. Logo, quem sugeriu tal nome para essa revista, só pode ser alguém ligado ao poder fascista.
― Ai, os filhos da puta!! Oh, perdão, desculpem! ― gritou furiosa, escusando-se imediatamente pelo palavrão.
― Acertou mesmo na mouche ! ― adiantou o arquitecto irónico.
― Realmente eu sou bem ingénua! ― bradou desconsolada.
― Olhe, madrinha, no seu lugar, eu seria muito prudente e evitaria conflitos com essa corja, sobretudo agora, mas você é que sabe com quem está a lidar.
― Eu também acho ― apoiou o padrinho, bebendo um golo de vinho tinto.
― Vocês assustam-me, sabiam?
― Não me diga que se vai afogar num copo de água?! ― ironizou o marido.
― Convosco é sempre tudo muito fácil - desabafou pensativa.
E a conversa ficou-se mesmo por ali. Muda, a jornalista olhava-os alternadamente. Aquela incrível afinidade entre ambos fê-la sorrir maliciosamente e alimentar sonhos poliandríacos. Antes de ir ver televisão, o convalescente decidiu quebrar o silêncio.
― Amanhã a madrinha não vai trabalhar, pois não? ― perguntou duvidoso.
― Ah, é verdade, nem me lembrava! Vamos à praia? ― inquiriu jubilosa.
― Vocês podem ir. Eu vou sair com a Cristina ― adiantou o jovem.
― E se déssemos um salto até Tróia ver a Torralta? ― sugeriu o arquitecto.
― Não é má ideia, Félix. Nunca passámos um fim-de-semana todos três.
― Aguentem dois minutos que eu vou telefonar ao Dr. Edgar.
― Veja lá se o convence ― insistiu ela, empiscando ao afilhado.
Sozinhos, num ápice eles sentiram as labaredas da paixão desatar as rédeas da libidinosa imoralidade que consumia os seus olhares discretos. Evitando, porém, confrontar as suas retinas indecorosas, Rui e Dina aguardaram mudos o regresso do arquitecto. Observando um silêncio sagrado, o doente, que se debatia entre a febre do desejo ebuliente e a objecção da consciência intimidante, suspirou fundo, devolvendo ao seu rosto angelical àquela sonsa indiferença, implorando a compaixão da mulher que lhe roubara a virgindade e lhe ensinara a ser homem. Ignorada pelo afilhado, Dina levantou-se e juntou-se ao marido.

Vendo-os ao telefone, o moço aproveitou então aquele instante de liberdade para, sem cerimónias, acabar de comer e aliviar a pressão cerebral, respirando e comendo desinibido, ante o olhar benevolente da avozinha que, entretanto, lhe servira um pudim caseiro. O sorriso vivificante da velhota animou-o muito, dando-lhe fôlego para recusar, se o padrinho insistisse, esse tentador fim-de-semana em Tróia. Agora, que sabia o que era uma mulher madura, andava doidinho por experimentar o prazer da desfloração da virgindade. E foi a sofismar com isso que os padrinhos o surpreenderam.
― A Cristina não pode ir para Tróia ― disse-lhe o mensageiro.
O nefelibata, absorvido pelo deleite virtual, ouviu, mas nem respondeu.
― Venha connosco, Rui! ― insistiu o padrinho.
― Desculpe, o senhor dizia? ― perguntou-lhe aéreo, caindo das nuvens.
― A Cristina não pode ir connosco a Tróia, mas você vem, não vem?
― Obrigado, padrinho, mas eu fico em casa para acabar de me curar.
― Vai o Dr. Edgar, a D. Susana, a Dina...
― E consigo a conta fica certa ― arguiu malicioso, retirando-se jovial.
O arquitecto sorriu decepcionado e assentou-se para comer a sobremesa. Mal tocara no pudim e já a esposa, toda excitada, se deliciava com o molho de caramelo. A sensualidade da língua pontiaguda, a deslizar pelos lábios melados, obrigou o marido a cochichar-lhe frustrado:
― Ele não quer ir.
― Porquê? ― indagou a madrinha, suspendendo o jogo sedutor.
― Diz que é melhor acabar de se curar, mas é porque a Cristina não vai.
― Será, Félix?
O marido meneou os cabelos brancos, limpou os lábios e, acariciando-lhe a mão esquerda pousada na toalha de linho, levantou-se pensativo. Enquanto a esposa comeu a sobremesa e deu uma ajudinha à teimosa governanta, ele matou o vício no terraço, fumando a sua cachimbada, embalado pelo marejar das ondas contra as rochas, o pipilar das gaivotas e o chiar dos bólides na estrada.
Numa das miradelas filosofais, ele pensou ver o afilhado e aprumou a retina. Afinal não era nenhuma ilusão: assentado a uns metros da estrada marginal, perto de uma falésia, ele balançava os pés no abismo.

Pouco depois, Dina juntou-se ao marido e, debruçada no banzo da varanda, acenou ao solitário, mas ele, de costas, não se apercebeu de nada, continuando o monólogo com as ninfas da maré-cheia. À medida que a noite ia envolvendo Santo Amaro com o manto negro e os reflexos da luzes dos bólides se espelhavam na baía, a felicidade interior, sublimada pela força anímica, esvoaçava delirante pelos confins do infinito, lá onde Deus, o amor e a eternidade se mistificavam como as cores do arco-íris depois da tempestade, quando a bonança faz ressurgir a felicidade do inferno.
Mais tarde, no quarto dele, os padrinhos, assentado-se meigos, deram-lhe mil e um conselhos de prudência e juizinho, até domingo à tarde. Radiante, o jovem tranquilizou-os, pediu-lhes que gozassem muito e, beijando-os carinhosamente, agarrou-se ao travesseiro a imaginar a hora em que a doce Cris seria verdadeiramente sua.

continua em: Sábado,4 de Agosto ( 19º DIA )

Caprichos do Amor /Lmp, luxemburgo - 1996 / Lud MacMartinson

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