domingo, 16 de março de 2008

Caprichos de Amor - sexta, 17 de Agosto de 1973 _32º DIA


Sexta, 17 de Agosto 

( 32º DIA )




Nesta ensolarada manhã, foi o cupido, quem, obcecado, cansado de velar, pela vénus, horas a fio, de dia e de noite, e de se ter deleitado com os mais estonteantes momentos de amor, da vida deles, acordou mais tarde, inebriado pelo aroma do café, no bule de porcelana, que Dina, vestindo apenas o manto de musselina, pousara na mesinha de cabeceira. Depois, ajoelhando-se, no tapete, diante do mancebo adormecido, beijou-o vagarosamente no rosto, no pescoço e nos pêlos do peito, para, fazendo-lhe cócegas, de mansinho, o despertar. Aquelas carícias sedutoras quase fizeram arrefecer o café, mas, finalmente, incomodado pelas unhas atrevidas da vénus acalorada, que lhe tacteou a tumescência matinal, Rui sentiu o fio do adorável sonho quebrar-se e bocejou:
― Meu a...
― Meu a... ― repetiu Dina, como se fosse o eco sonolento do varão.
― Ah! Ai!
― Dormiste bem, amorzinho? ― indagou sexy, deixando cair o manto de musselina ao sobrado.
― Vem, gostosa, vem! ― implorou maravilhado, seduzido pelo busto ondulante, oferecendo-lhe a mão e deixando-lhe o lugar cálido dos lençóis.
― Ai que quentinho!
― Ui que boa tu és , Dina! Só me apetece comer-te toda, todinha, menina...
― Mas come, morde, chupa, come, isso, assim! Ui, Rui, âaaah-âaaah!... Ui!
― Isso, assim, abre... ― rogou sensualmente, agarrando-lhe as nádegas.
E, tal missionário, em oração, iniciou um violento vaivém pélvico que fez gemer e morrer de prazer a jornalista. Ele, generoso até ao limite da resistência viril, só parou quando, alagado pelo suor dos seus corpos e as explosões vaginais, sentiu que, por não ter urinado primeiro, lhe seria impossível atingir o tão desejado orgasmo. Saltando lestos da cama, correram para o banheiro, tomaram um duche à pressa, e voltaram para beberem o café, mas, como estava frio, decidiram arranjar-se e pentear-se melhor e ir fazer outro, tranquilamente, pois tinham o dia todo por conta deles. Até à uma hora, eles arrumaram o quarto, deram uma limpeza nos móveis, lançaram-se galanteios mútuos, que, em alta voz, ecoavam pelos cantos da vivenda e faziam corar os muros, tão descarados eram os propósitos.

De tarde foram passear, de mão dada, pelas ruas do Estoril, onde almoçaram e viram um peuplum romanum, The Robe , a Túnica, que muito os comoveu, por lhes recordar os tempos dos primeiros mártires do Cristianismo e do poder mágico dos símbolos da nova Fé, como foi o caso da túnica de Jesus, que, caindo nas mãos de um legionário romano, o converteu, fazendo dele um acérrimo defensor dos Cristãos contra o Império Romano.
Depois, enquanto admiravam os jardins e os turistas, falaram do presente e do futuro, do regresso do arquitecto e da senhora Noémia, do trabalho e, como não podia deixar de ser, do julgamento popular e social, apenas a história de amor deles, por enquanto no segredo dos velhotes, se soubesse. Decidiram propor ao Dr. Félix, logo que ele chegasse, para salvaguardar a honra e as aparências, um divórcio amigável e, se preciso fosse, o abandono, por meses, da vivenda, pelos menos até que as coisas se clarificassem. Rui, decidiu, ainda, enviar, na segunda-feira, à Cristina e aos pais, as duas cartas que escrevera, no dia em que tivera a amargurada confirmação, que a herdeira dos Sampaio fora uma paixão impossível, que surgira fora do tempo para ambos, infelizmente.

Quisera o destino colocar no seu caminho uma alma marcada pela fatalidade, como a sua. Mas eram caprichosos e imprevisíveis os caminhos do amor?! Como são insondáveis e misteriosos os desígnios de Deus, que depois de tudo lhe roubar, quando mais precisava, por tudo se quis perdoar, tudo lhe devolvendo, tão repentinamente, a ponto de o perturbar profundamente, para, por fim, o fazer renunciar. E o resto do dia foi passado, embalados pelas melodias que mais preferiram, a reflectir e a amar, ora deitados no canapé até ao pôr do sol, ora assentados nos cadeirões de vime do terraço, quando a noite envolveu Santo Amaro, onde o poeta, acedendo aos pedidos langorosos da musa inspiradora, releu a Prece Proibida ― QUERO ― , ligeiramente corrigida, numa voz sensual e rouca, que, bafejando-lhe os seios, a fez arrepiar e contorcer-se de prazer...


Quero beijar a febre do calor do teu regaço

e ouvir a tua voz murmurar baixinho com fervor
Quero perder-me lânguido no fragor do teu cansaço
a implorar mais, sempre mais e muito mais amor

Quero sentir o teu coração explodir no meu peito
a pedir perdão e compaixão por tanta leviandade
Quero bafejar o ardor da tua nudez em doce leito
e beber a excitação da tua paixão em liberdade

Quero desvendar o mistério desse olhar ferido
a vaguear nas marés deste pensamento libertino
Quero saciar a sede ardente no licor da tua libido
e ancorar estes lábios trémulos nesse busto divino

Quero fenecer exangue na doçura dos teus cabelos
a respirar o aroma erótico do teu fruto em flor
Quero viver à sombra desses jeitos tão singelos
e colher ainda a felicidade nos jardins do teu amor

Quero depor nas tuas mãos este coração em ferida
por favor, não o prives do teu carinho ou compaixão
por ti, ele viveu errante, tal peregrino sem guarida
e chorou tantas lágrimas de desespero e solidão...


― É verdade, meu amor ― disse o poeta, emocionado, dobrando a folha.
― Eu sei, querido, eu sei! ― murmurou a musa, beijando-o, docemente.
― Vem, Dina, vem... ― cochichou langoroso, dando-lhe a mão.
Mudos, olhando-se apenas, eles levantaram-se subiram para a mansarda...


continua em: Sábado, 18 de Agosto ( 33ºDIA )

Caprichos do Amor
Lmp, luxemburgo - 1996  / Lud MacMartinson

Nenhum comentário: