domingo, 16 de março de 2008

Caprichos do Amor: Terça, 31 de Julho ( 15º DIA )


Terça, 31 de Julho 
( 15º DIA )



Acordando durante a noite, Rui Patrício não se cansou de pensar nos trejeitos voluptuosos com que Dina, em orgasmos torrenciais, exteriorizara o amor. Os lábios vermelhos, a língua estendida, a boca sequiosamente aberta, a testa franzida e os sussurros delirantes, tudo, tudo bailava loucamente à sua frente. No silêncio dos pensamentos indecorosos, ele perguntava à quimérica meretriz se era mesmo verdade que aquele acto fora assim tão perfeito e intenso, como ela lhe confessara, ou se o dissera somente para lhe ser agradável. É que, apesar dos milhares de minutos, perdidos a ver revistas pornográficas, que chegavam da Dinamarca e que miraculosamente apareciam no colégio, ou a ler os romances proibidos, imaginando-se o sultão das mil e uma mulheres, ele só temia que, se não fosse tão bom como os outros que certamente a Dina tivera antes dele, se visse rejeitado por ela. Por isso, dizia-se que, da próxima vez, confessar-lhe-ia a sua inexperiência na arte de amar e pedir-lhe-ia que o ensinasse a ser o melhor de todos, porque ela, sua rainha, merecia tudo. Tal vassalo obediente e humilde, ele amá-la-ia como ninguém.

Naquela terça-feira, Rui Patrício levantou-se depois da senhora Noémia. Até parecia que a razão de viver dela, se resumia a fazer a limpeza e cuidar dos tachos durante o dia e a rezar mal caísse naquele gostoso colchão de palha, que teimava em amanhar ela mesma todos os anos. Quando os padrinhos desceram, já ele trouxera o correio da caixa e o colocara ordenado na escrivaninha do escritório. Curioso, também dera uma vista de olhos no dossiê que o arquitecto terminara na véspera. O projecto era mesmo lindo. Numa aldeia assim, até ele gostaria de viver. Quem sabe, se um dia, - cogitava - não dedicaria a vida a crianças abandonadas ou órfãs.
Antes de ir procurar as poesias à gaveta da mesinha de cabeceira, deu os bons-dias aos padrinhos e pediu-lhes muito trabalho, o que fez sorrir o Dr. Félix e a dizer-lhe que acordara com a corda toda.
Enquanto eles tomaram o pequeno almoço, o adolescente copiou para o seu diário os últimos versos e consultou a enciclopédia sexual para tirar algumas dúvidas.

De pé, com o calhamaço aberto no patamar da janela, ele ia saciando a curiosidade e espevitando timidamente a libido matinal. As imagens de sexo explícito faziam-no recordar tudo quanto de maravilhoso lhe acontecera naquelas férias de Verão. Ouvindo passos, fechou rapidamente a enciclopédia, colocou-a na estante e correu para a escrivaninha, fingindo tratar da correspondência. De manhã, obcecado como estava, ele nem reparara que trouxera uma carta para a Dina. A ver pelo cabeçalho, era do director do Diário. E os ciúmes, fruto ingénuo e imberbe do amor, apoderaram-se dele, ofuscando-lhe a razão. Sem discernimento, os olhos começaram a marear-se misteriosamente. Foi assim abstracto que o arquitecto o surpreendeu.
― Eh, Rui! ― bradou ele, passando-lhe a mão diante das retinas nebulosas.
― Âh? Ah, é você, padrinho?!
― Não me diga que passou a noite aos gambozinos.
― Oh! O padrinho também tem cada uma! ― exclamou atormentado, estendendo-lhe a missiva da esposa.
― Para quem é?
― Para a Dina, oh desculpe, para a madrinha! ― rectificou confuso.
― Ah, é do jornal! ― confirmou o arquitecto jovial. ― Dina, tem aqui uma carta do Diário!!!
― Que será, padrinho?
― Não sei, mas ela...
― De quem é, Félix? ― perguntou a jornalista ofegante, segurando a missiva que o marido lhe estendia, serenamente perante o afilhado nervoso.
Mudos, esperaram que ela a abrisse e lhes revelasse o teor.
― Então, madrinha?! ― perguntou o moço, impaciente e nervoso.
― O meu director diz que apreciou muito a minha última crónica e que os leitores lhe têm escrito a reclamar porque não têm notícias...
― É que jornalista como a sua madrinha...
― E quando ele lhe vir este visual.
― Não seja malicioso, menino!
― A madrinha vai substituir aquela foto de estudante meio totoca por outra com este novo look ou não?
― Porquê? O Rui acha que a foto também influencia a apreciação...
― Claro! Eu, por exemplo, compro muitos livros e revistas só pela capa. Agora, com esse charme todo, é que choverão cartas dos leitores, claro!
― É verdade, Dina! O Rui tem razão. Nunca lhe aconteceu deixar-se levar mais pela embalagem do que pelo conteúdo? ― perguntou o marido.
― Para quem são esses olhos encantados, Félix? Para mim ou para ele?
― Mas que pergunta, Dina! Para você, claro. O Rui bem sabe que...
― Félix! ― interferiu Dina, apostrofando o marido.
― Por acaso, disse alguma mentira?
― Claro que não, padrinho! A Dina bem sabe que tem muita classe, mas é muito modesta ― assegurou o afilhado, entregando-lhe as cartas.
― Vocês saíram-me cá uns galanteadores! ― ironizou a jornalista.
― A carta diz mais alguma coisa, diz? ― perguntou o marido cabisbaixo.
― O meu director pede-me para entrar urgentemente em contacto com ele.
― Então por que espera? Vá, ligue-lhe já!
― Assim tão depressa, Félix?!
― Quanto mais depressa melhor.
― Já que insiste ― disse resignada, dirigindo-se para junto do telefone.
― Vamos, padrinho? ― indagou o adolescente, largando o escritório para que a madrinha telefonasse em paz.
― Deixem-se estar que eu não tenho segredos ― arguiu a Dina, interpelando o marido e o afilhado que se encaminhavam para a saída.
Obedecendo, eles pararam e aguardaram silenciosamente que ela estabelecesse o diálogo com o director. Depois de um breve compasso de espera, exigido pela recepcionista do Diário, a jornalista ouviu o seu interlocutor saudá-la e pedir-lhe que antecipasse o regresso ao trabalho e encurtasse as férias.

Depois de consultar o marido, ela aceitou, mas com a condição de poder gozar ainda no mês de Agosto os dias que lhe restavam. Irritado, o moço desapareceu a meio da conversa, sem disfarçar a tristeza que sentia. Da janela, a jornalista ainda o viu atravessar a estrada e correr para o mar. Fingindo-se absorvido no cavalete, o arquitecto pediu à esposa que lhe chamasse o afilhado. Dina, que vira a reacção dele, partiu inquieta à sua procura. Subindo ao primeiro andar, para ver melhor, tentou descortiná-lo nas imediações da praia, mas, por mais que perscrutasse, o seu olhar não obteve o sossego que tanto procurava e ofereceu-se para acabar de executar a tarefa do irreverente, porém o marido não aceitou.

Apaziguado, o fugitivo só deu sinais de vida na hora do almoço. Cruzando a jornalista no corredor, ele apostrofou-a com um olhar ciumento e, tal cordeirinho pascal, foi executar discretamente o trabalho, dizendo ao padrinho que aquela saída intempestiva se devia a uma indisposição repentina que só o mar sabia curar. À mesa, o silêncio dizia tudo. Perspicaz, Rui procurava, contudo, disfarçar a tristeza que sentia na alma com uns sorrisos ingénuos. Enquanto comia a sobremesa, pediu licença aos padrinhos para telefonar. Obtido o consentimento, ele pegou no pêssego e retirou-se, mastigando-o.
Como o menino demorasse muito, Dina foi procurá-lo, largando o marido de cachimbo nos beiços a contemplar o mar. Afinal, o telefone estava sozinho. Frustrada, ainda pensou ir puxar-lhe as orelhas ao quarto, mas, para não lhe cortar o sono da sesta e o aborrecer, para o resto do dia, ou das férias, sabia-se lá, desistiu e refugiou-se no escritório. Atarefada, encerrou-se e começou a preparar o retorno ao Diário.
Às quatro da tarde, o marido bateu-lhe à porta e convidou-a para um passeio até ao local da implantação do projecto de Alcabideche, mas ela desculpou-se, sugerindo-lhe que levasse o afilhado com ele para ficar mais tranquila, pois naqueles dias sentia-o cada vez mais distante. Por fim, depois de chamar em vão pelo caprichoso, o arquitecto lá partiu sozinho, avisando a esposa da ausência do menino.

Mal deixou de ouvir o barulho do motor da viatura, Dina largou a caneta e desatou à procura do adorável irreverente. Depois de revistar os quatro cantos da casa e do jardim, como o não visse, trancou-se novamente no escritório. Solitária, Dina colou os lábios vermelhos e as retinas langorosas na vidraça, tentando mistificar o olhar vazio no horizonte nublado. E a libido, aquecida pelas imagens da infidelidade no banco traseiro do Mercedes, ressuscitou-lhe a volúpia, incandescendo-lhe as zonas erógenas. Sufocando os sussurros tumescentes no vidro frio, ela friccionou-se lentamente entre as pernas. Dando uma segunda volta ao trinco, assentou-se no sofá e masturbou-se violentamente. Exausta, adormeceu a cochichar palavras de amor para o seu poeta. Elevada no sono, foi atormentada por um estrondo na porta e, erguendo-se cambaleante, indagou sonolenta:
― Quem é?
― Sou eu ― respondeu o marido, forçando a mãozeira.
― Demorou pouco, Félix ― estranhou ela, espreguiçando-se e bocejando.
― Pouco, Dina?! ― retorquiu espantado, consultando o Ómega.
― Mostra ― volveu aérea, consultando-lhe o relógio de pulso.
― Isso mesmo. Já são sete horas, Dina!
― Mas como o tempo passa! ― exclamou a jornalista, penteando-se com os dedos e ajeitando o vestido amarrotado.
― Afinal viste-o?
― Não, Félix, ainda não saí daqui.
― Telefona à Susana e pergunta-lhe se ele foi para lá ― insistiu inquieto.
― Calma, Félix. Ele deve estar a chegar ― respondeu-lhe ela, retirando-se descalça e desguedelhada.

Enquanto a esposa se lavou, penteou e mudou de roupa, o Dr. Félix, estendendo os planos na mesa, fez-lhes os retoques que anotara na agenda. Entretanto, Dina surgiu sedutora, exalando um perfume asfixiante. Colando-se ao marido, ela beijou-o demoradamente na boca, apesar do cheiro repugnante da nicotina. E foi assim, coladinhos, que, de volta, o adolescente os surpreendeu. Recuando em pezinhos de lã, como viera, ele retirou-se para o seu quarto e, desesperado, cerrou as pálpebras. E, depois de muito forçar e clamar pelo sono para o aliviar da decepção, ele acabou por adormecer de tronco nu. Antes do jantar, Dina descobriu-o, por acaso, alagado em suor e a balbuciar incoerências, monologando em alta voz. Presenciando-lhe os trejeitos incônscios, ela comoveu-se e, temendo ser traída pelos sentimentos adúlteros, voltou para junto do marido, tranquilizando-o.

Depois do jantar, o casal fez a digestão no terraço, admirando o céu estrelado e escutando o ténue marejar da maré-baixa. A escuridão era diluída por uma lâmpada amarela que o adolescente substituíra na véspera.
Antes de adormecer, Félix e Dina meteram os pés do dorminhoco na cama e cobriram-lhe o tronco, não fosse ele, suado como estava, apanhar um resfriado durante a noite, quando a temperatura descesse. Depois, tentaram cumprir a obrigação matrimonial, mas os seus espíritos subjugados viajavam por outras galáxias e a libido nem chegou a esquentar a nudez perfumada da vénus. E foi friamente que o sono, de tanto se fazer rogado, os acorrentou por umas horas. Descontrolado, o adolescente acordou de madrugada para urinar e não recuperou mais o sono. Depois de tornear e amarrotar os lençóis, ele acendeu o candeeiro e engendrou Você e Eu, em prosa poética. Deitado de barriga a escutar a voz da musa sussurrante, escreveu eufórico:


Apesar de a desenhar exoticamente erótica, escandalosamente pura e sentimentalmente dura, você é concretamente aérea, deliciosamente sedutora e, fatalmente, a automotora deste metabolismo amoroso que perpassa pelas pálpebras incolores de um sorriso vagamente indecoroso...
Quantas vezes balbucio inconscientemente a nossa identidade! Afinal, quem somos? Não sei. Não sabemos. Ninguém! Mas porque havemos de nos mortificar com o que alguém possa pensar e dizer de nós? Porque não vivemos nós, sós, com esta paixão tão inefável e tão feroz que não nos deixa consumar plenamente a felicidade? 
Ó Fatalidade, ó moralidade, ó destino cruel e louco, porque é que teimais em roubar-me o pouco que tenho? Deixai-me viver em paz esta paixão, que eu sei fugaz, talvez falaciosamente eterna, mas tanto me apraz!
Por favor, deixai que este amor cresça, viva e desapareça, se preciso for aqui, agora, quando for chegada a sua hora, mas deixai, o meu coração humildemente, vo-lo implora, deixai! 

Sim, você e eu, apenas um poema que rima à dor, um dilema pleno de terror que fere e mata este amor quase impossível que me cola a você, mulher, e a esse indescritível sabor do suor desse teu corpo a morrer eternamente de dor.
Sim, se o destino me fizer perder-te, mulher, morrer será melhor que viver, por favor...



continua em: Quarta, 1 de Agosto ( 16º DIA )

Caprichos do Amor / Lmp, luxemburgo - 1996 / Lud MacMartinson

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